Há 20 anos, o Conte Sua História e os ouvintes da CBN ajudam a preservar a memória de São Paulo

No estúdio de podcast da CBN gravando o Conte Sua História de SP

O Conte Sua História de São Paulo completa 20 anos neste mês de janeiro. O projeto nasceu quando a CBN preparava uma programação especial pelos 452 anos de fundação da cidade, em 2006 — à época, sob sugestão da diretora de jornalismo Mariza Tavares. Eu apresentava o CBN São Paulo, programa que ajudou a moldar minha identidade como âncora de rádio e que se tornou o berço natural dessa ideia.

A proposta inicial era simples: selecionar textos enviados pelos ouvintes para serem lidos no ar durante as duas semanas que antecediam o aniversário da cidade. A resposta foi tão intensa e surpreendente que decidimos manter o quadro depois das comemorações. Nas primeiras edições, tudo era feito ao vivo — leitura e sonorização —, o que exigia habilidade extra do colega Paschoal Júnior no estúdio, sempre atento aos detalhes que davam vida às histórias.

Com o passar do tempo, adotamos a gravação antecipada das narrativas para depois colocá-las no ar. Foi nesse momento que o maestro Claudio Antonio entrou para o projeto, responsável pela construção musical que acompanha cada texto. Ele segue ao meu lado até hoje. O Conte Sua História é exibido atualmente aos sábados, no CBN São Paulo. Ainda em seu primeiro ano, ganhou forma de livro: 110 histórias de ouvintes reunidas pela Editora Globo.

A cada janeiro, propomos um tema especial para inspirar os ouvintes a escrever. Em 2026, o convite foi para que compartilhassem lembranças e experiências ligadas ao trabalho — afinal, São Paulo é constantemente identificada como a cidade das oportunidades e das jornadas que moldam trajetórias.

A caixa de e-mails rapidamente revelou uma riqueza de memórias. Profissões que desapareceram, modos de trabalhar que já não existem, situações inesperadas, cenas que dizem muito sobre o tempo em que foram vividas. Histórias que valorizam profissionais, colegas, empresas e atividades diversas. 

Assim como acontece desde a primeira edição, cada texto me exige presença total: procuro incorporar o personagem, traduzir na voz a intenção de cada palavra e captar o espírito que move o autor a dividir aquele momento. Talvez seja isso que explica o gestual e a expressão flagrados na foto registrada por Priscila Gubiotti, técnica de áudio e vídeo da CBN, que compartilho com vocês.

Onze textos foram selecionados para estas duas semanas. Todos os demais estão organizados nos meus arquivos e irão ao ar nas próximas edições de sábado do CBN SP. Se ao ouvir uma dessas lembranças você sentir vontade de revisitar sua relação com a cidade, escreva. A história de São Paulo só existe porque alguém a viveu — e a contou.

Para participar, envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: os cortiços da Vila Carioca receberam as famílias da usina de cana


Fábio J. Orenhas

Ouvinte da CBN

Esquina da Vila Carioca Foto: Google Street View

São Paulo, década de 1940. Primeiro vieram os Carinalli, que saíram de uma pequena cidade do interior, Cosmópolis, para tentar a sorte em São Paulo. Eram moradores de colônias construídas na fazenda para abrigar os trabalhadores da Usina Ester, produtora de açúcar e álcool. Depois vieram os Baron, Rosa, Tejeda. Todos atraídos pela força da cidade grande.

O local escolhido não por consenso, mas por decisão do primeiro que chegou: Ipiranga, Vila Carioca. Moravam em um espaço de dois ou três quarteirões, tendo como centro a Rua Lício de Miranda. Viviam em cortiços ou em casas, próximos uns dos outros. Formavam a comunidade da Usina Ester, em São Paulo.

Minha mãe que herdou o nome da usina de açúcar, Dona Esther,  chegou no fim dos anos 1940. Da família Todero, viúva, veio com a filha mais velha, morar no mesmo quarteirão dos Rosa, do marido falecido. Conheceu meu pai, que era de Birigui. Foi aí que nasci, e passei a morar na comunidade da Usina Ester.

Lembro dos casamentos, muitos entre famílias que vieram da Usina.  Eu mesmo casei com minha esposa, também de Cosmópolis, e continuei morando na Vila Carioca. Quando vinha alguém lá da usina ou da cidade natal era uma festa — oportunidade de lembrar as histórias de antigamente. 

