Conte Sua História de São Paulo: na Paulista, o encontro do Duque e da Duquesa

 

Por Suely Schraner
Ouvinte da CBN

 

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Na avenida Paulista (foto da autora)

 

 

Duquesa, da avenida Paulista

 

Eu sou quem inspira cartaz
Um cartaz de amizade

 

Você é quem compra na loja de grifes
Na famosa avenida paulista

 

O principal centro financeiro
Daqui debaixo do equador

 

Meu céu,  a marquise
Ao lado,  a escadaria
– meu palácio de neon

 

A sociedade emblemática

 

No asfalto, ruídos vivos
Rua que não dorme jamais

 

No meu sono
Ouvidos alertas
Passos , buzinas
Sina
A vigília do porvir

 

Partilhar olhares, nossa miséria
Pobres ricos, ricos pobres

 

Duque (dux), o que me conduz
Duquesa, a mulher do duque
Aristocracia de asfalto

 

Ele e eu
Eu e ele

 

Engulo o latido

 

Vigília do porvir
Sentinela do nada

 

Nos reconhecemos
Eu e ele
Ele e eu

 

Suely Schraner é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série de aniversário da nossa cidade: escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: locais para conhecer

 

Por Paula Bueno

 

 

Nasci no bairro da Mooca, na década de 1970 e ainda muito menina nos mudamos para a zona norte da cidade, num condomínio de casas chamado Parque Residencial Santa Teresinha, com muita área verde e até um clube. O condomínio era totalmente murado com guaritas. Hoje, penso que a proposta era até muito moderna para a época. No fundo do condomínio tinha um córrego não canalizado. O engraçado é que para nós, crianças, aquilo era como se fosse o fim do mundo mesmo, o limite do planeta. Depois do muro tem o córrego e mais nada, acabou… Todo nosso universo se restringia aquelas ruas e a passar horas e horas brincando de esconde-esconde, pega-pega, barra manteiga, amarelinha e a andar de bicicleta.

 

Meus avós tinham ficado lá na Mooca e nós os visitávamos com muita frequência. Eu particularmente adorava quando ficávamos para o jantar, pois assim só voltaríamos para casa à noite o que significava que eu ia poder ver as luzes da cidade! Eu amava ficar olhando pela janela do carro de papai as luzes dos postes e a iluminação dos prédios, pontes, construções e outdoors (que eram permitidos). Meu momento favorito era passar na Av. Tiradentes e avistar o imenso lustre da Pinacoteca aceso (hoje infelizmente ele não fica mais).

 

Então fui estudar no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e uma das disciplinas era História da Arquitetura. Tornei-me uma aluna assídua, daquelas que não cede a carteira na primeira fila nem para a melhor amiga! O professor trazia muitas fotos e a descrição detalhada de pontos inimagináveis da cidade com uma riqueza arquitetônica incrível e que infelizmente na maioria das vezes nem nos damos conta, passando por esses pontos sem saber de sua história e sem ao menos enxergá-los, como o Castelinho da Brigadeiro, o Solar da Marquesa de Santos ou o Edifício Martinelli.

 

Uma ocasião, eu já era moça, tive a oportunidade de fazer uma viagem para Buenos Aires. Passamos cinco dias conhecendo a capital, percorrendo suas ruas, observando a arquitetura, a cultura, a gastronomia, os museus, lojas e pontos turísticos. De volta a São Paulo me perguntei: “Por que pagamos para conhecermos a cidade dos outros e não conhecemos a nossa?” Naquele momento me dei conta que gastamos fortunas para conhecermos os principais pontos turísticos de Buenos Aires, Montevideo, Nova York ou Paris sem antes termos dado uma única volta no Parque do Ibirapuera ou ter entrado no MASP.

 

Então comecei a fazer listas de locais em São Paulo com o status: para conhecer! E todos os anos passei a reservar alguns dias das minhas férias para esses passeios.

