Conte Sua História de São Paulo: o metrô era novidade na ida ao primeiro emprego

Luciana Fátima

Ouvinte da CBN

Na lotação do Metrô

Comecei a trabalhar em 1991, três anos após a inauguração do Metrô Itaquera. Até então, era preciso pegar ônibus direto para a estação Tatuapé. Meu expediente começava às oito da manhã e eu precisava acordar duas horas antes para não me atrasar. A linha 3-vermelha do metrô sempre foi lotada.

Para não sucumbir às agruras do transporte público aprendi logo que eu teria de desenvolver um instinto de sobrevivência. Carregar a bolsa na frente do corpo era mandatório. Não usar sapatos que saíssem fácil dos pés era imprescindível. Pensar rápido e buscar a porta com menos aglomeração, fundamental.

Foi assim que, em um dia de superlotação, encontrei uma brecha no primeiro vagão. Entrei e fui espremida ao longo das 13 estações. Alívio para respirar melhor só na Sé, quando muita gente descia para a baldeação. Chegando ao Anhangabaú, desci do trem, subi as escadas e deparei com um lugar totalmente diferente. Desesperada, olhava e não reconhecia nada.

Enquanto desviava das pessoas que quase me atropelavam, me esforçava para identificar algum prédio familiar. Nada! Será que desci na estação errada? Não! Foi quando lembrei da orientação de uma amiga que me ensinara o caminho no primeiro dia de trabalho: “entre sempre nos últimos vagões, caso contrário sairá do lado errado da estação e vai se perder ao sair para a Sete de Abril”.

Foi como na música dos Titãs: “eu me perdi… na selva de pedra … eu me perdi” 

Depois de voltas e mais voltas na região do Teatro Municipal, atravessei o Viaduto do Chá e encontrei a Líbero Badaró. Ali eu já reconhecia os prédios. Mais alguns metros e chegaria ao meu destino: a rua José Bonifácio, onde era a sede empresa em que trabalhava. Eu estava assustada, desalinhada, suada e atrasada – em pleno período de experiência… E só me dei conta disso ao bater o cartão.

Bater cartão? Antes de começar a trabalhar, essa expressão me era tão abstrata quanto possível. Era um equipamento grande de ferro com um relógio analógico, que controlava os horários da nossa vida – entrada, saída e o intervalo de almoço. Ao lado dele, em um quadro na parede, ficavam os cartões de todos os empregados. Nas primeiras vezes em que bati o meu cartão, não o encaixei no lugar certo e o carimbo da hora saiu errado. Precisei carimbar novamente, sobrepondo os números até acertar o quadradinho. Até hoje não sei como o Departamento Pessoal entendia meus horários.

Eu fazia o possível para não me atrasar. E, depois da lição aprendida, mesmo que só conseguisse entrar nos primeiros vagões do metrô, lá em Itaquera, eu cuidava para atravessar toda a plataforma da estação Anhangabaú e sair do lado certo.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Luciana Fátima é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua vivência na nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos no meu blog miltonjung.com.br ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: quando a chuva era de prata na cidade

Jair Dias

Ouvinte da CBN

Ilustração da São Paulo antiga

Estamos no início dos anos 50, decididamente, 1954, pois, sob o céu da cidade, houve uma chuva de estrelinhas de prata — fazia parte das festas do quarto centenário de São Paulo. E quem não se lembra? Eu recolhia aquelas estrelas pelo chão, o céu estava lindo, a cidade também. Estava acostumado com a São Paulo da garoa, com bondes indo e vindo — não havia lotações.

Lá estava eu, com meus sete aninhos, segurando fortemente as mãos de papai, e achando aquela chuva de papel maravilhosa, pois acostumara-me a ver todos os dias o tempo fechado, cinza e sem sol. Descíamos a rua da Consolação, quando garotos de rua, meninos engraxates e outros, brotavam das praças, corriam como se tivessem pegando dinheiro no chão. O ruído dos motores dos aviões no céu marcava um tom de festa. 

