Conte Sua História de São Paulo: O trem da vida

 

Por Elza Guerra Alemán
Ouvinte-internauta

Ouça “O trem da vida” com sonorização de Cláudio Antonio

Bairro do Brás

O ano de 1947 corria. E corria mesmo. Minha mãe falava todos os dias que o ano estava passando muito veloz. Isto porque ela não queria mudar-se do bairro do Brás onde morávamos e meu pai já havia estipulado o mês de janeiro para a mudança. A cada 24 horas mais se aproximava o dia de irmos para outro bairro, o longínquo Real Parque. Era longe, muito longe, naquelas montanhas cheias de eucaliptos, depois da ponte sobre um grande rio. Varias vezes tínhamos ido até lá visitar a família Valladares – o senhor Andrés, dona Luisa e suas duas filhas. Até que achávamos divertido passar o dia na granja deles! Enquanto minha mãe se lamentava, eu e minha irmã não víamos a hora de mudar de casa.

Meu pai tinha uma hospedaria no bairro do Brás, na rua Dr. Almeida Lima. Era a “Pensão Brasil”, um hotelzinho de poucas ou nenhuma estrela e onde também morávamos.

Nessa ocasião, eu tinha 7 anos. Estava no primeiro ano do curso primário, na Escola Normal Padre Anchieta. Todos os dias, pela manhã, passava pela rua 21 de abril para chamar minha coleguinha Olímpia e juntas chegávamos à avenida Rangel Pestana, no belo colégio, para as aulas da professora Idalina Guerra.

Apressadamente o ano caminhava para seu final.

Meus pais procuravam levar-nos, a mim e a minha irmãzinha, a todos os lugares onde provavelmente seria muito difícil voltar depois da mudança. Íamos então com mais freqüencia aos cinemas do bairro. No Piratininga, no Brás Polytheama, no Universo, assistiamos filmes espanhóis, americanos, brasileiros e argentinos. Quando íamos a noite, a sessão era de dois filmes e não podíamos ficar na sala de exibição depois das vinte e duas horas. O lanterninha vinha avisar meus pais para se retirarem com as crianças. Alguns filmes, talvez o “Sob a luz de meu bairro”, o “24 horas na vida de uma mulher” ou o “Os sinos de Santa Maria” eles não puderam ver o final, pois certamente tiveram que sair antes de terminada a sessão. Era a lei na época.

O Teatro Colombo, no largo da Concórdia, além de espetáculos musicais e peças de teatro, também exibia filmes. Lá, nas matineés de algazarra, assistíamos desenhos e seriados cujos finais nunca mais saberíamos.
Aquele final de ano rendia em passeios. Fomos ao circo montado na rua Visconde de Parnaiba , quando levavam a peça “Os milagres de Lourdes” e lembro-me que eu e minha irmãzinha choramos emocionadas.

De outra feita vimos também a peça “O Ébrio”, talvez no mesmo circo, onde também nos derretemos em lágrimas.

O Parque Shangai, instalado no parque Dom Pedro, era um acontecimento. E lá fomos nós ver todas aquelas luzes, brinquedos que se moviam, a mulher gigante que ria, ria sem parar e acho que se chamava Chica Pelanca.

Assistir aos casamentos na igreja Bom Jesus era também uma grande distração. Tenho a impressão que não perdemos nenhum sábado. E depois de analisar os vestidos das noivas e os trajes dos convidados passávamos pela rua Caetano Pinto para que minha mãe pudesse matar a saudade de seu tempo de criança.(Foi ali que meu pai a viu pela primeira vez, quando não passava de uma menina, filha de imigrantes espanhóis).

Atravessar as Porteiras do Brás, quando estas se fechavam, era cansativo, pois tínhamos que subir uma escada de muitos degraus, andar por um corredor e descer do outro lado. Dentro da estação de trens, no local de embarque, havia uma balança para pesar volumes. Não sei como funcionava, porém quando meu pai nos pesava, a balança soltava um cartãozinho com desenho de algum animal. Lembro-me que sempre recebia o desenho de um carneirinho, talvez pelo meu pouco peso. Gostava de ouvir o sinal avisando que as porteiras iriam se fechar ou abrir. Elas barravam o fluxo de carros, bondes e ônibus que cruzavam a avenida Rangel Pestana, para a passagem dos trens.