 

Alguns foram muito marcantes. O pavilhão japonês no parque do Ibirapuera, por exemplo, foi uma grata surpresa. Estávamos andando a esmo pelo parque quando avistamos a construção, entramos e uau! Que lindo! O Museu do Imigrante que me emocionou profundamente quando vi pela primeira vez uma réplica do quadro de Bertha Worms – Saudades de Nápoles. A festa de Nossa Senhora Achiropita, onde além das barraquinhas havia na garagem de uma casa, logo no início da rua, o melhor macarrão com porpeta que já comi na minha vida (com perdão da minha avó). A escultura de Willian Zadig – O Beijo Eterno, localizada no largo São Francisco e que já ficou guardada nos depósitos da prefeitura por mais de dez anos por ser considerada imoral. Subir a 23 de Maio a pé, isso mesmo, a pé, no aniversário de 450 anos da cidade. Foi Incrível! Ou passar um réveillon na Paulista com um mar de gente pra todo lado onde mal se consegue respirar, mas mesmo assim você não quer ir embora!

 

Quando adulta fui trabalhar com hotelaria, o que me permitiu viajar bastante e conhecer lugares incríveis, mas o sentimento de casa, de estar em casa, aquele suspiro que se dá ao sentir um calor gostoso como se fosse um abraço apertado não sai do meu coração quando ponho os pés na área de desembarque do aeroporto da minha amada São Paulo.

 

Paula Bueno é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: lembranças de Natal!

 

Por Miguel Chammas
Ouvinte da CBN

 

 

Estamos às vésperas do Natal. A festa em homenagem ao menino Jesus congrega corações, abraça almas fraternas, umedece faces com gotas de lágrimas que por elas rolam, alarga sorrisos de uma perene ou efêmera alegria. Eu, sorumbático no meu quase ostracismo, vejo as horas passarem e busco na lembrança, um tanto ou quanto esmaecida pelo passar dos anos, flashes de Natais anteriores.

 

Primeira lembrança que me vem à mente, eu evito permitir que ela se instale. Fecho os olhos na tentativa de esquecê-la e parece que meu intento tem êxito. Balanço a cabeça para reordenar os pensamentos e nova lembrança me ocorre, procuro não me distrair e a imagem se aproxima, vejo a velha casa da Rua Augusta, 291, em São Paulo, vejo nós, as crianças da casa (eu, meu irmão, meu primo e minha prima), eufóricos, ajudando minha mãe na ornamentação de um enorme pinheiro que meu pai havia trazido dias antes e replantado numa velha lata de óleo de 18 litros. Lógico que junto com a algazarra algumas broncas estão sendo proferidas por dona Thereza:

 

– Miguelzinho, para de cutucar a Sonia pra não derrubar a árvore;

 

– Carlinhos, olha o que você fez. Quebrou algumas das bolas mais bonitas. Acho que vou te colocar de castigo!

 

– Sonia, não liga para o Miguel e me ajuda com esta estrela;

 

– Robertinho, não vá pisar nos caquinhos e se machucar!

 

No meio de todo esse repertório de “pitos” vai surgindo, no canto da enorme sala, uma das mais bonitas árvores de Natal que eu tive o prazer de admirar.

 

Todos os dias era uma beleza poder acender as lampadinhas em forma de velinhas e admirar a obra prima.

 

Depois, então, na véspera do Natal, rezávamos e à meia noite, minha mãe e minhas tias serviam a ceia que esfomeados comíamos na companhia de um refrigerante para, depois, irmos dormir e esperar a manhã seguinte para descobrirmos nossos presentes e completarmos nossa felicidade.

 

Opa, a lembrança vai se desbotando em minha mente até sumir, ou melhor, dar lugar a outra memória natalina.

 

Agora eu estou mais velho, já tenho 18 anos, a casa é a mesma na Rua Augusta, reunidos na sala com minha mãe e minha tia Neide, estamos eu, o Nasca e meus amigos, Toninho, o Leite, Francisco “21”, Toninho Tssu, Sílvio, o Xiribi, Aluisio, o Tchê, e Benedito, o Baixinho. Estamos nos despedindo para, como dizíamos na época, fazer a Via Sacra, visitando a casa de cada um de nós e de alguns outros parentes e amigos, comendo alguma coisa e, lógico, bebendo boas talagadas do que nos fosse oferecido.

 

Despedimos-nos prometendo voltar um pouco antes da meia noite. Era o primeiro ano que faríamos a Via Sacra motorizados. O seu Modesto (pai do Leite) havia comprado um carro — Vanguard — e o Toninho já tinha tirado a carta de motorista. Saímos, visitamos a todos os programados, deixando por última visita a casa da Eurides, que morava na Rua da Consolação um pouco acima da Rua Dona Antonia de Queiroz, e consequentemente, bem próximo da minha casa que seria a última desse roteiro, onde cearíamos e depois jogaríamos a tômbola até o romper do sol.

