Conte Sua História de São Paulo: Meu Brooklin

 

Por José Manuel Cascão Costa
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto “Meu Brooklin” sonorizado por Cláudio Antonio

Aqui você lê o texto original, escrito pelo autor, sem os cortes necessários (feitos pelo próprio) para adaptar ao programa de rádio:

Faz um mês que estou trabalhando no sétimo andar de um prédio na Rua Arandú, no Brooklin, paralela à Berrini. Daqui até aonde a vista alcança (o que dependendo da direção que eu olhe, não dá mais do que um quarteirão) posso ver uma parte do bairro ainda não tomada pelos prédios. Fosse este onde estou, o único, e estivéssemos nós em 68, quando vim morar no Brooklin, minha vista alcançaria alguns quilômetros em todas as direções, já que não havia um único edifício no quadrilátero compreendido entre a Marginal de Pinheiros, a avenida Santo Amaro, a avenida Vicente Rao e avenida dos Bandeirantes, território onde vivo desde os 11 aos atuais 52.

Antes do Brooklin, meu universo era bem mais reduzido: uma pequena aldeia ao norte do Portugal, cuja população total não era muito maior do que o número de pessoas que hoje trabalha num edifício qualquer da região. Saí dessa aldeia com meus pais em 1968, para nos juntarmos aos meus irmãos que cá estavam. Depois de 14 dias a bordo do navio Theodor Erzl de bandeira israelense, que saiu de Lisboa às 7 horas de uma manhã fria e nevoenta de dezembro, e viajando numa classe que não me recordo ter alguma das letras do alfabeto, desembarcamos finalmente no Porto de Santos.

Confesso que aquele Brasil de 68, e tudo que estava acontecendo nele, eu só conheci mais tarde, já no colegial. E depois, mais profundamente, durante os tempos de repressão na faculdade de comunicação em meados dos anos 70. Mas ali, garoto, imigrante recém-desembarcado, com a terra prometida em baixo dos meus pés, o que eu via com os olhos esbugalhados, o queixo caído e a boca aberta era a esperança, o futuro promissor, o maravilhoso mundo novo chamado Brasil!

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Conte Sua História de São Paulo: Sabiá da minha terra

 

Por José Domingos Vasconcelos
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça “Sabiá da minha terra” com sonorização de Cláudio Antônio

Sabiá, do álbum de ®oberto's photostream no Flickr

Sabiá, do álbum de ®oberto's photostream no Flickr

A cidade está na época dos sabiás. Nos últimos meses notei lá onde eu moro, no Itaim Bibi, a presença freqüente de alguns sabiás. Não foi a primeira vez, mas fazia meses que eles não eram ouvidos naquelas bandas.

Eu acredito que onde tem bem-te-vi não tem sabiá. Já vi bem-te-vi escorraçar sabiá de um coxinho de restos de frutas, na chácara de um amigo, lá na Cantareira. Tinha fruta pra todo mundo, mas a natureza crua não tem nada de paraíso. Digo isso porque os bem-te-vis foram donos do pedaço onde moro até algumas semanas atrás. Agora que não tem mais bem-te-vi, lá estão os sabiás.

Já vi bem-te-vi fazer correr carcará, aquele gaviãozinho que fica pairando no alto do rio Tietê, procurando não sei o quê… Pequeno mas umas três ou quatro vezes maior que o bem-te-vi.

Eu olhava pela janela do terceiro andar de um prédio, na Vila Leopoldina, quando vi um bem-te-vi fazer um vôo rasante sobre um carcará, como em uma batalha aérea entre dois caças. Mais ágil e veloz bica a cabeça do gavião e sobe; em seguida outro bem-te-vi já havia feito a mesma manobra para repetir o ataque. Dava pra ouvir os gritos estridentes dos bem-te-vis. Duas ou três investidas dessa e o carcará se rendeu, fugindo dali.

Sem dúvida era um casal de bem-te-vis protegendo seu ninho, instalado em alguma das poucas árvores infiltradas por entre os prédios da região. O fato é que o carcará havia descoberto o ninho, certamente com ovos ou já com as crias nascidas e barulhentas, e tinha planos para elas.

