Conte Sua História de SP: minha festa de debutante não foi por água abaixo

 

Por Beth Russo
Ouvinte-internauta da CBN

 


 

Minha rua ficava no Bairro do Cambuci. Rua Freire da Silva. Eram os anos 50/60. No começo nem era asfaltada e o esgoto era a céu aberto. Depois veio o asfalto. Foi uma grande melhoria. Só tinha um problema. Eram os dias de chuva. Enchia a qualquer chuvinha. Todas as casas tinham um murinho na porta ou comportas para a água não entrar. Mas não adiantava. A água é poderosa e quando não “pulava” o murinho, vertia pelas paredes. Minha mãe colocava pedaços de jornal nas frestas da porta, mas também não adiantava muito. Para meu irmão e eu era uma festa: fazíamos barquinhos de jornal e ficávamos na janela vendo-os partir. Às vezes passava um caminhão na enchente e formavam grandes ondas e aí entrava nas casas. As mulheres saiam a xingar, mas as crianças adoravam ver aquele mar bem na sua porta.

 

Eu estudava no Colégio Rainha dos Apóstolos (tinha bolsa, porque era ótima aluna). Para ir para escola, os bombeiros levavam os moradores de barco até a parte seca. Era uma festa. Sentia-me em Veneza. Outras vezes tínhamos botas de borracha, cano alto. Sempre que alguém precisava sair, um familiar acompanhava até onde não havia água e trazia as botas de volta. Nunca ficamos doentes. Quando a água baixava era hora da limpeza. Dava um trabalhão. Desinfetar tudo, esperar secar, raspar o chão, escovão, etc.

 

Quando completei 15 anos, era moda fazer uma festa, com 15 pares de amigos, com velas acesas e tudo mais. Era em nossa casa mesmo. Tinha a vitrola, um bolo, pão com patê e cuba libre. Só que no dia caiu a maior chuva e encheu a rua. Não teve festa. Mas no dia seguinte apesar de tudo conseguimos reunir todo mundo e eu tive minha festa de 15 anos. Era tudo tão simples! Contentávamos-nos com tão pouco! E éramos felizes!

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados no CBN SP, logo após às 10 e meia da manhã. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode enviar sua história para milton@cbn.com.br ou agenda entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net

Conte Sua História de SP: na casa do vigário

Por Sônia Maffei

 

 

Minha história sobre a querida metrópole,tem início no fim de 1940,até início de 1960, morava com minha família na cidade de Itu,onde nasci,assim que podia minha mãe,eu e minha irmã, vínhamos para a capital visitar parentes, para mim era uma alegria imensa ,quando era anunciada a viagem,e nem dormia devido a ansiedade.

 

Viajávamos apenas,eu,minha saudosa mãe,e também minha falecida irmã, papai também já em outro plano espiritual, ficava trabalhando, pois era advogado,e nunca tirava férias,pois teria que se manter por conta própria,como todo profissional liberal. Veja como as coisas mudaram em São Paulo, geralmente ficávamos hospedadas na Casa Paroquial de Santa Cecília, pois duas tias de minha mãe,minhas tias avós,tia Ditinha ,e tia Inacinha, eram funcionárias da casa paroquial,e o vigário,gentilmente permitia que parentes das empregadas ali fossem hospedadas.

 

A Casa Paroquial ,era situada à rua Frederico Abranches,e posteriormente transferida para a Fortunato,passeávamos com segurança pelas ruas das imediações, pois,o bairro dos Campos Elíseos,ali perto era onde estava a sede do governo estadual.

