Conte Sua História de São Paulo: meu pai trabalhava na Light

Nancy Alcantara

Ouvinte da CBN

Viaduto do Chá

Era dezembro de algum ano da minha infância, pegamos o ônibus na Vila Mariana e fomos para a cidade — como chamávamos o centro de São Paulo, antigamente. Minha mãe, meu irmão e eu, marcamos um encontro com meu pai no Viaduto do Chá. Meu pai trabalhava na Light and Power Company, uma empresa canadense — nesse prédio, na Xavier de Toledo, com toldos vermelhos e aparência atual um pouco desconfigurada da original.

Meu pai tirou do bolso um pacote de dinheiro. Era comum naquele tempo carregar dinheiro vivo — não existiam cartão de débito e de crédito. Mostrou o maço para a minha mãe que respondeu com um sorriso largo. Entregou tudo para ela e fomos ao Mappin — loja de departamento muito famosa, em São Paulo. 

Localizado na praça Ramos de Azevedo, bem em frente ao Theatro Municipal, ao lado do prédio da Ligth, no coração da maior cidade da América do Sul, o Mappin teve seis décadas de glória, imperando na venda de eletrodomésticos, roupas, utensílios para casa e brinquedos. Tudo que você pudesse imaginar tinha no Mappin. Quatro andares de pura diversão, especialmente para quem acabar de receber um “saco de dinheiro”.

Meu pai havia ganhado um bônus da empresa e resolveu fazer a felicidade da família. Ele retornou ao trabalho e nós entramos na loja de mais ou menos 15 mil metros quadrados de área construída, de puro consumo. Imagine a nossa felicidade até então acostumados a passar o ano todo contando o dinheirinho para comprar um sapato novo ou uma roupa melhorzinha.

Meu pai, além de trabalhar, cursava a faculdade de engenharia elétrica, depois de completar o curso técnico de eletrotécnica, estimulado pela minha mãe. Sempre ela!

Percorremos os departamentos da loja a escolha de pequenos prazeres que o dinheiro pudesse comprar. Nem eram tantas coisas ou produtos de grande valor, mas só de poder olhar, pegar e comprar, gerava um prazer que ficou na minha memória como sendo um dos melhores natais que já passei com minha família.

Depois das compras, nos encontramos novamente com meu pai e fomos os quatro almoçar no Café Girondino, um restaurante, embora com nome de café. Um luxo para nós. Vida de rico! Quando penso que hoje, almoçar em um restaurante é algo rotineiro, tenho a certeza que tudo começou lá atrás no desejo dos meus pais de crescer. Eles se dedicaram, se desenvolveram para dar o melhor para sua família.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Nancy Alcântara é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: joguei panela no Canindé

Por Antonio David Bravo

Ouvinte da CBN

 

 

Os meus contemporâneos se lembram. Na meninice, naquela época de antanho, sem iPod, iPad, iPhone e iCloud, tínhamos que ser criativos nas brincadeiras. Todo o nosso lazer acontecia na rua. Morei no Canindé, na Rua Madeira, número 160. Era a última casa da rua, que tinha 160 metros de extensão. Eram tantos os moleques que as turmas precisavam ser divididas em do começo; do meio e do fim. 

Futebol, corrida, briga e todo tipo de competição eram constantes entre as turmas. Quando não, nos juntávamos para competir e guerrear com as ruas vizinhas. Tínhamos na vizinhança o canil da PM, que ocupava uma área de 200 mil metros quadrados. Era só pular um muro de dois metros e meio de altura e todo aquele espaço era nosso. Apostávamos corrida em cima do muro. Não lembro de nenhum moleque ter quebrado um braço ou uma perna, apesar do muro ser todo torto.

 

No início da década de 50, o sistema de coleta de esgoto começou a ser implantado. Buracos foram abertos no meio da rua e as manilhas de diâmetro enorme foram a glória para a molecada: tínhamos trincheira, barro, esconderijos, enfim, tudo o que desejávamos para as nossas brincadeiras. 

 

Inventamos o Jogo da Panela, que era disputado entre dois e até cinco competidores. Tínhamos de fazer uma panela de barro com fundo do tamanho que a mão permitisse e com laterais de mais ou menos 8 centímetros de altura. A panela era jogada no chão com força e de cabeça para baixo. O impacto criava uma pressão interna e o fundo explodia. O buraco que se formava no fundo tinha que ser pago com um remendo feito pelo barro dos adversários. Ganhava quem conseguisse obter todo o barro do outro time. A turma do fim da Rua Madeira era sempre a campeã.  

 

Foi ali, no querido Canindé, entre lagoas e o rio Tietê, que, em 1956, a Portuguesa ergueu seu estádio, inicialmente apelidado de Ilha da Madeira. Lusa que completou 105 anos, em 14 de agosto. E, assim como a extensa maioria dois bairros na cidade de São Paulo, o meu Canindé também assumiu uma nova feição. 

Hoje, o bairro se ampliou e vem sofrendo uma notável mudança cultural imposta pela influência boliviana que transformou a região num centro de compras populares. Imigrantes vindos da América do Sul e da África alteram os contornos que no passado foram estabelecidos pelos tradicionais portugueses, italianos e árabes que ali fizeram a minha história.  E, consequentemente, a minha história de São Paulo. 