Os bem-te-vis são irritadiços e agressivos, guerreiros e mandões enquanto o sabiá é delicado. É questão de temperamento e não de porte, pois as duas espécies têm quase o mesmo tamanho.
E a cantoria dos sabiás é magnífica, cada um se esmerando em oferecer o melhor trinado aos nossos ouvidos. É claro que não é pra nós que eles cantam, tudo faz parte do ritual de acasalamento, me disseram. Mas não tem nada de mais pensar que o canto deles existe simplesmente para o nosso deleite.

Mas digo que São Paulo está na época dos sabiás por que já faz uma semana que os ouço em outro ponto da cidade, no alto da Av. Paulista, do quarto do hospital em que convalesço de uma cirurgia. Outra cantoria, outra família, outra tribo de passarinhos. Linda cantoria que começa muito antes do sol nascer.

Tanto no Itaim como aqui a primeira fase do concerto começa lá pelas duas e meia da madrugada. Às vezes quando estou apenas indo dormir, outras depois de dormir algumas horas, ao acordar em meu sono picotado. Nessa hora eles parecem os únicos seres alegres no meio da noite. Mas sempre acabam embalando meu sono, com sua música que vem de longe e invade o escuro do quarto.
Minha terra tem garoa. Tempestades, enxurradas. Muitos prédios e avenidas. Com filas e filas e filas de carros. Minha terra tem pinheiros. Azaléas, gramados e palmeiras. Eucaliptos, helicópteros e Corinthians… onde cantam os sabiás.


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, sábados, 10 e meia da manhã, no CBN SP. Você participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. E lê outros capítulos da nossa cidade acessando este link

Conte Sua História de São Paulo: O ponto de encontro

 

Mário Cezar Nogalez
Ouvinte-internauta do CBN SP

Dia Mundial Sem Carro na 23 de Maio

Ouça o texto “Ponto de Encontro” sonorizado por Cláudio Antônio

Nos idos do anos de 1998, fazia eu consultoria para a implantação de um hotel lá na Vila Ema, com a obra já finalizada e com a decoração quase pronta, equipe já contratada e fornecedores na ponta da agulha. Tudo pronto para começar a operar.

Faltando 15 dias para a inauguração do Hotel,estava com todos os convites enviados e com 80% confirmados para tão galante festa. Como um dos proprietários era parlamentar, então políticos, colunistas e colunáveis estariam presentes a tão suntuoso momento.

Eu, belo e tranqüilo, pois estava com os trabalhos em dia, resolvi me dar uma folguinha (para quem não sabe, hoteleiros quase nunca descansam).

Enquanto curtia com minha namorada (hoje, minha esposa, uma outra historia), passei no hotel para checar se estava tudo em ordem e voltando para a casa decidimos almoçar proximo mesmo. Como moramos na Mooca, opções de boa comida não falta.

Pois bem, voltando, estávamos seguindo pela Av. Paes de Barros e o trânsito naquele dia estava engarrafado por conta de muitos carros na Avenida (e olha que era 1998), e então, conversando com a bela namorada, vi que o trânsito ao meu lado andou, logo engatei a primeira marcha e BUM, bati no carro da frente.

Desci do carro. Buzinadas e xingamentos dos demais motoristas. Logo me prontifiquei a pagar qualquer estrago com o outro motorista, porém, foi parachoque com parachoque e não aconteceu nada com nenhum dos carros.

Quando trocamos cartões, me dei conta de que o motorista era Agente de Viagem, e ele de que eu era Consultor Hoteleiro, e, protamente, entreguei mais um convite para a festa de inauguração.

Enfim, este encontro de parachoques foi o ponto de encontro de um cliente para o hotel que nunca imaginaria que iria conseguir.


Mario Cezar Nogales é autor desta história. Você também participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. O programa Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, às dez e meia da manhã, no CBN SP.

