Conte Sua História de SP: o laguinho de Interlagos é meu refúgio

 

Por Sônia Terezinha Botelho da Silva

 

 

Adoro São Paulo. Em especial, a Avenida Paulista onde nasci faz alguns anos. A cidade é fantástica com seus parques, ruas, avenidas. Seus monumentos de cimento. Morei muitos anos na Zona Sul, no  bairro do  Socorro,  frequentando a Avenida Atlântica e arredores, como os antigos restaurantes Interlagos e Clube Santa Paula. O Parque Jacques Cousteau, popularmanete conhecido por  Laguinho de Interlagos, se tornou meu lugar predileto, e recebe muitas pessoas para caminhada, corridas e ginástica nos aparelhos durante a manhã, tarde e noite. Depois que casei, fui morar em São Bernardo do Campo,  mas fazia questão de, aos fins de semana, visitar a casa de meus pais, desculpa par dar uma volta no Laguinho e apreciar o pôr do sol, o que me proporcionava um excelente início de semana.

 

O Laguinho de Interlagos ainda é meu refúgio, pois em diversas situações difíceis da minha vida foi lá que encontrei equilíbrio emocional para pensar e enfrentar os obstáculos com calma e sabedoria. Acredito que esse lugar é divino. Caminhar ali é encontrar a paz,  ouvindo o canto dos pássaros, apreciando a beleza dos ipês amarelos, sentindo o ar puro e admirando a pequenina ponte no lago.

 

É maravilhoso.

 


Sônia Botelho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você tambem outros capítulos da nossa cidade. Agende uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: o leiteiro da Freguesia do Ó

 

Por Pedro Lucas Master
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Nascido no Brooklin Paulista e criado na Freguesia do Ó, da qual tenho preciosas recordações. Do leiteiro entregando suas garrafas de leite de porta em porta; do lixo sendo recolhido por carroções enormes puxados por cavalos, a alegria da criançada era ver quando aquelas enormes rodas encalhavam no barro e os homens ajudavam a empurrar. Odiava ter de lavar a louça para, só depois de terminado o serviço, brincar livremente pelas ruas do bairro, ainda sem asfalto, que deixavam as roupas todas sujas de poeira. Sextas-feiras, já mais crescidinho, ia com a rapaziada para o Largo da Matriz, na Pizzaria do Bruno. Até hoje luto contra umas gordurinhas a mais conquistada naqueles tempos. Tinha também o “Branquinho”, um lindo e esperto cachorro de pelos negros, apesar do nome, que me acompanhava até o ponto inicial do ônibus Jardim Maracanã-Praça do Correio. Que saudades dos tempos em que se brincava nas valas abertas pelas águas das chuvas ou por entre os pinheiros. Hoje, meus filhos e netos vivem trancafiados por enormes portões, sem o privilégio de ficar na cerca jogando conversa fora com os vizinhos. Não tínhamos tecnologia avançada, mas tínhamos segurança, paz e harmonia. Tínhamos famílias que se reuniam, fosse apenas para comer polenta, mas eram unidas e se sentiam seguras. Esta é São Paulo, orgulho do Brasil, coração do Mercosul, futuro do Mundo, meu amor !

 


Pedro Lucas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar outros capítulos da nossa cidade: agente uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa, pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou mande seu texto para mim: milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: o mágico trem de Prata

 

Por Marina Lopes da Costa
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

 

Lembro-me muito bem do famoso trem de prata, que passava na linha do trem em frente a minha casa. A visão era privilegiada, embora eu, com apenas cinco anos de idade, demorasse tanto tempo para chegar até a janela para ver o tão mágico trem passar. Não era muito de sair de casa, mas quando saía era sempre para ir aos mais belos e importantes pontos turísticos da cidade. A Estação da Luz foi o primeiro local que conheci. Tão linda e sofisticada. Atraiu-me o relógio, grande e fascinante ao mesmo tempo.