Agacho-me, recolho aquele triângulo de prata nas mãos e saio zanzando rua abaixo. É bom curtir essa onda de festa! Atravesso a rua, peito aberto, rasgando bairros inteiros, numa chispa dou de cara com a Sé. A essa altura, papai já estava cansado, bufando. Senta no banco, grita meu nome, e diz para me aquietar e não ir longe. Ele estava ouvindo uma música no radinho, música esta que falava do aniversário da cidade de São Paulo comemorado ali na frente, na Sé . 

Desci a rua Monteiro, onde atualmente é a Estação do  Metrô da Sé,  topando  com a PM, um batalhão de guardas à frente rufando os tambores. Fiquei em êxtase. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda. Ao som do bumbo, passaram  por mim, e seguiram marchando. Senti um comichão nos pés, e me pus  a segui-los imitando-os. Era a Banda Marcial da Polícia Militar. Tocavam aquela música que papai ouvia no radinho de pilha (São, São Paulo, meu amor………). 

Aquietei-me num banco da praça, lá na pontinha, onde as pessoas pegavam ônibus para ir a Santos e São Vicente —  era o Viação Cometa. Fechei os olhos, fiquei num transe, paralisado, ouvindo as águas da fonte da Sé misturada a voz de papai. 

Havia passado cinquenta e cinco anos. Olhei a minha frente, o Poupa Tempo, à direita, o Metrô, mais adiante, meninos de rua, de becos e muquifos, pareciam zumbis perdidos na praça, sujos, calças rotas, alguns pedindo dinheiro, outros fumando e bebendo. Meu Deus! Que cena horrível. Chamaram na de Cracolândia. Deduzi que seria o fim dos tempos. Olhei o céu carrancudo e triste, já não era o céu da minha infância, nem real nem simbólico, era um céu fatídico , triste, daqueles que não gostamos nunca  de imaginar, mas depois de tanto tempo. 

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Jair Dias é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: estive lá no dia em que o metrô foi inaugurado

Clênio Caldas

Ouvinte da CBN

Photo by sergio souza on Pexels.com

Na manhã de sábado, 14 de setembro de 1974, tudo apontava para um acontecimento aguardado há tempos pela população de São Paulo: o início da operação comercial do Metropolitano de São Paulo!

Desde 1968, quando as obras de construção do novo sistema de transporte coletivo começaram, ali no bairro do Jabaquara, confluência das avenidas Fagundes Filho e Jabaquara, numerosas ruas, avenidas, praças, sofreram severa intervenção de máquinas, caminhões e operários que rasgaram o solo e aprofundaram escavações para implantar o corredor Norte-Sul do metrô da cidade.

O povo paulistano suportou com paciência os transtornos de interdições, alteração de itinerários de linhas de ônibus e alternativas diversas para o trânsito caótico da capital paulistana. 

O serviço de bondes, tradicional e histórico na cidade, fora definitivamente encerrado em abril daquele ano. Era preciso dar lugar à moderna tecnologia. Paulatinamente, a obra foi seguindo o curso da linha pioneira que ligaria o bairro do Jabaquara, na zona sul, à outra extremidade, no bairro de Santana, zona norte. A extensão para além de Santana, para o bairro do Tucuruvi, ocorreu somente anos mais tarde.

Dois anos antes, em 6 de setembro de 1972, como parte das celebrações do Sesquicentenário da Independência do Brasil, fora inaugurado o pátio de manobras do metrô no Jabaquara, com as presenças do governador Laudo Natel e do prefeito José Carlos de Figueiredo Ferraz. Ali estávamos prestigiando o grande evento e cumprimentando as autoridades. 

Nos fizemos presentes, também, na viagem inaugural da operação comercial, mantendo até hoje o bilhete, picotado por fiscais. Embarcamos na composição que rumou da estação Jabaquara para a estação Vila Mariana, percorrendo apenas as estações Conceição, São Judas, Saúde, Praça da Árvore, Santa Cruz, até alcançar a estação terminal provisória, Vila Mariana. Daí em diante, outros trechos foram sendo liberados gradativamente à medida que as obras eram concluídas.  