Mas, voltemos a Pensão Brasil que tinha altas portas e janelas idem que se abriam para a rua. A construção seria com certeza do século XIX. Fazia parte de uma serie de casas geminadas, que nessa época, anos 40, eram residências de famílias proletárias. Meu pai alugara duas daquelas casas, que possuíam muitos quartos e as transformou em um pequeno hotel. Hotel que servia tanto aos estudantes da Escola

Aeronáutica, da rua Visconde de Parnaíba, como aos migrantes, despejados aos montes na Estação do Norte. Esses eram seus hospedes. O grupo de casas fazia vizinhança ao “Laticínios Paulista”, a usina de leite, que por sua vez ficava junto a outra passagem dos trens. Uma passagem também com porteiras que cortava a rua dr. Almeida Lima.

Pensam que não? Lembro-me e ainda penso ouvir o barulho dos trens… dos vagões de carga, do trem de luxo, da litorina… ouço o barulho das caixas metálicas, arrastadas pelos funcionários do Leite Paulista…com vasilhames de vidro…na calçada que estava constantemente molhada…

Aquele 25 de dezembro chegou num instante. A Aurora Pazzito, o Alfredo, a Maria, a menina bem vestida da última casa, eu e minha irmã, logo cedo saímos a rua para mostrarmos os presentes que havíamos ganhado. Uma boneca, um joguinho de sofá, panelinhas e um revolver do Roy Rogers faziam a alegria daquela meninice.

Os dias rolaram como bolinhas de gude na ladeira. E uma noite ouvi minha mãe nos chamando para ouvir os apitos das fábricas, as buzinas dos carros, os estrondos dos fogos de artifícios, os meninos com paus batendo nos postes. Era a festa do reveillon. Terminava 1947 e nascia um ano novo.

Dias depois, nossa parca mudança chegava ao Real Parque. Casas pequenas com grandes quintais, árvores, cachorros, galinhas e pássaros. Água de poço. Rua de barro. Era uma nova etapa, um novo trajeto do trem de nossas vidas.


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Conte Sua História de São Paulo: O tempo e o Natal

 

Sérgio Bragatte
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “O tempo e o Natal” sonorizado por Cláudio Antonio

Natal em decoração (Luis F. Gallo)

Outro dia cheguei a seguinte conclusão: sou um velho. Sou um velho carcomido pelo tempo.

Esta conclusão se deveu em razão de que ainda gosto, e preservo o sentimento de gostar, daquilo que está em desuso hoje: escrever sobre o NATAL.

Distante das agruras de adulto, lembro-me criança, quando ansiava acontecimentos mágicos de modo a mudar a dura realidade de menino da periferia sem escola, sem quadras de futebol, sem água encanada, sem luz, sem asfalto, etc, só a violência era abundante.

Lembro das brincadeiras, onde encarnávamos os super heróis, ora éramos o super-homem, ora éramos o homem-aranha, o homem de ferro, zorro, cisco-kid e assim por diante, sempre sonhávamos o que faríamos com super poderes.

Lembro-me dos amigos crianças, das travessuras, dos maus feitos, das peças pregadas nos mais velhos, dos trabalhos esporádicos, para se conseguir uns trocados, das brigas.

No entanto, sempre foi o NATAL que afugentava os medos da infância pobre e permitiam sonhar e superar aqueles problemas, que imaginávamos serem insuperáveis.

Conta-nos a Bíblia que, tempos atrás, sobre uma cidade do oriente, chamada Belém, reluziu uma estrela quando nasceu um menino chamado Jesus. Vindos da Babilônia, três reis magos, três amigos, a seguiram até chegar a um curral, onde, em uma manjedoura presentearam um menino.