 

São Paulo era uma cidade bem policiada,e o trânsito organizado quando eu era criança, vínhamos de trem,para cá ,desembarcávamos na estação Júlio Prestes e caminhávamos com segurança até o bairro de Santa Cecília. O bairro já não é mais o mesmo,mas a majestosa igreja de Santa Cecília lá permanece,testemunha de nossa história.Tenho esperança de que as coisas melhorem,pois tenho fé.Graças a Deus, após minha aposentadoria consegui me mudar para esta querida metrópole,que sempre visitava nos finais de semana,e nas férias.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participartar enviando sua história para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em vídeo com o Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: a maravilhosa Vila Pompeia

 


Por Denilson Claro
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Nasci em 1966 no Hospital Beneficência Portuguesa, Vila Mariana, fui batizado na Igreja de São Judas Tadeu, próxima ao Jabaquara e de todos os anos de minha vida, mais de trinta passei no bairro de Vila Pompeia, zona oeste da capital, mais especificamente na Rua Raul Pompeia, em uma casa na qual meus pais ainda moram. Mais Paulistano impossível.

 

Tenho muita saudade deste que foi meu antigo bairro de infância, adolescência e juventude no qual cresci, estudei e fiz grandes amigos.

 

Sou de um tempo em que aos domingos tudo fechava incluindo os postos de gasolina. Tudo ficava muito silencioso, menos em dias de jogos. Quando brincávamos na rua escutávamos os vizinhos torcendo assistindo suas tevês dentro de suas casas. Sim casas e de muros e portões baixos, pois hoje este bairro recebeu a intensa verticalização que veio das Perdizes e os bares e restaurantes que vieram da direção da Vila Madalena.

 

Um tempo que brincávamos na porta de casa fosse de esconde-esconde (e não valia se esconder na garagem dos outros, apenas atrás dos carros ou em cima das árvores) ou então competindo na contagem de cores dos Fuscas, Kombis e Corcéis que passavam, sempre de forma bem espaçada, pela rua. Tempo que a frota de veículos era de pouco menos de um milhão de veículos e hoje passam de sete milhões.

 

Um tempo em que com meus onze anos ganhei a “liberdade” de ir a pé a escola que ficava pouco mais de três quadras de casa na então “semi tranquila” Avenida Pompeia. Hoje vendo meu filho com esta exata idade, sinceramente não creio ter a coragem de dar a mesma liberdade de locomoção que meus pais me deram na época.

 

Conhecíamos cada vizinho pelo nome e pela história de vida. Jogávamos bola em uma pequena e tranquilíssima rua próxima chamada Taipas, na qual fiz grandes amigos. Marcávamos o campo com tijolo e valia a famosa tabelinha com os muros das casas.

 

Naquele tempo, nem era preciso planejar grandes viagens nas férias escolares, pois no dia seguinte ao término das aulas, cada rua do bairro se transformava em um recanto de amigos conversando, andando de bicicleta, jogando futebol ou até mesmo bola de gude em algum terreno vazio.

 

Poderia me estender e contar de cada rua e cada estabelecimento, mas infelizmente não há tempo nem espaço aqui para contar, mas guardo todos em meu coração.

 

Tudo passa, São Paulo mudou e a Pompeia não foi exceção, muito pelo contrário. Os edifícios cada vez mais repletos de infraestruturas de lazer colocam os garotos de hoje atrás dos muros. Amizades hoje só na escola – amigos de bairro, ou de rua estão praticamente extintos na capital. Vizinhos? Morando nos edifícios, mal encontramos nosso vizinho de frente.

 

Por fim, minha vida neste maravilhoso e inesquecível bairro da capital, deixou marcas e muita, muita saudade.

 


O Conte Sua História de São Paulo é sonorizado pelo Cláudio Antônio e vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade enviando seu texto para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: o carnaval da Vila Esperança

 

Por Ana Maria dos Santos

 

Ana Maria dos Santos nasceu em 1956 em São Paulo. Quando criança, não conheceu seu pais. E uma série de coincidências curiosas a levaram a acreditar que finalmente havia revelado esse segredo. Ela contou sua história ao Museu da Pessoa, em janeiro de 2010.

