Conte Sua História de São Paulo: as conversas alheias nas linhas do metrô

Cristina Schachtitz
Ouvinte da CBN

Foto de Andre Moura no Pexels.com

O ano era 2007. Eu trabalhava na Vila Olímpia e morava em Santo Amaro. O trajeto de carro para o trabalho não demorava mais que 12 minutos. Até que uma obra, que não leva nada a lugar nenhum, começou a ser construída ao lado do Parque do Povo, em contrapartida a uma construção monumental na região.

Passei a levar 40 minutos para chegar ao trabalho e mais de uma hora para voltar para casa. A obra travou o bairro. Num desses momentos de desespero, tédio e raiva, parada no meio de um mar de carros, olho para o lado e vejo um trem: por que não?

No dia seguinte, estava eu na Linha Esmeralda, ainda da CPTM, saindo da Granja Julieta em direção à estação Vila Olímpia e chegando ao escritório em 8 minutos — e o mesmo na volta. Era eu e eu no trem. A cada partida, um trecho de uma música clássica. No futuro, com a ligação com a Linha Lilás, o trem lotou, o serviço piorou; com a concessão, piorou ainda mais — e a música parou. Liguei e me explicaram que tiraram porque os usuários não gostavam. Eu gostava, mas não fui ouvida.

Foi nessa época que comecei a prestar atenção nas conversas no trem. Confesso que sempre fiz isso em filas de mercado, em restaurantes, mas no trem era diferente. Muitas vezes, eu só ouvia uma parte das histórias.

Ainda sem as facilidades dos smartphones e sem os aplicativos de mensagens, as pessoas falavam ao telefone. Eu ouvia uma parte e imaginava as respostas.

Muita gente falando mal da chefia, reclamando da patroa, fofocando sobre colegas de trabalho. E eu só criando os diálogos na minha cabeça. Gente que dizia que estava numa estação, chegando já, já, mas que ainda estava umas três antes… E eu até torcia para a voz no alto-falante não anunciar a estação e dedurar a pessoa… Também prestava atenção aos diálogos e a outras histórias compartilhadas.

As pessoas esquecem que estão tornando sua vida pública — afinal, estamos num trem! Então veio a ideia de escrever microcontos, tentando reproduzir o que ouvia e inventando a outra parte ou, simplesmente, escrevendo o que vi e ouvi.

Vamos a algumas dessas histórias:

E no trem, ao celular, a amiga aconselha: “Presta atenção, porque daqui a pouco você estará vivendo um triângulo amoroso e vai ser a última a saber. O seu problema é a comodidade”. E assim começa a semana.

A moça lê no trem Orações e Bênçãos. Uma formiga atravessa as páginas. A moça esmaga a formiga. Que Deus a tenha. A formiga.

A moça segue em direção ao Grajaú. Vai a um velório. Morreu a mãe de uma amiga. O pai também já morreu. Sei porque ela contou para um outro passageiro. Ela liga para três pessoas para “convidar” para o tal velório. Sua mãe, inclusive. Ouve três nãos. Pouco prestígio. Dela e da falecida.

Hoje acompanhei a história de uma babá criticando muito, muito a sua patroa para uma amiga, ao celular. Hilário. Sei o nome da patroa, de uma das crianças, do motorista, da cozinheira demitida e da faxineira da casa da praia… E sei também o preço da diária da folguista.

O rapaz liga para a chefe e avisa que está atrasado. Confessa que perdeu a hora, vai chegar logo. Incrível a mágica que transforma 40 minutos em 40 minutinhos.

E sigo a vida, de estação em estação!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Cristina Schachtitz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: joguei futebol no córrego da Traição

João Pedro Marchina
Ouvinte da CBN

Futebol arte
Imagem: Léo Pires/Flickr CBN SP

Estou com 70 anos e, há quase cinco anos, moro numa Kombi Home, viajando pelo Brasil, mas não é isso que importa agora. Quero mesmo é falar de São Paulo.

Nasci no bairro do Aeroporto, num sobrado novinho, onde, muitos anos depois, em 2007, cairia um avião da TAM em frente. Eu já não vivia mais lá. Em 1958, nos mudamos para o Planalto Paulista, para uma casa térrea recém-construída e bela. Ali foram 50 anos de história.

