Conte Sua História de São Paulo: o dia em que o time da Vila Maria venceu o Desafio ao Galo

Jair Rosa da Silva

Ouvinte da CBN

Foto de Kafeel Ahmed no Pexels

Nasci no hospital Cristo Rei, lá pelas bandas do Parque Dom  Pedro II. Meus pais,  oriundos do agreste nordestino baiano, de um vilarejo de nome Manda Saia, moravam na Vila Maria. Bairro de baianos, pernambucanos, cearenses, alagoanos e de imensa colônia portuguesa.

Havia dois cinemas – salvo engano, Cine Vila Maria e Candelária. Foi no Candelária que tive a primeira emoção de ver uma tela gigante e imagem colorida. Era matinê com sessão dupla: “A Quadrilha do Karatê” e “Roberto Carlos e O Diamante Cor de Rosa”. Eu tinha oito anos. Na Vila Maria Alta tinha um zoológico, o do Agenor. Devo ter ido umas duas vezes lá, em passeios em família. Havia ainda muitos campos de futebol. 

Cresci vendo algumas dessas peladas e jogando bola em gramados que contornavam a ponte da Vila Maria. Eram tão próximos do Rio Tietê que, certa vez, um jogador deu uma bicuda na bola de capotão nº 5 que caiu no rio. Um dos jogadores saiu correndo, mergulhou, nadou e conseguiu recuperar a preciosidade. Foi aplaudido e ovacionado pelos dois times.

Cheguei a jogar no dente de leite do Flamengo de Vila Maria, treinado pelo Zé Negra. No fim de cada jogo, confraternizávamos tomando Guaraná em uma garrafa chamada caçulinha. Um requinte, pois refrigerante só tinha em casa em domingos que recebíamos a visita de parentes.

Lembro que só tinha um par de sapatos para ir à escola. Em época de chuva, quando aparecia um buraco na sola, a meia era sugada para debaixo do sapato. Minha mãe revestia, carinhosamente, o interior com um pedaço bem recortado de papelão para continuar usando até que o pagamento de meu pai chegasse para comprar um outro. 

Um dos dias aguardados era o domingo. Eu morava no início da Guilherme Cotching e bastava atravessar a ponte a pé para chegar no campo União dos Operários e assistir ao Desafio ao Galo. Havia um time, o Parque da Mooca, praticamente invencível e na minha cabeça de garoto, ele nunca perderia para ninguém. Num domingo, estava assistindo ao jogo na TV em preto e branco, com plástico colorido em azul, rosa e verde, e um dos times do nosso bairro – acho que é Frum – quebrou a invencibilidade do time da zona leste. Corri ao restaurante do Seu Ary, um senhor negro, forte, que tinha sido árbitro de futebol. Anunciei aos gritos a boa nova. 

– Você tá brincando comigo, seu moleque?

– Não, seu Ary, é verdade. Escute os fogos.

Ele deu a volta no balcão foi para a frente do bar e viu uns rapazes correndo em direção à ponte, que confirmaram a vitória. De tão contente, dispensou os fregueses, pegou seu DKV, e, comigo abordo, fomos para o campo que estava uma festa só. Foi o dia em que o time da Vila Maria venceu no Desafio ao Galo.

Jair Rosa da Silva Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Participe dos festejos de 468 anos da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br com o tema “em cantos de São Paulo”. E ouça seu texto em uma ediçao especial do Conte Sua História de São Paulo

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