Conte Sua História de São Paulo: O Fusca

Suely Schraner
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “O Fusca” de Suely Schraner com sonorização de Claudio Antonio

Foto de Eli K Hayasaka, no Flickr

Foto de Eli K Hayasaka, no Flickr

Em 1973, o piloto Ronnie Peterson ,”o sueco voador”, ganhava o Grande Prêmio da França. Aí, ela comprou seu fusca 66. Vermelho grená e parcelado em 36 vezes.

Vinte horas na auto escola: baixar o breque de mão, primeira e segunda.

No Detran, a baliza certa e aprovação garantida. De noite, pegar o possante na concessionária. Onde é mesmo que se liga a lanterna?

Na Marginal Pinheiros, só xingamentos. Gente mal educada a dizer impropérios sobre sua mãe. Em primeira e segunda, ela chegou ao pódio.

Naquela clara manhã de outono, saiu uma hora mais cedo. Pegou seu veículo e rumou para o trabalho. Era uma fábrica de macarrão que ficava na Marginal, quase esquina com a Avenida Interlagos. Na ladeira, pof, pof, em ré descontrol. Êpa! Passou direto do ponto. As duas mãos no volante, cara esticada quase colada ao vidro, aquela craqueza. De repente, o rio Pinheiros no meio. Como retornar? Uma hora esse rio tem que acabar.

Nesse pique, chegou na Lapa. Só aí é que se deu conta que o retorno só poderia ser por uma ponte. Um guarda pulou. Caderninho de multa voou. Ufa! Enfim conseguiu pegar a marginal de volta. Atrasada duas horas! Os tímpanos já imunizados aos palavrões.

Mãos firmes no volante, pernas travadas. Primeira e segunda. Enfim a firma onde trabalhava. Não havia focos de lentidão como hoje. A surpresa era uma aglomeração em frente à fábrica. Seu Adrimon, da portaria, muito solícito lhe abriu as duas bandas do portão de entrada dos carros. Mirou bem e acelerou na direção do portãozinho de pedestres. Foi só manifestante que voou.

Nova ré descontrol. Barbeira, eu? Deixou o carro atravessado na rua e entrou a pé mesmo.

Seu Antonio, o motorista de caminhão, foi quem colocou o carro pra dentro. Passava do meio dia. Coração na boca . Pernas bambas.

Você também participa do Conte Sua História de São Paulo. Escreva seu texto ou mande um arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: Chiove

 

Por Sérgio Mendes
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “Chiove” sonorizado por Cláudio Antônio

"Olhar da janela da minha casa para a av Santo Amaro", por Sérgio mendes

Você já ouviu E chiove, na voz de Zizi Possi ? Esta musica é a minha história de São Paulo. Quando cheguei, vinha de quase cinco anos fora do Brasil. E vim pra cá justamente pelo nome que dá título ao disco daquela música napolitana interpretada tão bem por Zizi. Os primeiros dez dias eu estive hospedado na casa de uma tia que morava e ainda mora até hoje na Brás Leme, em São Paulo.

Per amore, cheguei antes. Seis meses antes. São Paulo era a possibilidade de fazer viável um projeto antigo.

É claro que não podia permanecer muito tempo ali, e a partir de uma primeira visita à Av. Paulista meu amor por São Paulo se confirmou. Não poderia mais viver em lugar algum.

Meu tio me acompanhou naquele domingo, fomos de metrô. Ele mudo e eu embasbacado!

No dia seguinte tratei de encontrar logo um lugar para morar. Fazia frio, garoava e o centro estava lindo. Ficou impresso na minha mente, uma das saídas do metrô Pça da República. Aquela escada que dá vista para o Terraço Itália! Aquilo é de arrepiar !

Foi só depois que eu fui percebendo que a cidade estava mesmo era mal tratada, e tinha ares de abandono. Naqueles primeiros dias, ela ainda era as imagens dos livros que eu havia lido. Rua Aurora, Rua 7 de abril, o Viaduto do Chá, o Anhangabaú, até o Paissandu. E chiove!