Mas sabe o que realmente quero contar? É sobre o Córrego da Traição, onde hoje está a Avenida dos Bandeirantes.

Por incrível que até mesmo a mim pareça, quando tinha por volta de 10 a 15 anos, o córrego era meu destino com os amigos. Pegávamos peixinhos lebistes para manter no aquário que tínhamos em casa. Caçávamos passarinhos usando visgo, o que hoje é uma maldade e proibido.

No cimo da atual avenida, onde há um atacado de plantas — um garden, como chamam por aí —, no meu tempo havia dois campos de futebol do time Flor do Guarani. Era o espaço onde fazíamos as aulas de ginástica às sete horas da manhã, sob intensa garoa e neblina. Sim, havia garoa e neblina lá pelos anos de 1965.

Os cabides para pendurar as roupas, enquanto nos exercitávamos, eram os pés de mamona plantados ao lado do campo. Mamona que também servia de munição para as batalhas de estilingue.

Recordações quase impossíveis de acreditar para quem só conheceu a região depois que a Bandeirantes foi inaugurada, em 1970.

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Conte Sua História de São Paulo: por carta, um relato da amiga taquígrafa

Mironiudes Scaglia

Ouvinte da CBN

Foto de Pixabay on Pexels.com

No Conte Sua História de São Paulo, o texto enviado por carta pela ouvinte da CBN Mironiudes Scaglia:

Trago o relato resumido de uma taquígrafa — essas não existem mais.  Secretária taquígrafa e minha queridíssima amiga Maria Aparecida da Cruz. Ela nasceu em oito de dezembro de 1923. Falceu em outubro de 2020 em consequência de um derrame cerebral, em Rio Claro, interior de São Paulo.

Cresceu na capital. Muito bem alfabetizada. Além da língua portuguesa que falava e escrevia com perfeição, aprendeu francês e latim no ginasial. Lembro de quanto ela estudou latim para uma prova de recuperação. A professora era exigente.

Terminando o ginasial foi trabalhar numa tecelagem e, paralelamente, fez um curso de taquigrafia e datilografia, o que permitiu construir durante a década de 1940 parte de uma bonita história. Dona de uma linda caligrafia, sempre escrita com esmero.

Todo esse conhecimento deu-lhe um emprego na Cerâmica São Caetano. Suas habilidades foram prontamente reconhecidas, o que lhe rendeu o cargo de secretária diretamente ligada aos executivos. Participava das reuniões e, como taquígrafa, anotava rapidamente e com muita eficiência as falas dos executivos. Depois, transcrevia para as atas, em português obviamente, todos os sinais taquigráficos da sua agenda. 

Lembremos, cada sinal representa uma palavra. Que responsabilidade!! Mas ela tinha uma memória invejável, tanto para detalhes de acontecimentos como para matemática. Como datilógrafa preenchia muitas laudas durante o dia, por causa de compras e vendas dos produtos da cerâmica. Ela era muito boa no que fazia.

A cerâmica importava um produto que permitia corar os azulejos de azul. Ela tinha um apreço por esse material. Quando construiu sua casa, na fachada que dava para a rua, colocou estes azulejos.

A cerâmica São Caetano pertenceu (pertence) a família Simonsen. Nesse período, Mário Henrique Simonsen, futuro ministro, era um jovem que aparecia na empresa nas festas de fim de ano.

Maria Aparecida foi uma pessoa culta. Conheceu o poeta Guilherme de Almeida nos eventos que participava com seus colegas da empresa. Passou a admirar o poeta, aprendeu a apreciar as poesias, as quais colecionava. Ela aproveitava o tempo com outras leituras. Religiosa que era, lia a biografia de alguns santos.  Frequentava bailes — ah, lembro das big bands dando seus shows. Sempre acompanhada de colegas do bairro e da mãe. Assistia também apresentações de corais, quando possível.

Maria Aparecida gostava de contar as peripécias de sua jornada. O trabalho de secretária lhe rendeu a confiança do pai, um militar do Batalhão de Cavalaria, e de sua mãe, dona de casa — a quem admirava muito pela forma como conduzia a educação das filhas. Eram mais três depois dela. 