Estas comunidades duraram até os anos 1990. Perderam-se, substituída pelos barracões e pelo crescimento da cidade. Os cortiços já não estão mais lá, a comunidade se espalhou por outros lugares — eu estou morando em Paulínia, pertinho de Cosmópolis. As ruas Licio de Miranda, Albino de Moraes, Brás de Pina e Colorado resistem bravamente, assim como o calçamento de paralelepípedo e um solitário portão de uma das antigas casas. 

Sobraram saudades que tentamos passar para as novas gerações; lembranças deste tempo que se foi na garoa e na neblina de São Paulo. O progresso levou embora as colônias da Usina Ester. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Fábio J. Orenhas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: comecei minha carreira como arquivista

Suzana de Lourdes Silva

Ouvinte da CBN

Década de 1970. Ano de 1974 para ser mais precisa.

Meu primeiro emprego: arquivista. Foi na fábrica de violões Tranquillo Giannini — luthier italiano que imigrou para o Brasil no início do século XX. Ficava na rua Carlos Weber, na Vila Leopoldina, muito diferente de hoje com seus restaurantes badalados, cafés e prédios de alto padrão. De arquivista a supervisora de contas a pagar, passei por todas as etapas de evolução.

Lembro  de uma colega, Joana. Um arraso na datilografia. Ficávamos todos babando com a rapidez dela, movendo os dedos nos teclados e a haste de metal que trocava de linha. Na época não havia a expressão “agora a NASA vem”, mas certamente alguém teria dito, pois achávamos que a máquina levantaria voo a qualquer momento.

Os borderôs acompanhavam as faturas direto para o banco, uma papelada do caramba, levada por algum motoboy. Ops, office-boy — na época a expressão motoboy sequer existia. Também tínhamos a máquina de telex – uma esfinge que nos convidava a entender como aquela fita perfurada se transformava em mensagem em algum lugar do planeta.

Ah! E os salários pagos aos funcionários? Isso era um evento à parte. No dia do pagamento, alguns se trancavam na sala da diretoria, contavam as cédulas e moedas e, de posse dos envelopes, depositavam, lacravam e nos entregavam ao fim do dia. E, não, ninguém ficava pelado como se espalhava na época dizendo ser o único jeito de não haver desvio na contagem.

Outra que nos chamava atenção era a telefonista. Uma espécie de  DJ, comandando uma caixa com inúmeros pinos de variadas cores, conectando a ligação externa com o ramal desejado. Mais um enigma, pois não atinávamos como tudo funcionava.

Aposentei-me aos 46 anos porque na época as mulheres precisavam contribuir por apenas 30 anos. Mas nunca parei. Hoje, aos 65, sou gestora financeira de uma agência de comunicação. E posso dizer que passei e estou passando por todas as melhorias ocorridas desde à época da datilografia e da maquina do telex.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Suzana de Lourdes Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 272 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: nos Correios, trabalhei com telegrama fonado

Giuseppe Nardelli

Ouvinte da CBN

Unidade do Telex em Ponta Grossa, no Paraná. Museu Nacional dos Correios

Aos 19 anos, eu precisava arrumar um emprego para ter minha independência financeira. Eu já queria alçar voos mais altos e morar sozinho. Ao passar pelo centro da cidade, vi uma placa no prédio dos Correios: “Precisa-se de funcionário para fonegramia, mesmo sem experiência”

Criei coragem. Falei com a recepcionista sobre a vaga e logo ela me levou ao primeiro andar do prédio. Era uma sala gigantesca com vários terminais e muitas pessoas. Um barulho infernal de telex. 

O funcionário que me atendeu perguntou se eu pretendia fazer um teste e se falava outros idiomas, além do português. Disse que falava inglês e italiano fluentemente e estava disposto a fazer o teste. Ele me levou para um terminal e começou a ditar um texto em português. Eu precisava traduzi-lo para o inglês e o italiano. Estava bem nervoso, mas respirei fundo e cumpri a árdua tarefa. Encerrado o teste, esperei meia hora até o funcionário retornar e dizer que eu estava contratado. 