Foi o reencontro da criança com a amizade.

Nessa simbologia, concluímos que é a amizade que nos conduz àquela criança.

Sem dúvida, o Natal impregna a alma de estranha de nostalgia.

Paralelamente ao nefasto consumismo, é o caráter religioso da festa me deixa com saudades de Deus, com saudades de quando estávamos mais perto Dele: quando, exatamente, éramos crianças.
Daí o sentimento de querer acordar na manhã de 25 de dezembro e encontrar, nos sapatos, um símbolo de afeto, o afago à criança que dorme dentro de mim.

“Ora (direis) ouvir estrelas!”, canta o poeta.

São Paulo ao final do século é uma metrópole sem comparação. Temos situações antagônicas sem respostas. Temos o maior centro médico da América latina, ao mesmo tempo em que falta esgoto na periferia.
Temos toda oferta de todo tipo de tecnologia, ao mesmo tempo em que centenas de molhares de pessoas vivem na rua ou moram em favelas.

Produzimos tecnologia de engendrar vida em provetas e possuir olhos eletrônicos que penetram a intimidade da matéria e do universo, sem, no entanto erradicar a fome, a desigualdade e a injustiça.
Nossa cidade nos oferece tudo, exceto o que mais carecemos: um sentido para a vida.

Em São Paulo estamos perdidos numa vida adulta. Por vezes nossos sonhos desaparecem.

Lembro que quando pequeno ficava horas parado diante de uma árvore de natal, que se repetia ano após ano, vendo um luminoso colorido que piscava incessantemente.

Ainda hoje ao ver o piscar de luzes sinto-me remetido àquela infância dos super heróis; como se afagasse a criança dentro de mim, como me conduzisse por um leito seguro até o encontro do salvador.

“E agora, José?”

Agora, cabe a nós mudar o Natal e nós próprios. Procurar a estrela em nossas inquietações mais profundas. Descobrir a presença de ambos os Meninos em nosso coração.

E, como nos conta a Bíblia, ousar renascer em gestos de carinho e justiça, solidariedade e alegria.

Fazer-se presente lá onde reina a ausência: de afeto, de saúde, de liberdade, de direitos.

Dobrar os joelhos junto da manjedoura que abriga tantos excluídos, imagens vivas do Menino de Belém.

Viver o NATAL, não este o do consumo desenfreado, mas aquele das luzes piscando, que marcou o “tempo” de nossa infância, quando tudo podíamos e nada podia contra a gente, afinal éramos os super-heróis.

Que sejamos todos felizes e tenhamos um bom NATAL.

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Conte Sua Historia de SP: As crianças, a chuva e a ladeira

 

Débora Dias Carneiro
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “As crianças, a chuva e a ladeira” sonorizado por Cláudio Antonio

Ríamos, ríamos muito…. nem vovó Cecília escapou às nossas incontroláveis gargalhadas, vitimada que foi por um tombaço que, por sorte, só lhe quebrou os óculos de grau.

O motivo de tanta alegria era a incrivelmente íngreme e assustadora ladeira da Rua Caiowáa (chamada por muitos de Caiovas), ali entre as ruas Cajaíba e Capital Federal, rua essa muito conhecida lá pelas bandas do bairro do Sumaré por começar praticamente em frente à entrada principal do Palestra Itália. A única que conheci, até hoje, a contar, em um de seus lados, com um reforçado corrimão!

Tínhamos, eu e meus dois irmãos mais novos, Cláudio e Guto, aproximadamente nove, cinco e três anos, respectivamente, lá pelos idos de 1975. Morávamos com nossos pais e irmãs mais velhas, Fernanda e Cecília, de dezenove e dezessete anos, no primeiro sobrado de um dos topos da ladeira. Dois quartos, sala, copa/cozinha e banheiro e dependências de empregada. Obviamente, pouco espaço para brincar. Mas não importava. A nossa rua era a nossa maior diversão.