Por trabalhar na cerâmica São Caetano, sempre estava elegantemente vestida. Ela comprava o tecido e sua dedicada mãe costurava as roupas, bem como todo o enxoval que ela e as irmãos levaram nas núpcias.

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Mironiudes Scaglia e Maria Aparecida da Cruz são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: uma greve no caminho do meu primeiro dia de trabalho

Fatima Novais

Ouvinte da CBN

Foto de Fabio Akamine on Pexels.com

Em 1978, aos 16 anos, cursando o último ano do colegial, iniciei o que seria minha carreira no sistema bancário. Feliz da vida, dia 13 de setembro de 1978, recebi orientações para ir sozinha de ônibus para o centro da cidade. Primeiro dia de trabalho. Imagine a alegria.

Desci no Largo do Paissandu e entrei na igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos — pedi proteção para aquele que seria o primeiro dia de muitos anos de trabalho. Caminhei até a rua Boa Vista, que era o centro financeiro e histórico de São Paulo. 

Assim que cheguei, algo totalmente inesperado aconteceu. Jovem, ingênua, pouco informada, ainda sem o hábito de ler os jornais, fui surpreendida. Era dia de greve dos bancários. Pessoas com bandeiras em mãos. Gritos de protesto. A cavalaria na rua. Policias com cacetetes em punho. Tentavam acertar quem passasse pela frente.

Chorando, em um local que ainda não conhecia. Morrendo de medo de perder meu emprego, sem ao menos ter começado. Foi quando por sorte — dessas que só São Paulo para proporcionar — encontrei um anjo. Daquelas pessoas que cruzam nossa vida quando mais precisamos — quero crer que foi obra daquela ida a Igreja. Pedi uma ajuda. Precisava de uma orientação do que fazer. Não havia celular para ligar para casa, falar com os pais. 

O anjo, que conhecia bem a região, me indicou um caminho que estava livre e permitia entrar no banco, pelos fundos, em uma portaria na 25 de Março. 

Com essa ajuda fugi dos riscos daquele confronto e me abriguei no prédio onde haveria de iniciar meu primeiro emprego, contratada para ser conferente de dados. Eu tinha de verificar as informações em listagens imensas emitidas pelos computadores.Algo impensável para os dias de hoje mas que deu início a construção de uma história de quase 48 anos no mercado de trabalho, em São Paulo. 

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Fatima Novais é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros cap[itulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: adolescente, carreguei malotes com cheques, contratos e documentos de bancos

Sérgio Slak
Ouvinte da CBN

Foto de Piotr Baranowski on Pexels.com

Estou com 68 anos e moro no bairro de Moema, na zona sul. Aos 14 anos, fiz o curso de datilografia. Naquela época, era essencial para se conseguir emprego. No começo de 1973, fui contratado pelo Banco da Bahia com o cargo de contínuo, outro nome para a função de office boy.

Trabalhava meio expediente na agência da Domingos de Moraes, nº 193, na Vila Mariana, das sete da manhã até a uma da tarde. Havia um detalhe: eu precisava pegar o malote antes na Sucursal, que ficava na Rua São Bento, nº 480, no Centro. Chegava lá por volta das 6h15 da manhã e passava por três andares para recolher os malotes: havia cheques, contratos e documentos de lançamentos em conta corrente. Coleta feita, atravessava o Vale do Anhangabaú para embarcar no ônibus 570 – Planalto Paulista, da Viação São Benedito.

Quando lembro dessa situação, fico admirado. Caminhar bem cedo pelo Centro de São Paulo, carregando malotes e sem ser importunado. Nos dias atuais, isso seria impossível.

Chegava antes das sete na agência da Vila Mariana e começava o meu trabalho interno: separar as correspondências, envelopar e deixá-las à disposição dos clientes. Os clientes gostavam de passar na agência para pegar as correspondências.

Lembro que a maioria dos processos era manual. Alguns poucos eram mecanizados, de forma bem simples. Usavam-se máquinas que lançavam as fichas de conta corrente. Havia o som das máquinas de datilografia e das de somar também — as operações aritméticas eram feitas puxando a alavanca. Outra máquina, acionada manualmente, gravava o nome e o número da conta corrente do cliente no verso da folha de cheque.

