Conte Sua História de SP: a controvérsia na poesia da nossa cidade

 

Por Gercyvania Lucia Fernandes Lima

 

 

Como uma boa paulista paraíbana, minha homenagem a esta linda e rica cidade que me acolheu e me ofereceu o de melhor e pior, onde vivo sorrio, canto e encanto, minha história contarei em versos, pois em todas controvérsias encontradas, nunca desistirei desta linda São Paulo que hoje com orgulho a chamo de minha Cidade!

 

São Paulo Controvérsia

 

São Paulo é assim,
Onde se vive,
Onde se deixa de viver,
Cidade que não para,
Não para de crescer.

 

Cidade dos sonhos,
Sonhos dos desiludidos,
Desilusão dos que sonham,
Dos que dormem e não acordam,
Dos que simplesmente não dormem.

 

Cidade dos que vivem sem tempo,
Dos que não tem tempo para viver,
Dos que esperam para ir,
Dos que são empurrados para vir.

 

Cidade de idas e vindas,
Dos que buscam a felicidade,
Dos felizes que buscam,
Dos que procuram o encontro,
Dos que encontram o que procuram.

 

Cidade dos que foram encontrados perdidos,
E dos perdidos que foram encontrados,
Dos que sabem o que procuram,
Dos que procuram o SABER.

 

Mesmo na controvérsia,
Da cidade dos que não mais procuram,
Dos que não sabem mais o que buscam,
Em que nos desencontros encontrados,
Foram perdidos, foram achados.

 

Mesmo na controvérsia,
Não mais sabem qual a felicidade,
De se viver nessa cidade.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no programa CBN SP e tem a sonorização do Cláudio Antonio

Conte Sua História de SP: o nhoque recheado que reuniu amigos em volta da mesa

 

Por Valmir Basso
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Definir um conteúdo pressupõe saber, antes de qualquer coisa, a origem, o início, o princípio daquilo que se envolve, ou daquilo que se fará acontecer. Um livro e seu conteúdo define-se, ou assim pretende-se, por sua capa, por suas cores, pelo perfil de seu autor, por suas obras ou mesmo por seu objetivo prefácio. Conteúdo pressupõe enchimento, essência, recheio, volume, surpresa e expectativa.

 

Assim parece-me uma casa também ou, melhor que isso, um lar. Um lar onde possa haver um família e esta, recheada de histórias, transborde conteúdos.

 

Assim parece-me também grupos de colegas e amigos que compartilhem de mesmas idéias, conceitos, credos e crenças, alma e espírito, gostos e ideais.

 

O conteúdo dos encontros destes, sempre serão recheados de variadas temáticas, risadas, sorrisos, contos e crônicas vividas ou inventadas. Serão sempre motivo de novos encontros e novos momentos para compartilhar e receber doses, frações ou mesmo volumes totais, extravagantes de alegria, felicidade, satisfação e demonstrações contínuas de afeto, carinho e porque não amor.

 

Um dia então, nem importa definir o tempo pois aqui o tiquetaquear nem irá me afligir, emergiu-se a vontade de fazer algo diferente, de comer algo diferente e oportunamente descobrir novos lugares, novos ares, cenários e grupos de pessoas.

 

Um casal então em busca de um jantar apenas, convida um outro casal para um jantar apenas. Poderia ser uma torta, um canelone, um temaki, uma lasanha ou até mesmo uma simples coxinha ou  pastel.

 

Alimentos preparados e certamente com conteúdo e recheios variados e apetitosos, independentemente de gostos e desgostos. Um dia qualquer, numa noite qualquer, num bairro, vila e cidade frequentada por ambos. Mas indelevelmente e como se não bastasse a vontade ampla e escancarada de todos os quatro por ser feliz, esse jantar apenas não poderia ficar marcado por ser um jantar apenas.

 

Bastou-se então um voucher comprado com antecedência de um pequeno restaurante de São Paulo estar com seu prazo próximo do vencimento.

 

Bastou então um rápido filtrar de nomes de amigos entre aqueles contados na palma de uma mão.

 

Bastou então uma querência constante de querer sempre o entorpecer-se cada vez mais de viver a vida.

 

Bastou então um quase nada e, “boralá”, assim se fez a magia:

 

Aquele nhoque, que recheado porque assim ele permitiu-se parecer en-can-ta-do, permitiu então um conhecer, um aproximar, um unir e agigantar a amizade de quatro pessoas e fazer de suas vidas um testemunhar de contínuas e valorosas experiências de vida, um rechear de sabores e néctares de sorrisos e porque não, gargalhadas cúmplices e extravagantes de alegria e felicidade, nesta São Paulo. 
 

Conte Sua História de SP: Caetano que me desculpe, mas esta esquina é a da turma de Avaré

 

Por Antonio Carlos Nogueira

 

 

Lembrar dos anos de 1960 leva-me de volta aos tempos da esquina da Ipiranga com a São João, em frente ao Bar do Jeca, famoso na época. Do outro lado da avenida, o Bar da Brahma.

 

Todos os finais de semana, eu e os amigos de Avaré, interior paulista, nos reuníamos para apreciar as garotas que passeavam pelas calçadas, faziam a volta pela Barão de Itapetininga, Dom José, passando ao lado de cinemas e cafés.

 

Que bom recordar essa época: amigos como o Flavinho, o Ximbica, Marcelino, Hadel Aurani (campeão de judô) Paulinho Curiati, e outros que já partiram como o Mauricio – o Gordo, Valdir, Wellington – o Urutu … era o ponto de encontro da turma de Avaré, gente que fez o ginásio juntos, o curso científico no Coronel João Cruz, a escola de técnico de contabilidade do Padre Celso, Instituto Sede Sapience tudo lá em Avaré.

 

Depois todos foram para capital para continuar os estudos em faculdades e também trabalhar, pois os empregos no interior erram escassos e faculdades não existiam na maioria das cidades com até 50 mil habitantes.

 

Essa esquina, a Ipiranga com a São João, veio ficar famosa pela música de Caetano Veloso e hoje, quando ouço, me traz muitas lembranças dessa época, pois vivo em Fortaleza, Ceará, e, graças a internet, posso continuar o contato com esses amigos que não vejo, ao vivo, há 40 anos.

 

Conte Sua História de São Paulo: a primeira pizzaria da cidade

 

Por Elmira Pasquini

 

 

Nasci no Paraíso, em Janeiro  de 1927. Com  10 meses, meus pais mudaram para Itaquera, subúrbio da cidade de São Paulo, a apenas 45 minutos de trem. Naquele tempo, um lugar lindo e gostoso  de se viver.   As ruas eram de terra, não havia luz elétrica nem água encanada. Nossa água de poço era uma delícia, pura, leve e sempre geladinha, muito bem cuidada por papai que era caprichoso em tudo que fazia.  Nossa chácara era à esquerda  da ladeira que saía da estação do trem e terminava no alto onde havia uma igreja católica. Ficava no centro da segunda grande quadra,  sem vizinhos em volta, Tinha um belo jardim, uma gostosa casa, quintal todo cultivado, com horta, pomar e um grande galinheiro, onde até peru tínhamos. Havia muitas chácaras  espalhadas  e uma grande colônia de japoneses, que cultivavam e ainda cultivam flores.

 

Para irmos a cidade dependíamos da Maria Fumaça que descia a ladeira chegando de São Paulo, apitando lá em cima do morro: PIiiiiiiiiiiiiiiiiiiii  … anunciando que estava  pronta com seus vagões para deixar ou pegar passageiros na estação. Quando subia a pequena mas íngreme ladeira puxando o comboio, ia gemendo: “muito peso, pouca força, muito peso pouca força”… e mais lenha na caldeira era colocada.

 

Quando crianças, nossas idas à cidade eram raras, porém anualmente,  uma delas sempre foi marcante. Era na semana entre Natal e Ano Novo. Era um passeio muito aguardado. Papai trabalhava no jornal ” As Folhas” onde, após 36 anos, se aposentou. Quando o bonde que nos trazia da estação do Norte chegava no ponto final, papai já nos aguardava ao lado do relógio da Praça da Sé. Meus dois irmãos e eu vestidos para a ocasião especial, felizes ao lado de mamãe, o procuramos. Ele sempre estava lá, sempre elegante, feliz e sorridente. Por toda nossa vida, isso sempre nos deu muita segurança.
Toda essa expectativa era para, em família, saborearmos uma bela pizza na famosa Cantina do Papai, que era a primeira e única pizzaria de São Paulo na época. Nos acomodávamos, observando tudo ao nosso redor. Pessoas chegavam, saiam e o ambiente era sempre agradável.  Pizza só havia de mussarela,  com ou sem aliche. Estas eram um pouco maiores do que as grandes pizzas de hoje. Papai sempre pedia meio a meio. Era tão saborosa… Para beber, só havia Guaraná e Soda Limonada.

 

Era tão bom ver a família reunida, alegre e feliz. Saboreávamos sem pressa, pois sabíamos que papai voltaria no trem para casa conosco. A festa era completa por tê-lo conosco. Aliás, ele e  mamãe eram lindos e seus rostos transmitiam muita paz.

Conte Sua História de SP: assistindo ao passeio das lambretas

 

Por Pedro Paskauskas
Ouvinte-internauta da CBN 

 

 

Meu pai não comprava brinquedos para nós, no entanto as firmas em que trabalhava davam bons brinquedos que eram cuidados por nós como pepitas de  ouro. Como eram poucos, a gente curtia muito eles.

 

E com poucos brinquedos, buscávamos outras atrações: observávamos o que havia a nossa volta para se distrair.  Por exemplo, os cavalos da polícia.A gente escutava o trotar e corria até o portão para ver os cavalos passarem. Passavam dois a dois levando um policial cada um.    

 

Outra diversão era ver o carro de coleta de lixo puxado  por cavalos.É! Eu sei, a gente era doido por cavalos. Naquela época havia poucos carros e a opção eram os cavalo. Seis deles puxavam o carro de coleta de lixo. Haja força para puxar tanto peso!

 

A gente curtia muito era a noite quando nosso pai chegava do serviço, pedíamos para nos levar à praça: o Largo da Vila Zelina próximo onde morávamos. Queríamos ver o “dlim dlim dlim” passar. Naquela época, começo dos anos 1960, era moda todos terem lambreta e o som das buzinas era esse: “dlim dlim dlim”. Parece besteira? Para nós,não era. A gente curtia muito ver o desfile das lambretas.

 


A sonorização do Conte Sua História de São Paulo é do Cláudio Antonio. Os ouvintes-internautas colaboram com histórias enviadas para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: para que lado fica a Rua Direita?

 

Por Eduardo Menezes
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Era 1989. Eu com 16 anos de idade. Iniciei minha carreira profissional em uma empresa de informática em Diadema, ABC paulista. O emprego era de office-boy e, logo nos primeiros dias de trabalho, minha chefe designou um dos office-boys mais velhos para nos ensinar o trabalho. Tudo foi muito bem na primeira semana, na parte teórica (se é que se pode dizer assim) e na semana seguinte partimos para a prática.

 

Andamos a pé desde a empresa na divisa da cidade com São Paulo, no Jardim Miriam, e chegamos ao ponto de ônibus, o que já tinha sido uma aventura e tanto para os meus padrões. Pegamos o ônibus com destino ao Metrô Paraíso e fizemos o restante do caminho a pé. Andamos toda a Paulista e meus olhos brilhavam com tanta grandiosidade, trânsito, gente importante e, o melhor de tudo, tantas meninas bonitas. Apesar de estar maravilhado, tinha um pouco de vergonha em usar o uniforme da empresa, mas fazia parte do trabalho.

 

Andamos por toda a Paulista com destino à Angélica, sempre parando em alguns escritórios e empresas. Descemos a Angélica até o Centro e seguimos para o Terraço Itália, na Av. Ipiranga. Foi aí que meu “mestre” na arte de andar por São Paulo, percebendo que eu era “esperto”, teve uma daquelas idéias geniais, que nunca deveriam ter sido executadas. Propôs que, para agilizar o nosso trabalho, nós dividíssemos o nosso trabalho e assim iríamos para casa mais cedo. Ele me ensinou como chegar da Av. Ipiranga até a Praça da Sé, local em que ele me encontraria em aproximadamente uma hora. Parecia muito simples, segundo ele, bastaria pegar a rua Barão de Itapetininga, atravessar o viaduto do Chá, pegar a rua Direita que já estaria na praça da Sé.

 

Que ideia brilhante!