Mais de cinquenta anos decorridos daquela radiosa manhã! O sistema metroviário foi ampliado gigantescamente: além da Linha 1-Azul, vieram as Linhas 2-Verde, 3-Vermelha, 4-Amarela e 5-Lilás; foram acrescentadas a Linha 15-Prata do monotrilho e a integração com as linhas da CPTM, formando um extenso complexo metroferroviário na Grande São Paulo

Dentro de algum tempo, a linha 6-Laranja passará a integrar essa rede. 

Nestas cinco décadas minha admiração pelo Metrô de São Paulo não esmoreceu, pelo contrário, se converteu em orgulho genuíno por esse transporte, a ponto de traçar comparações com outros sistemas visitados nas cidades de Chicago, Boston, Nova Iorque, Washington, Toronto e Santiago do Chile. 

A todas nosso metrô se destaca e se sobrepõe! Declarei isto em visita monitorada ao CCO, a convite da Direção do Metrô, anos passados, dirigindo palavras a funcionários reunidos no anfiteatro local. 

Este é o meu testemunho de brasileiro, residente há 70 anos nesta megalópole, e ainda na expectativa de participar de outras inaugurações do melhor e mais elogiável sistema de transporte sobre trilhos, o Metrô da Cidade de São Paulo!!!

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Clênio Falcão Lins Caldas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: mato aparado do jeito dos cavalos

Ana Regina Carnevalli Parra

Ouvinte da CBN

cavalo
Foto de Ian Van Paio

Em meados dos anos 1980, fui transferida para trabalhar num posto de saúde, em um bairro da periferia, pertinho da Chácara Santana. Lugar com pouco recurso e favelas junto aos córregos, hoje, felizmente, canalizados.

Era pessoa nova no pedaço. Para realizar um dos meus trabalhos, precisava percorrer ruas e visitar pacientes. Naquela ocasião, dois casos graves de leptospirose foram diagnosticados.

Fui avistada pelo meu diretor que, em seguida, chamou-me para dizer que não queria que eu andasse naquele local, porque havia risco de morte. Expliquei que só estava em busca dos pacientes, para informações de vigilância.

Entendi a preocupação dele, mas fiquei inconformada. Queria só trabalhar!

Tive uma ideia: vou procurar quem manda no pedaço.

Falei com um, com outro, mais outro, com mães, com articuladores, depois de uns dias o meu pedido foi atendido. Recebi um bilhete, com dia, hora e lugar para o encontro, por sinal bem perto de uma esquina onde fui avistada anteriormente pelo meu chefe.

Apresentei-me no local: um minúsculo boteco. O rapaz franzino já sabia do que se tratava e o meu coração batia mais rápido. Agora sim, estou na boca do leão! Não desistirei.

Eis que apareceu do fundo da sala, um senhor alto, claro, elegante e de chapéu. Parecia até um astro do rodeio. Apresentei-me e comecei a falar do meu trabalho, dos doentes e da situação do córrego.

Ele colocou as mãos na cintura e disse: do que a senhora precisa?

Falei, falei não do que eu precisava, mas do que precisavam para promover saúde e medidas de prevenção. Depois que me ouviu, ele disse: a senhora terá tudo o que precisar para fazer isso. Pode ficar tranquila. Que mais precisa? Por fim, contei que lá no posto, o mato estava alto demais e não conseguíamos ninguém para cortá-lo.

Achei que foi demais a minha coragem e toda aquela conversa. 

Fim de semana foi, enfim segunda-feira.

De novo, chamada pelo diretor com a pergunta: a senhora pode me explicar o que está acontecendo? Hoje quando cheguei, encontrei dois cavalos dentro da nossa área no estacionamento com um recado de que estavam lá para acabar com o mato a seu pedido.

– Nossa, que rapidez, foi o chefão! – respondi.

Naquele instante, contei sobre o encontro. Quase fui morta, mas pelo meu próprio chefe! Bem, mas o que importa é o resultado excepcional.

Houve mobilização de outros atores da instituição, grande colaboração da comunidade. Foi realizado um enorme mutirão para a limpeza do córrego, desratização de toda a região, instalação de “containers” para colocação do lixo domiciliar e a manutenção da limpeza pelos moradores. Os doentes também se restabeleceram. Um verdadeiro milagre!

Quanto ao mato, continuou sendo aparado do jeito dos cavalos.

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Ana Regina Carnevalli Parra é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: encontrei mãe, irmãs e irmão que aqui já estavam

José Geraldo Leite Coura

Ouvinte da CBN

Photo by sergio souza on Pexels.com

Cheguei em 1978. Vim de onde o mar é o céu. Meio dia de viagem, na rodoviária Julio Prestes chegamos. Eu vim acompanhado de dois dos sete, quem nos trouxe foi outro. Atravessei o rio, esse já estava sujo; continua, apesar do já gasto. Chegamos na Freguesia do Ó. De lá corri por dias das férias em campo de cimento, diferentemente dos de terra e mato.


Encontrei mãe, irmãs e irmão que aqui já estavam. Todos agora nos juntamos a ele que veio bem antes para fazer o futuro. Essa chegada me fez vislumbrar uma São Paulo que ao longo do tempo aprendi a admirar e temer. Sempre atravessei a cidade no trem, no ônibus e no metrô.

No início foi na Cidade de Deus onde aprendi minha primeira profissão: mecanógrafo. De lá, técnico eletrônico. E, a partir deste, rodei por agências consertando tudo que mandavam. Nos intervalos, futebol e bailes. Colegas de todos os lugares. As domingueiras eram sempre animadas.

Já se foram 37 anos e hoje ou só hoje consigo parar para contar essa trajetória de luta e sucesso; de alguns tombos que me fizeram o que sou; de amigos que passaram e outros que continuam. Entre minha chegada e minha estada, são dois filhos e uma filha, todos paulistanos. Mas ela que me acompanha, também veio da minha terra natal.

Agora termino para agradecer a cidade que me fez este profissional e o cidadão que sou.  

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José Geraldo Leite Coura é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: meu pai trabalhava na Light

Nancy Alcantara

Ouvinte da CBN

Viaduto do Chá

Era dezembro de algum ano da minha infância, pegamos o ônibus na Vila Mariana e fomos para a cidade — como chamávamos o centro de São Paulo, antigamente. Minha mãe, meu irmão e eu, marcamos um encontro com meu pai no Viaduto do Chá. Meu pai trabalhava na Light and Power Company, uma empresa canadense — nesse prédio, na Xavier de Toledo, com toldos vermelhos e aparência atual um pouco desconfigurada da original.

Meu pai tirou do bolso um pacote de dinheiro. Era comum naquele tempo carregar dinheiro vivo — não existiam cartão de débito e de crédito. Mostrou o maço para a minha mãe que respondeu com um sorriso largo. Entregou tudo para ela e fomos ao Mappin — loja de departamento muito famosa, em São Paulo. 

Localizado na praça Ramos de Azevedo, bem em frente ao Theatro Municipal, ao lado do prédio da Ligth, no coração da maior cidade da América do Sul, o Mappin teve seis décadas de glória, imperando na venda de eletrodomésticos, roupas, utensílios para casa e brinquedos. Tudo que você pudesse imaginar tinha no Mappin. Quatro andares de pura diversão, especialmente para quem acabar de receber um “saco de dinheiro”.

Meu pai havia ganhado um bônus da empresa e resolveu fazer a felicidade da família. Ele retornou ao trabalho e nós entramos na loja de mais ou menos 15 mil metros quadrados de área construída, de puro consumo. Imagine a nossa felicidade até então acostumados a passar o ano todo contando o dinheirinho para comprar um sapato novo ou uma roupa melhorzinha.