 

 

Quando nasci, isso a mais de cinquenta anos, minha mãe estava sem condições e encontrou uma mulher muito bondosa para me criar. Essa senhora morava então na Rua Maria Carlota, na Vila Esperança. Essa rua ainda não havia sido asfaltada e, na época que asfaltaram, virou a alegria da molecada e a tristeza das mães, com surras e tudo, pois o danado do piche grudava em nós e em nossas roupas, dava o maior trabalho para tirar. Isso quando saía.

A filha da minha mãe de criação me batizou, era a minha madrinha muito querida, e de vez em quando eu falava que queria ter um pai. Às vezes, elas me arrumavam um (acho que era um parente distante do interior) e lembro que recebemos a visita da comadre que elas tanto falavam. Foi quando ela me contou que era a minha mãe verdadeira e que eu tinha de recebê-la (pensava que o nome dela era Rosa Maria?!).

A partir daí comecei a me esconder quando ela vinha me visitar. Eu simplesmente sumia. Até dentro de um cesto de vime enorme eu me escondia, tanto era o pavor que ela me levasse embora. Porém, aos meus sete anos ela teve que me levar para estudar num internato em Pinheiros. Aos onze anos, fugi com mais duas meninas, por causa dos maus tratos desse colégio de freiras, correndo a pé pela rua Cardeal Arcoverde, de Pinheiros até o Pacaembu. Foi tragicômico, pois a família que deu garantias que nos abrigaria, e era também o único lugar mais perto que eu sabia como ir, era do diretor da instituição.

Tudo isso para tentar voltar para minha Vila Esperança. Era fevereiro e eu queria também matar a saudade do meu querido e velho carnaval da infância, que subia pela Rua Evans e descia pela Rua Maria Carlota: as matinês, a batalha de confetes, eu tinha de ir.

Como naquela época eu não tinha muita proximidade física, afetiva, com minha mãe verdadeira e estava muita revoltada por causa da ida pro colégio interno, apesar dos esforços dela para fazer algo por mim, quase não conversávamos. Sabia muito pouco sobre ela, somente que trabalhava demais como empregada doméstica. Um dia, mexendo em seus documentos, li que seu nome era Maria Rosa!? Aí eu, muito infantil, quando escutei a música, marchinha de carnaval do Adoniran Barbosa, “Vila Esperança” – “Foi lá que conheci Maria Rosa, meu primeiro amor/Primeira Rosa, primeira esperança, primeiro carnaval, primeiro amor, criança”.

Criança!? Pensei: sou eu!! Pensei comigo: “Desvendei a segredo da minha mãe!” Que ilusão de mente fértil! Só dando risada mesmo. Mas a Esperança, o carnaval, ainda moram bem profundamente nesta velha criança. Por outro lado, até hoje não consigo cantar essa música inteira até o fim sem conter o choro. Nos últimos anos de vida da minha mãe, conseguimos restaurar muita coisa, principalmente a compreensão.

 

Ana Maria dos Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa. Você pode marcar uma entrevista em áudio e vídeo pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou enviar seu texto por escrito para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: para onde foi tua garoa fina?

 

Por Neusa Kihara
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Com tanto calor, para onde foi tua garoa fina, suave e suavizante?
Com tantos assaltos, para onde foi a calma das tardes de domingo no Parque da Aclimação, quando jogávamos pão aos peixes do lago, comíamos cachorro quente do carrinho da dona Maria e assistíamos aos jogos de vôlei e futebol?

 

Com tanto trânsito para onde foi a tranquilidade dos trólebus silenciosos, percorrendo as ruas do centro velho…Higienópolis…Perdizes…? Por onde andará o moço bonito das viagens da tarde, que sempre se oferecia para segurar meus livros e pastas, quando o trólebus lotava?

 

Dos teus 460 anos vivenciei apenas os últimos trinta, mas notei tuas mudanças…Já não é possível sentir o frescor da garoa contínua; andar despreocupada pelas ruas e parques, paquerar no trânsito… Talvez tua violência e insegurança sempre estiveram presentes e o calor de nossa paixão por ti nos manteve cegos!

 

Não importa, São Paulo: tu serás sempre a melhor cidade, por quem estaremos sempre, eternamente, enamorados!!

 

Conte Sua História de SP: águas passadas não movem moinho

 

Por Alberto Juan Martínez

 

 

Nas primeiras horas do 20 de janeiro, justo um ano e cinco dias antes do IV Centenário de minha futura querida cidade, São Paulo, cheguei via Santos. Os amigos que aqui me aguardavam me alojaram em um apart hotel na avenida São João depois da Dom José de Barros e a poucos metros da Ipiranga. Melhor que isso só mandando fazer.

 

Terra da inesquecível garoa; bondes abastecendo mão de obra da Pça do Correio à Lapa, da Pça Ramos de Azevedo ao laborioso Pinheiros, aos perfumados e elegantes Jardins; e de ai para a cidade em crescimento.

 

O bar do Jeca, do Brahma, o Hotel Excelsior, o cinema Marabá, a Pça da República, a nobreza da Vieira de Carvalho, o deus-nos-acuda da Sta Ifigênia, Timbiras, Rua do Triunfo; a Av. Rio Branco com sua mini-rodoviária e o ponto de partida e chegada das lotações que serviam a baixada Santista e suas praias.

 

A discreta rua e Largo do Arouche, “O Gato que Ri”, o francês “Le Casserole””, o Mercado das Flores. O charme da rua São Luiz embalada pelo som da trompete de Araquem e a voz de seu irmãozinho Cauby Peixoto. Roberto Luna dava o ar da graça e a noite corria mansamente.

 

Não esquecer os restaurantes da São João com destaque para o Leão, onde gregos e troianos se alimentavam como reis a preços de operários. Fácil chegar, difícil era encontra uma mesa vaga ou um lugarzinho na mesa de alguém que graciosamente te convidava a sentar.

 

Durante o dia, todo o respeito pelo Centro da Cidade com lojas de artigos de últimos lançamentos em outras latitudes: o Mappim, a Mesbla, o luxo da Barão, da Rua Direita, São Bento, Três de Dezembro, onde o bom e o melhor poderia ser comprado, onde homens e mulheres vestidos de domingo circulavam naquele frenesi paulistano.

 

Águas passadas não movem moinhos; filhos, sobrinhos, netos não viveram esse esplendor e me acham um saudosista exagerado. Queira Deus que esse enorme pequeno mundo volte a ser o que era. Que sejam enterradas promessas, utopias e o sol volte a brilhar na minha, nossa cidade, que se pretendeu e se pretende assassinar a sangue frio.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar no CBN SP, sábado, após às 10h30 da manhã. Você participa enviando seu texto para milton@cbn.com.br ou marcando entrevista, em áudio e vídeo, no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. A sonorização do texto é de Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: a Paulista começava a mudar

 

Por Gustavo Neves da Rocha Filho
Ouvinte da rádio CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto do ouvinte Gustavo Neves da Rocha Filho, de 87 anos. Urbanista, arquiteto, formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, da 2a. turma do curso de Arquitetura, o professor Gustavo testemunha período de transformação da avenida Paulista:

 

1942
Comecinho do mês de abril.
Onze horas da noite.
Avenida Paulista.

 

Calçadas desertas, rua deserta, os trilhos do bonde refletindo a luz das luminárias penduradas bem no centro da via e lá no alto, em fios que a escuridão da noite escondia. De cada lado, sobre os passeios, a massa escura das árvores plantadas muito próximas umas das outras, talvez uns três ou quatro metros.

 

Naquela noite eu não era pedestre. Menino ainda, acabava de chegar de uma viagem de férias e estava ao lado do motorista, meu tio e padrinho. Quando o automóvel, subindo pela Rua Teodoro Sampaio e avançando pela Avenida Doutor Arnaldo, entrou na Avenida Paulista a imagem que eu vi ficou gravada para sempre na minha memória. Daí a instantes eu estaria em casa da avó, modesta casinha com seu jardim e quintal lá na rua Batatais. A Paulista, naquela noite, estava bem diferente daquela avenida que eu percorria durante o dia até a esquina da Rua Augusta, ou até um pouco mais adiante.

 

As férias terminaram e as aulas no Colégio São Luis, na esquina da Rua Augusta, recomeçaram. O mês de julho chegou e com ele o Dia do Sagrado Coração de Jesus. Fardados de branco, como todos os alunos das escolas católicas, desfilavam garbosamente pelas ruas da cidade. O palco do São Luis era a Avenida Paulista, sem nenhum carro, sem nenhum bonde. O guarda de trânsito, que apelidavam de “grilo”pelo seu apito estridente, cuidava do sossego da rua. Mas nem era preciso pois o bonde que vinha da cidade – era como chamavam o atual centro histórico – vinha pela Rua Brigadeiro Luiz Antônio, percorria um pequeno trecho da Avenida Paulista e descia pela Rua Pamplona até o Jardim Paulista. Automóveis, então, eram raros. Durante o desfile poucas pessoas, em geral os pais, ocupavam os espações entre as árvores junto ao meio fio.

 

Anos depois eu andaria pelas calçadas da Avenida Paulista até a Rua da Consolação, ou para pegar o bonde Pinheiros, ou para comprar pão ou doces na Padaria Primavera. Nesse tempo eu ainda não me interessava pela arquitetura e o que me chamava atenção eram as muretas baixas que cercavam os terenos das casas construídas longe do alinhamento, em meio a muitas árvores. Do outro lado da rua a Capela do Colégio São Luiz parecia ter uma altura descomunal, hoje bem pequena junto aos prédios seus vizinhos de mais de trinta andares. Certa vez causou-me surpresa uma enorme placa com os dizeres “Clínica Médica”pregada num daquelas casarões situados entre as ruas Bela Cintra e Haddock Lono. Certamente os médicos da Faculdade de Medicina, ali perto da Avenida Doutor Arnaldo, estavam abrindo seus consultórios e o uso residencial da Avenida Paulista começava a mudar.

 


Gustavo Neves da Rocha Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você mais um capítulo da nossa cidade, envie um texto para milton@cbn.com.br ou marque uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: fiz uma música para as caras da cidade

 

Maricéa Martins Zwarg
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Nasci na Maternidade São Paulo, e minha mãe contou-me a história de meu nascimento, e fui lá, eu mesma, conferir o fato há 20 anos, pois meu pai registrou-me falsamente como nascida em Itanhaém, onde moravam, e constatei a verdade: a entrada de minha mãe na maternidade, à Rua Frei Caneca, no bairro da Bela Vista, em São Paulo, Capital, até a hora de meu nascimento e nossa saída. Mas a Maternidade São Paulo fechou as portas, o Banco Safra comprou seu prédio e os arquivos de milhares de nascimentos estão no Fórum da Barra Funda aguardando seu destino. Mas São Paulo, onde nasci, onde morei, trabalhei e vivi por mais tempo, 22 anos, e onde vivo atualmente, é muito mais que uma grande mãe acolhedora amorosa, muito mais que um grande pai provedor material de muitas almas e seres. São Paulo, ou Sampa, é “como o mundo todo”, como bem compôs e cantou Caetano, uma grande fraternidade que abriga uma enorme variedade de tipos humanos de todas as raças, cores, credos, tribos, culturas e expressões. O que Sampa dá-nos diariamente é isso: cultura, conhecimento, variedade de experiências e informação sob à luz da fraternidade, de sabermos que aqui todo mundo é bem-vindo, e o ser incomum, singular, “diferente”, aqui é só mais um, tantas as caras e tipos. Por isso, nessa grande fraternidade, sinto-me , mais que em qualquer lugar, em liberdade, necessidade básica de minha natureza, mais uma em meio a tantas “Caras urbanas”, título de uma letra que compus e que Moacyr Filho musicou, sem aqui perder a naturalidade jamais, e sim, frente à concretude, autenticá-la , e mais, transformá-la, minha natureza, em arte! À São Paulo, à Paulicéia Desvairada dos modernistas, à Sampa de Caetano, terra de todas e todos nós, caras urbanas, minha gratidão, carinho, afetividade, fraternidade devolvida em canção.