 

Fiz o meu trabalho na Ipiranga e como o mestre havia explicado segui pela Barão, passando pelo viaduto do Chá e virei à Direita. Para meu espanto, havia uma praça, sim, neste caminho, mas não era a Sé. Fiquei confuso. Como qualquer office-boy que se preze, fui perguntar ao jornaleiro, que sem nem olhar mim, disse: “volte por esta rua e pegue a rua Direita”. Pois bem, voltei e pegue a rua logo a minha direita e novamente não deu em nada!

 

Resolvi voltar ao caminho original e ver se não tinha feito nada de errado, mas para meu espanto mais uma vez sempre que entrava a minha direita, após o Viaduto do Chá, não chegava na praça da Sé.

 

Quase desesperado, perdido, sem dinheiro, eis que olho uma placa na rua com o nome “Rua Direita”. Quase chorei de raiva, alegria, vergonha, sei lá. Sei apenas que virei piada no trabalho por muitos anos. Uma história sobre minha relação com esta cidade que aprendia a amar e respeitar seus nomes estranhos.

Conte Sua História de SP: a guerra de mamonas no bairro da Penha

 

Por Rodolfo Eufrásio da Silva
Ouvinte-internauta

 

 

Nascido no Brás, infância no Belenzinho e adolescência na Penha. Paulistano de corpo e alma, belo! Lembranças de um tempo onde garoava em São Paulo, os litros de leite eram de vidro e o pão chamado de bengala. O Grupo Escolar Amadeu Amaral e o policial com apito, parando o trânsito para que pudéssemos atravessar o Largo São José do Belém. Coincidência ou não, tínhamos em cada extremo de nosso bairro três torrefações de café: Moka, Seleto e Jardim, que todas as tardes lançavam ao ar um maravilhoso aroma de café torradinho.

 

No início dos anos 70, mudamo-nos para a Penha, bairro também tradicionalíssimo, mas com características completamente diferentes, um jeito de interior, com centro comercial movimentadíssimo, cheio de vitrines e muitas pastelarias chinesas, rodeado por vilas tranquilas, campos de futebol, córregos e grandes espaços livres, onde travávamos guerras de mamona, arremessadas por nossos estilingues nos garotos da outra vila. Pipas, bolinhas de gude e peões passaram a fazer parte de minha vida. Nessa época, o ponto alto de nossos fins de semana eram os bailinhos de garagem, os vinis rodando em vitrolinhas portáteis, dançando juntinho um prá lá e prá cá, corações disparados em clima romântico num sonho adolescente. John Travolta, com seus Embalos de Sábado à Noite, motivou a abertura de grandes discotecas e viramos fregueses de carteirinha da Toco, na Vila Matilde.

 

Com a necessidade de se começar a trabalhar cedo, geralmente como office-boy, nos abria a porta desse grande mundo que era o centro de São Paulo. Filas em cartórios, bancos, repartições públicas reuniam centenas de garotos, com suas pastinhas debaixo do braço. Inúmeras vezes fazia a pé o percurso Praça da Sé, Praça da República, Consolação, Paulista, Brigadeiro e retornando a Sé, verdadeira São Silvestre, só para economizar os trocados do ônibus, sonhando com aquele tênis Germade! Alimentação saudável: pastéis, esfihas, coxinhas e churrasco grego com suco grátis, várias vezes ao dia. Voltar do trabalho para casa através do inesquecível Lapa Penha, sempre extremamente lotado. Jantar, pegar os materiais, se trocar, escovar os dentes, arrumar o cabelo, nem sempre nessa ordem era o ritual obrigatório diário para se ir ao colégio. Tudo muito difícil mas que marcou nossas vidas de uma forma maravilhosa e inesquecível! Parabéns São Paulo, meu berço, meu amor!

Conte Sua História de SP: o primeiro lugar em que pisei foi na Paulista

 

Por Sueli Leite Brisighello

 

 

Cheguei em São Paulo vinda de Mocóca, no interior, em 1962 ,com 11 anos de idade. O primeiro lugar em que pisei foi na Avenida Paulista, local de trabalho do meu pai – o Instituto Pasteur – e moradia da minha vó paterna.

 

Queria muito mudar pra São Paulo porque meu pai e meu irmão já estavam aqui trabalhando e eu morria de saudades.