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Antonio David Bravo é personagem do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o Mineiro que me fez apaixonada por cinema

Débora Ferreira

Ouvinte da CBN

Sou paulistana, nascida na Beneficência Portuguesa, mas quem me apresentou São Paulo foi um mineiro. Mineiro que tinha orgulho de ter saído de Passos para tentar a vida em São Paulo. E deu certo. Era o mineiro mais paulista que conheci.

Início dos anos 1980. Em um domingo de cada mês, pela manhã, ele acordava as três filhas, porque era dia de cinema. Esperávamos por esses domingos. E tínhamos que ir bem arrumadas: era um passeio especial. Saíamos da Pompeia, entrávamos na Belina e íamos para o Cine Comodoro, na Av. São João.

“É o melhor cinema de São Paulo, é Cinerama!”. Não entendia o que queria dizer Cinerama, mas eu me encantava com aquele cinema. Lembro que tinha umas colunas… achava tudo muito grandioso. Comprava pipoca, sentávamos nas cadeiras, apagavam-se as luzes.

Lembro que a tela tinha uma curvatura diferente. Geralmente, passava um documentário antes, e então começava a sessão. Aos domingos de manhã, passavam só desenhos. Víamos Tom & Jerry, Popeye e vários outros desenhos da época.

Aquela atmosfera de cinema — as poltronas, o som estéreo, a pipoca e o orgulho dele de levar as filhas — tornava aquele momento mais que especial. Acabava a sessão e voltávamos pra Pompeia (outro bairro que merece outra história). “Sua mãe já está esperando pro almoço.” Esse era o nosso passeio de domingo.

O mineiro não sabia, mas nosso amor pela sétima arte começou com ele, ali no cinema Comodoro.

Obrigada, pai. Obrigada, São Paulo.

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Débora Ferreira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Mundo Corporativo.

Conte Sua História de São Paulo: as oportunidades que encontrei nas barracas da feira livre

Flabenilto Machado Parreira 

Ouvinte da CBN

Feira livre em foto de Flávio Rodrigues/Flickr

Meus pais viviam da lavoura, no Paraná. Quando eu tinha cinco anos, houve uma das maiores geadas já registradas no estado. As perdas foram assustadoras. Eles trabalhavam de boia-fria, ficaram sem ter como sustentar a família e o sofrimento foi enorme. Era 1975 e tenho na memória a imagem de uma caminhonete Toyota Bandeirante azul, com carroceria de madeira, onde colocamos tudo o que tínhamos. Era do tio José Parreira que havia se estabelecido em São Paulo e foi socorrer meus pais, levando a todos nós para a capital paulista.

Ficamos em um pequeno barraco cedido pelo Tio Pedro, no Jardim Peri Alto, na Vila Nova Cachoeirinha. O pai tinha pouca leitura, aplicava injeção, cortava nosso cabelo e não tinha nenhum conhecimento de cidade grande. Ele que já costumava beber um pouco a mais, tornou-se alcoólatra, ainda assim arrumou emprego de vigilante. A mãe era analfabeta — apesar disso nunca conheci pessoa mais sábia. Ela lavava roupas para os vizinhos. A água vinha de um poço de 42 metros e servia para todos os afazeres.

Com seis anos, eu já vendia durex. O pouco dinheiro que recebia ajudava no sustento da casa. Aos oito, fui trabalhar na feira. Primeiro, na Feira de Terça, na barraca do Zezinho. Lembro daquela madrugada em que percorri as barracas perguntando se precisavam de ajudante. Quando perguntei ao Zezinho, que vendia verdura e legumes, ele me respondeu: – Menino, você é tão pequeno que não aguenta um saco de batatas. Mesmo triste, agradeci: – Muito obrigado, Deus te abençoe! Já caminhava para a barraca seguinte quando Zezinho me chamou: – Menino, não estou precisando, não; mas como você é muito educado, fica trabalhando aqui comigo. 

Da barraca do Zezinho passei a fazer carretos em outras feiras usando ora um carrinho de rolimã alugado ora as próprias mãos. – Vai carreto aí moça! 

Depois que conheci o Francisco e o Itamar virei vendedor de frutas, de terça a domingo. Foram alguns meses nessa função até ser contratado para office-boy da J.P. Martins Aviação, no Campo de Marte. Já estava com 17 anos e estudava muito. Na feira, tive o apoio da Dona Paula, Dona Dora, Dona Sônia, Dona Guiomar e tantos outros. Pagaram meu curso de datilografia, na escola Real, no Largo do Japonês, o que me ajudou muito. 

Assim que conclui o colegial e já como encarregado do setor de cobrança da J.P Martins fui incentivado por uma amiga, Cristina Helena Dezena, a prestar concurso público para a CMTC. No início resisti a pagar a taxa de inscrição, pois pensava que era só uma maneira de a prefeita Luiza Erundina arrecadar dinheiro para a prefeitura. Foi a Cristina quem insistiu. 

