Conte Sua História de SP: Brincadeira de criança

 

Roberto Samuel da Silva nasceu em 1962 em Alvorada do Sul, Paraná. Mas é a cidade de São Paulo, em especial o bairro Jardim Japão, que povoa suas memórias de infância. Para relatar essas lembranças, ele escreveu ao Museu da Pessoa em agosto de 2010.

Ouça o texto de Roberto Samuel da Silva sonorizado por Cláudio Antônio

Chegamos a São Paulo num dia frio e de muita garoa no ano de 1968, não sei em que mês. Viemos de trem da cidade de Alvorada do Sul, Paraná. Lembro-me pouco da viagem. Tenho uma vaga lembrança do trem. Na verdade, não sei se são lembranças ou histórias que meus pais contaram depois. Dizem que, durante a viagem, eu saí andando pelos vagões e teria me perdido. Meu irmão, João, é que me encontrou “vagando”.

Fomos morar no Jardim Japão, na rua Nigata. Acho que, na época, o povo chamava essa rua de Niagata. Ali passei minha infância e fiz meus primeiros amigos. Lembro-me do senhor Zacarias. Ele trabalhava em uma grande fábrica de pneus e me ensinou a torcer pelo Santos Futebol Clube. Esse senhor tinha três filhos e uma filha: Carlos, o mais velho, depois o Airton, o filho do meio, apelidado de Tito e o Rui, o mais novo dos meninos. A menina era a mais nova, chamava-se Sonia. Ela tinha a mania de chupar os dedos indicador e médio. De tanto chupá-los, ela ganhou duas verrugas neles. Ouvi essa história da matriarca dessa família, Dona Isolina. Achava-a bonita, no entanto, não lembro mais de seu rosto.

Eu era um “televizinho” deles, ou seja, um sujeito que não possuía televisão e ia à casa do vizinho para aproveitar um pouquinho daquela maravilha. Era uma TV da marca Telefunken.

Com mais ou menos a minha idade, havia uma garota chamada Marlene e um garoto chamado Cido. Brincávamos nas ruas e na enorme praça. Aliás o pai do Cido, “Seo” João, era vigilante e morreu, durante o serviço, no início dos anos 70, não lembro se foi de enfarte ou derrame. O então menino chorou muito. Coube à dona Maria Teixeira (lembrei do nome dela) conduzir a vida. Essa família era muito amiga da nossa.

Minha primeira escola foi a Escola Imperatriz Leopoldina, até hoje na rua Togo. Ali estudei até o quarto ano do primário. Dessa fase, guardo o nome de apenas duas professoras: Cecília, minha primeira mestra, e Sonia Agosto, a professora do segundo ano primário. Ah, havia também a toda poderosa diretora: Dona Ada.

Falando nisso, dia desses aconteceu algo muito estranho. Eu estava tomando uma cerveja com um amigo, hoje secretário de Esporte de Guarulhos, e falávamos do passado quando ele revelou que estudou nessa escola, na mesma época que eu, e era morador da rua Osaka, rua paralela à minha querida rua Nigata. Incrédula, pedi que ele dissesse o nome da diretora e confirmou: “Dona Ada”. Lembrou inclusive do “grande” porte físico que nos parecia ainda maior quando sua poderosa voz ecoava pelos corredores da escola.

A história parece-me ainda mais inverossímil quando esse meu amigo revela: “Morava ao lado da fábrica de balas”. Eu vivia por ali. Apenas para constar, todas as balas tinham o mesmo sabor: eram de açúcar puro, apenas açúcar. Mas havia papéis de várias cores e com desenho de diversas frutas. Um verdadeiro engodo. Mas eu olhava para o papel cheio de desenhos de abelhas e sentia o sabor de mel. Para complementar a renda familiar, era comum as pessoas pegarem essas balas para embalar em casa. Havia uma família na rua Osaka, com muitas crianças, que embalavam as balas e também ensacavam figurinhas.