O serviço era atender os telefonemas de clientes que queriam enviar um telegrama  fonado.  Naquela época só nos Correios existiam telex. Era a única forma de mandar telegramas para dentro e fora do país. Passei uma semana em treinamento com outras pessoas que também foram aprovadas no teste. Fiz muitas amizades e sem sem perceber o tempo passar, ganhei meu terminal para começar a atender os telefonemas. 

Foi muito bom aprender a mexer com telex. A máquina imprimia fitas amarelas perfuradas que depois iam para central de transmissão. Foi uma primeira experiência de trabalho fascinante, levando em conta que o “telegrama fonado” era o meio de comunicação mais moderno da época — uma profissão que acabou com a chegada do fax.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Giuseppe Nardelli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 272 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: um chorinho que expressa o amor pela cidade

Anita Costa Prado

Ouvinte da CBN

Foto: arquivo CBN SP no Flickr

São Paulo era minha musa de concreto: poesias, contos e letras de música, enchiam as páginas dos meus cadernos. O amor pela metrópole estava em cada palavra, mesmo quando a abordagem tinha conteúdo crítico. 

Na década de 1990 haviam os mesmos problemas de hoje — trânsito intenso, poluição, … — mas sendo paulistana apaixonada,  sempre relevei os defeitos da cidade que aprendi a amar desde pequena, ouvindo minha mãe dizer: “Saí do interior da Bahia para nunca mais voltar. Adoro esta cidade que me deu trabalho, casa e estabilidade”

Ao compor a letra de um chorinho, eu necessitava de alguém para musicá-la.  Na época pré-virtual, a opção foi colocar anúncio em um jornal. Um compositor entrou em contato comigo e marcamos um encontro na região da Praça Roosevelt. Ele e seu violão levaram poucos minutos para transformar a letra em um belo chorinho. Mas nada ficou registrado ou gravado. O tempo passou, acabamos perdendo o contato e o choro se transformou em lembrança. A letra foi publicada em impressos variados e, hoje, compartilhada com os ouvintes da CBN:

Cinza Agonia

Corta min’alma lhe ver

deixar a calma se perder

por entre carros apressados,

prédios frios, 

corações dilacerados.

Ardem meus olhos em seu centro,

talvez pela fumaça ou tormento

que dão vontade de chorar 

e bem alto gritar 

pois estão lhe transformando

dia a dia,

pintando o seu corpo de cinza agonia

e progredir até parece algo sem valia

Se por isso perde-se a poesia.

Corta minh’alma lhe ver…

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Anita Costa Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo.  A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: São Silvestre, a corrida que transforma a cidade

Beth Andalaft

Ouvinte da CBN

Foto de RUN 4 FFWPU

31 de dezembro de 2024.  Avenida Paulista. Oito horas e cinco minutos. Pela décima sétima vez, ao som de Chariots of Fire (Carruagens de Fogo), estou na largada da corrida de São Silvestre. Pela décima sétima vez terei a oportunidade de correr nas principais ruas de São Paulo, livre da agitação cotidiana, das buzinas dos carros avançando sinais, dos gritos de camelôs, do atropelo dos apressados pedestres.

As passadas são de milhares de corredores amadores que percorrem as ruas paulistanas, fantasiados ou não, ocupando-as de maneira inimaginável em dias normais, aqueles dias em que a cidade é uma máquina a pleno vapor.

Paulistana raiz, moradora do Tatuapé, na zona leste, sempre cruzei a cidade de ônibus, metrô ou a pé, a caminho do estudo e do trabalho. Mas só quando comecei a participar de corridas de rua, consegui uma visão geral de São Paulo. Livre de carros, ônibus e caminhões. Ruas inteiras à minha disposição. Uma maravilha, com o ápice na São Silvestre. 

Agora, é preciso  reconhecer que a cidade generosa me permite correr em treinos por alguns trechos do meu bairro. Uma praça com frondosas árvores frutíferas torna-se uma pista de corrida. O que comprova que São Paulo consegue ser múltipla e, mesmo com seus problemas, abriga a todos.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Beth Andalaft é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Vamos comemorar juntos mais um aniversário da nossa cidade.  Escreva seu texto é envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a São Silvestre que me abriu caminho para as maratonas

Jose Tadeu Guglielmi 

Ouvinte da CBN

Corrida em 2016 (divulgação)

A São Silvestre, essa tradicional prova de rua realizada no último dia do ano, faz parte da história de São Paulo e da minha, também.

Minha paixão pelas corridas vem desde 1995, ano em que completei minha primeira São Silvestre. 

Porém, recordo da prova desde os tempos de criança: ano após ano, minha mãe fazia uma referência, ao ver a corrida pela televisão, sobre a vontade de meu pai de um dia participar da São Silvestre. Desejo não realizado, porque ele faleceu no dia 11 de fevereiro de 1973, quando eu tinha oito anos. Tomei seu desejo então como minha herança.

Desde aquela época participo da prova quase todas as edições. São 26 participações na São Silvestre desde 1995. 24 consecutivas.

Fazer esta prova é um privilegio. Maneira perfeita de encerrar um ano corrido. 

A cidade de Sao Paulo que simboliza trabalho nesta data se transforma em um ambiente descontraído. Os corredores largam na Avenida Paulista e percorrem o centro da cidade com seus prédios históricos. A famosa esquina Ipiranga com a São João. O desafio de encarar a Brigadeiro Luis Antonio. A alegria de cruzar a linha de chegada praticamente no mesmo ponto de partida.

E não parei por ai. 

Os sonhos se renovam e graças a São Silvestre iniciei-me nas maratonas, em 2003. Tornei-me o primeiro brasileiro e sul-americano a completar maratonas nos sete continentes, em 2009, com a participação na maratona da Antarctica. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

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Conte Sua História de São Paulo: namorei a Mooca através dos namorados que tive

Adriana Yamamoto Christofolete

Ouvinte da CBN

FOTO: Viva Mooca (Reprodução)

Ouça aqui o texto completo, sonorizado por Cláudio Antonio e com narração de Mílton Jung

Contar a minha história em São Paulo confunde-se com a minha relação com a Mooca. Amor de longa data. 

Namorei a Mooca através dos namorados que tive. Um descendente de italiano, que não morava no bairro, mas falava com as mãos e comia macarronada no almoço de domingo, na casa da nona, perto da Praça Silvio Romero. Toda vez que visitávamos a avó, ao passar pela Radial Leste, dizia que o sonho dele era mudar-se para a Mooca. 

O namoro com esse rapaz se foi. De herança restou o gosto pelas casas de porta na calçada e vizinhança amigável.

Outro namorado da época da faculdade morava no Tatuapé, mas não curtia essa vida bairrista. Coincidência ou não, o namoro durou nadinha. 

Como já contei em outro capítulo do “Conte Sua História de São Paulo” casei-me com um mooquense, descendente de italianos. E, enfim, mudei para o bairro. Na Mooca criei filhos, trabalhei, fiz muitos amigos nascidos ali ou que se tornaram mooquenses por convicção — como um que conheço desde a faculdade que era de Itaquera e fez da Mooca seu lar com esposa e filho.

Como toda paixão, tive desilusões. Uns novos ricos invadiram parte do bairro e eu me fugi para o Tatuapé com medo de não ter vez no mercadinho da esquina, por não ser reconhecida pelo atendente da padaria, por me incomodar com os novos vizinhos.

Porém não consegui rir das mesmas piadas, mesmo sendo acolhida pelos vizinhos do novo bairro. E assim, jamais me desconectei da Mooca. E me mantive nos grupos de ciclistas e de caminhada, como o Pedal da Mooca, criado no início dos anos 2.000, e o Rapadura da Mooca, que promove acolhimento humano e socialização e surgiu juntamente com a Associação Mooca Solidária.

Ouça aqui o texto completo, sonorizado por Cláudio Antonio e com narração de Mílton Jung

Adriana Yamamoto Christofolete é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: … mas é a minha cidade!

Por Osvaldo Martinez D Andrade

Ouvinte da CBN

Maltratada, cinzenta, com as marquises dos prédios no calçadão do Centro Velho, forradas por papelões, trapos, cobertores e ocupadas por moradores de rua, como único refúgio para se protegerem da chuva, frio, mas é a minha cidade.

Uma cidade que acolhe sonhos ao mesmo tempo que oferece pesadelos, mas é a minha cidade.

Uma cidade que tem um viaduto que não tem chá, mas tem batedores de carteira e de celular e uma rua direita que não é direita, mas é a minha cidade.

Uma cidade que tem a Sé que não é de sede, mas de igreja com sua catedral gótica e bizantina e suas palmeiras imperiais, que chorou pelas diretas já em 1984 e aplaudiu a fuga dos fascistas na revoada dos galinhas verdes, em 1934, mas é a minha cidade.

Uma cidade que prende mais negros do que brancos, mais pobres do que ricos, mais mulheres do que homens, mas é a minha cidade.

Uma cidade que assiste com espanto à terceirização da saúde e educação, numa tabelinha perfeita com o estado incompetente, que aparecem em letras garrafais nas manchetes dos jornais pendurados nos varais das bancas, e na ida para o trabalho dos que ainda têm emprego, diminuem os passos e param para dar uma espiadinha, mas é a minha cidade.

Uma cidade com 6% de desempregados, que assiste ao prefeito e aos nobres vereadores aumentarem a contribuição dos aposentados e não se envergonham de aumentarem ainda mais seus salários, mas é a minha cidade.

Uma cidade que assiste do sofá a um policial jogar um motoqueiro rio abaixo e a polícia em trajes de guerra jogar bombas e mais bombas, distribuir cassetetes e gás de pimenta em homens, mulheres e crianças, que ousam ter o sonho do barraco próprio, serem retirados à força em um dia chuvoso e sem saberem para onde ir, são empurrados para a rua, e quem se opõe e luta contra essa barbaridade são presos, enquanto os ladrões engravatados continuam sorrindo e morando muito bem, mas é a minha cidade.

Uma cidade onde 6 homens têm a mesma riqueza que 100 milhões de brasileiros juntos, mas é a minha cidade.

Uma cidade que tinha o Bar das Putas que não tem mais putas que consola, mas que fica na Consolação, que mudou para Sujinho e não sei mais o nome que se dá e tem o bar Brahma na São João com a Ipiranga, que nos oferece o chopp Brahma, mas é a minha cidade.

Uma cidade que tem o minhocão do Maluf que mudou de nome, mas precisa ser demolido, e que tem pancadão, funk, pagode, sertanejo que agora é universitário, blues e muito Rock and roll, samba e a campeoníssima Rosas de Ouro, meu tricolor do Morumbi, mas é a minha cidade.

Uma cidade que tem a República da Moóca, berço da luta sindical e popular, da  jornada de trabalho de 8 horas, do fim do trabalho infantil, de salário, saúde, educação e moradia digna para todos, da primeira greve geral no Brasil, do presídio Maria Zélia, o presídio político na época de Getúlio Vargas, a Hospedaria dos Imigrantes que recebeu meu Pai e meus Avós que embarcaram num navio em Portugal, atracaram em Santos, subiram a Serra e ali se alojaram, antes de seguirem para São José do Rio Preto (SP), e tem o Juventus vendido para uma SAF – Sociedade Anônima do Futebol, mas é a Minha Cidade.

Essa é  a cidade que me acolheu quando aqui cheguei recém-formado em 1982, para estudar, trabalhar, morar, ter filhos, viver, continuar sonhando, amando e sendo amado, até a vida me levar.

É a minha cidade, a minha São Paulo de 471 anos, a cidade que era da garoa e não tem mais e agora tem tempestades e inundações e um dia espero, seus espaços públicos sejam ocupados pelos que aqui moram, vivem, sonham e trabalham.

É a minha cidade, a melhor, a maior, a capital cultural da América Latina, que tem de tudo e esperamos que um dia seja de todos.

Meus sonhos irão comigo, até meu calendário acabar. Mas sonhos não morrem e vou continuar sonhando trabalhando e me indignando com as injustiças sociais.

Certamente outros haverão de continuar a luta por uma São Paulo igual para todos.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Osvaldo Martinez D Andrade é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: com poesia defendo a cidade que escolhi viver

Laurete Godoy

Ouvinte da CBN

Nevoa, poluição e horizonte em São Paulo  (Foto Petria Chaves)
Foto: Petria Chaves/Flickr CBN SP

 

Excelente ideia! Adorei isso de poder contar uma pequena história sobre São Paulo!  Além da minha história eu quero apresentar também para você uma homenagem rimada que eu fiz mas não sei se ela vai corresponder ao que você deseja.

(leia e ouça a poesia na voz da autora no pé deste post)

Sou santista e, assim que eu obtive o diploma de  professora primária, vim para São Paulo em 1958, para estudar educação física na USP.  Fui aprovada,  comecei o curso, na época ele funcionava no Ginásio do Ibirapuera e eu desisti depois de 2 meses, mas como eu sempre fui atleta  lá em Santos, passei a competir em Atletismo pelo Club Atlético Paulistano.

Como eu já era funcionária da Secretaria da Segurança Pública, eu pedi transferência para a antiga DST, que era  Diretoria de Serviço de Trânsito e funcionava ali no Ibirapuera,  perto do ginásio onde eu tinha aula.

Bom, eu saía do serviço às 18 horas, tomava o ônibus Bola Branca, descia na Avenida Nove de Julho e, pela Rua Estados Unidos chegava ao Paulistano, para treinar até às 21 horas. Depois do treino tomava banho, comia alguma coisa e findo o treino pegava o ônibus elétrico  ali na Rua Augusta, que era super famosa, e descia no ponto final, lá na Praça da República, atrás do Colégio Caetano de Campos.

Aí já eram mais ou  menos quase dez horas da noite! Atravessava toda a praça para, do outro lado, tomar o ônibus que vinha da Praça Ramos de Azevedo e ia para a Lapa, porque eu morava na Água Branca, ali na Rua Crasso, perto da Praça Cornélia. 

Ah, Milton! Que tempinho bom aquele! A gente podia atravessar a praça sem nenhum receio. O perigo eram os playboys da Rua Augusta.

E assim foi passando o meu tempo: trabalhando, treinando, correndo, participando de torneios atléticos. Depois que eu “pendurei  as sapatilhas de prego”, eu comecei a pensar sério na vida. Participei de concursos públicos, fui aprovada e acabei permanecendo por São Paulo. 

Aqui eu estou há 65 anos…

Mas por que minha homenagem rimada?

Há alguns anos, uma conhecida que veio do Interior do estado e foi muito bem sucedida por aqui, passou a falar mal da cidade, para justificar a mudança de residência que ela queria fazer para o Rio de Janeiro . Fiquei tão triste com a ingratidão dela, que fiz umas rimas enaltecendo a minha admiração por esta cidade. 

São essas rimas que eu compartilho com você, com alegria,  e formulando votos de continuidade de sucesso para a sua carreira e a de todos os excelentes jornalistas e todas as pessoas que trabalham na CBN, minha companheira de dia e noite, minha companheira querida, a CBN. Um grande abraço a você! Parabéns, viu, por esse programa e para todos que colaboraram e também contaram suas histórias.

 A poesia de Laurete Godoy

Parabéns, senhora.

 

 

            Neste seu aniversário,

            Venho aqui, bela senhora,

            Trazer os meus cumprimentos

            Falar da alegria imensa

            Que invade o coração

            E toma conta do peito

            Misturando com carinho

            Respeito e admiração.

 

 

                                    Respeito por sua força,

                                    Pelo trabalho incessante

                                    Que ao longo da jornada

                                    Foi a    marca registrada

 

 

            Senhora braços abertos

            Qual enormes avenidas

            Recebendo e acolhendo

            Toda essa gente sofrida

            Velhos, jovens ou crianças

            Olhos cheios de esperança

            Mãos postas em devoção,

            Pedindo trabalho e pão.

 

 

                                    Senhora nome de santo,

                                    Senhora das mil etnias

                                    Senhora das mil alegrias

                                    Dos aeroportos e parques

                                    Sempre repletos de gente, 

                                    Nas tardes ensolaradas

                                    Senhora hospitaleira, 

                                    Onde a fraternidade

                                    Construiu sua morada.

 

 

            Venho aqui, velha senhora,

            Minha São Paulo querida,

            Terra da minha adoção.

            Falar deste bem-querer,

            Expressar a gratidão

            E rogar a Deus que a mantenha

            Digna, altiva, honrada

            No incessante labor,

            Solucionando problemas

            Criados por sua grandeza

            E que também fazem parte

            Da sua rotina e beleza.

 

                        Continue sempre assim,

                        Pulsando com energia

                        Força e determinação,

                        Produzindo a bendita seiva

                        Que alimenta esta Nação.

 

                                                Senhora nome de santo

                                                São Paulo mil etnias

                                                São Paulo mil alegrias

                                                Minha São Paulo querida

                                                Minha São Paulo bendita

                                                Terra da minha adoção

                                                Que me dá trabalho e pão …

                                           

Laurete Godoy é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, vá no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

A poesia de Laurete Godoy