Em 1989, prestei o concurso e ligeiramente esqueci. Segui meu rumo até dois anos depois, minha mãe disse que havia chegado um telegrama em casa: era a convocação para assumir a vaga de escriturário na CMTC. Na época o salário da J.P.Martins já permitia ajudar e muito lá em casa. Estávamos até construindo uma de alvenaria no lugar do barraco de madeira. Ainda assim, encorajado pela Dona Luciene Santos, sócia gerente da J.P, encarei o desafio e fui para a CMTC que posteriormente foi privatizada e se tornou SP Trans – São Paulo Transporte S.A.

Hoje, 34 anos depois, olho para trás e vejo uma trajetória que só foi possível em razão do acolhimento das pessoas que vivem na cidade de São Paulo. Atualmente, vivo em Osasco e pastoreio a Primeira Igreja Unida de Osasco, desde 2005.  

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Conte Sua História de São Paulo: a árvore centenária da Diógenes

Valdir Paulo Soares de Lima

Ouvinte da CBN

A árvore centenária da Diógenes Foto do ouvinte Valdir Soares de Lima

Estou com 64 anos. Sou taxista há 30. Passei minha infância, até os 14 anos, brincando e circulando pela Vila Leopoldina. Assisti à inauguração do centro esportivo Pelezão com a presença do Rei. Na Companhia Cacique de Alimentos, vi Emerson Fittipaldi e o irmão Wilson que frequentavam o local para negociar o patrocínio da Copersucar, na Fórmula 1. A presença deles se tornava um desfile festivo com os pilotos em um Dodge Dart conversível acenando para os moradores que cercavam o carro. Ao lado de onde hoje tem o SESI, havia um campo de de várzea — além dos  jogos de futebol, no meio do ano, se realizava a festa do Divino Espírito Santo, que teve origem em Portugal. Lembro como se fosse hoje: sardinhas na brasa acompanhadas por tremoço ao som de Roberto Leal, que se apresentava no palco.

Na rua Barão da Passagem, quase esquina da Carlos Weber, havia uma companhia metalúrgica na qual tive o prazer de assistir à gravação de cenas do filme “Eles não usam Black Tie” com Gianfrancesco Guarnieri, Milton Gonçalves, Fernanda Montenegro, Carlos Alberto Ricelli. Foi maravilhoso. A lamentar o fato de que o muro em que ficávamos sentados para vermos as gravações que antes era de uma escola, onde fiz o primário, agora é do batalhão da polícia. 

Por falar em lamento: que triste tem sido o tratamento dado a uma árvore centenária da avenida Diógenes Ribeiro Lima, próximo do número 2.000. Ao longo da minha vivência na região, das muitas histórias que ouvi dos moradores mais antigos, as que mais me chamavam atenção passavam por essa árvore. Ela abrigava tropeiros que seguiam a caminho de Sorocaba. A parada sob a copa desta árvore era o último descanso antes da travessia do Tietê. Por ali passavam os boiadeiros que levavam o gado para o abatedouro de Vila Mariana. Por isso, o trajeto era conhecido por Estrada da Boiada, assim como o bairro que circundava o rio, levava o nome de Emboaçava, que em tupi significa ‘lugar por onde se passava’.  Infelizmente, pouco restou desta árvore e sua gigantesca e acolhedora copa: temos apenas um tronco mal tratado, cercado de concreto, já tendo sido alvo de queimadas; um tronco que, além das histórias que contamos, resiste com alguns pequenos galhos verdes

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Valdir Paulo Soares de Lima  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outras histórias, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: transportes são nossas metáforas coletivas

Por Fabio Monastero

Ouvinte da CBN

Photo by Andre Moura on Pexels.com

 

Um táxi ou um caminhão de mudanças; um ônibus, um trem ou mesmo uma pequena motoneta, não parecem ser capazes de nos transmitir ideias muito complexas; entretanto – a aceitar o que me disse um nativo grego, amigo com nome de um deus – são verdadeiras e bem concretas metáforas; isto se dá porque, em sua língua milenar, essa palavra indica – entre outras coisas  e simplesmente – a condução ou o transporte diário de conceitos, coisas ou pessoas de um lado para o outro, um levar além…

Os gregos, portanto, usam metáforas diariamente e, mais, os transportes coletivos são suas metáforas coletivas. Com essa informação na cabeça, torna-se quase impossível entrar num vagão de metrô em São Paulo, por exemplo, sem uma atitude respeitosa, pois, afinal, estamos penetrando parte de uma enorme metáfora das grandes cidades.

O moderno Metropolitano paulistano corre, surreal, nas profundezas…

Dentro do casco metálico, a mente viaja para dimensões inesperadas; o trem é realmente uma grande metáfora da vida – as pessoas nele entram e saem sem que as demais tenham a menor ideia se, porque ou quando isto se dará.

Cada vagão, em cada composição, pode ser uma vida ou uma vila, cidade ou país, onde cada um sabe apenas de si.

Cenas que se repetem por toda a cidade.

Nas várias paradas, existem ansiosos quase arrombando as portas, querendo fazer parte da viagem ou dela sair a qualquer custo.

Para entrar, uns vem a passos lentos e seguros, aparentando jogar com o tempo, atentos, entretanto, ao rápido fechamento das portas. Raros bloqueiam ou reabrem – com ou sem ajuda – as portas logo que estas se fecham, ainda com o trem parado e entram à força na vida, quero dizer, no trem. Quando o trem demora a partir, os apressados tornam-se prematuros; pode ocorrer que alguém se sinta desconfortável e saia antes do que previra.

