Conte Sua História de SP: poetisando na janela do ônibus

 


Por Janina Zmitrowicz (Janina Zmi)
Ouvinte-internaura da CBN

 

 

Nasci em São Paulo e amo minha cidade. Desde sempre conheci de perto seus lugares históricos e marcantes conduzida pelos antigos ônibus CMTC, em companhia de meus pais e irmãos. Tornei-me médica, e há 14 anos dedico-me à população das periferias de São Paulo. Realizei muitas viagens de ônibus em diferentes regiões da cidade, como Jaçanã, Cidade Tiradentes, São Mateus, Campo Limpo, Capão Redondo, Grajaú, Centro. Como apreciadora do cotidiano, sempre contemplei cada minuto dentro de um coletivo, observando lugares, pessoas, situações. Tantas viagens resultaram em uma enxurrada de informações, que foram sintetizadas em uma poesia feita durante essas jornadas paulistanas, “CORREDOR URBANO”

 

Entra, fica em pé e senta
Sai, levanta e ajeita
Vai pedir licença
Faz a gentileza
Que não tá moleza levar isso não

 

Anda, corre, anda, para
No ponto mais gente entra
Gente sai indo na correnteza
Tanta pressa
Tanta coisa faz passar

 

Entra o artista
Toca a sanfona e a viola
Faz a sua festa
Necessito da sua ajuda
Para o meu CD gravar

 

Desce o artista
Entra o poeta declarando
Seu amor em poesias
Colaborem
Para o meu livro publicar

 

Desce o poeta
Entra o rapaz com chocolate, doce
Bala e chiclete
Amendoim salgado
Para a fome do trabalhador passar

 

Desce amendoim e doce
E sobe o coitado
Que sofre da vista
Do rim, do joelho, é pai de família
Mas como sustentar?

 

A cidade passa rápido
E lentamente
Apertado e às vezes
Mais dignamente
Senta, que não tá moleza carregar

 

Anda, corre, anda, para
Vê se dá licença
Por favor, me dá licença
Motorista, não esquece
Que meu ponto vai passar…

 

Ouça esta poesia cantada e musicada pela própria autora:

 

Conte Sua História de SP: aulas no fusquinha 62

 

Por José Augusto da Silva Rocha
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

A vida de um professor é repleta de histórias e experiências, e comigo não é diferente. Iniciei a carreira em 1987 lecionando Ciências e Matemática na Escola Estadual Said Murad, na Zona Leste de São Paulo. Eu sempre gostei de Ciências e em minhas aulas procurava despertar o interesse dos alunos. A experiência que mais recordo foi a de 1989 quando os levei para conhecer a cozinha do McDonald’s, em um tempo em que não havia a prática do “visite nossa cozinha”. O objetivo foi trabalhar os micro-organismos e a saúde.

 

Já em 1992, na E.E. Jardim das Camélias, junto com os meus alunos, em especial o D’Ângelo, numa aula de física, criamos a primeira “Redação Móvel” transformando um fusquinha 1962 numa redação de jornal. Entre muitas outras experiências, a mais marcante, também em uma aula de física, na E.E. Professor Pedro Brasil Bandechicc, com os alunos, adaptamos uma bicicleta para atender as pessoas na rua como se fosse uma escola móvel, seguindo os passos do fusquinha 1962. Na aula, eu explicava aerodinâmica, Leis de Newton, inércia …, enfim, uma aula de física. Nesta época, estava estudando Filosofia, pois pretendia trabalhar com a matéria no Ensino Médio.

 

Em agosto de 2009, já lecionando Filosofia, e na mesma escola, em uma aula, explicando sobre a vida de Aristóteles, o aluno Wilson falou: “Professor Rocha, lembra da experiência da bicicleta na oitava série, vamos transformá-la num “Café Filosófico Móvel” onde o senhor poderia ensinar Filosofia na rua, como o Aristóteles fazia”. E, assim, iniciou-se mais uma história. Com o apoio dos alunos, começamos a desenvolver o projeto do café filosófico nas imediações da escola, como experiência e verificação da aceitação e participação do público. O envolvimento dos alunos foi 100%, incluindo outras turmas, pois eu ainda lecionava Ciências para o Ensino Fundamental. Após um semestre de trabalho, pude observar que o resultado foi positivo, pois aproximei os alunos e eles passaram a participar mais das aulas, tanto de Ciências como de Filosofia.

 

Em 2010, com a bicicleta totalmente readaptada, fomos para a rua desenvolver o café filosófico móvel, projeto que serviu como base, para outros, como o “A Educação como desenvolvimento local”, “Mediação Judicial” e o mais novo projeto que estamos realizando na E.E. Pedro Brasil Bandechicc com o objetivo, de despertar valores e respeito ao próximo, que se chama Justiça Restaurativa.

 

Hoje, ao comemorar 25 anos de magistério, só tenho que agradecer a todos os meus alunos, pois, com eles, aprendi mais do que ensinei. E a minha história não termina aqui, pois se educar é um atributo que Deus deu a todos e a alguns Ele chama de professor, sem perder a essência, hoje caminho em estradas paralelas. Em 2011, a convite de minha amiga, Dra. Margarete, fui fazer o Curso de Conciliação Judicial e descobrir ali a grande oportunidade de continuar contribuindo com a sociedade. Engajado neste caminho, o percurso da Justiça, em 2012, fui para a Faculdade de Direito, e posso me considerar um acadêmico de sorte, pois já iniciei o Curso com uma nova visão: o olhar,para a cultura da paz e não a cultura da sentença, que de certa forma, é ensinada nos Cursos de Direito. Neste ano, 2014, paralelo ao meu trabalho como professor, sou voluntário no CEJUSC Central, atuando como Conciliador e Mediador Judicial, iniciando assim mais uma história de minha vida, que mesmo, estando readaptada ainda pulsa em mim, o educador que nasci para ser. Muito obrigado a todos, por participarem direta ou indiretamente, de cada história, de nossa vida.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar enviando seu texto para Milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.​

Um pouco do que penso sobre ser jornalista

 

Recentemente concedi entrevista para o site NUBE que faz seleção e recrutamento de estagiários na qual falei sobre exercer o jornalismo. Reproduzo aqui o resultado da conversa com a repórter Cláudia Giannoni. O texto que segue é da apresentação da entrevista feita pelo próprio site:

 

 

Jornalista há 30 anos e uma das vozes mais conhecidas pelo brasileiro. Logo cedo, acorda os paulistanos com as mais diversas notícias e informações e faz de sua rotina uma pauta diária. No “Especial Carreira” desta semana você conhecerá um pouco mais sobre Milton Jung, âncora da Rádio CBN.

 

Formado em jornalismo pela PUC, ele conta ter pensado durante uma época de sua vida em fazer educação física. “Porém, toda minha família é da imprensa, tio, pai, esposa. Então, não tive como fugir muito do ramo”, comenta.

 

Em sua carreira, já passou pelos mais renomados veículos de comunicação e adquiriu uma experiência imbatível na arte de noticiar. Portanto, se você quer conhecer um pouco mais sobre o mundo onde os acontecimentos mandam e desmandam nos assuntos midiáticos, assista agora mesmo mais uma reportagem da TV Nube!

 

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Conte Sua História de SP: chegou do Egito para encontrar a Liberdade

 

No Conte Sua História de São Paulo, você ouve um pequeno trecho do livro Vou para o Brasil, escrito por Ugo di Stefano, italiano nascido no Egito que veio jovem para o Brasil.

 

 

No dia 17 de dezembro de 1956 o navio atracou no cais de Santos. Desembarcamos com nossas poucas malas, só roupa e alguns livros. Subindo a serra de ônibus sob uma leve chuva, observava com curiosidade os telhados vermelhos das casas, muitas casas com telhados. Era acostumado a ver casas sem telhas. Claro, no Egito não chovia, portanto bastava uma laje de concreto e só. As telhas eram usadas em palácios públicos ou em grandes mansões. A vegetação da serra de Santos mostrava vários tons de verde e as árvores muito próximas umas das outras, sem deixar espaço. Incrível, uma floresta perto das cidades de Santos e de São Paulo. Uma maravilha! Em um bosque de pinheiros no Egito, era fácil o acesso entre as árvores, mas nesta linda floresta, de vegetação tão densa, não me parecia possível penetrar facilmente.

 

Recebi a informação que para encontrar uma pensão italiana razoável precisava comprar o jornal italiano Fanfulla publicado em São Paulo. Fiz isto e achei uma pensão que visitei. Era boa,. situada na rua Canuto do Val, no bairro de Santa Cecília e meu irmão ficou em outra, na rua adjacente à minha. As donas das pensões eram italianas e ofereciam café da manhã, almoço e jantar. No meu quarto um rapaz italiano que trabalhava como vendedor em uma firma de relógios de ponto. No dia seguinte fomos ao consulado geral da Itália para registrar presença e, mais importante, para perguntar sobre a possibilidade de trabalho. Quando souberam que vínhamos de Port Said, fomos apresentados imediatamente ao cônsul, que depois de conversar um pouco conosco chamou por telefone o responsável do jornal Fanfulla para anunciar duas pessoas que poderiam dar informações interessantes sobre o desembarque anglo-francês no Egito. Percebemos que a resposta do outro lado da linha era de que o assunto do desembarque já era notícia velha. Com um telefonema, o cônsul conseguiu um trabalho para mim nas Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. Pediu-me, que fosse no dia seguinte à Praça do Patriarca, escritório central, falar com o sr, Maddaloni no sexto andar. Para meu irmão ele deu outro nome e endereço.

 

Fui admitido com o salário de 3.700,00 Cruzeiros, que era o salário mínimo da época, mas dava para pagar a pensão e ainda sobrava um pouco. Três meses depois o salário mínimo aumento para 4.500,00 Cruzeiros. Com o extra, dava p[araa fazer algo mais., Às vezes penso, como o Brasil mudou, Hoje com o salário mínimo em São Paulo de 755,00 Reais não daria para pagar uma pensão completa para uma pessoa em um bom bairro, como era Santa Cecília naquela época, em 1957.

 

Comecei a conhecer os arredores da pensão, Uma igreja grande e bonita, no largo Santa Cecília, lojas de departamentos, escritórios comerciais e sobrados bem pintados e bonitos. A avenida Angélica com grandes casarões e com uma bela praça de nome Buenos Aires, ampla e arborizada. Andando pela calçada da praça … O que vejo? … Alarme! Um jovem casal em pé, mais do que juntos se beijando apaixonadamente na boca? Um outro casal, nos seus 20 e poucos anos, sentado em um banco da praça, também se beijando com muito entusiasmo. na minha mente tocou o alarme: HARAM!!! Isto não pode ser, é HARAM. Na língua árabe HARAM quer dizer: PECADO, não permitido. Como fazer uma coisa destas em público? E tudo com a maior tranquilidade, não se importando com ninguém. Devo confessar que eu nunca fui santo, mas em público não se faziam estas coisas no Egito, herdando, assim, os costumes árabes. Foi neste momento que senti verdadeiramente o sublime sentido da liberdade. Me senti absolutamente livre … em um país livre.

 


O Conte Sua História de São Paulo tem a locução do Mílton Jung e a sonorização do Cláudio Antonio. Para participar do quadro que vai ao ar, aos sábados, após às 10h30 da manhã, no CBN SP, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net

Conte Sua História de SP: poema da cidade

 


Por Dryca Lys
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Eu nasci e cresci nesta cidade maravilhosa chamada São Paulo. E com seus mistérios e sua fantástica frieza aconchegante. São Paulo é uma experiência de vida, é uma chance única de encontrar vários países em um único lugar.

 

Você pode conhecer a cultura alemã, entrar em contato com a cultura indígena, se sentir no Japão, conhecer a cultura coreana, judaica entre várias e várias culturas sem sair de São Paulo. Graças a magia que existe aqui, você pode se inspirar e difundir arte. Para o aniversário da minha São Paulo, envio este poema. É o que sinto e o que vejo nesta metrópole que chamo de lar

 


Este poema é parte integrante do livro Clube de Autores

 

São Paulo

 

Existem lugares que te fazem sonhar
outros fazem você se sentir mal
mas existe um lugar que te enfeitiça
um lugar que acende seus desejos, atiça
sua vontade de estar ali presente
um lugar único que te faz voar…

 

Mesmo caminhando nos becos escuros
as ruas brilhando como diamante
a música se espalhando e de repente
as estrelas caem e você anda pela poeira sideral
todos os cantos desse lugar parecem seguros
nem sempre… Mas um tapete brilhante

 

se estende aos seus pés, você chora
sozinho, canta em meio a multidão
nos dias de chuva, a brisa aquece
seus anseios, a noite vem, incandesce
seus desejos, a noite se esconde, vai embora
nos dias de sol você vê a sua solidão…

 

Você pode estar em vários lugares, sem sair
de dentro dela, mas não há nada
melhor do que estar lá, faça
o que for, corra, vá e volte, você pode ir
mas ela esta dentro de você, a saudade
te queimará inteiro, você sempre volta para esta cidade.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às dez e meia da manhã, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar deste quadro enviando seu texto para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: os pirilampos da Mooca

 

Por Cleide Cais
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Era 1954. Eu tinha sete anos. Morávamos na Mooca, bairro de preferência dos descendentes de italianos que haviam imigrado em busca de terras férteis. Minha avó, que viera de Mantova, tinha sua chácara naquele mesmo bairro, onde cultivou por muitos anos verduras que vendia e com cujo produto criou seus quatro filhos.

 

A Mooca era mágica para mim. Naquela época eu já revelava a semente de leitora contumaz, que sou. Aprendera a ler com seis anos e sempre estava procurando leitura, me recordo de que minha diversão era ler o que quer que fosse que estivesse em placas de ruas do bairro.
Meus horizontes eram a Mooca. A Rua Florianópolis onde estava nossa casa no número 629 não tinha asfalto, muito menos calçadas. Era um lamaçal quando chovia; um lamaçal lindo, onde eu afundava minhas alpargatas para horror da minha mãe.

 

Adorava a chuva, que continua até hoje a ser alvo de minha extrema paixão. Tinha uma ligação mágica com um limoeiro que estava plantado no terreno daquela modesta casa: seus frutos eram alaranjados e sua polpa também. Mas a magia vinha dos pirilampos que nele tinham sua morada.
À noite, além das estrelas e da lua, quando presente, eu tinha as luzes multi-coloridas dos pirilampos.

 

Porém uma noite foi especial: a noite do 25 de janeiro de 1954: a Cidade de São Paulo fazia 400 anos. Uma grande festa foi programada a ser realizada em um parque muito distante do Bairro da Mooca.

 

Minha mãe colocou em mim e na minha irmã, então com cinco anos, nossos melhores vestidos, meias brancas e o par de sapatos brancos de dias de festas. Fomos nós quatro: minha mãe, linda, brilhando em sua modéstia, meu pai, belo e magnífico, elegante em seu único terno.
Fizemos uma longa viagem em duas linhas de ônibus, até chegarmos ao local da festa do quarto centenário da Cidade.

 

São Paulo era, na ocasião, a maior cidade da América Latina com 2,5 milhões de habitantes. Os preparativos para as comemorações tiveram início três anos antes da data, culminando com a entrega aos paulistanos do Parque do Ibirapuera espaço com cerca de um milhão e meio de metros quadrados, cujo projeto arquitetônico foi feito por Oscar Niemeyer e o paisagismo por Roberto Burle Marx.

 

O parque foi o presente para a Cidade destinado a ser um símbolo do patrimônio coletivo e ponto de referência obrigatório da Cidade de São Paulo como constou do “Boletim Informativo da Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, n. 02 – São Paulo – Brasil – Junho 1953, Arquivo Edgard Leuenroth”.

 

Chegando ao local, após a longa viagem, eu estava encantada com tudo o que via, automóveis, muita gente alegre, luzes, fogos, porém, o clímax de repente me atingiu: de um aviãozinho chovia do céu milhares e milhares de estrelas de papel prateado sobre todos nós! Eram estrelas comemorando o IV Centenário da minha Cidade! Quanta emoção ao notar todas as crianças correndo para tentar pegar aqueles lindos pedaços de papel prateado, aquelas magníficas estrelas que brilhavam como a luz dos pirilampos do meu limoeiro.

 

Por muitos anos guardei a minha estrela de papel laminado dentro de um livro. Porém, o tempo passou, para chegar aos meus 67 anos fui perdendo coisas, perdendo pessoas, perdendo bichos, perdendo amigos, perdendo até a mim mesma, e, com essas perdas se foi a estrela do quarto centenário da minha Cidade.

 

Mas a emoção eu não perdi , hoje, lembro de tudo, como se a festa estivesse se repetindo e todas as pessoas amadas estivessem ao meu lado, correndo para catar as estrelas de papel prateado que o aviãozinho derramava.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar enviando seu texto para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa (contesuahistoria@museudapessoa.net).

Conte Sua História de SP: prefácio da minha vida que estava para começar

 


Por Sônia Santos
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Lá pelos anos 60, numa pequena cidade do interior de Minas…

 

Quando eu era jovem havia muita gente à minha volta, muitos com quem conversar, família, as amigas do colégio, os vizinhos da minha rua.

 

Suzana e Margareth moravam na esquina, duas casas planas, cheias de luz, cercadas por um magnífico jardim e toda a nobreza de um quintal de amoras e pitangas. Cresceram ali, na companhia de numerosos irmãos mais uma dezena de primos, todos aos cuidados da avó enquanto os pais e os tios trabalhavam na fazenda.

 

A casa da Ercília e Tomas guardava certo mistério, creio, por estar quase sempre, toda fechada. Os móveis escuros, austeros, as paredes forradas de sisudas fotografias, a penumbra, o silêncio … Era o cenário perfeito aos segredos da nossa efervescente juventude.

 

Contava também com a cumplicidade da minha avó Vicentina, com quem passava eternas tardes, ela falando do seu passado de tantos risos e lágrimas como só o passado das avós sabem ser e eu, do meu insignificante presente. Foram uns poucos anos, mas duraram toda uma vida! Nada, não havia nada que fizesse despertar em alguém, qualquer curiosidade. Vida leve de adolescente sem outra preocupação que a própria felicidade.

 

Assim seguia o tempo, mudando de vez em quando alguns nomes, poucos lugares e, quase sem pensar, lá estava eu mudando o rumo dos acontecimentos. Certo dia, com o solene apoio da minha avó e o olhar espantado do meu irmão, decidimos, minha irmã e eu, ir morar em São Paulo. Era fim de ano e havia um justo propósito: Ano Novo – Vida Nova! O futuro sorria-nos maravilhoso e a cidade grande nos fascinava!
Poucos dias depois, com todos os nossos pertences numa pequena mala, partimos sem medo. Nossa vida acabara de começar…

 

Sônia Santos foi personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, após às 10 e meia da manhã, no programa CBN São Paulo. Você pode contar mais capítulos da nossa cidade enviando textos para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapesso.net.

Conte Sua História de SP: o cemitério salvou minha vida

 

Por Paulo Roberto Nakashima
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Estava eu caminhando pela Rua Aurora, entre o Largo do Arouche e a Rua da Consolação, no final da década de 80, entre as 23:00 / 24:00, voltando da escola. Eu usava o cabelo bem comprido, algo pouco comum naquela época para um homem e seguia tranquilamente o meu caminho quando me deparei com um homem visivelmente embriagado, que falava alto em espanhol, abraçado por duas mulheres que, provavelmente, prestavam-lhe serviço como acompanhantes. Ao passar por eles o homem gesticulou algo para mim e tentou me beijar. Acho que me confundiu com uma mulher por causa do meu cabelo e as mulheres começaram a rir e zombar de mim. Empurrei o homem e respondi de forma impetuosa as mulheres. Uma delas começou a gritar enquanto que a outra entrou correndo em um barzinho próximo e logo saiu de lá acompanhada de um homem enorme, do tamanho de um armário, bufando com olhos arregalados, enquanto que a mulher falava: “ Foi aquele ali !” e apontava para mim.

 

Tenho que confessar que não me sinto envergonhado em dizer que não pensei duas vezes em sair correndo. Fui em direção a Rua da Consolação seguido pelo furioso armário ambulante que gritava: “Eu te mato, eu te mato, filho d#%¨¨&* !”.

 

Fui subindo a Consolação e só parei quando cheguei aos portões do cemitério, lugar bem conveniente para um descanso no caso dele me alcançar. Felizmente não vi sinal algum do homem. Fiquei surpreso com a minha capacidade atlética. Cheguei a pensar seriamente em participar da São Silvestre, mas desisti da ideia porque não tive a oportunidade de convidar aquele homem para correr atrás de mim, já que eu mudei o meu caminho que eu fazia para voltar da escola.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, após às 10h30 da manhã, no CBN SP. E você participa enviando seu texto para milton@cbn.com.br ou agendado entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: minha festa de debutante não foi por água abaixo

 

Por Beth Russo
Ouvinte-internauta da CBN

 


 

Minha rua ficava no Bairro do Cambuci. Rua Freire da Silva. Eram os anos 50/60. No começo nem era asfaltada e o esgoto era a céu aberto. Depois veio o asfalto. Foi uma grande melhoria. Só tinha um problema. Eram os dias de chuva. Enchia a qualquer chuvinha. Todas as casas tinham um murinho na porta ou comportas para a água não entrar. Mas não adiantava. A água é poderosa e quando não “pulava” o murinho, vertia pelas paredes. Minha mãe colocava pedaços de jornal nas frestas da porta, mas também não adiantava muito. Para meu irmão e eu era uma festa: fazíamos barquinhos de jornal e ficávamos na janela vendo-os partir. Às vezes passava um caminhão na enchente e formavam grandes ondas e aí entrava nas casas. As mulheres saiam a xingar, mas as crianças adoravam ver aquele mar bem na sua porta.

 

Eu estudava no Colégio Rainha dos Apóstolos (tinha bolsa, porque era ótima aluna). Para ir para escola, os bombeiros levavam os moradores de barco até a parte seca. Era uma festa. Sentia-me em Veneza. Outras vezes tínhamos botas de borracha, cano alto. Sempre que alguém precisava sair, um familiar acompanhava até onde não havia água e trazia as botas de volta. Nunca ficamos doentes. Quando a água baixava era hora da limpeza. Dava um trabalhão. Desinfetar tudo, esperar secar, raspar o chão, escovão, etc.

 

Quando completei 15 anos, era moda fazer uma festa, com 15 pares de amigos, com velas acesas e tudo mais. Era em nossa casa mesmo. Tinha a vitrola, um bolo, pão com patê e cuba libre. Só que no dia caiu a maior chuva e encheu a rua. Não teve festa. Mas no dia seguinte apesar de tudo conseguimos reunir todo mundo e eu tive minha festa de 15 anos. Era tudo tão simples! Contentávamos-nos com tão pouco! E éramos felizes!

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados no CBN SP, logo após às 10 e meia da manhã. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode enviar sua história para milton@cbn.com.br ou agenda entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net

Conte Sua História de SP: na casa do vigário

Por Sônia Maffei

 

 

Minha história sobre a querida metrópole,tem início no fim de 1940,até início de 1960, morava com minha família na cidade de Itu,onde nasci,assim que podia minha mãe,eu e minha irmã, vínhamos para a capital visitar parentes, para mim era uma alegria imensa ,quando era anunciada a viagem,e nem dormia devido a ansiedade.

 

Viajávamos apenas,eu,minha saudosa mãe,e também minha falecida irmã, papai também já em outro plano espiritual, ficava trabalhando, pois era advogado,e nunca tirava férias,pois teria que se manter por conta própria,como todo profissional liberal. Veja como as coisas mudaram em São Paulo, geralmente ficávamos hospedadas na Casa Paroquial de Santa Cecília, pois duas tias de minha mãe,minhas tias avós,tia Ditinha ,e tia Inacinha, eram funcionárias da casa paroquial,e o vigário,gentilmente permitia que parentes das empregadas ali fossem hospedadas.

 

A Casa Paroquial ,era situada à rua Frederico Abranches,e posteriormente transferida para a Fortunato,passeávamos com segurança pelas ruas das imediações, pois,o bairro dos Campos Elíseos,ali perto era onde estava a sede do governo estadual.

 

São Paulo era uma cidade bem policiada,e o trânsito organizado quando eu era criança, vínhamos de trem,para cá ,desembarcávamos na estação Júlio Prestes e caminhávamos com segurança até o bairro de Santa Cecília. O bairro já não é mais o mesmo,mas a majestosa igreja de Santa Cecília lá permanece,testemunha de nossa história.Tenho esperança de que as coisas melhorem,pois tenho fé.Graças a Deus, após minha aposentadoria consegui me mudar para esta querida metrópole,que sempre visitava nos finais de semana,e nas férias.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participartar enviando sua história para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em vídeo com o Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@cbn.com.br.