Ainda não havia os celulares com MP3, não havia mesmo nem MP3, nem celulares. A música era na cabeça mesmo… E faz só pouco mais de dez anos!

Encontrei o meu cantinho em uma quitinete na rua Abolição, bem perto da Câmara Municipal. O dinheiro era curto. E eu tinha que seguir estudando, passar no vestibular e trazer meus créditos da Universidade para concluir aqui meu curso.

Seis meses. Meu apê, não tinha nada, entenda bem… Nada! Mas era meu! Era a minha casa agora, e logo seria a nossa casa!  Como eu disse, o dinheiro era curto, curto mesmo. E eu tinha que esticar o máximo possível, para que o projeto fosse possível.

Seis meses pagando o aluguel e caminhando !

Caminhava e estudava. Era o que eu fazia. Logo cedo eu tomava um copo de café no boteco da esquina, 70 centavos e caminhava rumo a Santana. Saia da rua Abolição e caminhava. Duas horas, admirando as belezas estonteantes deste lugar caótico. Atravessava o Vale do Anhangabaú e seguia pela calçada da Brigadeiro Tobias, Av. Tiradentes, Av. Santos Dumont e finalmente Brás Leme.

Comer, estudar e voltar. Neste percurso diário, aprendi sobre a vida de são Paulo que não estava na novela, sobre os rostos que não vão pra TV, que nunca vão e sempre estão. Eu via o Metrô. Eu via os carros. Eu pensava e caminhava.

De volta à minha casa, era tomar banho e seguir para a Paulista, no prédio da Radio Gazeta, onde eu fazia um cursinho pré-vestibular e caminhava. Estudava e caminhava.

Desta vez pelo Bexiga! Vi ruas escuras, abandonadas, passei por moradores de rua, cães, portarias de prédios, frangos assados, cheiros do centro e os magníficos ares da Paulista! A avenida da TV.
Eu me sentia parte. Poucas vezes tive medo. Sendo estrangeiro, era parte. A síndica do meu prédio, uma senhora negra e grande por nome Erundine, bateu a minha porta e tomou o meu depoimento! Depois que descobriu as minha reais intenções, me disse que nunca olhasse para ninguém e seguisse o meu caminho, desta forma não teria maiores problemas. Somos amigos desde então !

A cidade me acolheu, as personagens da rua não sabiam que eu era de fora, minha aparência nordestina me fazia tão igual a eles e eles eram eu, também. Meu único obstáculo era a chuva. Não dava pra caminhar e chegar molhado para a aula. Mas não dava para não caminhar e não comer!  Assim segui em frente, e houve dias que não pude estudar.

Seis meses se passaram. Finalmente minha casa virou a nossa casa. Não deu tempo de virar doutor. Tínhamos a responsabilidade de nos mantermos, Voltei a trabalhar com o que trabalhei desde os dezesseis, procurei escolas de idioma e voltei a ensinar. Já morei na Vila Olímpia, estou agora na Lapa, onde compramos nossa primeira casa. Gente estranha que mora lá no alto…é São Paulo!

Bairros distintos, rostos de TV, rostos anônimos, de botequins, de viver na rua, de morar no vigésimo andar!

São Paulo tem de tudo, e esta é a força da beleza daqui, mal tratada, sempre esperando a promessa de que será melhor. Dividida entre a gente da TV e a das ruas. Díspar por que foi feita para a gente da TV e eu suspeito que sejam quase todos como os da rua. Cidadãos possíveis.

Mas esta terra generosa me acolheu assim mesmo e em retorno a tornei minha. E quero cuidar dela caminhando sempre. Dos lugares bonitos onde já morei, nem um tem a beleza do Centro, menos ainda quando chove aquela garoa que só cai aqui em São Paulo.

O autor deste texto é Sérgio Mendes. A sonorização é do Cláudio Antônio. Você participa enviando seu texto por escrito ou em arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. Leia e ouça outros capítulos da nossa cidade no Blog do Milton Jung.

Conte Sua História de São Paulo: Namorar no trânsito

 

Por Júlio Salles
Ouvinte-internauta

Ouça este texto que teve sonorização de Cláudio Antonio

Era linda aquela moça no carro ao lado. O trânsito da 23 me deixou parado e me permitiu prestar atenção naquele rosto. Havia cabelos loiros escorrendo até o pescoço. E um sorriso que interrompia o meu olhar.

Pelo balançar da cabeça, ela acompanhava a música em uma rádio qualquer. Ou seria um CD. O balanço era suave como o olhar dela que não se alterava mesmo com o buzinaço dos motoboys que cruzavam em alta velocidade entre os carros.

Pobres rapazes. Andam tão rápido, tem tanto a fazer. Que jamais saberão o prazer de estar preso no congestionamento ao lado daquela moça.

Apesar de próxima, e da minha insistência em olhar por entre os vidros do carro, ela não parecia perceber minha presença. Nada parecia perturbar a atenção que tinha em seus próprios pensamentos. O que estaria pensando ? No encontro que teria assim que chegasse ao seu destino. No namorado que acabara de ligar falando-lhe coisas de amor. No trabalho da escola. No trabalho do trabalho. Nas coisas da vida. que podem ser muitas coisas.

A fila em que ela estava as vezes andava mais do que a minha, e eu a mirava pelo espelho lateral do carro dela. Quando chegava minha vez, passava a frente e continuava a acompanhar seu rosto agora intermediado pelo meu espelho. Aquele jogo de espelhos a tornava ainda mais atraente.

Qual será o nome dela ? Janete, Valéria, Norma, Regina … Todos os nomes cabiam na minha imaginação. Todos combinavam com ela e aquelas bochechas levemente avermelhadas, cor que acentuava a maciez da pele.

Dava o azar de o trânsito melhorar mais adiante e eu quase a perdia de vista. Mas logo o engarrafamento conspirava a meu favor. E nós nos encontrávamos. Ou eu a encontrava, pois ela permanecia impassível dentro de seu carro, conduzindo sua própria vida, distante de todos a sua volta, apesar de parecer tão pertinho de mim.

Já havia uns 20 minutos em que meu namoro se iniciara ali na 23. Até que de repente, a luz da seta se ascende e começa a piscar, um carro sai pela direta, o outro pela esquerda e um tunel nos separa. Ela não olha pelo espelho retrovisor como eu gostaria. Eu sou obrigado a olhar para frente.

De onde vem e para onde vão estas moças bonitas do trânsito de São Paulo ?

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Conte Sua História de São Paulo: A escrivaninha de meu pai

 

Por Cyro Del Nero
Ouvinte-internauta

Ouça o texto ‘A escrivaninha do meu pai’ com sonorização do Cláudio Antônio

Levei até meu analista um fato – e eu já tinha 40 anos – ocorrido em minha juventude.

Foi o seguinte. Eu sempre estive curioso pela escrivaninha de meu pai. Era uma daquelas que têm um tampo de madeira que corre e fecha a mesa e seus escaninhos. Sempre tive curiosidade pelo conteúdo que eu apenas entrevia e que meu pai defendia abrindo a escrivaninha para um rápido trabalho e então ele imediatamente, a fechava .

Não resistindo, compulsivamente, um dia resolvi violar a escrivaninha secreta de meu pai. Com uma faca levantei com facilidade o seu trinco e fiz correr a tampa abrindo para mim os seus segredos. Descobri que os ricos escaninhos guardavam além de cartões, fotos e papéis, pequenos objetos que me pareciam fantásticos, como meia dúzia de cartuchos vazios de balas de rifle que certamente ele guardara desde a revolução de 32 quando saíra fardado para uma aventura nunca imaginada. Havia ainda pequenos objetos como um estranho anel, caixinhas apenas recheadas de agulhas e grampos, um pente feminino de marfim com um ornato barroco, cartas com selos de impérios que eu desconhecia, estampilhas, um velho canivete, uma pedra, uma espátula dourada, um broche antigo, cartões-postais com imagens da França e Portugal, uma moeda chinesa, um pequeno frasco de um líquido azul com um rótulo em alemão.
Afinal, que relação amorosa meu pai tinha com aquela coleção? Por que o segredo?