 

Contudo, caminho pelas ruas do Centro de São Paulo e vejo em cada canto vários tipos de artistas anônimos: músicos, poetas, caricaturistas, pintores, cozinheiros e artesãos.  Os artistas das ruas que lá estão desenham em suas telas de pintura, que se transformam em belíssimas criações, um mundo mágico por trás daquela tela branca surge. Em cada canto do centro há uma cultura. Como é interessante o Centro de São Paulo quando passeio pelas esquinas e cruzo com a famosa Ipiranga e avenida São João, que foram de inspiração para a letra da música de Caetano. O bar Brhama é o ponto de encontro  de casais, amigos e solitários, um espaço aconchegante onde se podem ouvir músicas de convidados especiais, como o Zeca Pagodinho.

 

Como não se apaixonar por São Paulo? Sua bandeira carrega seu emblema e as ruas suas histórias, cada uma mais interessante que a outra. Talvez esteja sendo exagerada. Não, não estou. Depois de Santos, a cidade que admiro e tenho orgulho de viver é a maravilhosa São Paulo. Apesar de termos graves problemas de superlotação nos transportes públicos, estes mesmo que às vezes nos deixam na mão, entre outros problemas sociais, não consigo me imaginar morando em outro lugar. Talvez  até mude, mas sempre vou guardar os bons momentos que vivi nela.  Aqui vivenciei momentos memoráveis: torci pelo meu peixe no Pacaembu e ouvi o som de Paralamas do Sucesso e Titãs, no Sesc. Como é bela esta cidade tão carinhosamente apelidada de Sampa, e como é gratificante morar aqui.

 

Marina Lopes da Costa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar outros capítulos da nossa cidade: agente uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa, pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou mande seu texto para mim: milton@cbn.com.br.

 

Conte Sua História de SP: minha namorada de revista

 


Por Raul Ferreira Gomes
Ouvinte-internauta da CBN

 

Ouvi a narrativa da ouvinte-internauta Júnia Lopes contando a história dela ligada a uma revista, isto me animou a também contar minha história intrinsecamente ligada a uma revista dos anos 60: “Sétimo Céu”:

 

 

No fim de dezembro de 1960, eu, com 19 anos, trabalhava com meu pai no armazém de secos e molhados da família, quando meu amigo Antonio Carlos me mostrou essa revista que era muito apreciada pela mãe dele que adorava as fotonovelas e na qual havia a seção “Clube dos Correspondentes”, em que rapazes e moças procuravam amizades e namoros. Informava-se o tipo físico, gostos, e o desejo de se corresponder. A principio relutei em mandar uma correspondência, mas devido a insistência de meu amigo, acabamos os dois redigindo cartas para a revista com os nossos dados, embora acreditasse que nada seria publicado. Para minha surpresa, no início de janeiro de 1961 começaram a chegar cartas de garotas do Brasil inteiro em resposta ao meu anúncio. Corri à banca comprei a edição nº 57 da primeira quinzena de janeiro e efetivamente lá estava. Foram centenas de cartas suficientes para encher 5 caixas de sapato. Li quase todas, mas poucas delas foram respondidas por mim, pois achava aquilo tudo uma grande brincadeira. Por volta do dia 25, entre várias cartas recebidas, uma me chamou a atenção: era de uma menina de 16 anos que morava no bairro, descrevia seu tipo físico, seu endereço e finalizava com um p.s “Se quiser me conhecer, estou às ordens” 

 

Em 30 de janeiro, enviei-lhe uma carta da qual não obtive resposta. Quis o destino que passados 15 dias, numa manhã de domingo de sol, estava eu e meu amigo Antonio Carlos, dando uma volta pelo bairro com o carro do meu pai, um Pontiac 1963, quando passamos por uma rua que reconheci pelo nome como sendo a que a tal menina morava. Por não lembrar o número da casa, batemos palmas na primeira que encontramos, perguntando se conheciam a Jane. O morador nos disse que ela morava um pouco mais abaixo no nº 36 e como era próprio da juventude tomei a decisão de ir lá conhecer a “figura”. Fui atendido por uma loirinha linda, cabelos compridos, olhos azuis. Me identifiquei e num misto de surpresa e curiosidade, conversamos e resolvemos nos conhecer melhor, como um “pré-namoro”. Saímos juntos naquela mesma tarde e os encontros foram se sucedendo. Era a época de namoros inocentes, passeios pela Praça Sílvio Romero, matinês no Cine Leste, bailinhos em casa de família, tudo isto com a concordância de seus pais. Passeávamos juntos sem qualquer contato físico. Para segurar sua mão e andar de braços dados foram quatro meses. O primeiro beijo demorou mais seis longos meses. Encontros só aos sábados e domingos e até nove da noite no portão da casa dela e com uma tremenda luz acesa para facilitar a vigilância pelos pais. São Paulo, na época, contava, creio eu, com menos de quatro milhões de habitantes. Curtíamos os discos de Elvis Presley, as baladas românticas italianas e não perdíamos o programa “Jovem Guarda”  nas tardes de domingo.

 

O mais curioso dos detalhes desta aventura que se iniciou nas páginas da revista Sétimo Céu: descobrimos que já havíamos brincado juntos nos anos de 1948/1949, quando eu estava com 7 ou 8 anos. Nos fundos do nosso armazém, havia uma pequena vila de casas que pertencia ao meu avô. Em uma dessas casas morava o Senhor José com Dona Antônia, a esposa dele. Seu José era um gentil sapateiro muito querido por mim, adorava ficar ao lado dele enquanto consertava sapatos, ouvindo e me deliciando com suas histórias. Eles eram os tios da Jane, visitados por ela a cada 15 dias. Nós brincávamos naquele grande quintal sem que ninguém pudesse imaginar que dali sairia um casamento que se transformou em 46 anos de felicidade e do qual nasceram três belas meninas.

 

Raul Ferreira Gomes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antônio. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Pode também mandar um texto para mim: milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: futebol na cabeceira da pista

 

Por Omar Ayub
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Em 1969 mudei da Alameda Barros, 164 (vizinho de fundos da Rádio Globo da rua das Palmeiras), para um bairro longe do centro: Jardim Aeroporto e me tornei o mais novo vizinho do Aeroporto de Congonhas. Para um garoto de 11 anos essa proximidade foi espetacular. Já adianto que apesar do fascínio pelos aviões  não me tornei aviador, piloto ou qualquer profissional ligado a área. Estudei na Escola Estadual de 1º Grau Congonhas (depois denominada Prof.ª Ilka J. Germano) e após na Escola Estadual de 2º Grau Padre Manuel de Paiva. Hoje, somente os edifícios existem, servindo a outras atividades pois as escolas foram fechadas, segundo as autoridades da época devido a baixa procura dos moradores do bairro. Passo pelos prédios e me lembro das salas de aula, dos colegas, da sirene, dos professores e das aventuras que vivíamos na década de 1970. Mas o que gostaria de contar mesmo é de outro lugar que não existe mais.

 

Vizinho a atual Av. dos Bandeirantes e bem “debaixo” da cabeceira da pista do aeroporto na Av. Washington Luís, existia um campo de futebol de várzea, sem um centímetro quadrado de grama, pura terra. Nós garotos que usávamos esse campo o apelidaram de Campão. Não sei se era grande mesmo ou se parecia enorme devido ao nosso tamanho. Acordávamos cedo, aos sábados, para sermos os primeiros a usá-lo, pois a procura era grande e a fila para jogar maior ainda. Enquanto corríamos atrás da bola parávamos de quando em quando para observar os aviões que passavam por cima de nossas cabeças. Parecia que bastava levantar as mãos para tocá-los. Sábados à tarde e aos domingos, o Campão recebia os times de várzea e ficávamos junto a uma torcida numerosa e animada observando e admirando aqueles jogadores uniformizados.

 

O tempo passou muito rápido, a demanda por voos também e a pista do aeroporto precisou ser aumentada. A ampliação custou os sonhos de muitos jogadores e o Campão deixou de existir. Passo todos os dias pela Av. Washington Luís, lembro-me do posto Shell, que já estava lá desde 1969 e foi atingido pelo avião da TAM. Lembro-me das chácaras do bairro que forneciam verduras e legumes e onde hoje existem casas e prédios, mas, principalmente, lembro daqueles garotos que corriam atrás da bola, vibrando, rindo, gritando, sorrindo, xingando…

 

Lá se vão mais de 40 anos e ainda hoje vejo o Wellington, o Antônio, o Paulo, o Claudio Bento, o Augusto, o Mauro Japonês, o Gladstone disputando a bola com a única preocupação de sermos felizes e aproveitarmos aqueles momentos mágicos no Campão, que já se foi.

 


Você pode participar do Conte Sua História de São Paulo enviando texto para milton@cbn.com.br ou agendado entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: o pequeno espelho me faz feliz

 

Por Maria Lúcia de Oliveira Souza

 

 

Meus pais, “Seu Francisco” e  “Dona Conceição”, chegaram a São Paulo no início dos anos 60. Assim que desembarcou na rodoviária, minha mãe foi direto para maternidade Leonor de Barros, estava grávida do segundo filho, meu irmão José. Lembro-me do meu pai, caminhando pelas ruas frias da cidade e eu abraçada ao seu pescoço. Ele procurava um lugar como abrigo. Foi o Centro Imigração que cedeu acolhida por três dias. Tempo suficiente para meu pai conseguir trabalho e moradia na zona rural do município de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Em Mogi, meu pai foi trabalhar com japoneses. Teve que amassar muito barro para construir uma pequena casa. Eu tinha apenas dois anos de idade, meu irmão acabava de chegar do hospital e assim se iniciava a guerra pela sobrevivência desta pequena família que mais tarde se tornou bastante numerosa.

 

Meus pais estavam felizes, pois deixaram suas terras para vir para cidade dos sonhos. Aos fins de semana, para ampliar os ganhos com o trabalho,  meu pai era  “Seu Francisco, o Mascate” – o vendedor de porta em porta. Toda vez que via sua mala de trabalho aberta, com todos aqueles pequenos objetos para venda, eu ficava repleta de felicidade. Ela tinha um pouco de tudo. Eram, em sua maioria, objetos que agradavam as mulheres pobres do bairro. Nela se encontravam presilhas, pentes, lenços, brincos, colares, agulha, linha, espelhos, maquiagem, fitas, flores de pano … Tinham até sachês de chá! Mas o que eu gostava mesmo era do espelho. Pegava um daqueles e ficava me olhando, apreciando os cabelos cacheados, a cor morena, os tristes olhos e as sobrancelhas fortes. A pequena Maria, a menina de quatro anos de idade, sorria e voltava a guardar o espelho.

 

Um dia muito feliz era quando acordava cedo para acompanhar meu pai até a região do Brás para comprar objetos e fazer as reposições necessárias. O trajeto era feito sempre de trem, uma viagem muito longa. O início das compras sempre começava com um pastel de carne. Enquanto eu devorava, ele ficava observando serenamente a minha satisfação com a primeira refeição do dia. Depois de mãos dadas íamos às compras. Com uma das mãos segurava firmemente a minha e com a outra, a mala.

 

Passaram-se 50 anos e ainda vou para o Brás fazer compras. Meu pai não está mais de mãos dadas comigo. As barracas de pastéis mudaram de lugar e ganharam espaço mais confortável, (bem como o meu pai Francisco). A mala? Ah! A mala permanece a mesma, guardada no lado esquerdo do peito. Dela, agora não mais a menina Maria, mas a Dona Maria, tira o pequeno espelho e nele vê o passado que lhe faz tão feliz no presente.

 

Maria Lúcia de Oliveira Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antônio. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Pode também mandar um texto para mim: milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: o Centro dourado do meu avô

 

Por Mariana Pereira da Rocha Cruz
Ouvinte-internauta da CBN
 

 

 

 

Aos 85 anos foi meu avô quem me fez enxergar São Paulo da maneira que vejo hoje. João Baptista Pereira Netto não é simplesmente um joalheiro ou ourives. Dedicado, faz do trabalho um lazer, do pó a peça e das jóias, pequenas obras de arte que vende com preço justo e honesto, muitas vezes criticado por minha avó, dona Ofélia.

 

 
Nasceu no bairro Santa Cecilia, cresceu ao lado de seus sete irmãos. A educação se dividiu entre o jeitão descontraído da minha bisa italiana e do meu biso português, que até bebericava sua cachaça, mas por um pouquinho só não foi padre.

 

 
A Igreja Sagrado Coração de Maria foi pano de fundo de toda uma infância, pobre é verdade, mas nem por isso infeliz. São muitas as histórias que meu avô costuma me contar em sua oficina. Entre uma peça e outra, ele descreve o centro da cidade de São Paulo e as ruas onde costumava brincar ou ver os bondes passarem.

 

 
Com o rádio sempre ligado, aumenta o volume quando o assunto é Corinthians, grande paixão e ,possivelmente, um dos únicos assuntos que consegue tirá-lo do sério. Cresceu na Santa Cecília, construíu família em Pinheiros e devido a queda nas obras da linha Quatro do Metrô veio morar no Butantã, bem perto da minha casa.

 

 
Não reclama dos acontecimentos da vida, aliás não costuma reclamar. E eu devo confessar: só agradeço de poder estar ainda mais próxima de meu avô. Enquanto admiro seu trabalho de artesão ele me conta do dia em que foi escolhido para provar a Coca Cola quando chegou ao Brasil. Foi ali na Praça Ramos de Azevedo, no antigo Mappin. Também conta dos títulos da seleção brasileira via rádio, ou através de auto falantes que podiam ser ouvidos na Rua Direita, ou na Praça da Sé.

 

 
Anhangabau, Praça da República, Praça Ramos: aí passaram todos os principais eventos da vida de meu avô. Notícias, paqueras, trabalho… Hoje é um grande sacrifício para um jovem da minha idade se locomover até o centro. Pensa-se no trânsito, nos moradores de rua, na sujeira, nos usuários de droga, no preço dos estacionamentos. Pensa-se muito até a desistência.

 

 
Comigo é diferente. Ir ao centro da cidade com meu avô é descobrir uma São Paulo encantadora. Enquanto andamos na procura das pedras perfeitas ou vamos ao encontro de um antigo amigo dele, onde compra o ouro em pó, consigo vislumbrar São Paulo em sua mais perfeita elegância. Em um piscar de olhos, os postes são de ferro, os homens de chapéu, as mulheres de vestido… E o centro da cidade palpita …

 

 
João Baptista Pereira Netto, homem de fala mansa, trejeitos calmos e pacientes, é uma antítese em meio à confusão da cidade. Neste mundo em que todos trabalham demais, engolem a comida e ganham apenas o suficiente para pagar as muitas contas, ele é um dos poucos privilegiados que pode se dar ao luxo de viver da sua arte. Nas suas palavras, um verdadeiro presente de Deus.

 

 
Nas minhas palavras apenas posso agradecer por ter esse avô que me fez enxergar que a Vila Madalena, Vila Olímpia, Itaim, Moema, Jardins, são sim bairros lindos e jovens, cheios de restaurantes e lojas … mas que a história e o pulsar de São Paulo estão mesmo no centro dela.

 

 
 
Mariana Pereira da Rocha Cruz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em audio e video no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ouça outras histórias de São Paulo no meu Blog, o Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: do cheiro de café na padaria à serração

 

Lia Araujo
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

 

Tenho muito carinho em falar sobre a São Paulo querida dos paulistanos! Sempre que penso sobre minha cidade natal tenho um sentimento relacionado à infância. Acordando cedinho em casa, sentia o cheirinho  do café de coador e do filão de fresquinho da padaria mais próxima. Acompanhando minha mãe à feira livre, abarrotada de pessoas apressadas e feirantes animados. Parando na banca de pastel com garapa. Aos domingos, vendiam até frangos e pintinhos vivos.

 

Sou do tempo que era possível atravessar tranquilamente a praça da Sé ou o Vale do Anhangabaú ou a Praça do Patriarca, mesmo em altas horas da noite sem medo. Sim, São Paulo já foi uma cidade tranqüila durante à noite. Antes do metrô, os ônibus eram seguros e em número suficientes, também. A população era apenas a metade da atual.

 

Todas as manhãs e no inverno à noite, por conta da densa vegetação,  havia serração, às vezes acompanhada de garoa, a famosa garoa que caiu no esquecimento, após o advento da poluição proveniente de tantas indústrias e veículos. As indústrias já estão se diluindo pelo interior; enquanto os carros aumentam cada vez mais em número e modelos variados. Até o bonde agora é motivo de folclore na lembrança dos cinqüentões.

 

Impossível lembrar-se de São Paulo sem falar dos inúmeros migrantes e descendentes de imigrantes. Havia o bairro dos italianos, dos japoneses, dos árabes, dos judeus, dos libaneses, dos portugueses. Muito interessante como essa gente miscigenou-se e transformou São Paulo nesta terra tão pródiga para todos. A megalópole de milhões de habitantes. A cidade que não pára, não dorme, não cala.

 

Prezo em manter esta memória que passo para os jovens, divido com eles todo o encanto que um dia me proporcionou esta São Paulo.

 

Lia Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: o Amarelinho da CET que ajudou meu filho nascer

 

Por Marcelo Parra Vallone
Ouvinte-internauta da CBN

 

O Amarelinho que nos ajudou no dia do nascimento de meu Filho.

 

Após três anos de casados, eu e minha esposa resolvemos ter um filho. E após nove meses de gestação, no dia 16 de fevereiro de 2001, minha esposa acordou com dores. Ligamos para o médico e ele disse que a hora havia chegado. Fomos às pressas para o hospital. Apressados mas cuidadosos. Morávamos em Mauá. Precavido, eu já havia feito todo o percurso até o hospital, o Santa Joana, na avenida Paulista, algumas vezes. A malinha do bebê já estava pronta a um mês. Acontece que meu filho resolveu dar sinais que ia nascer às sete da manhã de uma sexta-feira: hora do maior trânsito em São Paulo. Na avenida Vergueiro o tráfego parou de vez. Minha esposa sentindo aquela dor que só mulher sabe como é. Os carros não andavam. Eu buzinava com esperança de alguém abrir caminho. Não adiantava. Quando parecia não haver mais horizonte à minha frente, dei uma olhada no retrovisor e avistei um carro amarelinho, aqueles da CET. Não tive dúvidas, esperei a viatura ficar ao meu lado, desci o vidro e pedi ajuda ao senhor que estava na direção. Foi quando ele gritou: “vem atrás de mim, vou te ajudar”. Ligou a sirene, sai atrás dele e o caminho se abriu até o hospital. Coisa de dez minutos já estávamos na porta do Santa Joana. Agradeci ao moço da CET, abri a porta, peguei a malinha, dei entrada com minha esposa na maternidade e … Ufa, que sufoco! … meu filho nasceu lindo como o pai e a mãe e com muita saúde. Obrigado, Amarelinho da CET.

 

 

Marcelo Parra Vallone é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em áudio e video no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ouça outras histórias de São Paulo no meu Blog, o Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: A chácara do Seu João das Vacas

 

Por Marcos Falcon
Ouvinte-internauta da CBN

 


 
Se existir o paraíso ali foi o da minha infância.
 

 

Na época, que minha recordação consegue as primeiras lembranças, eu um garoto de apenas cinco anos e aquela chácara um mundaréu de terreno que não tinha mais fim, onde eu, se sozinho, poderia me perder com facilidade e nunca mais ser encontrado. Hoje lá existe uma pequena vila residencial de não mais que um alqueire e a grande maioria de seus moradores nem sabe que ali foi o paraíso.
 

 

Cortada de ponta a ponta por um córrego de águas cristalinas que serpenteava por entre os eucaliptos e as árvores frutíferas e que em determinados pontos ampliava-se formando singelos lagos. Nestes lagos a garotada e principalmente eu e o meu amigo Giba demos os nossos primeiros mergulhos e primeiras braçadas desengonçadas ao que dizíamos estar nadando.
 

 

Bater peneira ou na falta desta bater saco, uma forma de pesca em que dentro do riacho com a peneira ou com o saco de estopa, raspávamos o fundo do rio em direção as bordas e levantávamos nossos instrumentos até a flor d’água por debaixo das ramadas e delirávamos com os guarús, lambaris, pequenos carás e muitos girinos.
 

 

O pé de caqui chocolate, daqueles legítimos, que mesmo verdes por fora eram marrons por dentro. Ali ficava nossa torre de observação, pois do alto de seus galhos podíamos ver a chácara toda, inclusive a casa do Seu João, e ao menor sinal da saída do velho de dentro da casa nós já dávamos o alerta, pois ele andava sempre com uma espingarda velha carregada com sal e prometia atirar na garotada que roubava suas frutas.

 

Um dia ele nos pegou roubando, ou melhor, colhendo suas pêras sem autorização. Não deu tempo de fugir nem mesmo de descer da pereira. Seu João com a espingarda na mão ameaçando a mim e ao Clóvis. Ficamos tão assustados que deixamos cair todas as pêras e prometemos a ele que nunca mias iríamos apanhar suas frutas. Ele falou que contaria até cem para que nós descêssemos da árvore e sumíssemos de sua frente, pois a partir dos cem atiraria na gente. Provavelmente antes de ele contar até vinte já estávamos em casa.
 

 

Ali montei as minhas primeiras cabanas de índio armadas com varas de cana do reino e trançadas com folhas de taboa e dentro delas muita conversa de moleque e planos para grandes aventuras produzidas por nossa fértil e pura imaginação.

 

Já moleques mais velhos beirando a fase dos doze anos lá era o esconderijo onde amarrávamos os cavalos das olarias que fugiam e apareciam na redondeza e desta forma garantíamos montaria para todos podermos nos aventurar em passeios e explorações mais distantes montados a pêlo.
 

 

Construímos armadilhas para pegar lobisomem, laços para pegar pássaros, caçamos muitos preás com ajuda de nossos fiéis cachorros vira-latas. Brincamos de índio e mocinho, tiramos guerra de estilingues com mamonas até que um dia fomos interrompidos pelo ruidoso barulho de um motor gigante que mais parecia um destes monstros de filmes japoneses. Um monstro devorador de árvores, arbustos, riachos, cabanas e armadilhas.

 

A chácara foi planada, loteada e sem nosso consentimento destruíram o quintal de nossa infância. Tentamos protestar e por algum tempo durante a noite destruíamos as pequenas paredes que começavam a serem erguidas, porem no dia seguinte lá estavam elas novamente brotando do chão regadas pela energia das águas cristalinas de nosso córrego que hoje corre apenas em minhas lembranças.
 

 

A  Chácara ficava em Itaquera muito próximo onde hoje está sendo construído o Itaquerão.
 

 

Marcos Falcon é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em audio e video no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ouça outras histórias de São Paulo no meu Blog, o Blog do Mílton Jung.