 

Até hoje meu passeio predileto é caminhar pela Paulista domingo à tarde. Meu coração bate num compasso diferente, as lembranças me invadem.

 

São Paulo era maravilhosa! Só aqui conheci um supermercado – o Pão de Açúcar da Brigadeiro Luiz Antonio – e uma feira livre, onde comprei minha primeira sandália Havaiana.

 

A adolescência chegou e íamos em bailes de formatura – eu e minha irmã mais velha. E voltávamos de ônibus sem medo nenhum. Pelo caminho víamos garrafas de leite e saquinhos de pães nas portas e portões das casas.

 

Apesar dessa mudança terrível, ainda amo São Paulo e espero em Deus que um dia ela seja cuidada como merece não só pelos governantes mas principalmente pelo povo que ela acolheu.

Conte Sua História de SP: o caminhão de manivela do Dito Caipira e minha rua de terra

 

Por Nerci Pedroso Bueno

 

 

Meu nome é Nerci, nasci no Belenzinho, precisamente na maternidade Leonor Mendes de Barros. Mas sou moradora de um bairro da periferia de São Paulo, Ermelino Matarazzo.

 

Quero falar um pouco do meu bairro: minha casa é de esquina e fica numa rua com descida. Naquela época, em 1969, as ruas do bairro eram todas de terra como a gente costumava a falar. Quando chovia, descia tanta água por aquela rua que não dava outra: entrava água nas casas, um metro de água, mais ou menos. Minha casa vivia enchendo e ainda me lembro da minha mãe e irmãos puxando a água com rodos, vassouras, o que desse certo.

 

Meu pai, o Dito Caipira, como era conhecido no bairro, motorista de caminhão a manivela, fazia carretos para os moradores. Uma vez, ele contou que, quando foi morar no bairro, só tinha a casinha dele de madeira e de alguns vizinhos, dizia que cansou de matar cobras no nosso quintal. E que, juntamente com os poucos moradores, foi pedir ao então governador de São Paulo para colocar luz elétrica no bairro. Foram todos no caminhãozinho do meu velho pai.

 

Minha infância se deu neste bairro pobre de periferia.

 

Nessa mesma rua que descia a chuva em forma de correnteza, eu e muitas crianças entravam na enxurrada. A rua tinha muitos buracos. Como disse, minha casa era na esquina e toda água desembocava lá, era uma farra.

 

Em dias de sol, descia a rua de carrinho de rolimã feito pelo meu irmão mais velho. Descia com tudo a rua, sem medo do perigo e sem medo de ser feliz.

 

As brincadeiras dessa época eram inocentes, recordo-me que meu pai plantava milho num terreno emprestado e eu brincava com as espigas, logicamente sem arrancar do pé: fazia carinha nas espigas e trancinhas nos cabelinhos do milho.

 

Ah, saudades daquele tempo!

 

Hoje, o bairro progrediu, as ruas estão asfaltadas, já não entra mais água na minha casa, o terreno emprestado tornou-se uma vila de sobrados, que já foram todos vendidos.

 

A rua ficou movimentada, não tem mais carrinho de rolimã nem as espigas – agora só no supermercado mesmo – , e o caminhãozinho de mudança ligado a manivela já não existe mais nem seu dono, o Dito Caipira.

 

Essa é minha história, história de uma paulistana que ama profundamente esta cidade.

 

Conte Sua História de SP: na busca por um pão divino e inominável para comemorar meu aniversário

 

Por Betty Boguchwal

 

 

O Quadrilátero da Saúde é um lugar onde são tênues os limites entre a saúde e a doença, a vida e a morte. A propósito engloba o trecho da Av. Dr. Arnaldo entre as Ruas Minas Gerais, Major Natanael e Cardoso de Almeida de um lado e, do outro, Av. Rebouças, Ruas Teodoro Sampaio e Cardeal Arcoverde. Caramba é servido por dois grandes hospitais, Faculdades de Medicina e Saúde Pública da USP, Secretaria da Saúde do ESP, três cemitérios, um velório e finalmente ou finadamente o IML.

