Conte Sua História de São Paulo: o paulistano que nasceu em Santos

 

Por Silvio Henrique Martins
Ouvinte da CBN

 

 

Eu nasci em 1962, na cidade de Santos, litoral do estado de São Paulo, distante cerca de 90 Km da capital São Paulo. Quando criança e pré-adolescente, toda vez que meu pai falava sobre “ir para São Paulo” era um forte momento de angústia, pois, tanto a Estrada Velha de Santos, quanto a Rodovia Anchieta, eram, para mim, sinônimos de perigo e muito medo. A cada curva, uma oração. Se a viagem ocorria na noite, então eram cinco orações por curva; se com neblina e chuva, as orações eram incontáveis.

 

Nesses tempos, dos anos 1970, não tinha noção da importância e imensidão de São Paulo. Apenas sabia que era a capital e que sua rodoviária era belíssima aos meus olhos. Aqueles losangos coloridos em estruturas tubulares eram para mim o máximo em arquitetura futurista, daquelas de filmes de ficção científica, minha preferência no gênero até hoje.

 

Eu me recordo de um chafariz gigante em formato semelhante ao um troféu, no interior da rodoviária. Havia flores e muitas cores. Essa visão compensava o sofrimento das curvas que separavam nossas cidades.

 

Aliás, antes de chegar na rodoviária, um percurso de glamour pelas avenidas centrais, com direito a contemplar as edificações modernas à época, como o edifício Louvre, o Itália e o Copan. Sem contar o lindo relógio no alto do edifício ao final da Consolação, na Major Quedinho, onde as minhas lembranças me levam a imagem da marca do jornal Diário Popular, um que meu pai lia, tanto quanto A Tribuna, de Santos. Eu achava o máximo saber que estava passando em frente à sede do Diário Popular. O que era aquela avenida São Luis? E as avenidas Rio Branco, Ipiranga e São João? Meus olhos sempre brilhavam desde a entrada em São Paulo até a chegada na sua rodoviária, nesses momentos o encantamento tomava o espaço da inquietude da estrada.

 

O tempo foi passando. Durante minha juventude, era sinônimo de status algum colega dizer que ia ou tinha ido a São Paulo. Seja para compras, lazer ou trabalho.

 

Apesar dessa admiração, meu coração Santista nunca colocou o objetivo de morar e viver em São Paulo. Para mim, Santos era tudo. Minha casa. Cidade da minha família e de todos os meus amigos.

 

Contudo, o destino me levou para São Paulo.

 

No início dos anos 1980 passei no vestibular da então FASP – Faculdades Associadas de São Paulo, no curso de Ciências Contábeis, com ênfase em Análise de Sistemas. O primeiro curso superior no Brasil, reconhecido pelo MEC, com o foco no desconhecido mundo dos sistemas de computador. Um mercado promissor, formando profissionais de finanças e administração especialistas para os desafios da então revolução da informática.

 

Quando iniciei meus estudos, ainda trabalhava em Santos. Assim, subia e descia a serra diariamente. O sobe desce de serra já era tão corriqueiro que nem mais medo oferecia, além disso, eu havia me rendido ao gosto pelo metrô, outra modernidade desta capital. No meio de tanta gente para lá e para cá, eu me sentia parte do avesso do avesso do avesso do avesso.

 

Contudo, era muito cansativo esse sobe e desce noturno e, assim, antes do final do primeiro semestre, havia me tornado um morador de São Paulo, ao menos de segunda à sexta, devido a uma transferência do trabalho de Santos para a Capital.

 

Aos poucos o meu tempo em São Paulo estava ficando maior que o tempo em Santos. Aliás, já me sentia como uma visita quando passava os finais de semana junto dos meus pais.

 

Em meados de 1983 ganhei um dos dois mais lindos presentes que São Paulo me deu. Conheci uma pessoa maravilhosa, linda, inteligente, guerreira… a paixão foi inevitável. Os meus olhos brilhavam quando a encontrava. E ligeiro, paulista, como quem sabe que quer, perguntei: “quer namorar comigo?” Sempre entendi o que os romancistas citam como amor à primeira vista. Mais do que isso, tive o privilégio dela não resistir aos meus olhos e cabelos castanhos, embora ela sempre achou que um santista deveria ter cabelo aloirado pelo sol e ser mais tostado do que o meu branco mel daquele tempo.

 

Na Páscoa de 1984 ficamos noivos e, em junho de 1985, nos casamos em Santos. Eu iniciava uma nova vida e em uma nova morada e em que cidade? São Paulo.

 

São Paulo, admirada, porém nunca desejada para ser minha morada. Mas, não é por acaso que hoje na porta de minha casa em São Paulo, há um quadro escrito em polonês “Dom twój jest tam gdzie serce twoje”, “Sua casa é onde seu coração está”.

 

Assim mesmo, nos primeiros meses, o plano de voltar para a Santos ainda era forte. Eu, a esposa, então em início de gravidez, descíamos a serra procurando um lugar para morar na praia. Afinal naquele difícil início de casados, morávamos de aluguel.

 

Em abril de 1986, São Paulo me presenteou com o segundo lindo presente. Nasceu a minha filhota. Super linda, uma fofura de neném que se transformou numa mulher de fibra, forte. Destemida, herdou da sua mãe e do sangue do seu avô materno a mesma eficiência e coragem dos históricos guerreiros poloneses. Mais do que um orgulho, um sentido para a minha vida.

 

São Paulo, esta cidade linda, foi muito generosa comigo. Ela ainda me concedeu outros importantes presentes. Ganhei trabalho em várias empresas de grande porte, daquelas que eu lia, no início dos anos 1980 com grande admiração na extinta Gazeta Mercantil. Eu ganhei vários amigos, daqueles que a Bíblia, no livro Eclesiástico 6:14 registra: “Um amigo fiel é uma poderosa proteção, quem o achou, descobriu um tesouro”.

 

Eu demorei para chamar São Paulo de minha realidade, apesar dos presentes, mas ainda sentia no coração a vontade de pisar nas areias das praias e sentir o vento que sopra do mar.

 

Mas, hoje, quando ando pela Avenida Paulista, lembro da voz de Jane Duboc cantando, “na Paulista, os faróis já vão abrir e um milhão de estrelas prontas para invadir os jardins…” Ao caminhar pelo Centro de São Paulo, o trecho da Sinfonia Paulista ganha vida, pois de fato a cidade não desperta, apenas acerta a sua posição.

 

Adoro subir no topo do Martinelli, do Copan, do Altino Arantes, do Itália. Fico horas deslumbrando seus prédios, imaginando os sonhos que cada um está tendo ao caminhar e naquele apartamento, mencionado por Rita Lee, “perdido na cidade onde alguém está tentando acreditar que as coisas vão melhorar…”

 

São Paulo me deu muitas alegrias, tornou-se a minha morada, modificou e deu sentido à minha vida. Esta cidade me acolheu como todos os migrantes que vieram atrás de sonhos. Embora, comigo, foram os sonhos que vieram atrás de mim.

 

E quanto a voltar a morar em Santos? Bom, Santos está tão perto. Estou sempre lá. Agora como turista, um autêntico farofeiro paulistano.

 

Silvio Henrique Martins é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para ouvir a sua história na CBN, envie seu texto para milton@cbn.com.br

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