 

Saímos da casa da Eurides, entramos no carro, dobramos a direita na Rua Dona Antonia de Queiroz e nos dirigimos à minha casa. Quando, depois de aguardar o semáforo mudar para o verde, entramos à esquerda na Rua Augusta, o insólito aconteceu. Um Volvo preto, dirigido por um motorista bastante embriagado nos abalroou na lateral e nos arremessou para cima da calçada. Depois de nos recompormos, verificando não haver nenhuma vítima, apenas danos materiais, partimos para cima do bebum e lhe desferimos alguns tapas e safanões.

 

Resumo da história, ficamos aguardando o sol nascer sem ceia e abraços da família e, só nos safamos, por que eu morava bem próximo a 4ª. Delegacia de Polícia e conhecia alguns policiais do plantão.

 

Noite de Natal inesquecível!

 

Epa! A primeira lembrança voltou a incomodar. Tento evitá-la novamente, em vão, ela toma conta dos meus pensamentos. Dia 25 de Dezembro de 1997, estou na casa da Roseli minha prima. Com toda a família, na sala estávamos comemorando desde a véspera. Eu tinha saído de casa, na Praia Grande, no dia 24 ,deixando por lá, minha mãe, meu irmão e meu sobrinho. Antes de sair, ao me despedir dela ouvi seu resmungado: “acho que eu não vou te ver de novo…”. Embora o comentário calar profundamente, para não demonstrar tristeza, me fiz bravo com ela e disse que não adiantava tentar chantagem emocional, eu iria voltar no dia 25 à noite e encontrá-la no mesmo lugar, me perturbando como sempre.

 

Já tínhamos almoçado e estávamos nos divertindo jogando partidas emocionantes de Caxetão. Ouço, então, o telefone tocar na sala. Não me importo. Minutos depois, olho para a porta da cozinha — estávamos jogando na mesa do quintal — e vejo a Cida minha esposa, meio escondida atrás da porta, tentando fazer sinais para o meu primo Durval. Senti uma inesperada inquietação e disse: Cida, não precisa se ocultar, foi minha mãe não foi? Ela, emocionada balançou a cabeça e confirmou: — o Carlinhos acabou de ligar dizendo que ela faleceu.

 

Levantei-me de imediato e me preparei para descer a serra. O Durval, vendo minha imediata decisão, se prontificou a levar-me, e assim, fui ao encontro do inevitável. Esta, que eu me lembre, foi a única vez que não cumpri o que havia prometido a Dona Thereza. Não voltei para encontrá-la viva para me perturbar.

 

Esta lembrança, que eu não queria descrever, eu revivo a cada dia 25 de Dezembro até a hora do futuro reencontro.

 

Miguel Chammas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: resta agradecer por tantos que acolheu

 

Por Marcia Lourenço
Ouvinte da CBN

 

 

Minha Cidade

 

Parabéns minha cidade,
Cidade em que nasci,
Que abriga tanta gente,
Perto..longe..logo ali. 

 

Da garoa és chamada
Uns, selva de pedra até, 
Mas cabe dizer também, 
Que és trabalho, amor e fé.

 

Terra que gera riquezas
Do trabalho aliada.
És constante em prosseguir 
Numa infinita jornada.

 

O progresso tem seu preço,
Muita coisa se perdeu, 
Resta agradecer ó terra,
Por tantos que acolheu. 

 

Do norte, nordeste ao sul,
Do grande chão brasileiro,
Abriu as portas enfim ,  
A povos do mundo inteiro.

 

Deixo aqui o meu carinho,
Em forma de oração:
Deus abençoe São Paulo 
Do fundo do coração.❤

 

Marcia Ap. Lourenço da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série especial de aniversário da cidade: escreva seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o cavalo do sorveteiro da Pompeia

 

Por Marcello Pizo
Ouvinte da CBN

 

 

Falta meia dúzia de anos para meio século. Isso não me faz tão velho assim, porém sou chamado diariamente de tio e, às vezes, me lembro de umas coisas que me fazem sentir o peso de ser de outro milênio. O sorvete é uma dessas lembranças da minha antiguidade.