 

Sorte que para amainar um pouco temos ao fundo um estádio e o museu de futebol. Daí que o comércio tem como público alvo os usuários, visitantes e trabalhadores destas instituições. Digo isso, já que alguns usuários não consomem mais, melhor dizendo, já partiram para o outro mundo. No entanto mesmo de lá, ainda geram demanda, principalmente aqueles que ainda estão carimbando o “visto de saída”, ou seja, estão sendo velados. Assim o comércio deste duplo quadrilátero é constituído por floriculturas, quiosques de flores, padaria, lanchonetes, restaurantes, bancas de jornal e trabalhadores informais, cujos artigos variam desde frutas até bandeirinhas de futebol.

 

Detalhe: eu faço parte do grupo dos trabalhadores, já que atuo como psicóloga na Secretaria de Saúde. Ocorre que por ocasião do meu aniversário, Paula, colega e vizinha de data de aniversário, trouxe dois patês. Aleluia estas iguarias exalavam um cheiro convidativo e 16H15 seria um bom momento para um lanche. Então o mínimo que podia fazer era providenciar baguetes ou torradinhas para saborearmos.

 

Ora fui à padaria que fica exatamente na esquina onde começa a rampa que acessa o Estádio do Pacaembu, em frente ao velório do Araçá, supondo ser um local apropriado para adquirir estes simples e pequenos itens. Já do lado de fora, a fachada pintada de um amarelo inexpressivo, parecia mais um caixote de cimento, na mesma linha de caixão, sem placa ou qualquer referência que indicasse o tipo do estabelecimento. Puxa, confesso que a minha entrada neste local foi tétrica, justo eu, especialista em padarias, logo fui impactada pelo clima negativo. Á direita, no balcão de pães viam-se alguns pãezinhos aparentando um bom tempo de vitrine, pães doces, e dois murchos pães de queijo. Barbaridade: nada atraia, ops, tudo repelia!

 

Nossa, dei uma pequena circulada buscando outra opção para a base dos patês. Péssima idéia: apesar de o balcão estar revestido com material atualizado, os produtos oferecidos para lanche tais como coxinha, esfiha aparentavam validade de anteontem. E pior, nas conversas que facilmente se ouviam entre os clientes, era nítido o destaque do vocábulo “herdeiro”.

 

Curioso que entre os dois balcões estava uma mesinha com duas cadeiras desocupadas e, ao fundo, uma salinha apagada, cuja entrada era interditada por uma geladeira Kibon. Invariavelmente deveria ser um espaço destinado ás refeições, provavelmente “gelado” pelos proprietários que, claro naquela hora já estariam descansando.

 

Felizmente encontrei Yolita, uma colega que não via há décadas, saboreando um café. Eta, até que ela aprovou o café, que a reconfortava na saída do velório de um amigo. Arre um elogio em meio a tantos produtos nada atraentes. Não durou muito, pasmem chegou um mendigo com um copo sujo pedindo para encher com café.

 

Mas como necessitava mesmo adquirir qualquer coisa para degustar os patês retornei ao primeiro balcão e, rapidamente, pedi dois pãezinhos franceses e um pacote de biscoitos cream crackers. Exatamente enquanto eu fazia o pedido escutava um senhor resmungando:

 

– Algum funcionário, por favor!
– Bom, o que poderia se esperar do atendimento naquela padaria?

 

Ora neste momento, me dirigindo para o caixa notei, ao lado da balança do pão, impresso naquele saudoso porta rolo de papel para embalagem: “Nova Pão Divino”, assim mesmo, sem concordância. Bom, ao menos tinha nome o tal do pão, ou seria da padaria?

 

– De fato sim:
Divino, mas inominável!

 

Digamos que o valor desembolsado também era inominável. Contudo, ao sair, logo me deparei com uma linda coroa de flores bem na porta da floricultura vizinha. E não é que a coroa é muito mais chamativa do que a padaria!

 

De volta à Secretaria degustamos, comemoramos, felizmente o sabor do patê se sobrepôs ao “divino” pão e fui embora. Ocorre que caminhando lá pelos últimos quiosques de flores, exatamente no N° 18 Chai, vida em hebraico, que, segundo a Cabala, significa sorte na cultura judaica, vi a placa:

 

Dê flores aos vivos!

 

Puxa, afinal é meu aniversário, significa que completo mais um ano de vida. Oba! Fiz como o sugerido e presenteei-me com flores.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, após às 10h30, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio.