Conte Sua História de SP: na placa tinha meu nome e o caminho para o trabalho

 

Carlos Sereno nasceu em Santo André, SP, em 1947. Filho de pais espanhóis é fruto do segundo casamento de seu pai. Cresceu no bairro Vila Metalúrgica, onde brincava de jogar futebol com os amigos nos terrenos baldios. Passou por vários empregos e, depois de casado, voltou a estudar, terminando a faculdade de Educação Artística. Começou a trabalhar como voluntário na Associação “Viva e Deixe Viver”, contando histórias para crianças em hospitais de São Paulo. É professor de artes no ensino fundamental.

 

Em depoimento ao Museu da Pessoa, Carlos lembra como o pai o ajudou a encontrar o primeiro emprego na empresa de engenharia e arquitetura na qual ele já trabalhava. Carlinhos tinha apenas 12 anos:

 

 

Carlos Sereno é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa, onde você também pode deixar registrada a sua memória. Marque entrevista em áudio e vídeo pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.com.br. Ou mande suas lembranças da nossa cidade em texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: queria comprar um sapato novo

 

No Conte Sua História de São Paulo, você acompanha o depoimento de Hilário Burri ao Museu da Pessoa. Hilário nasceu em Dois Córregos, interior de São Paulo, em 1924. Veio para a capital, depois que um irmão conseguiu alugar a casa para os pais, no bairro do Sacomã. Da casinha no Sacomã, o pai conseguiu outra no Alto do Ipiranga, época em que seu Hilário já era ajudante de pedreiro na empresa Elevadores Atlas. No caminho não havia calçada, apenas barro, o que o obrigava a levar um sapato extra na sacola. Para sair de lá, só havia uma linha de ônibus. Seu Hilário conta que todo o dinheiro que ele e os irmão ganhavam tinha de ser entregue para o pai. Até que ele resolveu mudar a ordem das coisas

 

 

Hilário Burri é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa. Você também pode registrar, em áudio e vídeo, suas memórias. Agende entrevista pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Se quiser, escreve um texto e envie para mim: milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: embalei meu filho no samba da Vai Vai

 

Maria da Conceição Pereira nasceu em Sabinópolis, Minas Gerais, em 1951. Neta de portugueses, cresceu em ranchos feitos pelo pai, que trabalhava na agricultura como meeiro. Aos oito anos foi morar na casa do padrinho para poder estudar. Com 13, mudou-se para São Paulo onde começou a trabalhar com arte. Vivia em Santo Amaro, mas gostava mesmo de passear nos Jardins, sempre acompanhada da irmã e amigas. Foi lá, ainda com 18 anos, que conheceu o marido: homem bonito, de bigode e sempre com um carrão. Não era dele, era do dono do banco para o qual trabalhava. Motorista exemplar, era respeitado por todos os colegas, podia até levar o carro para casa. A mãe e a irmã providenciaram o enxoval, todo comprado na loja do Mappin. E Maria da Conceição Pereira casou-se, em uma igreja no Piraporinha, zona sul da cidade. Orgulhosa, diz que todo povo do banco compareceu. Foi morar no Bixiga, bem onde a escola de samba Vai Vai ensaiava para o Carnaval. No depoimento, gravado pelo Museu da Pessoa, Dona Conceição lembra de como o samba da Vai Vai a acompanhou durante toda a gravidez:

 

 

Maria da Conceição Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O depoimento dela foi gravado no Museu da Pessoa. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade, e registrar suas memórias, agendando entrevista, em áudio e vídeo, pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Se quiser, mande seu texto para mim: milton@cbn.com.br e leia outras história de São Paulo aqui no Blog.

Conte Sua História de SP: o telefone tocou e meu sonho se realizou

 

No Conte Sua História de São Paulo você vai conhecer Diego Christiano Pila. Ele nasceu em São Carlos, em 1978, viveu parte da sua infância num sítio na zona rural. Aos 15 anos morou com os avós para continuar os estudos. Ingressou na faculdade de Relações Públicas na Unesp, de Bauru. E sempre sonhou em trabalhar na cidade grande. Após três anos de formado, a oportunidade chegou. Mas por muita sorte. Além de Diego ter conseguido passar para a quarta e última vaga de um concurso para a Petrobras quase perdeu a data do recrutamento. Esquecera de avisar à empresa que havia mudado de endereço. O telegrama que o informava sobre os procedimentos para inscrição nunca chegou até ele.

 

Os trechos que você vai ouvir desta história foram gravados pelo Museu da Pessoa:

 

 

Diego Christiano Pila é pesonagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode registrar suas memórias em áudio e vídeo, marcando uma entrevista pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Pode também escrever sua história e enviar para mim: milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: o escocês que se apaixonou pela cidade

 

No Conte Sua História de São Paulo você ouve o depoimento de Barry Michael Wolfe ao Museu da Pessoa. Barry é escocês, nascido em Glasgow, em 1955. Criança, sonhava ser Sherlock Holmes e se divertia ao andar de terno, gravata e chapéu espiando as pessoas. Virou advogado, ainda na Escócia. Conheceu o Brasil pelo filme “Gabriela, Cravo e Canela”, e nas músicas de Vinícius de Morais. Apaixonou-se. Em Londres, chegou a tocar tamborim em uma escola de samba. Mas só conheceu o país, em 1986, a convite de um amigo que comandava grupo de investidores estrangeiros. Aqui, esteve no Rio e São Paulo, em visita que antecederia sua decisão de se mudar definitivamente para viver no Brasil:

 

 

Barry Michael Wolfe é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa (assista à entrevista completa aqui). Você também pode registrar a sua história, agende entrevista em audio e vídeo pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Se quiser, conte sua história por escrito e envie para o e-mail milton@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br.

Conte Sua História de SP: minha turminha da William Harding, no Tucuruvi

 

Por Luiz Cesar de Almeida Bischoff

 

 

Rua William Harding, Tucuruvi, bairro que outrora, nos anos 50, chegou e a ter uma estação de trem, que antes de sua desativação pude ainda passar diversas vezes por ela. A lembrança do trem me traz a dos amigos de infância, dos quais grande parte perdi o contato. Mas voltando no tempo na “nossa” rua , sem os transtornos do trânsito ou dos carros estacionados tomando o “nosso” espaço, jogávamos taco , empinávamos pipas, papagaio, maranhão, não havia essa coisa de cerol ou cortante, apenas empinávamos para competir qual a mais bonita ou quem levava a “pipa” mais longe.

 

Competição sadia, jogávamos bola na rua mesmo, onde as traves do gol ou eram os nossos próprios chinelos ou mesmo dois pedaços de pedra, bola essa que quando caia no quinta do “seu” Olívio e da dona Francisca, era um terror, pois era certeza que a bola seria devolvida toda rasgada. Esse ódio pela bola é que sempre acertavam as roseiras do seu jardim.

 

Um dia, só de pirraça , após termos mais uma bola rasgada, combinamos que todos juntos iríamos “mijar” na garagem da casa do “seu” Olívio. Não foi surpresa nossas mães ficarem sabendo do fato e todos levamos uma “surra”, apenas o objeto usado variou de palmadas a cinto de couro grosso.

 

Em muitas vezes após sairmos do colégio Silva Jardim, onde logo em frente havia um morro, hoje Av Dr Antonio Maria de Laet, servia de palco para brincadeiras como escorregar com caixas de papelão morro abaixo.

 

Todos tínhamos nossos problemas e dificuldades, seja pela falta de um pai ou desemprego ou pelo apego à bebida , crianças que fomos, nossa vida era jogar pião, brincar de esconde-esconde, fazer fogueira e “roubar” frutas no enorme terreno dos Lima, que hoje é a estação do metrô e Shopping Tucuruvi.

 

Quanta diferença, onde está a garoa da minha infância que me acompanhava, quase todas as manhãs, como amiga solitária nas minhas idas a escola? Onde está o ar que podia aspirar com força e nele sentir o cheiro do capim cortado, que iria alimentar o cavalo do verdureiro? Onde está o canto dos bem-te-vis, que invadia nossos ouvidos e nos obrigava a acordar, mesmo sem querer? Onde estão as revoadas de andorinhas, que sempre invadiam o céu da “nossa” rua nas tardes quentes de verão? Onde está a água da bica, que todos tomávamos e que fluía em frente da rua Cônego Ladeira, rua essa em frente a simpática Paróquia do Menino Jesus e na qual fui batizado?
Lembranças que puxam outras e poderia passar horas, dias à escrever sobre elas mas tenho que terminar por aqu , não deixando porém de citar alguns amigos da “nossa” rua Willian Harding, como o Reinaldo, Luzia, Nelsinho, Neder, Fábio, Carlos, Mauricio, Nairo , Rolf ,Rosangela, Luis, Anselmo, Emílio, Leda, Ivo, enfim todos aqueles que de algum modo fizeram parte da minha infância e adolescência , deixo aqui um grande e fraterno abraço a cada um.

 

Luiz Cesar de Almeida Bischoff é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar outros capítulos da nossa cidade aqui na CBN enviando seu texto para milton@cbn.com.br. Ou pode gravar seu depoimento no Museu da Pessoa. Agende no email contesuahistoria@museudapessoa.net e receba depois um DVD com suas memórias.

Conte Sua História de SP: rodei o mundo e vivo no Copan

 

Por Edyr Sabino
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Eu era pequeno quando vim à São Paulo pela primeira vez. Foi há 50 anos. Eu tinha apenas 7 anos de idade. Minha família havia comprado nosso primeiro apartamento na Capital. O termo metrópole estava começando a fazer sentido para mim. Nossa vida no interior, Penápolis, era bem mais tranquila. Eu não me lembro muito bem da viagem de lá para cá, pois dormi a maior parte do tempo. Acho que me deram algum remédio para dormir durante a viagem e não vomitar. Mas me lembro do dia quando cheguei aqui pela primeira vez na minha vida. A cidade de São Paulo era grande. Era década de 1960.

 

Atravessar a Av. Ipiranga era um desespero. Minhas tias Elmaza e Geni apertavam as minhas mãos, dizendo que era para eu não escapar. Elas não contavam que estavam com medo de atravessar a rua sem serem atropeladas. Elas eram músicas e acho que já haviam ouvido Adoniram Barbosa cantar sobre uma moça chamada Iracema, que morreu atropelada num esquina ali perto, na Av. Sao João. Eram aqueles ônibus Mercedinho, azul e creme, que passavam.

 

Eu gostava do que via. O Edifício Copan ainda tinha andaimes, ainda estava em obras, e nos já tínhamos apartamento quitinete no bloco B, 8º andar. Aquele monte de botões nos elevadores me impressionavam. Ver aquelas rampas que sobem ou descem naquele bloco e o corredor enorme e tortuoso, cheio de portas uma ao lado da outra. Parecia ter uns 20 apartamentos por andar, com muito eco. Tínhamos que caminhar em silêncio, senão poderia chamar a atenção dos outros moradores. Mas não tinham muitos moradores ainda. O prédio ainda não havia sido oficialmente inaugurado. Meus tios pisavam forte e minhas tias, bastavam chinelos. Som que gerava um eco inconfundível.

 

A cidade era cinza. Foi quando eu aprendi o termo garoa! Terra da Garoa!

 

Não nasci em São Paulo. Adoraria sair desta cidade, mas é nela que vim morar e é nela que eu vivo. Rodei o mundo, e vivo no Copan, na cidade de São Paulo até hoje

 


Edyr Sabino é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: meu tempo nessa cidade

 

Por Caubi Dias

 

 

Meu tempo nessa cidade
Foi um tempo sem conquista
Tempo sem “privacidade”
Com tempo assaz pessimista
Pois daquele tempo eu sei
Que era mau tempo e morei
Algum tempo, em Bela Vista.

 

Se era tempo de Bexiga
No meu tempo eu só sabia
Que o tempo era só de briga
Em todo o tempo que havia
E em tempo de confusão
Pedi, ao meu tempo, opção
De tempo em Vila Maria.

 

Mas lá fiquei pouco tempo
Pois em tempo de agonia
Eu, de tanto perder tempo
Sem tempo de mordomia
Troquei de tempo e cidade
Por mais um tempo à vontade
E, a tempo, como eu queria.

 

Sou nordestino.
Me adaptei bem em GuarUhos
Estou passando através do tempo que não passa,
porém muda e faz barulho.

 

Caubi Dias é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O programa vai ao ar, aos sábados, no CBN São Paulo, logo após às 10 e meia da manhã. Para participar, envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pela e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: os valores de meu pai

 


Por Luciano Ribeiro
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

Em 1986, éramos sócios do Clube Juventus, no Bairro da Mooca, zona leste, mas morávamos no Cangaíba, distrito da Penha, bem longe dali. Eu, no auge dos meus 14 anos, me sentia muito orgulhoso em poder ir desde a minha casa até ao clube sozinho. Pegava um ônibus na Avenida Cangaíba, descia na Penha, embarcava no Vila Limoeiro, próximo ao Cemitério. Ali seguia em uma longa viagem de quase hora e meia até descer na portaria do clube, e aproveitar o dia quente de férias nas piscinas.

 

Certo dia, ao sair do Clube, deparei-me com a seguinte situação: tinha uma nota de Cz$ 5.000,00 (na época a moeda era o cruzado) e o valor da passagem era de Cz$ 120,00. No ônibus havia uma placa que dizia: troco máximo Cz$ 1.000,00 (posso estar equivocado com os valores exatos). Bem, fui até uma Padaria na redondeza e comprei um “Freshen up”, um chiclete que tinha um recheio líquido refrescante. Cz$ 180,00. Ao fazer o troco, a mocinha do caixa cometeu um equívoco, em vez do troco de Cr$ 4.820,00, ela me entregou Cz$ 5.320,00, e pior, a minha nota de Cz$ 5.000,00 veio junto embaixo de todas. Mais que depressa dobrei aquela pequena fortuna, a coloquei no bolso e segui para minha casa.

 

No ônibus, fazia planos … estava praticamente rico, quantas fichas de fliperama eu iria comprar. Ah! Aquele tênis que eu pedi para a minha mãe, se eu quiser comprar vou poder também! Nossa! Eu estava extasiado. O fim de semana estava garantido: shopping, cinema, sanduíche naquela famosa lanchonete do M amarelo… Uau!! Ao chegar em casa, cometi o “pior erro da minha vida” (ao menos eu enxerguei assim por alguns bons anos). Coloquei a mão no bolso, saquei aquele monte de dinheiro e mostrei, orgulhosamente, ao meu pai: – “Pai, olha o que eu consegui. Estou rico!”. Meu pai, com o semblante sempre sereno fechou a cara, e um pesar imenso tomou conta do rosto dele. O tom grave da voz dizia tudo: – “Onde você conseguiu este dinheiro?”. Expliquei, já não tão orgulho assim, a minha epopeia. Meu braço franzino sentiu a enorme pressão das mãos dele me levando até o carro. Já começava a anoitecer, deviam ser próximo das 7 da noite, estava calor, e nosso carro não tinha ar condicionado. Levamos cerca de uma hora e meia até chegar a padaria. Meu Pai fazia o costumeiro sermão (ele costumava gastar horas em uma conversa, que era pior que vinte surras). Durante todo o caminho, eu o ouvi dizer sobre o que era pegar uma coisa que não era minha, que ele nunca tinha me ensinado que isto era motivo de glória, que… ahhh… Porque eu não fiquei quieto??? Por que tive que mostrar a ele? Como fui burro…

 