Se alguma gente passa a viagem em paz, umas outras evidenciam algum tipo de sofrimento na alma e por vezes no corpo – aqui tem uma dor de cabeça; ali, cólicas.

Devaneios…

Velhos serenos e jovens angustiados; deficientes corajosos e pessoas normais e covardes; há mesquinhos, heróis, santos, dementes e gênios, de tudo nessa vida.

Lá na frente, um casal se beija como se o trem estivesse vazio e congelado pela eternidade. Prestando mais atenção, poderemos ouvir uma família coreana discutindo um assunto misterioso; talvez, ainda, observar duas meninas surdas-mudas, conversando e rindo animadamente numa alucinante e eloquente dança de gestos.

Um policial barrigudo boceja, calmo e tranquilo, pois, neste momento, sua vida não corre os riscos baratos que corre na vida exterior; um raro padre de batina, incoerente com os chamados novos tempos, parece orar baixinho, feliz com seus sedativos alienantes. Aqui ao lado, um senhor grisalho, com um sugestivo perfil grego, com certeza, nem está pensando nas metáforas da eventual terra ancestral.

As mulheres misturam seus perfumes e suas cores, avaliadas e desejadas em sonhos ou evocando mães, filhas ou amantes distantes; os homens, em geral menos exuberantes, mexem com a imaginação dessas mulheres da mesma forma.

A cada parada, o quadro muda, dinâmico, sem deixar vestígios do fotograma anterior; tudo recomeça a cada momento.

Um súbito tumulto lá longe, na frente do vagão, assusta os que não sabem do que se trata; um jovem tenta puxar a cordinha de emergência, mas só consegue entreabrir a porta, com um pequeno solavanco no trem; logo se vê, no espaço aberto pelas pessoas agitadas, um homem se levantando, constrangido, depois do que pareceu um rápido ataque epiléptico. Na parada, alguém desce com ele, decidindo interromper a própria viagem para ajudá-lo.

Numa percepção extrema, podemos até entender as manoplas das saídas de emergência como alavancas de suicídio, pois uma vez acionadas, deve haver a saída imediata – dessa vida metroviária.

A implacável composição prossegue veloz, indiferente, firme em seus trilhos de aço – completamente fria. Não interessa ao trem quem nele entra ou sai; aparenta conduzido por uma entidade invisível que, periodicamente, projeta sua voz dos céus ou do teto de um salão de Ezequiel – por vezes ininteligível, pelo menos aos não-iniciados. Essa entidade superior, em sua desconhecida sabedoria, determina condições como paradas, tempos e velocidades – desde que o grande computador central o permita. Essa divindade maior está em local desconhecido pelos passageiros e sabe coisas que eles ignoram existir; só a grande máquina conhece o que vai acontecer, o passado, o presente e o futuro, a cada minuto da viagem.

É possível cogitar se existe vida em outras linhas, ainda que, por definição suprema e para que não se destruam – paralelas euclidianas, gregas – as linhas, planos e dimensões dos trens nunca poderão se cruzar sob pena de mútua extinção. Tudo correrá de acordo com o planejado, desde que os sacerdotes do templo – os funcionários – continuem seu rígido culto diário.

Surpreendentemente, não existe condutor…

Enfim, a pergunta: Existirá outra vida no além-metáfora?

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Fabio Monastero é personagem do Conte Sua História de São Paulo.  A sonorização é do Claudio Antonio. Para ler o texto completo do Fabio, visite agora o meu blog miltonjung.com.br. Você também pode participar: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Quer conhecer outros capítulos da nossa cidade, coloque entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: os coletores de lixo e as crianças do Alto da Lapa

Ana Maria Oliva

Ouvinte da CBN

Foto Divulgação Loga

Embora seja uma cidade cosmopolita, São Paulo nos surpreende com situações prosaicas, que poderiam ser bem comuns em pequenas cidades. Ao longo de meus 37 anos nesta cidade que adotei como minha, nesse caldeirão de cultura, raças, sotaques, me tornei uma observadora do cotidiano. E é justamente sobre uma cena que se repete todas as noites na minha rua que retrato nesta crônica:

Sempre, por volta de nove da noite, o caminhão dobra a esquina e entra na rua Aibi, no alto da Lapa. O barulho, inconfundível e familiar aos ouvidos dos moradores, anuncia o serviço necessário e urgente: a coleta de lixo domiciliar. Três rapazes, usando o habitual uniforme verde com faixas reflexivas, luvas e bonés, saltam do veículo, ágeis como felinos, e seguem recolhendo sacos depositados nas calçadas e lixeiras. Tudo rápido e cronometrado. E mesmo depois de horas de trabalho árduo, no sobe e desce do caminhão, encaram com bom humor e disposição a jornada que só termina na madrugada. 