Meu pai, além de trabalhar, cursava a faculdade de engenharia elétrica, depois de completar o curso técnico de eletrotécnica, estimulado pela minha mãe. Sempre ela!

Percorremos os departamentos da loja a escolha de pequenos prazeres que o dinheiro pudesse comprar. Nem eram tantas coisas ou produtos de grande valor, mas só de poder olhar, pegar e comprar, gerava um prazer que ficou na minha memória como sendo um dos melhores natais que já passei com minha família.

Depois das compras, nos encontramos novamente com meu pai e fomos os quatro almoçar no Café Girondino, um restaurante, embora com nome de café. Um luxo para nós. Vida de rico! Quando penso que hoje, almoçar em um restaurante é algo rotineiro, tenho a certeza que tudo começou lá atrás no desejo dos meus pais de crescer. Eles se dedicaram, se desenvolveram para dar o melhor para sua família.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Nancy Alcântara é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: joguei panela no Canindé

Por Antonio David Bravo

Ouvinte da CBN

 

 

Os meus contemporâneos se lembram. Na meninice, naquela época de antanho, sem iPod, iPad, iPhone e iCloud, tínhamos que ser criativos nas brincadeiras. Todo o nosso lazer acontecia na rua. Morei no Canindé, na Rua Madeira, número 160. Era a última casa da rua, que tinha 160 metros de extensão. Eram tantos os moleques que as turmas precisavam ser divididas em do começo; do meio e do fim. 

Futebol, corrida, briga e todo tipo de competição eram constantes entre as turmas. Quando não, nos juntávamos para competir e guerrear com as ruas vizinhas. Tínhamos na vizinhança o canil da PM, que ocupava uma área de 200 mil metros quadrados. Era só pular um muro de dois metros e meio de altura e todo aquele espaço era nosso. Apostávamos corrida em cima do muro. Não lembro de nenhum moleque ter quebrado um braço ou uma perna, apesar do muro ser todo torto.

 

No início da década de 50, o sistema de coleta de esgoto começou a ser implantado. Buracos foram abertos no meio da rua e as manilhas de diâmetro enorme foram a glória para a molecada: tínhamos trincheira, barro, esconderijos, enfim, tudo o que desejávamos para as nossas brincadeiras. 

 

Inventamos o Jogo da Panela, que era disputado entre dois e até cinco competidores. Tínhamos de fazer uma panela de barro com fundo do tamanho que a mão permitisse e com laterais de mais ou menos 8 centímetros de altura. A panela era jogada no chão com força e de cabeça para baixo. O impacto criava uma pressão interna e o fundo explodia. O buraco que se formava no fundo tinha que ser pago com um remendo feito pelo barro dos adversários. Ganhava quem conseguisse obter todo o barro do outro time. A turma do fim da Rua Madeira era sempre a campeã.  

 

Foi ali, no querido Canindé, entre lagoas e o rio Tietê, que, em 1956, a Portuguesa ergueu seu estádio, inicialmente apelidado de Ilha da Madeira. Lusa que completou 105 anos, em 14 de agosto. E, assim como a extensa maioria dois bairros na cidade de São Paulo, o meu Canindé também assumiu uma nova feição. 

Hoje, o bairro se ampliou e vem sofrendo uma notável mudança cultural imposta pela influência boliviana que transformou a região num centro de compras populares. Imigrantes vindos da América do Sul e da África alteram os contornos que no passado foram estabelecidos pelos tradicionais portugueses, italianos e árabes que ali fizeram a minha história.  E, consequentemente, a minha história de São Paulo. 

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Antonio David Bravo é personagem do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o Mineiro que me fez apaixonada por cinema

Débora Ferreira

Ouvinte da CBN

Sou paulistana, nascida na Beneficência Portuguesa, mas quem me apresentou São Paulo foi um mineiro. Mineiro que tinha orgulho de ter saído de Passos para tentar a vida em São Paulo. E deu certo. Era o mineiro mais paulista que conheci.

Início dos anos 1980. Em um domingo de cada mês, pela manhã, ele acordava as três filhas, porque era dia de cinema. Esperávamos por esses domingos. E tínhamos que ir bem arrumadas: era um passeio especial. Saíamos da Pompeia, entrávamos na Belina e íamos para o Cine Comodoro, na Av. São João.

“É o melhor cinema de São Paulo, é Cinerama!”. Não entendia o que queria dizer Cinerama, mas eu me encantava com aquele cinema. Lembro que tinha umas colunas… achava tudo muito grandioso. Comprava pipoca, sentávamos nas cadeiras, apagavam-se as luzes.

Lembro que a tela tinha uma curvatura diferente. Geralmente, passava um documentário antes, e então começava a sessão. Aos domingos de manhã, passavam só desenhos. Víamos Tom & Jerry, Popeye e vários outros desenhos da época.

Aquela atmosfera de cinema — as poltronas, o som estéreo, a pipoca e o orgulho dele de levar as filhas — tornava aquele momento mais que especial. Acabava a sessão e voltávamos pra Pompeia (outro bairro que merece outra história). “Sua mãe já está esperando pro almoço.” Esse era o nosso passeio de domingo.

O mineiro não sabia, mas nosso amor pela sétima arte começou com ele, ali no cinema Comodoro.

Obrigada, pai. Obrigada, São Paulo.

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Débora Ferreira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Mundo Corporativo.

Conte Sua História de São Paulo: as oportunidades que encontrei nas barracas da feira livre

Flabenilto Machado Parreira 

Ouvinte da CBN

Feira livre em foto de Flávio Rodrigues/Flickr

Meus pais viviam da lavoura, no Paraná. Quando eu tinha cinco anos, houve uma das maiores geadas já registradas no estado. As perdas foram assustadoras. Eles trabalhavam de boia-fria, ficaram sem ter como sustentar a família e o sofrimento foi enorme. Era 1975 e tenho na memória a imagem de uma caminhonete Toyota Bandeirante azul, com carroceria de madeira, onde colocamos tudo o que tínhamos. Era do tio José Parreira que havia se estabelecido em São Paulo e foi socorrer meus pais, levando a todos nós para a capital paulista.

Ficamos em um pequeno barraco cedido pelo Tio Pedro, no Jardim Peri Alto, na Vila Nova Cachoeirinha. O pai tinha pouca leitura, aplicava injeção, cortava nosso cabelo e não tinha nenhum conhecimento de cidade grande. Ele que já costumava beber um pouco a mais, tornou-se alcoólatra, ainda assim arrumou emprego de vigilante. A mãe era analfabeta — apesar disso nunca conheci pessoa mais sábia. Ela lavava roupas para os vizinhos. A água vinha de um poço de 42 metros e servia para todos os afazeres.

Com seis anos, eu já vendia durex. O pouco dinheiro que recebia ajudava no sustento da casa. Aos oito, fui trabalhar na feira. Primeiro, na Feira de Terça, na barraca do Zezinho. Lembro daquela madrugada em que percorri as barracas perguntando se precisavam de ajudante. Quando perguntei ao Zezinho, que vendia verdura e legumes, ele me respondeu: – Menino, você é tão pequeno que não aguenta um saco de batatas. Mesmo triste, agradeci: – Muito obrigado, Deus te abençoe! Já caminhava para a barraca seguinte quando Zezinho me chamou: – Menino, não estou precisando, não; mas como você é muito educado, fica trabalhando aqui comigo. 

Da barraca do Zezinho passei a fazer carretos em outras feiras usando ora um carrinho de rolimã alugado ora as próprias mãos. – Vai carreto aí moça! 

Depois que conheci o Francisco e o Itamar virei vendedor de frutas, de terça a domingo. Foram alguns meses nessa função até ser contratado para office-boy da J.P. Martins Aviação, no Campo de Marte. Já estava com 17 anos e estudava muito. Na feira, tive o apoio da Dona Paula, Dona Dora, Dona Sônia, Dona Guiomar e tantos outros. Pagaram meu curso de datilografia, na escola Real, no Largo do Japonês, o que me ajudou muito. 

Assim que conclui o colegial e já como encarregado do setor de cobrança da J.P Martins fui incentivado por uma amiga, Cristina Helena Dezena, a prestar concurso público para a CMTC. No início resisti a pagar a taxa de inscrição, pois pensava que era só uma maneira de a prefeita Luiza Erundina arrecadar dinheiro para a prefeitura. Foi a Cristina quem insistiu. 

Em 1989, prestei o concurso e ligeiramente esqueci. Segui meu rumo até dois anos depois, minha mãe disse que havia chegado um telegrama em casa: era a convocação para assumir a vaga de escriturário na CMTC. Na época o salário da J.P.Martins já permitia ajudar e muito lá em casa. Estávamos até construindo uma de alvenaria no lugar do barraco de madeira. Ainda assim, encorajado pela Dona Luciene Santos, sócia gerente da J.P, encarei o desafio e fui para a CMTC que posteriormente foi privatizada e se tornou SP Trans – São Paulo Transporte S.A.

Hoje, 34 anos depois, olho para trás e vejo uma trajetória que só foi possível em razão do acolhimento das pessoas que vivem na cidade de São Paulo. Atualmente, vivo em Osasco e pastoreio a Primeira Igreja Unida de Osasco, desde 2005.  

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Flabenilto Machado Parreira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a árvore centenária da Diógenes

Valdir Paulo Soares de Lima

Ouvinte da CBN

A árvore centenária da Diógenes Foto do ouvinte Valdir Soares de Lima

Estou com 64 anos. Sou taxista há 30. Passei minha infância, até os 14 anos, brincando e circulando pela Vila Leopoldina. Assisti à inauguração do centro esportivo Pelezão com a presença do Rei. Na Companhia Cacique de Alimentos, vi Emerson Fittipaldi e o irmão Wilson que frequentavam o local para negociar o patrocínio da Copersucar, na Fórmula 1. A presença deles se tornava um desfile festivo com os pilotos em um Dodge Dart conversível acenando para os moradores que cercavam o carro. Ao lado de onde hoje tem o SESI, havia um campo de de várzea — além dos  jogos de futebol, no meio do ano, se realizava a festa do Divino Espírito Santo, que teve origem em Portugal. Lembro como se fosse hoje: sardinhas na brasa acompanhadas por tremoço ao som de Roberto Leal, que se apresentava no palco.

Na rua Barão da Passagem, quase esquina da Carlos Weber, havia uma companhia metalúrgica na qual tive o prazer de assistir à gravação de cenas do filme “Eles não usam Black Tie” com Gianfrancesco Guarnieri, Milton Gonçalves, Fernanda Montenegro, Carlos Alberto Ricelli. Foi maravilhoso. A lamentar o fato de que o muro em que ficávamos sentados para vermos as gravações que antes era de uma escola, onde fiz o primário, agora é do batalhão da polícia. 

Por falar em lamento: que triste tem sido o tratamento dado a uma árvore centenária da avenida Diógenes Ribeiro Lima, próximo do número 2.000. Ao longo da minha vivência na região, das muitas histórias que ouvi dos moradores mais antigos, as que mais me chamavam atenção passavam por essa árvore. Ela abrigava tropeiros que seguiam a caminho de Sorocaba. A parada sob a copa desta árvore era o último descanso antes da travessia do Tietê. Por ali passavam os boiadeiros que levavam o gado para o abatedouro de Vila Mariana. Por isso, o trajeto era conhecido por Estrada da Boiada, assim como o bairro que circundava o rio, levava o nome de Emboaçava, que em tupi significa ‘lugar por onde se passava’.  Infelizmente, pouco restou desta árvore e sua gigantesca e acolhedora copa: temos apenas um tronco mal tratado, cercado de concreto, já tendo sido alvo de queimadas; um tronco que, além das histórias que contamos, resiste com alguns pequenos galhos verdes

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Valdir Paulo Soares de Lima  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outras histórias, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.