Conte Sua História de SP: A família da Mooca

 

Waldemar Antonio Grazioso SarokaNo Conte Sua História de São Paulo, Waldemar Antonio Grazioso Saroka, o Tuca, nascido na Mooca, em 1967. Os avós paternos são russo e lituano; os maternos, italianos – e foram estes os que deixaram marcas mais fortes na personalidade dele. Eles e o bairro da Mooca, é claro.

No depoimento gravado ao Museu da Pessoa, Zaroka diz a Mooca é uma grande família, pois todos se conhecem e mantém uma fidelidade intensa. “Em qualquer lugar que você vai, é incrível, nos lugares mais remotos você vai: Oh, te conheço de algum … da Mooca”

Tuca também lembra dos namoros nos cinemas da Mooca, em especial no Ouro Verde, ali na rua Javari: “Naquela época você ia no cinema pegar na mão, pra namorar pra um, e tinha uma figura que hoje não tem mais que é o lanterninha. O cara chato que quando você tava pegando na mão (risos) ele enfiava a lanterna na sua cara: “Olha, mais respeito que senão eu vou te por pra fora”.

Ouça o depoimento de Waldemar Zaroka sonorizado pelo Cláudio Antônio

Waldemar Antonio Grazioso Saroka é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa. Você também pode participar, agendando uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de São Paulo: Da revolução à boiada

 

Carlos Laporta

No Conte Sua História de São Paulo, o depoimento de Carlos Laporta, paulistano, neto de italianos, nascido na Barra Funda, em 1919. Na conversa com os entrevistadores do Museu da Pessoa, seu Laporta mostrou muita disposição para lembrar os momentos que marcaram sua infância. Em 91 anos de vida, ele foi espectador e protagonista de diversões e revoluções – histórias que começaram na Vila Pompeia, em 1924. As revoluções de 30 e 32, seu Laporta assistiu nas ruas da Barra Funda. No depoimento, ele também lembra brincadeiras e fatos engraçados

Ouça as histórias de Carlos Laporta, sonorizadas por Cláudio Antônio

Você tambem pode participar do Conte Sua História de São Paulo. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de SP: Meu avô, meu ídolo

 

Por Suely Montenegro
Envaido ao Museu da Pessoa

Ouça este texto com a sonorização de Cláudio Antônio

Nasci em São Paulo, Capital, em março de 1954, no bairro do Belém. Neste ano tivemos um acontecimento importante que foi a morte do Getúlio Vargas, presidente do Brasil.

Sou neta de imigrantes que fugiram da Primeira Guerra.

Meus avós paternos vieram de Portugal e meus avós maternos da Espanha.

Meus avós portugueses me contavam muitas histórias sobre sua cidade, Trás dos Montes, por isso sei muita coisa do que acontecia em Portugal. Por outro lado, não sei quase nada da Espanha. Minha avó espanhola já havia falecido quando eu nasci e meu avô não contava histórias.

O que eu sei é que, por uma incrível coincidência, ele trabalhou como administrador em uma fazenda cafeeira na cidade de Bocaina, cujo proprietário era avô do meu atual marido. Só fui descobrir isto depois de casada.

Minha infância foi muito gostosa, pois no bairro em que morava todos se conheciam, coisa que atualmente é muito difícil.

Brincávamos na rua sem problemas. Quase não tinha carros e não corríamos o risco de sermos atropelados, a não ser pelas bolas dos diversos jogos que brincávamos.

Me lembro que éramos muito criativos, pois quase não tínhamos brinquedos, exceto alguns carrinhos e bonecas. Então nós “fabricávamos” nosso brinquedos com barro, madeira, mato, etc. Fazíamos panelinhas, mesas, cadeiras e tantas coisas que hoje penso como deve ser sem graça pegar os brinquedos prontos e não inventar nada.

Creio que seja por isso que hoje as crianças ficam tanto tempo no computador.

Subíamos em árvores, abríamos túneis através dos matos que cresciam bem alto nos terrenos baldios, enfim, inventávamos o que fazer. E não tínhamos nenhum problema de picada de inseto, medo de seqüestro e todos os outros problemas comuns nos dias de hoje.