Mal entram na pequena rua, já se anunciam com gritos, acenos e buzinas. Toda essa festa não é para os porteiros dos prédios ou moradores que passeiam com seus cães. Não. A festa é para um público especial e fiel: crianças de olhos vivos e atentos, boquinhas falantes e sorridentes que se postam nas janelas de vários andares dos prédios, aguardando ansiosas a chegada dos amigos alegres e barulhentos – que mais parecem passistas de uma escola de samba. Os rapazes acenam e cumprimentam com um “olá, amiguinhos” e um “boa noite” seguido do nome das crianças. Elas respondem chamando um por um pelo nome: Michel, Paulo, Sérgio. Seguram com as mãozinhas firmes nas grades, estabelecem um diálogo de muitos sons, risos e falas, enchendo a rua de alegria. 

O motorista do caminhão, um simpático jovem de barba ruiva, alargador na orelha, também participa da festa: diminui a velocidade, coloca o braço tatuado para fora do veículo e acena para a meninada, sorrindo e buzinando o caminhão. 

No fim da rua, retornam na praça e retomam o caminho aos efusivos gritos das crianças com sonoros “tchau” e “bom trabalho”. Os rapazes respondem “boa noite” e “bons sonhos” para Paulinho, Larissa e Marina – alguns nomes que ouço enquanto assisto a esse espetáculo de humanidade da minha sacada. Passado o show, as crianças desaparecem das janelas, as luzes se apagam e o movimento da rua volta com os entregadores de aplicativos no vaivém de suas motos.

Numa noite dessas, enquanto passeava com meu cachorro, pude constatar de perto a alegria genuína dos rapazes. Perguntei se aquela festa também ocorria em outras ruas e bairros de São Paulo. Me contaram que, em algumas ruas da cidade, às vezes são recebidos por crianças acompanhadas de seus pais, com saquinhos com bala e chocolate, e que, de vez em quando, há criança pequena que cisma de dar uma volta com eles na traseira do caminhão e cai no choro quando o pai explica por que não pode. 

– Mas nada se compara com a farra das crianças daqui, elas são especiais — comenta Michel, um rapaz carioca, o mais alegre de todos. 

O motorista contou que Arthur, um garoto de 4 anos, certa noite estava com o avô na calçada acenando para eles estacionarem o caminhão. Seguravam uma embalagem de pizza, uma garrafa de refrigerante, frasco com álcool gel e guardanapos. Fizeram uma pausa rápida e compartilharam a refeição com o Arthur sentados na guia da calçada. E ao se despedirem, perceberam como os olhinhos do menino brilhavam de alegria.

Fiquei imaginando a cena e as expressões do menino e como o assunto tomaria conta da conversa com os amiguinhos da pré-escola. Que efeito teria causado sobre eles? Será que convenceram seus pais e avós a replicarem os gestos de gentileza com esses trabalhadores, muitas vezes invisíveis à população? O Arthur e as crianças que avisto da minha sacada têm muito a nos ensinar sobre acolhida e empatia. 

Só na cidade de São Paulo, de acordo com dados da prefeitura, cerca de 3,2 mil pessoas trabalham na coleta de lixo. São 12 mil toneladas retiradas diariamente por 500 caminhões da prefeitura, percorrendo ruas e bairros – não estão incluídos nesta conta os catadores de recicláveis.


Torço para que demais trabalhadores da limpeza também recebam em outras ruas da cidade sorrisos e respeito – um pequeno alento para seguirem com disposição a rotina pesada de uma atividade tão essencial para a cidade, para a população e para o meio ambiente. Aqui, eles são celebrados como os verdadeiros reis da rua!

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Conte Sua História de São Paulo: o dia em que a Mooca parou para ver o e elefante passar

Alceu Carreiro

Ouvinte da CBN

Foto de Regan Dsouza

Memória de elefante! Com meu novo livro de cabeceira “A viagem do elefante”, de José Saramago, me encorajei a escrever sobre  um fato curioso que, talvez, muita gente ao escutar esta narrativa, lembre do ocorrido.

Nasci no antigo hospital Leão XXIII, nove dias após o golpe militar de 1964 — tempos difíceis que nos tiram o sono até hoje. Sempre relembro minha mãe contando que, quando foi ao hospital, sentindo as dores do parto, meu pai, ao volante, cruzou com vários tanques de guerra; talvez, fazendo cumprir-se uma inaceitável GLO ( Garantia da Lei e da Ordem), nas proximidades do Museu do Ipiranga. 

[… ]

Mas isso é só um adendo. Vamos ao fato que me traz aqui: morávamos na Mooca. E eu, como um garoto que brincava nas calçadas de pique esconde, junto com os colegas, fomos surpreendidos — se não me falha a memória, em 1972 — com a passagem pela rua de um majestoso elefante. 

Todo o trânsito parou. As donas de casa se ausentaram da cozinha e abandonaram seus afazeres domésticos para ver o inusitado. Os comerciantes — o padeiro, o dono da banca de jornal, o açougueiro, enfim —, todos queriam testemunhar o inacreditável. 

A garotada seguiu em procissão acompanhando o enlace para desespero das mães. Não havia, como no livro de Saramago, um conarca no dorso do elefante, vestido em trajes indianos — o que em nada tirou o glamour e o encantamento da comitiva que anunciava um circo na região. Foi um dia histórico na Rua Chamantá. Por anos foi assunto sempre lembrado por todos nós. 

São Paulo de outrora já despontava como uma metrópole, mas os bairros ainda tinham um ar interiorano. Hoje, moro em Atibaia, fugindo da agitação e talvez procurando, no subconsciente, a Mooca daqueles tempos em que a passagem de um elefante era atração na vizinhança.

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Alceu Carreiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros episódios da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e coloque entre os seus favoritos no Spotify, o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: Vila Prudente, bairro que nos seduz

Julio Araujo

Ouvinte da CBN

Foto publicada por Fernando Sobrinho em Memorias Paulistanas

“Vila Prudente,/ bairro que nos seduz/ De dia falta água/ De noite falta luz/ Abro o chuveiro/ Oi, não cai um pingo/ Desde segunda até domingo/ Eu vou pro mato/ Oi, pro mato eu vou/ Vou buscar um vagalume pra dar luz em meu chatô”

Para iniciar essa narrativa com bom humor, eu coloquei em destaque a letra da marcha carnavalesca “Vagalume”, de 1954, autoria de Vitor Simon e Fernando Martins, trocando apenas Rio de Janeiro por Vila Prudente, bairro onde fui criado, vivi boa parte da minha vida e de onde trago muitas recordações. Ouvi muito a marchinha ser cantada, em forma de paródia, pelos antigos moradores do bairro como forma de levar a vida…

Entre buracos, balões e bolinhas de gude

Durante a infância, nos anos 1950, as famílias vilaprudentinas sofriam bastante com a falta de água e energia elétrica. O bairro era caçula da região, comparado com a Mooca e Ipiranga, ambos limítrofes, fundados no século XVI, e já bem desenvolvidos. Faltava infraestrutura, por isso muita coisa o bairro ainda carecia. Lembro da coleta de lixo em carroças puxadas por burros, que não aparecia todos os dias. Em dia de chuva, o bairro se complicava com enchentes na região próxima à estação do Ipiranga, parava tudo. Se não chovia, a porteira é que parava todo o trânsito. O problema só se resolveu quando foi construído o Viaduto Capitão Pacheco Chaves.

Por outro lado, saudades do padeiro que trazia o pão em domicílio de carroça, onde eu adorava comer as raspas que ficavam no fundo, o tintureiro nissei que buscava roupa pra lavar e levava tudo por entre o braço, os amoladores de faca com aquelas gaitinhas características, o vendedor de suspiro, o bijuzeiro com aquela placa com um som de reco-reco, o homem do realejo com o periquito da sorte, os moleques que vendiam pirulitos, que eram pura água com açúcar, com o infalível grito: “Piruliteeeeeeeeeiro! Tira dooois por um cruzeirooooooooo!!!” Promoção. Era o marketing.

Na minha rua, a Cananéia, as famílias que lá moravam, em sua maioria, vieram para realizar o sonho da casa própria, porque pagavam aluguel em bairros mais desenvolvidos e, com sacrifício, adquiriram terrenos da Cia Cerâmica e construíram suas casas. Meu avô paterno foi um deles, veio do Cambuci. No terreno, ele construiu 3 casas (mas daquelas bem improvisadas) para ele com minha avó, e as filhas já casadas e com filhos — um deles era eu.

De lá de casa eu avistava o “morrão”, onde havia muitos campos de futebol, suficientes para cada agremiação de várzea daquela parte do bairro. Atuavam no morrão: Portuguesa, Flamengo, Ouro Verde, Comercial. Mais tarde o “morrão” seria o Crematório de Vila Alpina e Cemitério São Pedro, previstos muitos anos antes. A gente não acreditava.

A infância onde tudo era campo

Para nós, moleques de rua, as dificuldades não eram tão sentidas, afinal nossas preocupações eram a de brincar o dia inteiro até escurecer, jogando bola, rodando pião, jogando bolinha de gude, empinando pipas (que também chamávamos de quadrado), brincar de pique, acusado, mãe da rua (essa era violenta…), unha na mula, maçaneta (jogo com tacos que recebia outras denominações em outros bairros)… Tomar banho? Não era algo tão relevante.

As meninas também tinham suas brincadeiras: pular corda, amarelinha, casinha, corre cipó, pique (que pronunciávamos “piques”)…

Havia uma espécie de calendário que determinava a época de cada brincadeira. Assim, nos meses de vento, a partir de julho, as pipas dominavam; antes, em junho, os balões, as lanternas feitas de lata de óleo; no início do ano, pião — e assim íamos… Já futebol era todos os dias em nosso campinho, quer realizando peladas com a nossa turma mesmo, ou jogando contra outras turmas do bairro, sempre descalços, vira 6, acaba 12… Mas para a realização dependia de termos a chamada “bola de capotão”, o que às vezes nenhum membro da turma tinha, e amargávamos férias futebolísticas, a não ser quando o adversário trazia a bola.

Existiam muitas turmas naquela região da Vila… muitas. Nós éramos da “Turma da Serragem”, porque nosso campinho ficava num terreno de uma serraria com serragem em toda a extensão e com uma certa altura, que lembrava até as dunas da cidade de Natal. Éramos bem pacatos, com time de fraco pra regular, mas cheios de garra. Outras turmas eram mais briguentas, como a da Padaria Amália e a Turma da Cananéia, ambas rivais.