 

Quando garoto, costumava tomar um sorvete que era vendido nas feiras livres e também de porta em porta, nas ruas da Pompéia. O vendedor era um senhor que andava numa carroça pintada de vermelho e branco, puxada por um cavalo marrom. Ele vendia sorvete de dois sabores somente: limão e morango. Geralmente ficava numa das extremidades da feira durante todo tempo que as barracas estavam montadas. Nos outros dias e horários, ele saía com a charretinha e tocava uma buzina prateada, que brilhava muito e anunciava a aproximação daquela guloseima tão especial.

 

— “Mãe, é o sorveteiro do cavalo, corre.”

 

Minha mãe sempre cedia aos meus pedidos, exceto quando as amígdalas me impediam de tomar gelado – aliás, até hoje não entendo o por que daquele lenço velho empapado de álcool no meu pescoço, quando a garganta atacava. Ela também era fascinada por aquele som de buzina e contava sempre que quando garota, o meu avô comprava para ela o sorvete vendido pelo pai do mesmo sorveteiro nas ruas de Higienópolis.

 

Será que o cavalo também era filho do cavalo antecessor?

 

A cada comprador ele descia da charrete, se dirigia para a parte posterior onde ficavam os apetrechos e perguntava se era morango, limão ou misto. Pegava a casquinha e com uma habilidade inimaginável para aquelas mãos tão rústicas, manuseava uma faca de mesa que preenchia a casquinha de biscoito com o sabor escolhido. Só vi algo parecido com o seu método de servir muitos anos depois, quando a Parmalat se instalou na esquina da Sumaré com a Aimberê, nos tempos que os palmeirenses eram felizes. As atendentes usavam umas pás para servir o sorvete, igualzinho ele fazia com aquela faquinha herdada do pai.

 

Quando ele parava próximo às feiras, ficava de plantão atrás da boléia esperando os fregueses. Nessas situações, o cavalo ficava sempre em três patas – não que ele fosse portador de necessidades especiais, mas preste atenção: todo cavalo quando “estacionado” alterna uma das patas para ficar suspensa. O mais incrível é que esses eqüinos têm um temporizador melhor que qualquer cronômetro de Fórmula 1, trocando a pata suspensa por outra mais cansada, com uma precisão cavalar. Andei ruminando uma explicação e acho que a contagem deles é feita pela mastigação…

 

Ainda falando do cavalo ( ou seria uma égua?) era comum ver o carroceiro dando as casquinhas de sorvete defeituosas para o equino como guloseimas carinhosas. Hoje em dia choveriam denúncias nas redes sociais contra a alimentação inadequada para o bicho, dos perigos da poluição para os pulmões do quadrúpede, além de algum vereador desocupado fazer uma lei para a coleta do estrume em sacos recicláveis. O mundo politicamente incorreto era menos estressante.

 

Marcello Pizo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: o relógio perdido no Parque do Ibirapuera

 

Por Marina Zarvos Ramos de Oliveira
Ouvinte da CBN

 

 

Minhas mais remotas memórias confundem-se com dois marcos de São Paulo: o Parque Ibirapuera e a Avenida Paulista.

 

O Parque e eu: ambos nascemos em 1954. Ele em agosto, eu em maio. Eu no interior, ele no coração da capital paulista. Nos encontramos em nossa primeira primavera. Eu, bebê de colo, não ousava ainda os primeiros passos; ele, verdinho em folha, ostentava já as primeiras flores.

 

À época, conta-se que as senhoras vestiam suas melhores roupas para circular no recém-inaugurado espaço paulistano, onde Niemeyer se apresentava em todo seu esplendor em cada linha, em cada curva do trajeto… e no qual o lago completava o ar bucólico.

 

O relógio marca o tempo que passa. Um relógio nos une.

 

Cresci ouvindo a história do passeio com minha mãe numa manhã de dezembro de 1954. Ela — quem sabe atenta comigo, quem sabe distraída com a beleza do parque — perde seu relógio de pulso, ganho dias antes. Uma das muitas histórias ao longo desses 63 anos.

 

Anualmente, minha família vinha à capital e o passeio pelo Parque era obrigatório. Obrigatória também era a visita ao nosso tio e patriarca da família. Tio reverenciado por ter vencido os desafios da imigração — da leva de imigrantes do início do século 20 — e “feito a América”, literalmente. Tio Nicolau trabalhou na estrada de ferro Noroeste; vendeu jornal; comercializou café e algodão. Acabou se tornando um dos mais respeitados e influentes homens da República e conhecido como ”Rei do Café”, nas décadas de 1930/1940, conquistando o direito de privar da amizade e da vizinhança de outro imigrante célebre: Francisco Matarazzo.