Por volta das dez da manhã, eu tinha que retornar à Sucursal, levando muitos documentos e trazendo outros tantos.

Ainda em 1973, o Bradesco comprou o Banco da Bahia, e passei a trabalhar oito horas por dia. Visitava muitas agências de outras instituições para pagar títulos e duplicatas. A maioria ficava nas ruas Boa Vista e 15 de Novembro. Eram grandes, com muitos caixas, filas e pessoas.

Aos poucos, começou a modernização. Os cheques passaram a ser magnetizados com a identificação do cliente, e o processo de informatização se iniciava. Ainda assim, existia muito papel: talões de cheques, títulos, duplicatas, contratos, extratos.

Com o tempo, vieram os caixas eletrônicos. Muitas agências foram fechadas, e as que restaram diminuíram bastante de tamanho.

É maravilhoso recordar um tempo em que, ainda adolescente, eu andava rapidamente pelas ruas de São Paulo carregando toda aquela papelada. Hoje, ao fazer todas as operações bancárias pelo celular, custo a acreditar como as coisas eram tão diferentes em um passado não muito distante. Melhor assim, pois sobra tempo para curtir esta cidade que eu amo tanto.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Sérgio Slak é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos $72 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a fuga de tico-tico pelas ruas da Vila Ema

Marcelo Ferro Cerqueira
Ouvinte da CBN

Foto de Esther Salguero on Pexels.com

Tico, tico, tico.

Meu triciclo segue pela rua Santa Elisa, no bairro de Vila Ema, zona leste. A rua me parece enorme; as pessoas, também. O portão da casa dos meus avós estava aberto, e por ali eu passei.

Meu bisavô Eugênio comprou aquele terreno com o suor do seu rosto e levantou aquelas paredes ao custo de alguns dedos perdidos no maquinário das antigas Indústrias Nadir Figueiredo, no bairro do Cambuci.

Sssssss… o vento bate no meu rosto. Sigo em direção à avenida que dá nome ao bairro. Tico, tico, tico. A mesma avenida pela qual meu avô José caminha todos os dias para trabalhar em outra indústria, uma metalúrgica. Uma polida aqui (tico, tico, tico). Outra polida acolá (tico, tico, tico lá). E as torneiras ficavam tão reluzentes quanto o sorriso do meu avô, uma das pessoas mais doces que já conheci.

Sigo no meu passeio de menino levado. Não tinha dois anos ainda, mas aparentemente queria ampliar meus horizontes. Ti-co, ti-co, ti-co. Diminuo a velocidade.

Tiiiico. Paro por um instante.

Do outro lado da avenida, havia uns homens de chapéu. Era início dos anos 1970, e aquelas pessoas me lembravam o vô José. Pareciam felizes. Talvez me ensinassem a fazer um novo aviãozinho de papel. Parecia promissor.

Ti… ti… ti… hesito. Carros de um lado e de outro da avenida.
Meu bisavô não está aqui. Nem meu avô. Nem meus pais. Talvez fosse melhor voltar. Mas, para isso, eu teria de enfrentar uma subida.

Não sinto vontade de chorar. Mas sei que, quando eu for encontrado, levarei umas palmadas. Vejo um trator na avenida e uma fila de carros atrás dele. O trânsito é interrompido nos dois sentidos. Reflexões de criança pequena…

Tico, tico, tico, tico. Ti, ti, ti… Co, co, co… Tiiicooo. Desço do triciclo e subo no meio-fio, do outro lado da rua. Completo a travessia. Logo vou falar com o homem que lembra meu avô. Ele me oferece uma bala Juquinha, e todos ali se perguntam onde estariam os pais daquele menino.

Minha permanência não é longa. Mas minutos são uma eternidade para uma criança. De repente, a vó Maria aparece, desmilinguida. Estou salvo, pensa ela. Estou encrencado, concluo eu.

Sou levado de volta entre as lágrimas da minha avó, o júbilo das pessoas que me acolheram e os meus pensamentos, que tentavam processar o que havia se passado. Tudo me parecia estranho. Eu provavelmente não esperava ter causado tanta comoção.

Essa é uma aventura que se passou com uma criança que aprendia a viver, sem se dar conta do esforço de seus pais, avós e bisavós para manter a família — o que se confunde com a história de tantos outros paulistanos.

Hoje, substituo o tico, tico, tico pelo vrum.

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Marcelo F. Cerqueira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também a sua história: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o dia em que uma coincidência me salvou da enchente

Nina Campos
Ouvinte da CBN

Chove na Mooca
Foto: Álbum CBN SP Flickr da ouvinte Ana Lucia Vieira Santos

O ano era 1990, e eu cheguei a São Paulo para fazer cursinho e tentar entrar na faculdade. Embora nascida aqui, passei a infância e a adolescência no interior do Paraná. Minha animação e alegria eram imensas, afinal, sempre sonhei com a “cidade grande” — e que grande!

Fazia cursinho no Anglo da Consolação. Pegava ali o ônibus que me deixava no Largo da Batata, em Pinheiros. Ainda sem o menor conhecimento dos ritos e ritmos da cidade e quase quarenta anos antes dos alertas que hoje a Defesa Civil faz pelos nossos celulares, peguei o ônibus em um fim de tarde, debaixo de um enorme temporal, sem maiores preocupações. Afinal, era só chuva!

Aos poucos, porém, fui ficando assustada. O cenário no trajeto sinalizava algo diferente de tudo o que eu jamais tinha vivido: muitos alagamentos, carros parados, o ônibus seguindo apenas por conta de seu tamanho. No Largo da Batata, o motorista abriu a porta, e eu e mais dois gatos pingados olhamos para fora: a água batia no degrau do ônibus. Olhei para ele e, ingenuamente, disse: “Não dá para descer!”. Enquanto as outras duas pessoas nem pararam e mergulharam na água sem temor, ele respondeu: “Não tem jeito, aqui é o ponto final. Estou indo para a garagem”.

Sem outra alternativa, arregacei a barra da minha calça e, com um nojinho inevitável, comecei a caminhar em direção à minha casa, debaixo do temporal e com a água acima dos joelhos. Para quem se lembra de como era o Largo antes da chegada da Faria Lima nova, fui caminhando por aquela rua estreita, com casinhas dos dois lados, que seguia em direção à igreja da Cruz Torta, sem uma alma por perto. Em certo momento, percebi que precisava caminhar pelo meio da rua, onde a correnteza parecia menos forte e a água estava um pouco mais baixa.

A noite foi caindo. Só tive completa noção do perigo que estava correndo quando, um pouco antes do cruzamento da rua Coropé, jorrava do bueiro uma quantidade de água tão grande que parecia uma cachoeira invertida. Congelei. Olhava para todos os lados e não via ninguém. Obviamente, não passava um carro sequer. Não sabia se seguia ou se voltava quando, de repente, vi avançar uma caminhonete. Os dois faróis acesos, a água na altura do capô, feito o Mar Vermelho se abrindo, e eu, no meio da rua, à frente dela.

Não sei o que me deu. Em vez de sair da frente, estendi as duas mãos para o motorista e gritei: “Páaara!!!”. Ele parou. Abriu o vidro e gritou comigo: “O que você está fazendo aí? Entra já!”. Pois é, pessoal, imaginem onde foi parar o conselho “nunca entre em um carro com estranhos”. Já que estava em perigo, perigo e meio…

Então ele me disse: “Onde você mora, menina? Vou te levar”. E eu: “Na rua Costa Carvalho, fica pertinho daqui”. “Nossa!”, ele respondeu. “Eu morava nessa rua! Que número?”. E eu: “93”. E ele: “Não acredito! Na vila? Eu morava lá também! Que casa?”. E eu: “11”. Aí, pasmem, ele disse: “Não acredito mesmo! Eu morava nessa casa!”.

Pois é, pessoal. Qual a probabilidade de isso acontecer em uma megalópole como esta? Eu não sabia se admirava a coincidência ou se curtia o alívio de ter encontrado um anjo da guarda que, inclusive, sabia onde eu morava! Em poucos minutos, eu estava sã e salva em casa. Nessa vila que, aliás, teve sua fundação feita pelo meu avô, quando tudo por ali ainda se chamava Estrada da Boiada. Mas essa já é outra história desta cidade cheia de pessoas boas… e de boas histórias!