Vi muitas avenidas que hoje são congestionadas serem construídas, como a 23 de Maio.

Era gostoso andar de bonde, pisar no barro…

Adorava ir para a casa dos meus avós paternos. Meu avô era meu ídolo. Eu absorvia tudo o que ele me contava, pois ele me abria um mundo que eu desconhecia. Passava todas as férias na casa dele, era muito divertido.

Foi muito difícil aceitar a morte dele, pois só tinha 11 anos e era a minha primeira perda importante. Era também o início da minha adolescência.
Mas isto é uma outra história.

Conte a sua história de São Paulo, também. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou escreva seu texto no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de SP: Um índio na Capital

 

Yaguarê YamãA vida na natureza e no centro urbano se misturam nas histórias contadas por Yaguarê Yamã, nascido na aldeia Yàbetué, na cidade de Nova Olinda do Norte, em Paraná do Urariá, no Amazonas.

Índio Maraguá passou sua infância no norte do País, chegando em São Paulo apenas quando já havia concluído o período escolar. Chegou para estudar, fez Geografia, escreveu livros, contou histórias para crianças e casou.

No depoimento gravado ao Museu da Pessoa, para o Conte Sua História de São Paulo, Yagaré fala das lições de criança e como aprendeu a desenhar usando uma espinha de peixe. Da cidade grande, reclamou do frio e da solidão, mas, por contraditório que pareça, foi aqui na capital que descobriu seu amor – uma descoberta que ainda causa espanto aos seus amigos da aldeia.

Ouça trechos do depoimento de Yagaré Yamã no Conte Sua História de São Paulo, sonorizado por Cláudio Antônio<

Você também pode registrar a sua história, grave seu depoimento no Museu da Pessoa. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou entre no site do Museu da Pessoa .

Conte Sua História de São Paulo: sentimental do tempo

 

Por Frank de Oliveira
Ouvinte-internauta do CBN SP

 

Ouça o texto de Franklin de Oliveira, sonorizado por Claudio Antonio

 

Para muitos, eu era ali um transeunte apenas, a disputar um espaço. Para esses muitos, tudo era apenas a metrópole pulsando ao cair da tarde. Para mim, era um mundo de lembranças, emoções e sentimentos. Quando parei o carro próximo à estação Marechal do metrô, tratava-se de uma providência prática. Por que insistir no trânsito até chegar ao centro da cidade, se o metrô era bem mais rápido? Mas a minha perdição foi desistir também do metrô e decidir ir a pé. Daí, o inevitável aconteceu: à minha revelia, as emoções me abraçaram, resultado das lembranças que emergiam pelas ruas por onde passava. Uma jornada psicossentimental por aquela região, mágica, que tinha em suas veias uma notável dicotomia – o chique de Higienópolis, ali tão perto, e a autenticidade dos Campos Elísios, que assumiam, impávidos, descontraídos até, a própria degradação, sem saudades do tempo em que eram o bairro mais badalado de São Paulo.

 

E foi por ali, no rumo das lembranças, que começou minha viagem no tempo. Ali, na rua Vitorino Carmilo, numa casa com tijolos aparentes, pertencente a uma vila inglesa, que por si já espelhava o passado.

 

Nessa casa, trabalhei no início deste século na edição de uma enciclopédia. Paralelamente, em casa minha, lia a biografia de Tarsila do Amaral escrita por sua sobrinha Tarsilinha, um mergulho na Belle Époque brasileira, com cenas que aconteciam ali bem próximo, na rua onde Tarsila tinha morado com Anita Malfatti, na casa de Mário de Andrade ou na de Dona Yolanda Penteado…

 

Histórias como aquela segundo a qual Mário comprava todas as flores da feira e mandava entregar na casa das meninas pintoras. Quando eu saía para o almoço, ficava imaginando que aqueles construtores de sonhos tinham andado um dia naquelas mesmas ruas, quem sabe com um poema ou um quadro a se formar na alma e na mente…

 

Da Vitorino para a rua Martim Francisco. Um espaço de alguns quarteirões, mas também um salto de muitos anos na minha vida. Um salto até a minha juventude em seus anos mais bonitos. Dezoito anos, a primeira namorada “firme”, Ângela… Ela morava na Martim Francisco, era nissei, de Sagitário. Três irmãs de personalidade fortíssima, e a mãe ainda mais. Ela me chamava de Toni (foi a única até hoje a fazê-lo). E volta e meia dizia: “Toni, eu não gosto disso!!!”. Quase um bordão. Com ela conheci muito de amor e de brigas, que aconteciam quase todos os dias e demoravam quase algumas horas…

 

Essa garota estudava comigo no Colégio Caetano de Campos, sim, mas o Caetano de sua versão mais bacana, ali na praça da República, com sua arquitetura antiga, ali onde conheci Jimi Hendrix, Janis Joplin, James Taylor, e onde aprendi, com o amigo Mazagão, que era possível você chorar diante da beleza, pelo excesso dela.

 

Em minha caminhada, antes de chegar ao colégio, havia o largo do Arouche, com seu cinema onde eu conhecia o porteiro, que me descolava ingressos gratuitos, para assistir a filmes que eu nem entendia direito. E também com seu restaurante macrobiótico Arroz de Ouro, onde eu ia com meu amigo Milton, que de tão fã dos Beatles quis também se ligar nessas modas, quando os quatro rapazes de Liverpool foram para o Oriente e voltaram de lá falando em meditação transcendental e em Ravi Shankar.

 

Ravi Shankar, que eu conheci ali bem perto, no Teatro Municipal. Naquele dia em que meus colegas descolados do Caetano de Campos me convenceram a cabular as duas últimas aulas, sair escondido e ir lá fazer pressão para entrar mesmo sem ter ingresso. E entramos! Difícil imaginar o efeito que causou naquele menino que eu era a magia de penetrar naquela sala já com as luzes da platéia apagada e dar de cara com toda a riqueza da música indiana, assim, sem prévio aviso.
Todas essas emoções estavam ali, guardadas. E foram despertadas de leve, por aquela caminhada entre bancários, automóveis, ruas e avenidas, como dizia a canção. Uma caminhada exterior, mas que me revelou de novo a mim mesmo, lembrança, sentimento, riso e canção, e uma imensa vontade de renascer.

 

Conheça o Blog de Frank de Oliveira, autor deste texto.

Conte Sua História de São Paulo: Brincadeira de criança

 

Geraldo GarducciNo Conte Sua Historia de São Paulo, o paulistano Geraldo Garducci Junior fala de momentos importantes e engraçados da sua infância. Nascido em 1961, morou na então distante região de AE Carvalho, zona leste da capital, onde fazendas ainda eram mantidas por imigrantes enquanto a vida urbana se aproximava. Foi lá que seu Geraldo, o pai, e dona Odília criaram o garoto, em uma casa, ao lado da sede do Esporte Clube Urca. Aliás, o bairro era rico de agremiações, onde o garoto se divertia com os amigos.

Ouça o depoimento de Geraldo Garducci Junior, ao Museu da Pessoa, que foi ao ar no CBN SP

Seja também um personagem do Conte Sua História de São Paulo. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou pelo site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de São Paulo: Ansiedade no caminho

 

Vicente Tundisi

Deixar Atibaia, no interior, para morar em São Paulo, capital, não costuma ser uma transição muito fácil. Mas para Vicente Tundisi era a realização de um sonho, mesmo que a transferência tenha se dado em um momento de dificuldade para sua família. O pai, Seu Carmini, professor universitário e político, havia sido preso por combater o regime  militar. Com a prisão, perdeu o emprego e foi para a capital disposto a começar um novo momento em sua vida.

No depoimento gravado pelo Museu da Pessoa, Vicente, nascido em 1957, conta como foram os dias em que encontrava o pai na cadeia e a disposição dele para morar em São Paulo. Uma das passagens curiosas foi a longa caminhada que teve de fazer para visitar pela primeira vez sua namorada – hoje, esposa:

Ouça o depoimento de Vicente Turdisi, no Conte Sua História de São Paulo

A sonorização do Conte Sua História de São Paulo está a cargo do Cláudio Antônio. Você também pode participar agendando uma entrevista pelo telefone 2144-7150  ou no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de SP: Estrela que me guia

 

No Conte Sua História de São Paulo, Euro Ribeiro da Silva, natural de Igaraçu, Pernambuco, onde nasceu em 1945, de onde saiu 16 anos depois. Deixou os pais, seu Severino e dona Raimunda, e dez irmãos em busca de um objetivo: trabalhar na capital paulista.

No depoimento gravado pelo Museu da Pessoa, Euro Ribeiro conta que a expectativa da família dele se continuase vivendo na terra natal era ser policial militar, como o pai, ou político. Não queria nem acreditava neste destino. Através de cartas enviadas às tias, conseguiu uma casa para ser recebido na capital paulista, no início dos anos de 1960.

Pra viajar até São Paulo, contou com a ajuda de um amigo da família, policial que nas horas vagas fazia carreto em um caminhão. Foram seis dias de viagem até chegar na cidade e desembarcar diante das lojas Pirani, no centro. Foi a partir desta região que passou a desbravar a capital, onde contou com a ajuda de uma estrela guia.


Para conhecer melhor esta história, ouça o depoimento de Euro Ribeiro

Você também pode participar deste quadro no CBN São Paulo. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou no site do Museu da Pessoa e Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP: O rio Tietê é lindo!

 

Ana Helena Puccetti nasceu em 1962 na cidade de São Paulo. Ela é psicóloga e por muito tempo dedicou-se também ao remo. Ela contou ao Museu da Pessoa, em novembro de 2009, a emoção de deslizar pelo rio Tietê, um paraíso dos remadores de épocas passadas. Seu relato foi escrito “em homenagem ao senhor Arlindo Donato, que durante toda a sua vida preservou a memória do remo e do rio Tietê”. O texto de Ana foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo:



Meu nome é Ana Helena Puccetti. Sou remadora desde 1984. Aprendi a remar com o Sr. 
Arlindo Donato. Ele foi técnico do Clube Esperia e tinha, ao lado do “barco-escola” no clube, um galpão que era um verdadeiro museu da história do remo em São Paulo. Além de guardar as últimas “catraias”, que antigamente circulavam pra lá e pra cá nos passeios de domingo pelo rio, guardava fotos da época em que a piscina do clube era um cercada das águas do Tietê. Ele fazia questão de mostrar para seus alunos o arquivo pessoal que guardava, para que a história do remo e do rio não fossem parar no lixo, de onde tirou muitas das fotos preciosas que preservou e estão hoje no Arquivo Histórico do Clube Esperia.



Em 1999, eu era diretora de remo do Esperia e, para celebrar o centenário do clube, resolvemos realizar uma regata no rio Tietê. Remar no rio Tietê, bem embaixo da Ponte das Bandeiras. Fazia quase trinta anos que os remadores haviam abandonado o Tietê. Rio que fez nascer os mais importantes clubes da cidade às suas margens.

Foi uma ousadia remar no rio Tietê. Foi necessário construir um pontão de 
embarque e desembarque embaixo da Ponte das Bandeiras. O DAEE limpou as margens, a Sabesp levou um caminhão pipa para que tivéssemos água para dar um banho emergencial em alguém e nos barcos, a CET teve que interromper o trânsito na pista da esquerda da via expressa da marginal para que os barcos pudessem chegar às margens do rio. A prefeitura interrompeu o trânsito numa pista da Ponte das Bandeiras para que ninguém do público que assistia à regata fosse atropelado. Os bombeiros, vestidos com roupas especiais, acompanharam todas as provas dentro de um barco inflável, uma draga foi colocada atravessada no leito do rio para evitar que grandes quantidades de lixo que viessem boiando e atingissem algum barco. E tudo isso para colocar seis barcos a remo na água.

Até os anos 70 as regatas eram disputadas nesse mesmo lugar, o rio vivia cheio de gente e barcos, o Tietê não estava isolado…

Graças a Deus deu tudo certo! Fizemos uma regata festiva. A maioria dos participantes eram ex-remadores do rio Tietê, senhores de 70 a 80 anos que tinham treinado e competido naquelas águas e depois de 30, 40 anos estavam de volta ao rio. A ponte ficou cheia de parentes, muitos netinhos que olhavam e aplaudiam aqueles senhores, vovôs, dentro das águas do Tietê fazendo o tempo voltar por algumas horas.



Quando chegou minha vez de remar, eu sentei no barco tipo canoe e saí remando e sorrindo. Olhei para as barrancas e para os aguapés que passavam boiando por mim e 
pensei no Rio e em suas histórias. Era um sonho de remadora se realizando e me senti feliz!

Eu me imagino remando no Tietê sempre que passo pela Marginal e atualmente também quando abro a janela do meu quarto. Hoje moro na casa que era da minha avó Helena em Santana de Parnaíba e, da janela do meu quarto, vejo o Rio Tietê e suas 
espumas.

Cada dia ele passa de um jeito, porque a Usina Hidrelétrica muda a vazão das águas de acordo com as necessidades das cidades que o margeiam. 

Tenho o privilégio de morar ao lado do Tietê. Tirando a sujeira que é toda nossa, não dele, o rio Tietê é lindo!

Você também pode participar do Conte Sua História de São Paulo, enviando seu texto ou gravando seu depoimento no Museu da Pessoa. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150

Conte Sua História: A rua das Camélias

 

Vladimir Bosio nasceu em 1968 em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul. Mas passou parte de sua infância na rua das Camélias, na cidade de São Paulo. Um lugar inesquecível, descrito por ele com poesia em história enviada pela internet ao Conte Sua História de São Paulo, através do site do Museu da Pessoa, em janeiro de 2010:

Ouça a história de Vlademir Bosio sonorizada por Cláudio Antônio

Era ali que eu morava, são dali as primeiras lembranças da minha vida, as primeiras imagens registradas na minha memória. A subida íngreme e cansativa. A descida afoita e alegre. A casa na esquina, de calçada vermelha, de muro baixo. Os anos eram os 1970 e eu não tinha mais do que sete, os acinzentados anos militares, com televisão preto e branco, como branca e preta era a fumaça que subia do Joelma.

Lá embaixo havia um rio, hoje eu sei que é uma avenida. Algumas pessoas tinham que descer para pegar o ônibus, e eu as observava da janela tentando entender por que os braços também se movimentam se, na verdade, a gente caminha com as pernas. Eu e minha mãe tínhamos que subir para eu ir à escola. Meu pai, acho, voltava do trabalho descendo. O sobe e desce da rua das Camélias era calmo e podia ser pela rua ou pela calçada, sem problemas. Tinha feira ali por perto, eu sei disso porque havia senhoras carregando carrinhos, tinha padaria lá para cima, pois as pessoas desciam com sacolas de papel pardo com pão cheiroso.

Interessante, mas não havia carros, pelo menos eu não me lembro deles, mas sim das crianças riscando amarelinha no asfalto, sem medo e sem ninguém gritando “vem pra dentro”. Mas se não havia carros, as casas tinham garagens, eu sei disso porque todos os meninos jogavam bola nas suas garagens, gol a gol, mas não podia dar “bicuda”. Dentro da minha casa, na rua das Camélias, tinha um tamborzinho que segurava a janela aberta, no quarto, que era no segundo andar. Na verdade, não lembro do tambor, mas lembro do meu dedo achatado pela janela quando esta caiu em cima dele. Alguém me disse que não era para tirar ele dali, mas será que alguém disse que não era para deixar o brinquedo ali, que a criança iria querer pegar? Não importa, o dedo sarou e a lembrança ficou.

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