Contei isso para meu analista, Horus Vital Brasil e ele me perguntou algo que resume a aventura humana.
– Cyro, você queria saber se havia amor antes de você?

Todas as circunstâncias nos são inéditas e é necessário saber a origem e o porquê desse desconhecido que chamamos Destino ou simplesmente Existência e se há amor que os sustente. Isto resume a aventura humana.

Imagino o homem primitivo sem uma sociedade na qual espelhar-se ou poder inquirir. O ineditismo das revoluções físicas da terra – explosões vulcânicas, maremotos, raios e relâmpagos durante os quais no primeiro momento esse homem deve ter feito gestos nascidos da ignorância e do susto. Gritou em diversos tons – e gerou para os séculos vindouros a música; saltou e correu de medo – gerando para o futuro a dança e criou uma liturgia quando sentiu que Alguém anterior a ele, devia estar por trás de todas as coisas.

E imagino que muitas vezes atônito, se perguntou se tudo aquilo continha uma salvação, um prêmio, um calor afetivo, se tudo aquilo continha nos seus gestos sinais mensageiros de amor por ele.

Talvez ele tenha reconhecido alguns sinais… durante a Primavera.

Uma de nossas essências é o ineditismo de nossa existência e muitas vezes na juventude até duvidamos ter nascido daquele casal que se diz ser nossos pais. Muitos duvidaram e procuraram o que supunham ser um destino correto onde houvesse amor.
Édipo o fez e estava certo: eles não eram seus pais e em sua procura foi castigado mesmo sem ter culpa. A falta de amor que estava em sua origem, colocou-se contra ele.

É necessário sentir que diante de tudo e apesar de tudo, havia amor antes de nós. Isto é uma alegria perene, uma bagagem feliz.

O aparecimento de uma imprevista Primavera, prêmio amoroso universal, pode nos ajudar a receber e distribuir amor durante a nossa existência.

Creio-me abençoado e, em muitos momentos difíceis ou gratificantes, lembro-me disso, e tenho a certeza de que essa idéia ou lembrança me envolve cosmicamente. E imediatamente sinto uma confirmação, uma resposta.

Sim, sou herdeiro: havia amor antes de mim.

Há atitudes até mesmo profissionais de alguém – por exemplo – que se torna um Antiquário e busca no passado das coisas belas o amor que as criou. O que então se torna a resposta à pergunta que ele faz sobre a existência do amor antes dele.
Nota-se muitas vezes que a escolha de um ofício é uma herança amorosa ou a procura dela e muitas vezes podemos declarar essa herança em uma obra poética – ou reclamá-la.

O amor herdado é algo muito mais rubro e tépido do que o sangue. E também pode ser nosso testamento.

Eu procurei saber dele na escrivaninha de meu pai.

22 de Agosto de 2009
Quando se comemoraria o 109º Aniversário de meu falecido pai.


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Conte Sua História: Pó, graxa e infância

Por Cesar Cruz
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto Pó, graxa e infância com sonorização de Cláudio Antonio

Fui provocado assim que pisei na calçada:

– Esse pisante aí ta dando medo, hein tio?

O menino, de uns oito anos, sotaquezinho e jeitão cariocas, surgiu sabe-se lá de onde. Era como se ele estivesse à minha espera atrás do tapume daquela obra e, agora, enquanto eu descia a rua em direção ao meu carro, ele seguia colado em mim, lado a lado, me olhando e esperando uma resposta àquela sua provocação.

“Mas o que foi mesmo que ele disse?” Só então atinei com as idéias: “Pisante, é claro!” Ele se referira ao meu sapato. Estanquei o passo e olhei para baixo. O garoto tinha razão, estavam mesmo de dar medo. Nojentos e asquerosos, para dizer a verdade. É que eu havia acabado de sair de uma visita do tipo mais imundo que conheço: visita a canteiro de obras; e aquela era mesmo uma obra sujíssima! Isso aconteceu ali na zona sul, no bairro da Saúde, travessinha calma da Av. Jabaquara.