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Nina Campos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também a sua história: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o carioca que ama a cidade onde nunca iria morar

Andre Luiz Marques
Ouvinte da CBN

Foto de Carlos Eduardo on Pexels.com

Sou um carioca de 54 anos. Minha relação com São Paulo começou ainda pequeno, nas décadas de 1970 e 1980. Meus bisavós italianos migraram para cá no início do século XX. Dos irmãos, apenas minha avó decidiu viver na cidade do Rio de Janeiro. Por isso, com alguma regularidade, visitávamos nossos parentes em São Paulo.

Lembro, inclusive, de ter vindo em uma dessas viagens no antigo Trem de Prata, que ligava a Estação Barão de Mauá, no Rio, à Barra Funda, em São Paulo. Também estava na cidade quando soube das mortes de Elis Regina, em 1982, e do zagueiro Daniel González, do meu Vasco, em 1984.

Na juventude, essa relação se intensificou, mas de maneira diferente. Entre 1993 e 1999, fiz diversas viagens para o Sul do país, sempre passando por São Paulo. Eu seguia pela Dutra para acessar a Régis Bittencourt. Não existia Rodoanel, a Marginal era mais estreita e o trânsito, muito pesado. Perdíamos horas apenas atravessando a cidade. Foi nesse período que prometi a mim mesmo que nunca moraria em São Paulo.

O “nunca”, porém, decidiu se vingar. Por causa do meu emprego, fui transferido para São Paulo no início de 2000. Vim já casado, com minha esposa, que é de Fortaleza. Aqui moramos até 2009. Nesse período nasceram nossas três filhas e vivi um momento de grande crescimento profissional. Foi uma fase marcante das nossas vidas.

Em 2009, tentei “fazer as pazes com o nunca”. Surgiu a oportunidade de voltar ao Rio e fizemos a mudança com tranquilidade, já que as meninas ainda eram pequenas. Aproveitamos bastante aqueles anos em que o Rio vivia um ciclo otimista, pré-Copa e pré-Olimpíadas, com o Cristo estampando a capa da revista The Economist, em 2009.

Alguns anos depois, o país e o Rio entraram em um período difícil. A mudança de clima foi simbolizada, novamente, pela Economist, agora com o Cristo despencando. E o “nunca” reapareceu. Em 2017, fui convidado a trabalhar outra vez em São Paulo. Aqui estou desde então, agora com filhas se formando e construindo suas vidas nesta cidade que nunca para.

Os cariocas não costumam ser fãs de São Paulo. Guardo meu saudosismo do Rio, é claro. Reconheço, porém, que a cidade e os paulistanos me acolheram muito bem. Depois de tantos anos, aprendi a lidar com essa metrópole intensa e complexa, cheia de possibilidades. Hoje sou feliz aqui e não tenho motivos para pensar em sair.

Só que, desta vez, prometo não dizer mais “nunca”. Vai que ele resolve se vingar de novo.

André Luiz Marques é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o som da viola que trouxe a família para a capital

Por Valmir Roney

Ouvinte da CBN

Sorocabinha, o avô materno, foi quem começou a vida da família na cidade: Foto Instagram @historias_e_causos

Tenho 66 anos. Sou paulistano. Moro no Alto de Pinheiros. Minha história em São Paulo não começa comigo. Inicia-se antes, bem antes, no fim do século XIX, em Piracicaba, com meu avô materno, Olégario José de Godoy. 

Ainda moço, ele já dedilhava a viola e compunha suas próprias modas. A música, naquela época, não era sonho distante — era destino Olegário veio para São Paulo para fazer história: gravou, em 1934, o primeiro disco de música sertaneja do Brasil. Ficou conhecido como Sorocabinha, com a dupla Mandy e Sorocabinha. E, sem saber, deixou gravado não só uns discos, mas um legado.