Ao chegar a padaria encontramos um Sr. Grande, de cabelos brancos (ele era bem maior que meu pai). O homem apontava e falava alto para a moça, com olhos vermelhos de tanto chorar… Ela tinha uma barriga enorme, estava grávida… Meu pai interrompeu a conversa e ainda com aquela pressão no meu braço, disse que eu tinha algo para dizer… Entreguei a nota de Cz$ 5.000,00, e a de Cz$ 500,00. Com a voz embargada, pedi desculpas, e meu Pai emendou: – “O pior, é que ele percebeu o engano, pegou o dinheiro, e foi embora. Eu não ensinei isto a ele. Por isso está aqui, devolvendo.” A moça não agradeceu, não olhou na minha cara. O homem grande, agradeceu ao meu Pai, e lhe apertou a mão, que então lhe pediu que não punisse a funcionário pelo engano.

 

Demorou algum tempo para eu compreender perfeitamente aquilo tudo, e hoje devo meu caráter à forma como fui criado e educado por minha família. Com uma filha de sete anos, entendo de forma tão clara qual o legado desta, e de várias outras situações, em que meu pai me passou ao longo da minha infância e adolescência.

 

Valores… Não cabem nos bolsos.

 

Luciano Ribeiro (e o pai dele) foram personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar outros capítulos da nossa cidade aqui na CBN: envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Você vai lá, grava o depoimento e ainda ganha um DVD com suas memórias registradas. Se quiser outras histórias de São Paulo visite o meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: as férias na Vila Prudente

 

Por Martha Catalunha

 

 

Por aqueles idos de 70, eu, uma criança que vivia em cidade pequena movimentada pela velocidade e ruído dos Gordinis e DKVs e passava as férias escolares na casa de tia Francisca e tio Germinal, na esplendorosa metrópole Paulistana. Ali, na Vila Prudente, lembro-me bem, meus olhinhos infantis dançavam e se iluminavam com os out-doors, as letras garrafais em lâmpadas piscando pela cidade, viadutos e semáforos lotados de carros, automóveis, caminhões, ônibus e Fuscas “envenenados”, ah! e a louca e tresloucada velocidade das pessoas caminhando pelas ruas, alamedas e avenidas.

 

Da casa de tia Francisca, subindo no telhado da cozinha, podia ver a estação de trem da Vila Prudente e a fábrica da Ford. Como era gostoso meu Deus, passava horas ali admirando a velocidade de São Paulo… e que velocidade…!

 

Sonhava morar nesta cidade, tomar o trem todos os dias quando entrasse no mercado de trabalho e passar por aquela roleta gradeada e muito grande (para o meu tamanho de menina), a qual eu observava tanto…

 

Muitas vezes, à meia-noite, antes que caíssemos nos braços de Morfeu, eu e meu primo pulávamos da cama para comer aqueles gostosos sanduíches enormes recheados com hambúrguer, salada, tomate, ovo e muita maionese que nosso primo Rude nos trazia de onde trabalhava. Guloseima que eu conhecia somente na cidade grande.

 

Foi também nos rodopios da “Paulicéia” de Mário de Andrade que dei meus primeiros passos numa lenta dança a dois, ao som de Elton John com sua “Goodbye Yellow Brick Road”, puxada pelo meu primo Gérson tão menino quanto eu.

 

Aos finais de semana sempre vinham nos visitar meus queridíssimos e modernos (para a época) primos Adhemar e Helena com sua filhinha Gisele. Ríamos muito, muito e muito, o Adhemar – com suas costeletas à Émerson Fittipaldi – só contava piada, e desopilávamos o fígado como num verdadeiro campeonato de gargalhadas.

 

Uma parte de meus sonhos infantis tornou-se realidade: foi aqui mesmo que principiei minha vida profissional, mas já a Vila Prudente não era a mesma, o viaduto, o que aconteceu mesmo com ele? Ih, o trem perdeu a graça e a estação foi desativada, a velocidade das pessoas misturou-se à minha e os sonhos coloridos da infância repousam inocentemente numa romagem de saudade…

 

Martha Catalunha é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agente entrevista, em áudio e vídeo, no Museu da Pessoa pela e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.