Nos dias de sol, despencávamos ladeira abaixo, a pé ou a bordo de carrinho de rolimã, tábua parafinada ou bicicleta (o que custou, num tombo tipo “beija-lona”, os dois dentes da frente do Cláudio), para nos reunirmos com os amigos na primeira transversal, conhecida como “Moitinho”. Travessinha pacata, poucas casas, muito mato e areia. Perfeita.

Mas bom mesmo eram os dias de chuva… acontece que a tal ladeira era toda revestida de paralelepípedos, que, molhados, transformavam-se em verdadeiras placas de sabão. E a calçada, do lado onde hoje está o corrimão, inexistente à época, era feita de cimento e pedrinhas lisas, arredondadas, que mesmo secas já escorregavam um bocado. Ou seja, quedas e acidentes eram inevitáveis naqueles dias.

Ao primeiro sinal de uma simples garoa, íamos, eu e os dois irmãos mais novos, para a sacada do quarto de nossos pais, Arlette e Narciso. E lá permanecíamos até que ocorresse o sinistro. E quantos houve! Kombi capotada, caminhão-baú tombado no topo da pirambeira, bloqueando a rua; motoqueiros em quedas cinematográficas; carros que queimavam os pneus, tentando subir; mulheres se equilibrando em sandálias-plataforma imensas; homens engravatados, deslizando feito sabonete em seus sapatos de sola de couro; bombeiros, ambulâncias, polícia… uma verdadeira festa para crianças de um tempo em que não havia video-game, computador ou TV a cabo!

Aí veio o progresso, a ladeira foi asfaltada – o Moitinho também –, crescemos e mudamos cada qual para o seu canto. Mas ficaram as lembranças.

E os dias de chuva em São Paulo, antes de me causarem a inevitável irritação com o trânsito ainda mais caótico do que de costume, me levam de volta àquelas tardes úmidas e felizes da minha infância… mas trazem, também uma pontinha de culpa por haver, mesmo criança, me divertido tanto com a desgraça alheia!

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Conte Sua História de São Paulo: Os Amigos do Natal

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Erenice Bruno Pereira
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “Os Amigos do Natal” sonorizado por Cláudio Antônio

Em dezembro de 1996, alguns amigos que se encontravam todos os dias num pequeno bar da região, na época conhecido por Bar do Albino, decidiram se divertir de maneira diferente. Compraram brinquedos e avisaram os vizinhos do Jardim São Bernardo, ali na zona sul, que levassem seus filhos na hora do almoço, do dia 23, para o bar. O Papai Noel estaria por lá distribuindo presentes.

Hora e data marcadas, a criançada se aproximou levada pelas mãos dos pais. O Valmir vestido de Papai Noel apareceu em cima da perua. Os meninos e meninas se aglomeraram em volta dele. Os amigos não imaginavam quanto emocionante seria aquele momento, que surgiu como se fosse apenas uma brincadeira.

Da lágrima de todos, nasceu os Amigos do Natal.

Nos primeiros anos, eles tiravam dinheiro do próprio bolso, e pediam mais um pouco aos comerciantes da vizinhança. Seguiam para a 25 de Março e saiam de lá cheios de brinquedos. Com mais crianças participando, mais presentes sendo distribuídos, tiveram de arrumar um espaço mais amplo. A saída foi transferir a festa para o Bar do Dogi, onde ocorre até os dias de hoje.

A cada ano, a frequência era maior. Havia cada vez mais Amigos do Natal. Alguns tiveram de ir embora, outros chegaram. A organização melhorou. E o dinheiro, encurtou. Não era mais suficiente para atender todas as crianças. Tiveram de mudar a forma de arrecadação. Realizaram vários eventos beneficentes, rifas, bingo, baile, churrasco com pagode. Tudo isso na mesma sede do bar que, nesta altura do campeonato, já era o Bar do Valmir – aquele lá da fantasia de Papai Noel.

Além das crianças que participam da festa no Bar do Valmir, os Amigos do Natal doam presentes a entidades de assistência. Primeiro a creche do Jardim São Bernardo e agora ao Refúgio de Cegonha, no bairro de Vargem Grande.

Em 2008, foram distribuídos 3 mil brinquedos e parece que o número de crianças não vai parar por aí. Hoje, são 17 os Amigos do Natal e um mundo de colaboradores que ajudam na organização dos eventos e na distribuição dos presentes.

Uma semana antes do Natal, as crianças do bairro já sabem, os carros com os Papais Nóeis – sim, agora não é apenas o Valmir que se veste nem dá para transportar tudo em uma só perua – percorrem as ruas chamando a garotada para a entrega dos brinquedos. São todos muito simples, mas doados com muito amor.

Se você quiser se transformar em mais um personagem desta história, nos ajude com mais brinquedos. As crianças agradecem. E o Papai Noel, também.

Se quiser ajudar os Amigos do Natal basta ligar para (011) 5973-5639

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Conte Sua História de São Paulo: Minha primeira escola

 

Por Dalila Suannes
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto “Minha Primeira Escola” sonorizado por Cláudio Antônio

 


Assim que o sol nasceu em um dia qualquer do 1946, seu pai a pegou pela mão e foram caminhando até o colégio alemão próximo de sua casa.

Lá, o pai foi recebido com o respeito que seu fardamento impunha, e encaminhados para uma sala de aulas, aos cuidados de Dona Helga.

Ao se ver sozinha no meio de crianças estranhas, louras, se pôs a chorar, lavando, literalmente a carteira.

Tinha a sensação de que nunca mais veria sua mãe, seus irmãos, ou os amiguinhos de pega-pega, de mocinho e bandido.

Sua vida mudara.

Todos os dias, lá ia ela com a lancheira, livros e cadernos. Era a mais nova estudante da região.

Aos poucos foi se integrando, e, como era muito expansiva, alegre, tagarela, não negando a origem italiana de sua mãe, conquistou seu lugar entre os pares.

Àquela época, foi lançada uma coleção de figurinhas com foto de artistas, e, nasceria daí sua paixão pelo cinema.

Sentia-se superior às demais colecionadoras da classe, de origem germânica, por não conseguirem pronunciar o nome da diva da época, Ana Magnani.

Sentia respeito e admiração pelo diretor da escola e se encantava quando havia passeio ao Horto Florestal, no lugar das aulas.

Era o tipo de educação européia, baseada no conhecimento vivo da natureza.

Nesta ocasião saboreou, pela primeira vez, uma bebida com gosto estranho, que mais tarde soube chamar-se Coca-Cola.

Fez seu “debut” em festas infantis ao comparecer ao aniversário de uma holandesa, de sua idade, que costumava usar tranças muito loiras.

Ficou maravilhada e muito feliz ao receber uma lembrancinha da data, já que a família estava retornando para sua terra natal.

Nunca tinha visto nada igual já que para ela o grande acontecimento de reunião entre amigas era “batizado das bonecas”.

Outra colega que lá estudava, havia nascido, juntamente com seus familiares, na antiga Tchecoslováquia.

Nas festas de seu aniversário, os adultos jantavam em uma extensa mesa da sala de jantar, observado por nós, através de um janelão de vidro, já que ficávamos confinados ao quintal e de lá não poderíamos passar.

Relembrou esta cena, ao assistir o filme Amarcord.

Estas experiências marcaram sua vida.

Uma, porém, mais forte que todas.

Entre os estudantes, havia um grupo de meninos e meninas, que se vestia mais singelamente e traziam suas merendas, de pão com banha, em um saquinho de pano.

Chegavam e partiam juntos por morarem todos em uma (única) casa longe de nossa escola.

Eles eram originários dos países dos demais alunos do colégio, porem, ao contrário destes, tinham perdido tudo o que um ser humano precisa para viver, simplesmente por serem judeus.

Ela ficava mortificada com esta situação, e tinha-lhes um carinho especial, principalmente por uma garota alta, chamada Josefa.

Um dia, quando todos os alunos se enfileiravam para adentrar o prédio, e cantavam o Hino Nacional Brasileiro, não se sabe o que fez um dos meninos deste grupo, Schultz.

O fato é que Dona Helga deu-lhe uma bofetada no rosto tão forte, que ela a sentiu em sua face.

Foi para casa chorando e contou o sucedido para sua mãe que ficou muito nervosa, mas nada explicou. Talvez ela mesma não soubesse o que dizer.

A pequena teve por várias noites dificuldade em dormir.

A cena a fez acordar para a vida e entender que as pessoas não são consideradas iguais, e que no mundo existe intolerância, violência, incompreensão.

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Conte Sua História de São Paulo: Hoje eu vi um menino

 

Por Erony Marcellino
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “Hoje eu vi um menino”, sonorizado por Cláudio Antoniop

Hoje eu vi um menino sozinho brincando na rua. Não deveria ter mais do que quatro anos.

O menino, lindo, estava sujo, imundo, nariz escorrendo, pés descalços, usava roupas maiores do que o seu magro corpo.

Hoje eu vi um menino brincando com o lixo jogado sobre a calçada numa rua localizada na zona “nobre”, ou “jardins”, na Capital de São Paulo.

Hoje senti bem de perto o quanto o abandono pode destruir um pequeno e indefeso ser humano.

Perguntei seu nome. Ele respondeu com naturalidade: “Não tenho nome”.

Insisti e falei, todos os meninos tem nome. A frágil criaturinha respondeu com voz de quase bebê:

“Minha mãe me chama de peste”.

Engoli em seco e perguntei: “Quer que eu brinque com você?”

Ele levantou os olhos por um instante e respondeu:”Sim”

Perguntei o que ele queria que eu fizesse. Pediu que o ajudasse a colocar um cone de papelão dentro do outro – muitos deles estavam misturados a outras espécies de lixo descartável. Em nenhum momento sorriu.

Passei algum tempo com o garotinho fazendo de conta que aquela brincadeira era muito interessante para mim.

E era. E foi. E será.

Hoje eu vi um lindo menino abandonado e sujo numa rua que não fica na periferia.

Hoje brinquei, com o coração machucado, com um menino que aprendeu a repetir que seu nome é “peste”.

Quando ele se afastou e foi procurar outra brincadeira, como faz qualquer criança de sua idade, me senti abandonada.

Perdi o rumo.

Hoje brinquei na calçada apoiando cones de papelão para valorizar um menino que desconhece seu nome.

Parada na calçada pensei, dentro de alguns minutos será noite: onde irá se abrigar o menino sem nome que tem como referência de identidade uma mãe que o chama de “peste”?

Neste bairro chamado “jardins”, nesta cidade denominada capital financeira de um país chamado Brasil, conheci um dos muitos brasileirinhos reféns da mais absoluta miséria física e moral.

Hoje eu vi um menino condenado pelo crime de ter nascido!

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Conte Sua História de São Paulo: O lutador

 

Por Gabriel Leão

Ouça o texto “O Lutador” com sonorização de Cláudio Antonio

“São Paulo é minha ultima tentativa, se não der certo pelo menos eu vou morrer sabendo que eu tentei e não consegui, mas não desisti”, a frase é de Leandro Siqueroli de 21 anos que assim como muitos imigrantes brasileiros e estrangeiros resolveu buscar o sonho paulista e encontrou uma sociedade de contrastes.

Ao chegar se surpreendeu com o tamanho do sistema metroviário e durante dias observou o movimento dos vagões nas estações. O ritmo acelerado dos paulistas espantou o jovem boxeador de Londrina. Notou também a frieza e a melancolia presente nos rostos que andam como se fossem um enxame de formigas com pressa em busca de mais trabalho.

Leandro conquistou muitos títulos de boxe amador no Paraná, mas no profissionalismo de São Paulo eles não dizem muita coisa. Pra trás deixou sua família lamentando a morte recente de seu pai. Passou fome e ficou desabrigado até encontrar uma família nova.

As dificuldades o fizeram pensar suicídio e comenta: “Algumas vezes eu vejo o boxe como uma maldição, da qual você nunca se livra dela é ela que sempre se livra de você. Não importa o que você faça, não importa pra onde você vá, se você é um lutador você sempre estará lutando”.

Certa vez pagou do próprio bolso para lutar e deixou de acertar o aluguel, tinha de sair da residência pela telhado para o proprietário não vê-lo. O amparo veio na forma de novos amigos. O peso-pesado Raphael Zumbano, primo de Éder Jofre, o conheceu pela internet e hoje é seu empresário. Outros pugilistas se tornaram seus familiares.

Miguel de Oliveira, ex-campeão mundial e atualmente treinador de uma das mais caras academias do país o aceitou como seu pupilo. Para conhecer Oliveira não foi fácil, a recepcionista da academia olhou com desprezo para seu jeito caipira e o avisou que o professor não estava presente, Siqueroli preferiu esperar do outro lado da rua. Quando viu o senhor se aproximou e disse: “sou lutador de boxe lá do Paraná e vim para São Paulo me tornar campeão mundial e como o senhor já foi campeão eu gostaria que me desse alguma dica do que tenho de fazer para chegar lá”.

No momento Oliveira ficou sem reação e pediu para o jovem de Londrina voltar mais tarde para um treino com seus alunos. Hoje Leandro tem 3 vitórias todas por nocaute e uma derrota por pontos no boxe profissional.

Quando está fora dos ringues ganha sua vida servindo mesas em um pub irlandês na Vila Olímpia, bairro freqüentado por jovens de classes A e B. E mesmo trabalhando e treinando encontra fôlego para freqüentar o curso superior de gastronomia.

Leandro Siqueroli se apresenta em ringues humildes no interior de São Paulo, mas sonha quase que como uma obsessão com o dia que vai reinar em Las Vegas e até lá se apresenta como “o futuro campeão mundial”.

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Conte Sua História de São Paulo: A partida

 

Por Vera Helena Gasparotti Praxedes
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto ‘A Partida’ sonorizado por Cláudio Antônio

Este poema fiz quando mataram meu vizinho, em frente a casa dele que fica em frente a minha, em um lugar lindo com uma pracinha, ao lado de um também belo parque que se chama Parque Nabuco no Jardim Jabaquara. O nome dele George Alexandre, um professor de inglês que lecionava em Diadema e chegava todos o dias em sua casa por volta das 00:30 hs. da madrugada. Só sabemos que quem o matou foi um ou dois homens em uma moto, provavelmente queriam entrar com ele, que reagiu.

A Partida

Um grito ecoou pela noite escura,
Desafiante, profundo, cheio de horror,
O peito pulsou sem doçura:
– Seria de dor? – Seria de pavor?

Um estampido ressoou pelo ar,
Não murchou as flores, não secou as árvores,
Não calou os pássaros, não rachou o chão,
Certeiro, perfurou o coração.

O corpo caiu num baque aguçado,
Sombreado pela luz da lua,
Vermelho, em vez de prateado.

Um suspiro seguiu…
Nem mesmo o tempo parou
Para velar o quê partiu…

É mesmo assim, fica tudo assim mesmo.


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Conte Sua História de São Paulo: Virou gente grande

 

Por Teresa Botton
Ouvinte-internauta

 

 

Nasci e fui criada em S. Paulo Eu me sinto muito paulistana, e gosto disto. Lembro-me que quando criança, meu avô me levava até a praça da República para ver os patos. Naquela época, a praça era linda, limpa, cheia de árvores, gostosa, as pessoas bem arrumadas passeavam por lá, e os fotógrafos lambe-lambe tiravam fotos.

 

Eram passeios muito gostosos, lembranças agradáveis.

 

As casas de chá, o Fasano, na Barão de Itapetininga. Não me esqueço que uma vez uma prima fez o aniversário lá. Cada coisa mais gostosa que a outra.

 

E a Dulca ? Meus irmãos e eu adorávamos o “merengue” e o “cisne”. Além do que, nos aniversários o bolo era o mil folhas, todo coberto de açúcar de confeiteiro e quando o aniversariante assoprava a velinha, quem estivesse na frente tomava um banho de açúcar e ficava todo branco.

 

Tinha também o Mappin e a Clipper. A gente tirava o dia para fazer compras e ia para o salão de chá comer um misto quente e tomar um sundae ! Que glória!!

 

Sempre gostei de andar no centro.

 

Quando criança, ia ao dentista toda semana, na rua Quirino de Andrade. Eu adorava fazer o percurso a pé desde a Praça da República até lá. O movimento do centro, as lojas, tudo isto sempre me atraia. Gostava de entrar nas livrarias e ficar olhando os livros. Quando na faculdade tínhamos de comprar livros em espanhol, tipo obras completas do Freud, íamos a um importador na rua São Bento, que os vendia num bom preço e em três vezes. Ter que ir ao centro era uma excursão muito prazeirosa tanto para mim quanto para minhas amigas!

 

A gente sentia que estava fazendo turismo, e ia olhando tudo nas ruas: as pessoas, o movimento, as lojas, a paisagem, e, principalmente, a arquitetura. Ah, a arquitetura é o que mais me atraia!

 

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Conte Sua História de São Paulo: Que confusão, QSL !

 

Jorge Petras
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “Que confusão, QSL” sonorizado por Cláudio Antônio

Entre muitas histórias, esta pode se falar que é radiofônica. Na época do relato não existia celular, era o primórdio de enlaces por microondas.

Faziam três meses que tinha chegado de Buenos Aires (ano 1976) com toda a documentação em ordem como engenheiro em eletrônica especializado em telecomunicações, mas estava sem emprego por acreditar em um conhecido “patrício” que me tinha garantido colocação em uma multinacional a um salário irreal (exorbitante para a época, o que só consegui saber a posteriore). Assim sendo em todas as entrevistas que comparecia pedia o mesmo valor ou ou mais.

Já sem dinheiro para o sustento e após 86 dias a noticia “bomba”: a empresa citada pelo patrício não poderia me contratar por que eu não conhecia, ao nível de conversação, o idioma alemão. Totalmente desorientado entrei em um ônibus e pensei: pegarei o primeiro pedido de emprego de eletricista de obra que encontrar. Quando avistei uma placa de técnico eletrônico, corri e desci do ônibus.

O Recursos Humanos me encaminhou para o gerente de assistência técnica. Trêmulo, me apresentei ao Sr. Renato Olandin, pessoa de cabelos brancos, carismático, tentando falar espanhol, em um lapso de sinceridade falei meu problema. Ele com a serenidade de quem esta de bem com a vida, me explicou a faixa salarial, o CREA, e muitos detalhes do primeiro emprego. Terminou fazendo, além de uma oferta, um conselho de pessoa experiente. Imediatamente aceitei e ao dia seguinte comecei a trabalhar.

A alegria e o entusiasmo do primeiro emprego no Brasil era tão grande que “transbordava em todo meu ser”. Já na semana, o Sr. Renato me chama e pergunta: tem registro de condutor ? E com afirmativa pedante da juventude respondo: minha carta é internacional. OK, responde.

Na manhã seguinte me entrega as chaves de um fusca 0 km e me fala para fazer um conserto aqui perto. Mais que feliz eu sai. Quando vi a distância, quase tive um colapso (primeiro serviço externo = Ilha solteira) A viagem foi uma odissea, mas isto é outra história.

Posterior ao batismo, o serviço externo virou uma rotina, quando uma noite, quase oito horas (eu sempre ficava mais tempo após o expediente normal), o meu gerente me chama gentilmente e pede um favor. Se posso fazer um atendimento urgente na repetidora situada na torre da TV Gazeta.

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