Lembro-me do início das obras do Praça Oyeno, situada no centro do bairro e em frente à minha casa. Minha mãe chegou a fazer lanches e vender aos trabalhadores da obra, mas não deu muito certo. O parque ficou muito bonito. Muitas árvores foram plantadas e tinha até minas de água. Ele começava na avenida das Cerejeiras, seguia até próximo à rodovia Presidente Dutra. O lugar era bonito, pois as transportadoras ainda não tinham se instalado naquela região.

Morei também um tempo em uma casa da avenida das Cerejeiras. Foram tempos de muitas dificuldades. Meu pai lutava muito, éramos oito. Meu irmão João casou pouco depois de chegarmos a São Paulo e foi morar na Vila Maria Baixa, perto da avenida Guilherme Cotching. Apenas meu pai trabalhava. De vez em quando faltava alguma coisa, o feijão, a carne, o pão… Minhas irmãs, a Cida e a Cícera, começaram a trabalhar muito cedo para ajudar. Tenho um carinho e um respeito muito grande por elas. Se você acha que hoje existe exploração, nos anos setenta havia muito mais.

Em 1974, deixamos São Paulo e mudamos para a cidade de Guarulhos. Perdi o contato com meus amigos de infância e com os vizinhos. Tentei, ainda manter contato, mas meus amigos ficaram no passado.

Você participa do Conte Sua História de São Paulo enviando seu texto para o site do Museu da Pessoa ou agendando entrevista para gravar seu depoimento em áudio e vídeo

Conte Sua História de São Paulo: O bar automático

 

No Conte Sua História de São Paulo, Oliver Gomes da Cunha, natural de Botucatu, interior paulista. Veio morar na capital, em 1940, para fazer a faculdade. A história que você vai ouvir agora faz parte do acerto do Museu da Pessoa:

Ouça o texto de Oliver Gomes da Cunha que foi ao ar no CBN SP, sonorizado por Cláudio Antonio


Quando chegamos aqui em São Paulo – meu pai me trouxe -, nos hospedamos no Hotel do Este, que era ali na Rua Boa Vista. Era um dos melhores hotéis de São Paulo. Dali fomos à faculdade tirar informações. Era a Faculdade de Ciências Econômicas de São Paulo. São Paulo era uma coisa estranha para mim, por causa do movimento que havia na época. Eu fiz o vestibular, acabei me classificando e fui morar com uma tia que morava no Brás, na Rua Oiapoque.

Comecei a viver São Paulo. Tomava bonde para vir à cidade, era um deslumbramento. Para conhecer a cidade tinha um bonde chamado 17 que saía do Brás, ia para o Largo do Arouche, dava uma volta enorme, passava pela Avenida São João, entrava na Consolação, dava uma volta enorme, e era um grande passeio. Eu me lembro de umas coisas interessantes na época.

Havia em São Paulo um bar chamado Bar Automático, não sei se ouviram falar nisso. O Bar Automático era um bar que tinha na Avenida São João, ali no primeiro quarteirão entre a Libero Badaró e o Anhangabaú. A gente colocava um níquel e caía um sanduíche, não tinha garçom, não tinha ninguém. Você botava uma moeda, o sanduíche descia o degrau, você pegava o sanduíche, punha a moeda noutro lugar, jorrava um copo de refrigerante. Quantas e quantas vezes esse foi o meu jantar, porque eu tinha que ir pra aula e não dava tempo. Então eu ia no Bar Automático, que custava barato, e gastava pouco. Eu vivia de mesada.

Outra boa recordação que eu tenho nessa época, já na fase de estudante, era o Bar Pingüim. O Bar Pinguim era situado em frente ao Correio, mas do lado da descida da São João, perto de onde tem a Praça Antônio Prado. Na esquina tinha um bar chamado Bar Pingüim, que era da Antarctica, e a gente ia beber chope, sentava lá e ficava bebendo até esborrachar. Foram coisas que ficaram na época. Em frente ao Bar Pingüim era o Correio, tinha evidentemente uma urbanização. A gente fazia uma brincadeira: os estudantes todos saíam da faculdade e iam tomar chope no Bar Pinguim. A gente fazia apostava para ver quem bebia mais chope sem precisar ir ao banheiro. Nosso companheiro ganhou a aposta, só que quando levantou ele estava todo molhado!

Este texto está publicado no site do Museu da Pessoa. Vá até lá e registre mais um capítulo da nossa cidade. Ou então, agende uma entrevista com o Pessoal do Museu, pelo telefone 2144-7150.

Conte Sua História de SP: Ouvindo minha avó

 

Regina Aparecida Lyrio nasceu em 1962 em São Paulo e sua infância foi marcada por momentos muito especiais ao lado da avó. Ela descreveu esses momentos no texto enviado ao Museu da Pessoa e reproduzido no Conte Sua História de São Paulo:


Ouça o texto de Regina Lyrio sonorizado pelo Cláudio Antônio

Tive o privilégio de ouvir tantas histórias de minha avó que às vezes acho que quem viveu aquelas histórias fui eu.

Minha avó materna, italiana, tinha muitos filhos e filhas. Morava cada vez na casa de um. Mas onde ela mais gostava de morar, segundo ela me confiava em segredo, era em nossa casa, onde chegou realmente a ficar mais tempo, indo à casa dos outros filhos pra ficar sempre por pouco tempo e para não deixar ninguém chateado.

Em nossa casa, dormíamos eu, minhas quatro irmãs e minha avó no mesmo quarto. Depois de todo o trabalho que minha mãe tinha, dar banho, escovar dentes e cabelos, dar remédios para minha avó, ela colocava todas nós nas camas, apagava a luz, fechava a porta e dizia:

– Não quero ouvir um pio.

Eu ficava olhando a fresta de luz debaixo da porta, que indicava que minha mãe ainda estava no andar de cima, pois só apagava a luz quando chegava na sala. Aí quase toda noite começava a festa!

Às vezes eu ia até a cama de minha avó, às vezes ela me chamava. Ela trazia consigo sempre o radinho de pilha ligado, geralmente ouvindo o programa do Zé Béttio (que me parecia ficar 24 horas no ar!).

Conversávamos sobre muitas coisas, coisas que ela não conseguia entender, fofoquinhas, mas o que eu mais gostava era que ela contasse ou recontasse as histórias da vida dela na roça, em fazendas de café, na casa de barro. Os partos em casa, os filhos que tinham morrido pequenos, como ela fazia o pão e o macarrão em casa, como era a colheita do café, onde ela comprava os panos para costurar roupa para toda a família.

Eram tantas, tantas coisas, um universo tão diferente do meu, que as perguntas eram muitas, e as histórias muitas vezes repetidas. É que eu queria entender! Aquelas histórias me acompanhavam todo dia, a todo lugar, mas eu não conseguia entender muitas coisas e voltava sempre a perguntar a ela:

– Como assim, a senhora ia para a plantação de café e deixava a tia Nica, ainda bebê, num buraco forrado com panos, debaixo de uma árvore? Não vinha nenhum bicho? Ela não chorava? Como assim, a senhora casou com nosso avô sem conhecê-lo, só por que seu pai mandou?

Até hoje, quando vejo um filme de época, ou uma novela em que aparece a imigração italiana, me envolvo de tal forma naquelas cenas, naquele clima, que me dá a impressão de que fui eu que vivi aquela realidade.

Você pode participar do Conte Sua História de São Pauloi enviando seu texto para o Museu da Pessoa ou agendando uma gravação em vídeo pelo telefone 2144-7150

Conte Sua História de SP: A família da Mooca

 

Waldemar Antonio Grazioso SarokaNo Conte Sua História de São Paulo, Waldemar Antonio Grazioso Saroka, o Tuca, nascido na Mooca, em 1967. Os avós paternos são russo e lituano; os maternos, italianos – e foram estes os que deixaram marcas mais fortes na personalidade dele. Eles e o bairro da Mooca, é claro.

No depoimento gravado ao Museu da Pessoa, Zaroka diz a Mooca é uma grande família, pois todos se conhecem e mantém uma fidelidade intensa. “Em qualquer lugar que você vai, é incrível, nos lugares mais remotos você vai: Oh, te conheço de algum … da Mooca”

Tuca também lembra dos namoros nos cinemas da Mooca, em especial no Ouro Verde, ali na rua Javari: “Naquela época você ia no cinema pegar na mão, pra namorar pra um, e tinha uma figura que hoje não tem mais que é o lanterninha. O cara chato que quando você tava pegando na mão (risos) ele enfiava a lanterna na sua cara: “Olha, mais respeito que senão eu vou te por pra fora”.

Ouça o depoimento de Waldemar Zaroka sonorizado pelo Cláudio Antônio

Waldemar Antonio Grazioso Saroka é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa. Você também pode participar, agendando uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de São Paulo: Da revolução à boiada

 

Carlos Laporta

No Conte Sua História de São Paulo, o depoimento de Carlos Laporta, paulistano, neto de italianos, nascido na Barra Funda, em 1919. Na conversa com os entrevistadores do Museu da Pessoa, seu Laporta mostrou muita disposição para lembrar os momentos que marcaram sua infância. Em 91 anos de vida, ele foi espectador e protagonista de diversões e revoluções – histórias que começaram na Vila Pompeia, em 1924. As revoluções de 30 e 32, seu Laporta assistiu nas ruas da Barra Funda. No depoimento, ele também lembra brincadeiras e fatos engraçados

Ouça as histórias de Carlos Laporta, sonorizadas por Cláudio Antônio

Você tambem pode participar do Conte Sua História de São Paulo. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de SP: Meu avô, meu ídolo

 

Por Suely Montenegro
Envaido ao Museu da Pessoa

Ouça este texto com a sonorização de Cláudio Antônio

Nasci em São Paulo, Capital, em março de 1954, no bairro do Belém. Neste ano tivemos um acontecimento importante que foi a morte do Getúlio Vargas, presidente do Brasil.

Sou neta de imigrantes que fugiram da Primeira Guerra.

Meus avós paternos vieram de Portugal e meus avós maternos da Espanha.

Meus avós portugueses me contavam muitas histórias sobre sua cidade, Trás dos Montes, por isso sei muita coisa do que acontecia em Portugal. Por outro lado, não sei quase nada da Espanha. Minha avó espanhola já havia falecido quando eu nasci e meu avô não contava histórias.

O que eu sei é que, por uma incrível coincidência, ele trabalhou como administrador em uma fazenda cafeeira na cidade de Bocaina, cujo proprietário era avô do meu atual marido. Só fui descobrir isto depois de casada.

Minha infância foi muito gostosa, pois no bairro em que morava todos se conheciam, coisa que atualmente é muito difícil.

Brincávamos na rua sem problemas. Quase não tinha carros e não corríamos o risco de sermos atropelados, a não ser pelas bolas dos diversos jogos que brincávamos.

Me lembro que éramos muito criativos, pois quase não tínhamos brinquedos, exceto alguns carrinhos e bonecas. Então nós “fabricávamos” nosso brinquedos com barro, madeira, mato, etc. Fazíamos panelinhas, mesas, cadeiras e tantas coisas que hoje penso como deve ser sem graça pegar os brinquedos prontos e não inventar nada.

Creio que seja por isso que hoje as crianças ficam tanto tempo no computador.

Subíamos em árvores, abríamos túneis através dos matos que cresciam bem alto nos terrenos baldios, enfim, inventávamos o que fazer. E não tínhamos nenhum problema de picada de inseto, medo de seqüestro e todos os outros problemas comuns nos dias de hoje.

Vi muitas avenidas que hoje são congestionadas serem construídas, como a 23 de Maio.

Era gostoso andar de bonde, pisar no barro…

Adorava ir para a casa dos meus avós paternos. Meu avô era meu ídolo. Eu absorvia tudo o que ele me contava, pois ele me abria um mundo que eu desconhecia. Passava todas as férias na casa dele, era muito divertido.

Foi muito difícil aceitar a morte dele, pois só tinha 11 anos e era a minha primeira perda importante. Era também o início da minha adolescência.
Mas isto é uma outra história.

Conte a sua história de São Paulo, também. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou escreva seu texto no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de SP: Um índio na Capital

 

Yaguarê YamãA vida na natureza e no centro urbano se misturam nas histórias contadas por Yaguarê Yamã, nascido na aldeia Yàbetué, na cidade de Nova Olinda do Norte, em Paraná do Urariá, no Amazonas.

Índio Maraguá passou sua infância no norte do País, chegando em São Paulo apenas quando já havia concluído o período escolar. Chegou para estudar, fez Geografia, escreveu livros, contou histórias para crianças e casou.

No depoimento gravado ao Museu da Pessoa, para o Conte Sua História de São Paulo, Yagaré fala das lições de criança e como aprendeu a desenhar usando uma espinha de peixe. Da cidade grande, reclamou do frio e da solidão, mas, por contraditório que pareça, foi aqui na capital que descobriu seu amor – uma descoberta que ainda causa espanto aos seus amigos da aldeia.

Ouça trechos do depoimento de Yagaré Yamã no Conte Sua História de São Paulo, sonorizado por Cláudio Antônio<

Você também pode registrar a sua história, grave seu depoimento no Museu da Pessoa. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou entre no site do Museu da Pessoa .

Conte Sua História de São Paulo: sentimental do tempo

 

Por Frank de Oliveira
Ouvinte-internauta do CBN SP

 

Ouça o texto de Franklin de Oliveira, sonorizado por Claudio Antonio

 

Para muitos, eu era ali um transeunte apenas, a disputar um espaço. Para esses muitos, tudo era apenas a metrópole pulsando ao cair da tarde. Para mim, era um mundo de lembranças, emoções e sentimentos. Quando parei o carro próximo à estação Marechal do metrô, tratava-se de uma providência prática. Por que insistir no trânsito até chegar ao centro da cidade, se o metrô era bem mais rápido? Mas a minha perdição foi desistir também do metrô e decidir ir a pé. Daí, o inevitável aconteceu: à minha revelia, as emoções me abraçaram, resultado das lembranças que emergiam pelas ruas por onde passava. Uma jornada psicossentimental por aquela região, mágica, que tinha em suas veias uma notável dicotomia – o chique de Higienópolis, ali tão perto, e a autenticidade dos Campos Elísios, que assumiam, impávidos, descontraídos até, a própria degradação, sem saudades do tempo em que eram o bairro mais badalado de São Paulo.

 

E foi por ali, no rumo das lembranças, que começou minha viagem no tempo. Ali, na rua Vitorino Carmilo, numa casa com tijolos aparentes, pertencente a uma vila inglesa, que por si já espelhava o passado.

 

Nessa casa, trabalhei no início deste século na edição de uma enciclopédia. Paralelamente, em casa minha, lia a biografia de Tarsila do Amaral escrita por sua sobrinha Tarsilinha, um mergulho na Belle Époque brasileira, com cenas que aconteciam ali bem próximo, na rua onde Tarsila tinha morado com Anita Malfatti, na casa de Mário de Andrade ou na de Dona Yolanda Penteado…

 

Histórias como aquela segundo a qual Mário comprava todas as flores da feira e mandava entregar na casa das meninas pintoras. Quando eu saía para o almoço, ficava imaginando que aqueles construtores de sonhos tinham andado um dia naquelas mesmas ruas, quem sabe com um poema ou um quadro a se formar na alma e na mente…

 

Da Vitorino para a rua Martim Francisco. Um espaço de alguns quarteirões, mas também um salto de muitos anos na minha vida. Um salto até a minha juventude em seus anos mais bonitos. Dezoito anos, a primeira namorada “firme”, Ângela… Ela morava na Martim Francisco, era nissei, de Sagitário. Três irmãs de personalidade fortíssima, e a mãe ainda mais. Ela me chamava de Toni (foi a única até hoje a fazê-lo). E volta e meia dizia: “Toni, eu não gosto disso!!!”. Quase um bordão. Com ela conheci muito de amor e de brigas, que aconteciam quase todos os dias e demoravam quase algumas horas…

 

Essa garota estudava comigo no Colégio Caetano de Campos, sim, mas o Caetano de sua versão mais bacana, ali na praça da República, com sua arquitetura antiga, ali onde conheci Jimi Hendrix, Janis Joplin, James Taylor, e onde aprendi, com o amigo Mazagão, que era possível você chorar diante da beleza, pelo excesso dela.

 

Em minha caminhada, antes de chegar ao colégio, havia o largo do Arouche, com seu cinema onde eu conhecia o porteiro, que me descolava ingressos gratuitos, para assistir a filmes que eu nem entendia direito. E também com seu restaurante macrobiótico Arroz de Ouro, onde eu ia com meu amigo Milton, que de tão fã dos Beatles quis também se ligar nessas modas, quando os quatro rapazes de Liverpool foram para o Oriente e voltaram de lá falando em meditação transcendental e em Ravi Shankar.

 

Ravi Shankar, que eu conheci ali bem perto, no Teatro Municipal. Naquele dia em que meus colegas descolados do Caetano de Campos me convenceram a cabular as duas últimas aulas, sair escondido e ir lá fazer pressão para entrar mesmo sem ter ingresso. E entramos! Difícil imaginar o efeito que causou naquele menino que eu era a magia de penetrar naquela sala já com as luzes da platéia apagada e dar de cara com toda a riqueza da música indiana, assim, sem prévio aviso.
Todas essas emoções estavam ali, guardadas. E foram despertadas de leve, por aquela caminhada entre bancários, automóveis, ruas e avenidas, como dizia a canção. Uma caminhada exterior, mas que me revelou de novo a mim mesmo, lembrança, sentimento, riso e canção, e uma imensa vontade de renascer.

 

Conheça o Blog de Frank de Oliveira, autor deste texto.

Conte Sua História de São Paulo: Brincadeira de criança

 

Geraldo GarducciNo Conte Sua Historia de São Paulo, o paulistano Geraldo Garducci Junior fala de momentos importantes e engraçados da sua infância. Nascido em 1961, morou na então distante região de AE Carvalho, zona leste da capital, onde fazendas ainda eram mantidas por imigrantes enquanto a vida urbana se aproximava. Foi lá que seu Geraldo, o pai, e dona Odília criaram o garoto, em uma casa, ao lado da sede do Esporte Clube Urca. Aliás, o bairro era rico de agremiações, onde o garoto se divertia com os amigos.

Ouça o depoimento de Geraldo Garducci Junior, ao Museu da Pessoa, que foi ao ar no CBN SP

Seja também um personagem do Conte Sua História de São Paulo. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou pelo site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de São Paulo: Ansiedade no caminho

 

Vicente Tundisi

Deixar Atibaia, no interior, para morar em São Paulo, capital, não costuma ser uma transição muito fácil. Mas para Vicente Tundisi era a realização de um sonho, mesmo que a transferência tenha se dado em um momento de dificuldade para sua família. O pai, Seu Carmini, professor universitário e político, havia sido preso por combater o regime  militar. Com a prisão, perdeu o emprego e foi para a capital disposto a começar um novo momento em sua vida.

No depoimento gravado pelo Museu da Pessoa, Vicente, nascido em 1957, conta como foram os dias em que encontrava o pai na cadeia e a disposição dele para morar em São Paulo. Uma das passagens curiosas foi a longa caminhada que teve de fazer para visitar pela primeira vez sua namorada – hoje, esposa:

Ouça o depoimento de Vicente Turdisi, no Conte Sua História de São Paulo

A sonorização do Conte Sua História de São Paulo está a cargo do Cláudio Antônio. Você também pode participar agendando uma entrevista pelo telefone 2144-7150  ou no site do Museu da Pessoa.