 

Pois bem, lá íamos nós, vestidos com nossas melhores roupas, percorrer a elegante Avenida Paulista, com seus casarões dos livros de histórias da nossa infância. Programa repetido por uma década.

 

Nos anos de 1960, mudamo-nos para a capital e o anual virou habitual. Passamos a frequentar o parque e a avenida.

 

Parque e eu em fase de adolescência. Barquinhos deslizavam no lago, pessoas remavam em divertidos passeios, num cenário que se transformava ao cair da tarde… carros ao redor do lago, casais apaixonados e… polícia rondando.

 

A Avenida Paulista, adulta imponente vinda lá do século 19, já aprendia, àquela altura, a ser mais democrática. A São Silvestre, a Fundação Casper Líbero, o MASP são testemunhas de tal transformação.

 

Avancemos o relógio do tempo: década de 1970/80 /90.

 

No Parque, carros circulam livremente, disputando espaço com as bicicletas — a maioria alugada do Maisena. A sede da prefeitura é transferida para o Palácio do Comércio, dando mais espaço aos frequentadores, entre eles meus filhos, que cresceram nesse agradável quintal, próximo de casa. O lago vai, pouco a pouco, perdendo a alegria. Somem os peixes. Desaparecem os barquinhos. O perfume da grama e das flores começa a se misturar com um odor desagradável.

 

Na Avenida-símbolo, brotam os conhecidos “espigões da Paulista”, que se alastram regados pela fúria do progresso e passam a compor o “high line” da cidade.

 

Avançando… virada do novo século. Virada de fase.

 

O povo ocupa o espaço, outrora privilégio da minoria aristocrática. A Paulista ganha metrô, vira palco das grandes festas, comemorações, manifestações políticas, paradas Gay… acolhendo a diversidade de povos e pessoas, de causas e ideais. É a centenária e aristocrática avenida abraçando, definitivamente, a democracia. E assim se une ao meu contemporâneo e sempre democrático Ibirapuera, que se faz, hoje, ponto de encontro para as muitas caminhadas cívicas até a Paulista.

 

O Ibirapuera continua seu destino de espaço aberto a atletas e personal trainers, bebês e babás, famílias e pets, idosos e seus cuidadores. Idosos com suas lembranças recentes se desvanecendo… as memórias remotas vivas, vivíssimas… assim como as de minha mãe que até o fim insistia em encontrar o relógio ali perdido.

 

O relógio e seu tiquetaquear incessante.

 

Marca do tempo que passa, marca de lembranças que não passam, marca do progresso que transforma nossas vidas e a cidade.

 

Marina Zarvos Ramos de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capitulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias de São Paulo, viste agora o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a porta secreta da fábrica de chocolate

 

Eder Ziliotto
Ouvinte da CBN

 

 

São Paulo, 11 de março de 1959
Nasci! 
Rua Jackson de Figueiredo, 49
Bairro da Aclimação, Sampa

 

Sobradão delicioso de morar naquela rua gostosa. Escada de madeira e estuque no piso superior. A casa, à noite, gemia. A rua parecia mais uma vila mas com casas grandes e onde jogava-se bola descalço no paralelepípedo com a molecada do bairro, que ali eu trazia. Minha sorte é que eu tinha oito vizinhas garotas, duas em cada uma das quatro casas mais próximas. Até hoje não sei porque não me formei médico pois com elas brincava deliciosamente nessa prática ingênua sempre que me cansava das brincadeiras com os moleques. Não sei por que eu era tanto invejado por eles. Mas só eu tinha essa manha com as quatro mães das meninas.

 

Comprar na venda do Seu Izidro com caderneta era status. Tínhamos um arsenal de brincadeiras de rua que me deixava louco: peão, bola de gude, mãe da lata, fabricar maranhão, bilboquê, bafo, chiniquero livre 123, carrinho de rolimã, que a gente construía pra descer a Batista do Carmo … Ler gibi, também. A minha rua era um parque de diversões. Às vezes conseguíamos um exemplar usado de revistas de adultos com o homem da carroça trocando por algo que ele precisava, daí íamos dar risada nos fundos da sapataria do seu João, na minha rua mesmo.

 

Tínhamos uma redondeza de dar inveja. O quarteirão da caixa dágua com uma quadra de futebol; a quadra da Igreja Nossa Senhora Margarida Maria, na Lins de Vasconcelos; os espaços públicos do Parque da Aclimação a 800 metros dali; o cemitério da Lacerda Franco; a fábrica de chocolates da Basílio da Cunha; e até o Museu do Ipiranga, bastando descer de bicicleta insanamente a ladeira Coronel Diogo. Como ninguém morreu lá? Até hoje me pergunto. Éramos um pequeno bando de uns sete garotos entre sete e 10 anos de idade. Uma ganguezinha.

 

Tínhamos códigos para todas as atividades a qualquer momento do dia.

 

Entre aos 4h30 e 5h da manhã um dos integrantes da turma assobiava da janela do quarto — um fofiufofiu agudo — organizando a aventura. Saíamos sem nossos pais perceberem a essa hora e voltávamos geralmente antes das 6h30 direto pra baixo das cobertas, antes do dia começar.

 

Entre as “aprontações” tínhamos visitas à fábrica de chocolate por portas secretas; subíamos no topo da caixa d’agua sem permissão, eram mais de 30 metros de altura; entrávamos e saíamos do cemitério por acessos escondidos, só pra curtir o pavor e ouvir gemidos do além; no parque, a diversão era a pescaria proibida e, às vezes, entrar na água ou pegar um dos barquinhos de madeira que ainda existiam, só pela provocação; e, logicamente, na igreja, pra tentar fuçar no que não podia na sacristia e jogar bola quando o padre deixava ou não via. 

 

Do “Colégio 7 de Setembro”, na Lins de Vasconcelos, guardo lembranças preciosas de desfilar vários anos por aquela avenida, nas datas comemorativas tocando repique na fanfarra. Fui bicampeão com o colégio nessa modalidade pela mãos do maestro, o senhor Virgílio. Uma ocasião enganei meu pai na nota de uma prova e proibido de ir aos ensaios me arrisquei. Voltei pela orelha, do pátio do colégio até minha casa. Não teve surra, mas o vexame foi o suficiente.

 

Noutro dia numa mega festa do colégio, eu presenciei uma cena arrebatadora. Aguardávamos os ídolos da jovem guarda e eis que vejo com aqueles meus pequeninos olhos, de oito ou nove anos, na porta do colégio, saltarem de um  Cadillac conversível nada mais nada menos do que Roberto Carlos, Wanderleia e Erasmo Carlos. Eu lembro de ter tocado neles. Eles estavam se tornando estrelas na época.

 

Com 12 anos, ajudava meu pai no escritório, na rua São Francisco, no centro. Ia de ônibus elétrico CMTC, sozinho, da Margarida Maria até a Líbero Badaró ou a Praça da Sé — uma aventura, pelo menos duas vezes por semana. Conheci cada palmo  do centro de São Paulo e tinha um amigo que, desde pequeno, já era maestro e sua mãe nos levava na temporada lírica do Municipal. Eram duas atrações mágicas: as óperas e as visitas ao Mappin, naqueles elevadores estilo Bloomingdales.

 

E o bonde para Santo Amaro? Inesquecível! Visitávamos sempre tia Mariquinha a irmã rica e mais velha de meu pai que morava num palácio, na frente do Borba Gato, num quarteirão só dela, com meu tio, o amigão do Juscelino Kubitschek. 

 

Mas o que quero contar mesmo é que eu nunca tive medo de andar sozinho desde pequeno na cidade de São Paulo. Ela sempre foi minha amiga. Eu nunca presenciei ou sofri até hoje nenhuma violência nesta cidade que é uma das mais violentas do mundo. Eu só quero agradecer essa mãe  querida de quase 500 anos por me respeitar como cidadão; e desejo, e apenas quero, retribuir esse carinho.

 

Parabéns Sampa querida.

 

Eder Spencer Quinto Ziliotto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias, visite agora o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o paulistano que nasceu em Santos

 

Por Silvio Henrique Martins
Ouvinte da CBN

 

 

Eu nasci em 1962, na cidade de Santos, litoral do estado de São Paulo, distante cerca de 90 Km da capital São Paulo. Quando criança e pré-adolescente, toda vez que meu pai falava sobre “ir para São Paulo” era um forte momento de angústia, pois, tanto a Estrada Velha de Santos, quanto a Rodovia Anchieta, eram, para mim, sinônimos de perigo e muito medo. A cada curva, uma oração. Se a viagem ocorria na noite, então eram cinco orações por curva; se com neblina e chuva, as orações eram incontáveis.

 

Nesses tempos, dos anos 1970, não tinha noção da importância e imensidão de São Paulo. Apenas sabia que era a capital e que sua rodoviária era belíssima aos meus olhos. Aqueles losangos coloridos em estruturas tubulares eram para mim o máximo em arquitetura futurista, daquelas de filmes de ficção científica, minha preferência no gênero até hoje.

 

Eu me recordo de um chafariz gigante em formato semelhante ao um troféu, no interior da rodoviária. Havia flores e muitas cores. Essa visão compensava o sofrimento das curvas que separavam nossas cidades.

 

Aliás, antes de chegar na rodoviária, um percurso de glamour pelas avenidas centrais, com direito a contemplar as edificações modernas à época, como o edifício Louvre, o Itália e o Copan. Sem contar o lindo relógio no alto do edifício ao final da Consolação, na Major Quedinho, onde as minhas lembranças me levam a imagem da marca do jornal Diário Popular, um que meu pai lia, tanto quanto A Tribuna, de Santos. Eu achava o máximo saber que estava passando em frente à sede do Diário Popular. O que era aquela avenida São Luis? E as avenidas Rio Branco, Ipiranga e São João? Meus olhos sempre brilhavam desde a entrada em São Paulo até a chegada na sua rodoviária, nesses momentos o encantamento tomava o espaço da inquietude da estrada.

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Conte Sua História de São Paulo: a matraca do homem que vendia biju

 

Por Esperança Maria Domingos
Ouvinte da CBN

 

 

Cheguei a São Paulo no ano de 1949 vinda de Belo Horizonte, cidade em que nasci. Fui trazida pela minha mãe, que havia chegado à capital paulista alguns anos antes para trabalhar. A viagem de Belo Horizonte para São Paulo foi longa. Naquele tempo, o trajeto era feito de trem, e havia várias baldeações ao longo da viagem. O trem saía de Belo Horizonte com destino ao Rio de Janeiro, por isso era necessário descer e tomar outro trem com destino a São Paulo.

 

Desembarquei no dia 20 de fevereiro e três dias depois completaria onze anos. A cidade encantava, tudo me parecia lindo, uma “aparente” organização, “aparente” limpeza; digo aparente, pois com o tempo e à medida que eu crescia fui percebendo que a cidade já tinha seus problemas, que mais tarde se tornariam muito complexos, mas naquele tempo, eu ainda muito
jovem, a imagem primeira da cidade me deixou maravilhada.

 

O bonde era uma viagem gostosa, o clima era mais agradável e não nos deparávamos tanto com os problemas de enchentes e bairros inundados, bom pelo menos essas não eram as notícias que mais circulavam na imprensa como ocorre hoje em dia; outra coisa me deixou estupefata, “boquiaberta” foi o túnel Nove de Julho, a imensidão, o movimento dos carros.

 

Em seguida, aos poucos, fui descobrindo as matinês no Cine Metro, para assistir aos desenhos da Disney, como a Branca de Neve.

 

Fui estudar no Grupo Escolar do bairro do Brooklin Paulista, com professores, que se dedicavam com empenho ao seu trabalho de educadores … não há como não sentir alguma nostalgia do meu tempo, no que diz respeito à questão do sistema educacional.

 

Era uma vida mais tranqüila, mesmo com pouco dinheiro podíamos viver com alguma dignidade, andávamos sem medo e com alguma liberdade. Creio ter conhecido o lado melhor da cidade de São Paulo, uma metrópole que inspirava sonhos.

 

Os passeios em São Paulo eram divertidos e guardo muitas recordações e lembranças afetivas. Eu ainda consigo ver e ouvir o homem que tocava matraca anunciando o biju.

 

Aqui em São Paulo casei, morei em vários bairros da zona sul à zona norte, e três dos meus cinco filhos nasceram paulistanos.

 


Esperança Maria Domingos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para milton@cbn.com.br