Tempos depois, já instalado na capital, trouxe a família. Foi aqui que, nos anos 1940, minha mãe conheceu meu pai, na frente da igreja do Calvário, em Pinheiros — um jovem recém-chegado de Franca, como tantos outros, tentando a vida na cidade grande.

Meu pai montou uma oficina mecânica, trabalhou muito, como se trabalhava naquela época: com as mãos, com o corpo e com esperança. Em 1943, ele e minha mãe se casaram. Construíram uma família simples, sólida, cheia de valores.

Tiveram três filhos. Eu fui a rapa do tacho. Nasci em 1959. Cresci aprendendo pelo exemplo o valor do trabalho, da honestidade e do afeto. Honro profundamente meus pais por isso — pela educação, pela formação  e, sobretudo, pelo carinho.

A vida seguiu seu curso. Quase aos 50 anos, me casei com uma mulher maravilhosa. Trabalhamos bastante, sou engenheiro, viajamos pelo mundo, conhecemos muitos lugares. Mas há algo curioso: por mais bonitas que sejam outras cidades, o coração sempre bate mais forte quando o avião pousa em São Paulo.

Foi aqui que nasci. Aqui fui criado. Aqui trabalho. Aqui me casei. E é aqui que exercemos um dos maiores aprendizados da vida: o de servir. Somos voluntários do Grupo Solidar, uma ONG onde preparamos e servimos café da manhã para pessoas em situação de rua. Em cada xícara de café, em cada pão entregue, há respeito, dignidade e humanidade — valores que São Paulo também carrega, mesmo em meio ao concreto.

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Valmir Roney da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o padre da minha nonna

Silvia Cristina Tiezzi
Ouvinte da CBN

Foto de cottonbro studio on Pexels.com

Quando eu era criança, minha nonna mudou-se de Adamantina para a então distante São Bernardo do Campo. Religiosa, como sempre foi, logo encontrou um lugar para depositar a sua fé: a “Igrejinha da Record”. Simples, acolhedora, quase escondida no cotidiano da cidade.

Anos depois, já adolescente, fui eu quem se mudou para São Paulo, vinda de Adamantina — Adamantina, no interior paulista, não Diamantina, em Minas Gerais. Passei no vestibular da Faculdade Paulistana, na Vila Mariana, e ali mesmo consegui meu primeiro emprego. No segundo ano, transferi-me para a Universidade Metodista. Ainda assim, continuei trabalhando na Paulistana. Naquele momento, eu não imaginava que essas duas fases da minha vida — a da fé herdada e a da formação profissional — guardavam uma ligação invisível.

Anos atrás, movida pela memória, resolvi visitar a igrejinha da minha nonna. Entre pesquisas na internet e conversas com pessoas da igreja, descobri algo que me surpreendeu profundamente. O padre que celebrava as missas frequentadas por minha avó era o professor Azurem Ferreira Pinto, fundador e dono da Faculdade Paulistana. A mesma faculdade em que passei no vestibular, naquele distante janeiro de 1982, e onde tive meu primeiro emprego.

Quando trabalhava na Paulistana, eu sabia que o professor Azurem havia sido padre. O que eu jamais imaginei é que ele fosse justamente o padre da igrejinha que minha nonna frequentou até o seu falecimento. Coincidência? Obra do destino? Coisa de Deus?

A pequena igrejinha cresceu e hoje é o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. A antiga capela foi preservada, quase como um relicário da cidade. Foi reconstruída no mesmo terreno onde hoje está o Santuário, no bairro da Pauliceia, em São Bernardo do Campo.

Conversando com uma funcionária do Santuário, soube de outro detalhe tocante. Na época em que minha avó assistia às missas, a igreja ficava dentro de um pátio da Mercedes-Benz, ali ao lado. Foi desmontada tijolo por tijolo e reconstruída no local atual.

Com tristeza nos olhos, ela contou que nem todos os tijolos chegaram ao novo endereço. Alguns foram levados por pessoas que quiseram guardar um pedaço da história como lembrança.

Talvez São Paulo seja feita disso: encontros improváveis, caminhos que se cruzam sem aviso. Fé, trabalho e memória assentados, literalmente, sobre os mesmos tijolos.

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Silvia Cristina Tiezzi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 272 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.