A Padaria Amália era muito conhecida e virou referência no bairro, a tal ponto que, quando alguém que morasse próximo a ela era indagado onde morava, dizia: “Na padaria Amália” ou, para descer do ônibus, dizia ao motorista: “Descerei na padaria Amália”. Essa característica era muito comum de existir em bairros de São Paulo, sempre com uma referência comercial para facilitar o deslocamento e localização.

A festa junina da minha família

Na rua, ainda de terra, por ocasião das festas juninas, cada família fazia a sua festa com fogueira, canjica, pipoca e outras guloseimas, na véspera ou no dia de determinado santo junino. E todas as outras famílias participavam até a fogueira ficar em brasa para esperar as batatas-doces. A festa da nossa família acontecia sempre no dia de São Pedro, e a festa do dia 28 de junho de 1958 foi inesquecível para mim: o Brasil ganhara o campeonato mundial de futebol pela primeira vez nesse dia, na Suécia. Nunca vi tantos balões no ar, foguetório… Muita alegria do povo.

Essa convivência da rua se limitava a uma dimensão de um quarteirão. Lembro que nesse pedaço somente uma família possuía televisão, justamente do nosso lado. Claro que nós e muita gente éramos “televizinhos”. Aos domingos, os moleques iam assistir ao “Circo do Arrelia”, pelo canal 7, e logo após vinha a transmissão do futebol de partida do campeonato paulista. Daí vinham os rapazes mais velhos, na maioria palmeirenses, que se juntavam aos rapazes da casa, também palmeirenses. Nós, moleques, saíamos. Todos eles jogavam em um time lá do “morrão”, nos jogos de várzea que aconteciam aos domingos. Aliás, muitos jogadores profissionais saíram dos times lá do morro.

Eu gostava de acompanhar o Vasco da Gama da Vila Prudente, cujo campo não era no “morrão”, e sim onde hoje está situada a Igreja São Carlos de Borromeu, na Rua do Oratório, em direção à Rua do Orfanato. Meu tio me levou pra lá a primeira vez em um festival com o campo lotado, cada jogo melhor que o outro, com os times do morro participando. Fiquei extasiado com a atmosfera do evento. Eu lembro que os troféus aos times vencedores eram entregues num palanque, com erguimento, e o grito de vitória da agremiação sempre era o mesmo: “1, 2, 3… 4, 5… 6… 7, 8, 9… para 12 faltam 3… tchi bum bá… iu maracará… zum… zum… zum… rá… rá… rá!!” Uma festa que geralmente se estendia em “chopada” na sede do clube. O bicho-papão do bairro era o Búfalo, da fábrica de papel do mesmo nome.

O Vasco, embora não possuísse grande torcida, tinha um torcedor que era um espetáculo à parte. Seu grito de incentivo para o time era “Vamo Dibuiá!”, que ecoava por todo o campo. Os torcedores do barranco aplaudiam e até o apelidaram de Dibuiá. Grande figura.

Do pião à CEPAM: a vila que virou cidade

O curso primário eu fiz, como a maioria da molecada fez, no Grupo Escolar República do Paraguay, que existe até hoje, bem em frente à também antiga Biblioteca. À noite, se chamava Colégio Estadual Professor Américo de Moura (CEPAM), com curso ginasial, extremamente concorrido para os candidatos que vinham do curso de admissão. Era mais difícil que a Fuvest entrar para cursar o ginásio do estado. O curioso é que depois o colégio se mudou para a Vila Bela (subdistrito de Vila Prudente) e a sigla foi utilizada para denominação de uma padaria que hoje é a referência do bairro, talvez a maior da cidade e quiçá do Brasil: Padaria CEPAM.

Perto dela morei por alguns anos e meus filhos cresceram nessa região.

No terceiro ano do grupo, inconscientemente, fiz uma confusão danada na aula de religião, pois pensei que eu fosse de alguma religião evangélica, que o povo denominava como “crentes”, mas na verdade eu era católico, sem ter essa certeza e sem consultar previamente os meus pais. Havia aulas somente para os católicos e para os crentes. Então… eu ia às aulas dos crentes normalmente, embora estranhasse o pouco número de participantes. Um dia resolvi contar para os meus pais que, além da bronca que me deram, determinaram de forma incisiva que eu desfizesse toda essa encrenca. Minha professora, católica fervorosa, como toda a escola, vibrou de alegria quando falei que queria ser “convertido”. Fiquei até conhecido pela decisão. Um dia, sem eu esperar, perante toda a classe, ela trouxe o padre, que se dispôs a me batizar no próximo domingo. E o pior: que eu trouxesse meus pais para também serem batizados… Gelei!!… Pensei… O que vou dizer em casa?… E agora? Porém (e sempre tem um porém, como dizia Plínio Marcos), independentemente da religião, Deus me ajudou. Houve um recesso escolar e o assunto foi esvaindo, era final de ano, veio o quarto ano, outra professora. Fato marcante: nesse ano, um colega de classe, japonês, budista, recém-chegado do Japão, se converteu ao catolicismo… Eba!… Deixei de ser o único (só que ele não havia mentido…). No mesmo ano, fizemos primeira comunhão juntos na Igreja de Santo Emídio. A professora do terceiro ano me presenteou com um livro. Final feliz.

Na vila era comum aparecerem circos e parques de diversões em terreno em frente à Padaria Amália ou onde pudesse. Vi muitos acampamentos de ciganos nesses locais. Os mais velhos falavam para não chegarmos perto… Vinham também shows de artistas em início de carreira e também profissionais, como a “Caravana do Peru que Fala”, do Silvio Santos, ou a “Galera dos Bairros”, sempre em um dos 2 cinemas do bairro: Vila Prudente ou o Amazonas. Show de rua também acontecia com o “Sete Belo”, comediante da TV Record. Nesses shows, de vez em quando surgia umas briguinhas entre turmas rivais. Já políticos, em época de eleição, promoviam muitos shows. O Jânio Quadros sempre foi o preferido da rua.

Quando o asfalto chegou à nossa Vila

O bairro começava a se desenvolver e veio o asfalto. Começava a desenvolver. Nossas brincadeiras mudaram um pouco. Os carrinhos de rolemã (ou rolimã) entraram em cena, alguns moleques tinham bicicleta. As meninas andavam de patins. Jogar bolinha de gude só em terrenos isolados. Começaram construções de casas e sobrados. Rodar pião estava difícil. Carros começavam a passar pela rua em grande intensidade. Os moleques já estavam adolescentes e muitos começaram a trabalhar ou foram aprender ofício no Senai, e outros foram estudar. Minha família foi morar em Vila Salate, Penha.

Vila Prudente, sempre chamada de quintal da Mooca, principalmente pelos próprios mooquenses, crescia. Muitos anos se passaram para chegarem à conclusão de que a Ford ficava no bairro e não no Ipiranga (até a linha do trem é Vila Prudente). O crescimento vertical não tardou a chegar, inclusive na região do crematório se estabeleceu uma área nobre do bairro.

A Vila tornou-se centenária. Com muito prazer, eu, com os artistas Pipoquinha e Kakareko, participamos da festa alusiva à efeméride e o troféu representando o “Obelisco do Centenário” guardamos com muito carinho. Eu era o palhaço Xinxolim.

De repente, a Vila Prudente detém ótimos colégios, um jornal de grande circulação, dois shoppings, uma faculdade, estação de metrô. As famílias emergentes que sonhavam morar na Mooca ficaram na Vila. Há outras vilas famosas como Vila Zelina, Vila Ema, Vila Alpina, Vila Diva — todas pertencentes ao subdistrito Vila Prudente — que os moradores falam com muito orgulho, mas que, no fundo, todos são vilaprudentinos. Diferentemente dos bairros do Ipiranga e Mooca, cujos nomes vêm da língua tupi e mantêm uma forte relação com os moradores e com a cidade. Mas, por tudo, viva a Vila Prudente, bairro que realmente nos seduz.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Julio Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, coloque entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: da quermesse no Limão aos sabores da culinária dos imigrantes

Ligia Baruque

Ouvinte da CBN

Foto: Daniel Fucs Flickr

Meus pais se conheceram em São Paulo, no bairro do Limão, numa quermesse em 1950. Estranham a palavra quermesse? Sim, naquela época festa junina era chamada de quermesse !

Meu pai, descendente de libaneses,  era  de Monte Mór, interior de São Paulo.  Veio trabalhar na capital na primeira fábrica da Ford que começava a produção de caminhões na Barra Funda. Minha mãe, nascida em Bernardino de Campos, também do interior, trabalhava como tecelã numa fábrica têxtil, no Limão

A música que embalou o namoro e o casamento deles foi Três Apitos, de Noel Rosa, que começa com o verso: 

Quando o apito 

Da fábrica de tecidos

Vem ferir os meus ouvidos 

Eu me lembro de você…

Eu nasci no Limão, na casa da minha avó, na zona norte, e fui morar na Vila Prudente, na zona leste. Era onde ficava a fábrica da Ford, que acabara de ser construída, em 1953. Atualmente, no local tem o Shopping da Mooca.

Depois mudamos para Pinheiros, na zona oeste, próximo da Cidade Universitária, onde me formei em Farmácia e Bioquímica, no ano de 1982. A USP naquela época era aberta às pessoas que, assim como os carros e ônibus, entravam e saíam sem controle pelos portões. Hoje, em todas as entradas há guaritas e o acesso é restrito, facilitado apenas a quem trabalha ou estuda na universidade — sinal dos tempos.

Independentemente disso, a USP segue sendo o centro de estudos mais importante de São Paulo, uma referência de ensino para estudantes e professores de todas as partes do mundo.

Agora moro na Vila Mariana, na zona sul. 

Como podem perceber, vivi em todas as regiões, de leste a oeste, de norte a sul. Nos meus 60 anos de vida, acompanhei a despedida dos bondes da Consolação — fiz a última viagem de bonde com a minha avó. Assisti à chegada do metrô, a abertura de avenidas, o começo da construção do Minhocão, e o aumento no número de carros. 

Apesar de a cada dia o trânsito ficar pior, amo esta cidade, construída por imigrantes, que deixaram em cada espaço um pedacinho da sua cultura mesclada com a dos paulistanos. Uma mistura servida à mesa com sabores da culinária italiana, espanhola, alemã, indiana, judaica e, claro, com aqueles pratos da comida libanesa, que vieram juntos com os parentes de meu pai.

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Lígia Baruque é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.