 

CARAS URBANAS
Letra de Marycéa
Música Moacyr Filho

 

Caras de São Paulo são todas as caras do mundo
São faces londrinas, nova iorquinas, são tão nordestinas,
mineiras, sulinas, caras do Japão
Caras tão urbanas, são todas as caras humanas
Tão várias as cores, tão densas as dores
Tão raras histórias, profundas memórias, seladas no chão
Cenas de São Paulo são tantas as raças, 
são traços e máscaras nuas nas ruas
Sedentas de espaços, famintas de abraços, carentes de pão
Caras paulistanas são caras sem nome
Das bocas caladas, cansadas, febris
Dos olhos ardentes de fé e de fome, caras de um país,
Caras de um país, caras do Brasil…

 

Maricéa Martins Zwarg é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou marque uma entrevista no Museu da Pessoa: contesuahistoria@museudapessoa.net. Mais histórias de São Paulo você encontra no meu Blog, o Blog do Milton Jung, que você acessa pelo site da rádio CBN.

Descubra SP: me sinto em casa, no Pateo do Colegio

 

 

Fui entrevistado pela Fabiana Novello para a série Descubra SP, um dos programas da CBN em homenagem aos 460 anos de São Paulo. A ideia era indicar um dos lugares que mais gostamos da Capital e não tive dúvida em escolher o Pateo do Colegio, local de fundação da cidade, onde todo segundo sábado do mês nos encontramos no Adote um Vereador. A história bem contada pela Fabiana tanto quanto bem sonorizada pelo Claudio Antonio você ouve aqui:

 

Conte Sua História de SP 460: o bonde que levava à zona do meretrício

Por Antonio Favano Neto

 

 

Estudava no Liceu Coração de Jesus, nos Campos Elíseos, e morava no Alto da Mooca. Para estudar, ia de de ônibus cujo ponto inicial era na rua do Oratório com Fernando Falcão e o ponto final, na praça Clóvis Bevilacqua. Caminhava até o Largo do Tesouro e tomava o bonde Júlio Conceição, próximo do Liceu, porém muito mais perto da zona do meretrício, que existia oficialmente em São Paulo: as famosas ruas Iaboca e Aimorés, hoje o maior centro comercial de confecções do Brasil. O mais curioso é que o bonde saía do Largo do Tesouro apinhado de homens nos estribos, completamente lotado, e ao chegar no segundo ponto de parada, na rua José Paulino, parecia que a tropa de choque da antiga Força Pública com seus meganhas prenderia a todos. Não ficava um passageiro nos estribos, desciam correndo como crianças para dentro da zona.

 

Quando o dinheiro dava, eu pegava o ônibus Estações que fazia o rodízio das estações do Norte, Sorocabana e Luz, fazendo um contorno por todo o centro expandido de São Paulo da época. Defronte a Caixa Econômica Federal, ao lado do relógio da Praça da Sé, saía o ônibus circular Linha 1, que passava pelo Largo São Bento, Paissandu, Viaduto do Chá, Largo São Francisco, Praça João Mendes e Sé. Eram ônibus americanos de última geração, Thin Coach, com breque a ar que fazia barulho ao ser acionado, que mais parecia um aviso aos pedestres: estou perto, cuidado.

 

Das coisas mais pitorescas, eram as mães que acordavam de madrugada para levar os filhos na rua do Gasômetro para as crianças respirarem a fumaça do gás que saía dos bueiros. Na rua Santa Rosa existia o trenzinho da Companhia de Gás de São Paulo com cinco vagões, que partia do Largo do Pari com destino à rua da Figueira para descarregar o carvão que chegava da Europa, via Porto de Santos. Isto tudo na contra-mão do trânsito.

 

Antonio Favano Neto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung