Conte Sua História de São Paulo: o spaghetti alle vongole do Giordano

Luiz Antonio Rolim de Camargo

Ouvinte da CBN

Foto de Nadin Sh on Pexels.com

Nos anos 1930, meu avô materno, Luiz Vellego, montou o restaurante Giordano, um endereço de sucesso na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, que já despontava como um importante eixo urbano de São Paulo.

A história do Giordano começou muito antes de sua inauguração. Nos corredores do Mercado Municipal, meu bisavô Raphael, um jornaleiro italiano, fez amizade com um cliente ilustre de sua banca, de sobrenome Matarazzo. Reza a lenda que, fascinado pelos aromas das marmitas que minha bisavó Maria Giordano preparava para o marido, Matarazzo insistia para que ele abrisse um restaurante.

Raphael não levou a ideia adiante, mas seu filho, o jovem e empreendedor Luiz, arregaçou as mangas. Copiou as receitas da mãe e, por duas décadas, comandou um restaurante de referência da gastronomia italiana, cujo vasto cardápio destacava clássicos como o spaghetti alle vongole e a vera pizza napolitana.

O Giordano foi palco de almoços, banquetes e encontros de profissionais liberais, comerciantes e políticos, tornando-se um ponto estável de sociabilidade da elite italiana em São Paulo. Quase cem anos depois, nada resta do restaurante além das deliciosas histórias transmitidas oralmente pelas gerações da família.

E se não ficou uma lembrança material, o mesmo não se pode dizer da aptidão inata dos Vellegos, hoje já na quinta geração, em prepararem una buona pastaciutta. Mantivemos a tradição de servir nas ceias de Natal da família o tortelli di zucca, feito à mão, recheado com abóbora e mostarda di mele, iguaria trazida da pequena cidade da Lombardia de onde viemos — terra de bons comensais.

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Luiz Antonio Rolim de Camargo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade: envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a lista telefônica que me ensinou para onde ir

Luiz Serenini Prado

Ouvinte da CBN

Orelhão por Ednei Lopes
Orelhão em São Paulo. Foto de Ednei Lopes/Flickr CBN SP

Quem apostaria em um jornalista recém-formado, mineirinho de Poço Fundo, diante de um desafio que não caberia nem nos seus melhores sonhos? De repente, lá estava eu, em um dos espigões da antiga Faria Lima, dentro de um escritório executivo todo envidraçado da Editora Abril. Não como jornalista — que, afinal, nunca fui —, mas como o publicitário que me tornei, por essas linhas tortas com que dizem que Deus escreve certo.

Quase por acidente, eu representava um grupo empresarial de Uberlândia que, em parceria com a Abril, disputava, lá pelos idos de 1985, uma concorrência acirrada para a impressão das listas telefônicas de São Paulo. Coisa grande — literalmente. Do outro lado, nada menos que o grupo Estadão.

Munido de um slogan escrito despretensiosamente apenas para orientar minha defesa estratégica diante de um grupo de americanos da Nynex — a maior impressora de listas telefônicas de Nova York —, ouvi o tradutor repetir a minha frase em inglês:

“Now you know where to go!”

Soou perfeita. Melhor, inclusive, do que a minha versão em português: 

“Agora você sabe onde ir.”

Os americanos, smart como são, perceberam o mesmo que eu e reagiram à sua maneira: “Ohhhh!”, “Good!”, e por aí afora.

As listas não saíram. Na verdade, poucos anos depois, desapareceram de vez. Mas ficou a experiência. O batismo de fogo do publicitário — quase jornalista — em uma daquelas oportunidades que só São Paulo costuma oferecer: aquelas que a gente não planeja, mas que mudam o rumo da nossa história.

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Conte Sua História de São Paulo: fiz concurso para a Light

Francisco J. Camilo Hernandes 

Ouvinte da CBN

sao paulo downtown
À direita, o Shopping Light no Centro de São Paulo. Foto Fernando Stankuns

Era o começo dos anos 1970. Eu com 14 anos estudava pela manhã, na quarta série ginasial, no colégio Augusto Meirelles, no bairro do Imirim, na zona norte. Estava na casa do meu primo Jonas, filho da tia Joana, irmã mais nova da minha mãe Tereza. O Jonas me disse que participaria de um concurso na Light. 

Eu já havia trabalho nas férias escolares. No início de 1971, na padaria do Seu Lucas cortando pão de forma e na CID Ferreira Comissária de Despachos, como office boy.

Fiz a inscrição no concurso da Light e como eu era um bom aluno passei com facilidade. Meu primo não conseguiu e isso definiu a minha carreira profissional e a dele, também.

No fim daquele ano eu já tinha fechado as notas em todas as matérias. Então, enquanto esperava ser chamado pela Light, fui trabalhar como office-boy na Construtora e Imobiliária Lutfalla da família Maluf, na Praça da Sé. Foi lá que conheci a transferência de documento contábil através da impressão com gelatina.  

Logo que 1972 se iniciou, chegou a convocação para assumir o meu cargo de aprendiz de caixa na Light. Ganhava um salário mínimo, tinha duas horas de almoço e a alimentação era fornecida pela empresa. Na época, isso não era obrigatório: ou você comia nos restaurantes e lanchonetes ou então levava marmita de casa.

Na Light a nossa seção era a Apuração da Arrecadação. Éramos 60 meninos — não havia mulheres —, todos chefiados por três senhores na faixa dos 50 anos: senhor Esteves, Amadeu e Pereira. Cada um com uns 30 anos de empresa.

Os rapazes éramos divididos em dez grupos de quatro pessoas cada um. Cada grupo representava uma zona de 1 a 10 que eram as regiões de São Paulo. O nosso serviço era colocar as contas de luz que os bancos haviam recebido no dia anterior em ordem numérica. Após os lotes de contas terem sido organizados, aos demais 20 garotos cabia fazer a soma final, conferindo os valores enviados pelos bancos. 

Depois de três anos sai dessa seção para atuar como eletrotécnico na própria Light, pois havia me formado na escola técnica Albert Einstein no bairro da Casa Verde. A curiosidade é que quando deixei a seção estava se iniciando o sistema de leitura ótica das contas de luz.

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: de madrugada, entregava pão quente em casa

Lucio Urbano

Ouvinte da CBN

Photo by Santiago Sauceda Gonzu00e1lez on Pexels.com

Dezembro de 1972. Aos 11 anos, comecei a trabalhar como entregador de pão e leite na Vila Mariana. Naquela época, não existiam muitas padarias. As fornadas começavam a sair de madrugada e a última era por volta das sete e meia da manhã. Depois disso, só no dia seguinte.

Os entregadores eram comuns em bairros mais nobres e de classe média. Às três da madrugada, eu chegava a Padaria Cruzeiro, no Largo Ana Rosa — onde havia uma enorme cratera para a construção do metrô. Carregávamos pão e leite na Variant do meu pai. No começo, eram mais bengalas do que pãezinhos; com o tempo, isso foi se invertendo. O leite vinha em garrafas de vidro, transportadas em engradados de ferro. Depois, passou a ser vendido em sacos plásticos.

Por volta das três e meia da manhã começavam as entregas nas casas e prédios da região. Cada residência tinha uma caixa de ferro ou uma sacola de pano pendurada em local previamente combinado, onde deixávamos os produtos.

Perto das seis horas, eu retornava à padaria para a “segunda volta”: mais pão, mais leite e seguíamos até concluir o atendimento da freguesia, por volta das oito da manhã. Aí era hora de ir para casa, tomar café, fazer a lição da escola, ir ao curso de datilografia, almoçar e assistir às aulas no colégio à tarde.

Em 1980, um dos donos da padaria, o senhor Luís, conseguiu para mim uma carta de apresentação com o gerente do Banco Itaú. A ideia era tentar uma vaga, afinal eu já tinha curso de datilografia. Consegui. Fui trabalhar como escriturário em uma agência na Rua Luís Góes.

Passei por várias funções: conferente, somador e separador de documentos, operador de telex, caixa, tesoureiro. Fui crescendo e saí de lá na gerência. Trabalhei em outras agências e deixei o banco em 1991. Já havia concluído a Faculdade de Economia quando fui convidado por um cliente do banco para ser gerente financeiro em sua empresa.

Foi uma experiência marcante, que redirecionou minha carreira. Trabalhei em multinacionais na área administrativa e financeira e, nos últimos anos antes da aposentadoria, atuei no mercado corporativo na área de Recursos Humanos. Um campo que exige preparo, experiência e discernimento, afinal, a matéria-prima é complexa, desafiadora e, ao mesmo tempo, a mais gratificante e preciosa com a qual se pode trabalhar.

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: os cicerones da cidade

Vera Lucia Curtu

Ouvinte da CBN

Photo by Efrem Efre on Pexels.com

São Paulo era sempre cinza… a vida sempre acontecendo sob uma garoa fina… Os táxis eram grandes e todos pretos, de portas pesadas, daqueles carros antigos como dos filmes. Duraram pouco, para mim… fiquei menina e logo todos viraram fuscas, por dentro e por fora geralmente assustadores: velhos, quebrados, sujos, barulhentos que davam medo. 

Há tempos são carros novos, todos brancos e com motoristas profissionais e educados: conhecem a cidade, perguntam qual caminho preferimos, os carros sempre limpos e fazem o que for preciso para te deixar, com calma, pertinho e não do outro lado da calçada. 

Se tem uma classe paulistana que é “dez” é a dos motoristas de táxis. Não são apenas motoristas, são verdadeiros cicerones da cidade. 

Quanto aos ônibus? Você acha os de hoje são lotados? Ah! isso é porque você nunca tomou um Penha-Lapa nos anos 1970… o pior é que a gente achava normal! 

Bom, é muita coisa para uma sexagenária contar sobre sua cidade na sua rádio preferida, a CBN. Mas, fica aqui esse registro sobre uma pequenina parte de nossa “cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, cidade maravilhosa, coração do meu Brasil”. Ops, desculpa aí, Rio !

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: para quem domina idiomas e aceita ganhar pouco

Evandro Gimenez

Ouvinte da CBN

Photo by Beto Mendes on Pexels.com

Cheguei a São Paulo em 2003. Vim sem ter onde morar. Contei com a ajuda de um amigo do meu irmão, que vivia na Santa Cecília, na Rua Major Sertório. Ele praticamente morava com a namorada e me emprestou o quarto onde dormia.

O “quarto” era uma dispensa de 2,5 metros quadrados. Um colchão no chão, um armário embutido e pouco espaço para eu me deitar — só na diagonal. Ali moravam mais três rapazes, cada um com seu quarto. Fiquei cerca de três meses até encontrar outro lugar para dividir, dessa vez com pessoas que eu nunca tinha visto.

Logo me acostumei ao caos da cidade. O cheiro de gás nas ruas. Metrô e ônibus lotados. Desci do lado errado incontáveis vezes, errei ponto, comi em padarias perto do Minhocão e esperei ônibus no Terminal Princesa Isabel. Hoje rio disso tudo.

São Paulo me ensinou a confiar em mim. Eu não conhecia ninguém. Meus pais ficaram em Jales e eram contra minha vinda. Mandavam 300 reais por mês, só para o básico. Consegui subempregos, lavei banheiro, dormi três horas por noite durante meses. Chegava às 11 da noite e acordava às 4h40. Pela formação em tradução, fazia trabalhos indicados por amigos do interior. Isso ajudava a pagar aluguel, comida e transporte. Trabalhei muitas vezes de segunda a segunda.

Nesse caminho, conheci pessoas que me abriram portas. Comecei a dar aulas de inglês, francês e italiano. Foi assim que surgiu uma proposta inesperada: trabalhar em Alphaville, num ambiente corporativo. “A empresa precisa de alguém jovem, que fale vários idiomas e aceite ganhar mal”, disseram, rindo. Fiz a entrevista. Um mês depois, entrei como assistente de vendas, pegando ônibus intermunicipal pela Castelo Branco.

Nessa época eu morava em Pinheiros, na Teodoro Sampaio, perto da Benedito Calixto. O bairro tinha outro clima: gente despojada, feirinha de antiguidades, jazz saindo das escolas de música. Depois, por necessidade, fui morar sozinho numa quitinete na Rua Castro Alves, em frente ao Hospital do Servidor Municipal. Pagava 300 reais. Era o que dava.

Aos poucos, fui crescendo. Mudando de emprego. Errando e acertando. Discuti com chefes por convicções, fui demitido, consegui trabalhos melhores. Fiz amigos, vivi amores e desamores. Hoje empreendo, unindo música, tecnologia e design.

São Paulo me deu trabalho, profissão, renda e amigos que viraram família. Sou quem sou porque decidi sair do interior e enfrentar a cidade. Apesar de tudo o que dizem, São Paulo me fez mais feliz e mais realizado.

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: a telefonista que conectava o Brasil

Maria Dusolina Rovina Castro Pereira

Ouvinte da CBN

Foto: Wikipedia/Domínio Público

Comecei a trabalhar aos 12 anos, em Piracicaba, onde morava. Fui babá, manicure, balconista, auxiliar de escritório até que, aos 17, surgiu um teste para telefonista na Companhia Telefônica Brasileira. Passei. Estava ali meu primeiro emprego formal.

Era o fim dos anos 1960. Todas as ligações interurbanas dependiam da intervenção de uma telefonista. Para falar com outra cidade, o usuário ligava para a CTB, informava o destino, o número e o nome da pessoa. Dependendo do local, do horário e da conexão, a ligação podia ser imediata ou entrar numa fila que durava horas — às vezes, dias. De Piracicaba para a Capital, não era diferente.

Com o pedido em mãos, começava nosso trabalho. Muitas conexões passavam por várias cidades. Ainda me lembro que, da nossa mesa de operação para alguma localidade no Mato Grosso, por exemplo, Piracicaba chamava Jaú, que chamava Bauru, que chamava Cuiabá, até chegar ao destino. Tudo era feito manualmente, com plugues — as “pegas” — encaixados em painéis cheios de luzes. As ligações eram caras, cobradas por minuto. Falava-se apenas o necessário.

Com o tempo, desenvolvi uma verdadeira agenda telefônica na cabeça. Muitas vezes eu já sabia o número solicitado antes mesmo de o cliente dizer. Gostava muito da profissão. Trabalhei ali por três anos, enquanto concluía a Escola Normal — o sonho da minha mãe era ter uma filha professora. Depois fiz cursinho para o vestibular. Aprovada, vim para São Paulo com uma bolsa que pagava apenas o pensionato e o transporte. Quando o auxílio terminou, precisei trabalhar para continuar na cidade.

Bati à porta da Telefônica, na Rua Sete de Abril. A recontratação não era comum, mas insisti. Em 1973, já com o DDD implantado em muitos lugares, o sistema era mais ágil. Eu saía da central às 11 da noite e caminhava rápido até a Praça da Sé para pegar o ônibus rumo à Aclimação. Jovem, sozinha, vinda do interior, sentia medo — mesmo numa São Paulo muito mais segura do que hoje.

Fiquei ali por apenas três meses. Fui chamada para trabalhar em um hospital, já na minha área de formação. Cheguei até esse novo emprego de uma forma inusitada, mas isso já é outra história. 

Hoje, quando falamos com o mundo inteiro em segundos, é difícil imaginar o que significava fazer um interurbano. Mas eu — e tantas outras telefonistas — guardamos com carinho a lembrança de uma profissão que ajudou a conectar pessoas, empresas e caminhos de vida na nossa São Paulo.

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: a caneta vermelha do revisor de texto

Mário Curcio

Ouvinte da CBN

Foto de João Saplak

Sempre morei em Santo Amaro, mas meu primeiro trabalho com carteira assinada foi na FC Editora, no bairro Santa Cecília. O ano era 1992. Para chegar lá eu pegava um ônibus até a Praça da Bandeira e depois o metrô até a estação Marechal Deodoro. Uma hora e vinte minutos de deslocamento.

Consegui o emprego enviando uma carta para o então diretor da revista Autoesporte, Fernando Calmon, que continua firme e forte como um dos jornalistas mais admirados do setor automotivo. Na carta eu expliquei que era formado pela Faculdade Anhembi Morumbi e sabia muito sobre carros porque lia todas as revistas do gênero.

Dias depois me chamaram para um teste. Fui contratado como revisor de textos. Lembro que meu pai ficou tão feliz quanto eu. A revisão era uma das portas de entrada do jornalismo. Usávamos uma caneta vermelha para apontar os erros, um dicionário Aurélio, uma gramática e o Manual do Estadão.

Dia sim, dia não, chegava algum carrão na garagem da editora. As importações tinham sido reabertas no começo dos anos 1990 e a Autoesporte testava todos.

Em 1998, mudamos de mala e cuia da Santa Cecília para o Jaguaré. Foi quando a Editora Globo adquiriu a Autoesporte e também a Casa&Jardim. Como parte do acordo de venda, todos os funcionários foram desligados de uma empresa e recontratados pela outra. No novo prédio passamos a dividir espaço com outras revistas como Galileu, Pequenas Empresas, Globo Rural, Época e também o jornal Valor.

Saí da editora em 2002 com a profissão já encaminhada, atuando como repórter e também como redator em outras empresas. Hoje, tenho 60 anos e percebo que o jornalismo passa por grandes mudanças. A profissão de revisor perdeu espaço nas redações faz mais de 20 anos, mas ainda resiste na publicação de livros e de outros conteúdos em que não se pode escorregar no português.

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: fui estafeta do Dr. Waldemar

José Luiz da Silva

Ouvinte da CBN

Foto do bonde reproduzida do site São Paulo Antiga

Quando eu tinha oito anos, por volta de 1940, morávamos na Rua Octavio Nébias com a Rua Maria de Figueiredo, entre o Ibirapuera e a Avenida Paulista. Minha mãe era governanta e cozinheira da família do Dr. Waldemar Mercadante, famoso médico da cidade. Meu pai era funcionário da RAE, Repartição de Água e Esgoto, atual Sabesp. 

O sobrado que habitávamos era enorme, com grandes varandas, porão, sótão com vista para o Ibirapuera, seus lagos, campos de futebol, muito verde no qual cavalos, vacas e cabras pastavam. Não tinha a estrutura de hoje, mas era lindo e despoluído.

O Dr. Waldemar tinha a rotina de solicitar que eu fosse buscar um carro de aluguel na Av. Paulista e também pegar soro no Instituto Pasteur.

Certa vez, após muitas explicações, principalmente sobre disciplina ambiental, fui incumbido de levar uma carta para um colega dele de medicina. Deu-me duas moedas para pegar o bonde. 

Lembro-me bem do bonde camarão com almofadas em vinil e lustres; motorneiro e condutores impecavelmente vestidos. Peguei o bonde na confluência da Av. Paulista com Brig. Luiz Antonio, onde erguia a estátua do índio Caçador. O bonde deslizava sobre os trilhos e dividia a rua estreita com alguns automóveis. 

Enfim, cheguei ao destino; desci perto do Trianon; localizei a mansão cuja frente era igual as demais: os portões eram enormes, feitos de bronze com bocas de onça e carrancas talhadas em ferro batido; a sinaleta era muito alta para o meu um metro de altura; subi colocando os pés entre os vãos e puxei a corrente; ouvi o badalar do sino ao fundo. Adiante, um verdadeiro bosque com árvores, matas, plantas e flores, hoje só vista na região do Parque Trianon.  E assim seguiam os meus dias de menino — fazendo as vezes de estafeta.

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: os caminhos que me levaram a ser economista

João Oswaldo Esotico

Ouvinte da CBN

Impostômetro
Fachada de prédio na rua Boa Vista Foto: CBNSP/Flickr

O que é do homem o bicho não come. Esta expressão representa muito bem aquilo que está destinado a alguém e, que, nos chega por meios estranhos; aquilo que parece ser coincidência, na realidade é, talvez, o universo trabalhando em seu favor.

Eu era office boy, numa pequena indústria de tintas, ali no Jabaquara. Era um emprego simples sem grandes aprendizados nem muito esforço da minha parte. No fim de 1968, eu precisava me dedicar aos estudos. Estava no cursinho Visconde de Cairu, na confluência da rua Quirino de Andrade com a Ladeira da Memória, próximo ao Vale do Anhangabaú.

Combinei com meu pai que largaria o emprego até entrar na faculdade. Vieram os exames vestibulares e consegui uma vaga na Álvares Penteado. Em economia.

Estudava pela manhã e meu tio me ajudou a encontrar um emprego no Banco da Bahia, na rua Boa Vista. Fui ser operador de lançamento de FGTS nas fichas de funcionários da Volkswagem. O trabalho, de seis horas, era de produção incessante e extenuante. Me sobressai como operador de máquina e fui promovido: transferido para o departamento de controle de contas correntes da sucursal do banco. Entrava às cinco da tarde e saía quando o trabalho terminava, pura mamata. Trabalhava em média quatro horas por dia. No fim do mês apertava: de oito a nove horas, saindo de madrugada.

Certo dia, meu chefe disse que queriam falar comigo lá na sede da sucursal do Banco. Cheguei e me apresentei ao gerente. Uma figura magra, simpática e com olhar penetrante, Benedito Otaviano. Queria que eu trabalhasse no departamento dele com análise de balanços, algo que não me era todo estranho, pois foi matéria do curso de contabilidade.

Transferência feita, para tristeza do outro chefe, comecei a rever conceitos de análise de balanços diretamente com o Benê, e ele já tinha contratado outro colega o Paulo Nashiro. Depois de algum tempo o Benê, contente com o meu desenvolvimento no trabalho, me contou que eu não estava na lista de estudantes de Economia e Contabilidade que o RH do banco lhe fornecera. Eu, intrigado, perguntei, como ele havia me encontrado em outro departamento.

Aí é que a gente vê que o universo conspira a nosso favor. O Benê havia entrevistado um colega meu da faculdade que ao sair da entrevista perguntou se ele chamaria, também, o Esotico. Foi então que o Benê pediu para o RH encontrar o tal de Esotico dentro do banco. 

Este foi o pontapé inicial para me deslanchar na carreira de economista, fazendo análises para investimentos e empréstimos bancários.

E pensar que tudo isso se desenrolou nessas ruas que agora completam 472 anos. O mesmo Anhangabaú que eu atravessava apressado para o cursinho, a mesma Rua São Bento onde minha vida profissional mudou de rumo.

O que é do homem o bicho não come.

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