– O que tem meu sapato? – indaguei para testar o menino.

– Pô, brother! Tá nojento!

Não dava mesmo pra negar…

– É… você tem razão, amiguinho – concordei -… é que saí da obra e…

– Vamos engraxar, então, tio? – interrompeu-me, prático e determinado.

A densa poeira parecia ter oxidado o meu cérebro, pois só então reparei que o menino carregava uma caixa de engraxates pendurada em um dos ombros. Estava tudo explicado. Era um engraxate mirim. Coisa raríssima de se ver, assim, solitário, numa rua qualquer, já que hoje eles trabalham em grupos, bolsões organizados, muitas vezes com o amparo de adultos. Mas esse era independente e autônomo! E muito perspicaz! Eu tinha que admitir que a jogada de marketing do guri era de fato muito boa, ele merecia crédito! Seria uma desonra da minha parte resistir a ele… Além do mais, meus
pisantes estavam mesmo de dar medo.

Eu topo. – disse. E quem é o artista da graxa, você? – desafiei-o, com um falso ar de desdém.
– Opa, tio! – admirou-se ele – Você vai ver só a minha sshcova nerrvosa
– Vamos ver então!

O problema é que eu não tinha onde me sentar. E eu não estava disposto a me
postar em pé, recostado no muro duma casa, em plena calçada, como ele tinha
me sugerido. Não, isso não.
.
A única possibilidade seria usarmos o meu carro. Então abri a porta do
passageiro e sentei-me virado para o meio-fio, com os pés apoiados, um no
chão, outro sobre a caixa de madeira do guri.

Nos minutos que se seguiram, fiquei ali, na incômoda posição de um rei com
um súdito prostrado aos seus pés.

O delgado e ágil Elton (era esse o seu nome) esmerou-se em velozes e lépidas estaladas de flanela e ritmados giros de escova. Obediente às eventuais batidas secas que soavam na caixa, fui alternando o pisante esquerdo e o direito sobre o apoio. Elton usava uma garrafinha plástica para borrifar sobre o couro, vez por outra, uma aguinha misteriosa, mas logo voltava a “flanelar” o calçado, extraindo dele um brilho quase metálico.

Enquanto o menino trabalhava, me contava sua vida. Contou-me que morava com a mãe e dois irmãos na periferia, todos mais velhos. Vieram do Rio, havia dois anos, tentar a sorte em São Paulo. Um dos irmãos era ladrão e estava preso. A mãe sentia um grande desgosto por isso.

Os outros dois irmãos, uma menina de onze anos e um rapaz de dezoito, moravam com eles. Também trabalhavam e entregavam religiosamente todo o dinheiro recebido à mãe. Fiquei curioso para saber em que uma menina de onze anos poderia trabalhar, mas achei melhor não perguntar, já que o próprio Elton, bem mais novo, vivia pelas ruas, curvado aos pés de adultos desconhecidos, como eu.

Ele me contou ainda que guardava parte do que ganhava para comprar uma moto quando fizesse dezesseis anos. Tentei lhe explicar que moto só se pode pilotar depois dos dezoito, mas ele me disse que no seu bairro, com quinze, dezesseis anos, todos já pilotam uma.

Terminado o serviço, fiquei surpreso ao saber que aquele belo trabalho me custaria apenas três reais. Dei-lhe dez, não por que sou muito generoso, não! Foi por puro merecimento! Sugeri ao Elton que guardasse o troco para a compra da moto, mas o fiz prometer que só o faria aos dezoito anos e que compraria também um bom capacete. Ele concordou com um sorriso maroto… Fiquei na dúvida se cumpriria mesmo a promessa…

Enquanto eu tirava o carro da vaga, fiquei olhando-o pelo retrovisor. Voltou para a frente da obra e se encostou no tapume. Dali a pouco, certamente outro incauto deixaria a obra e seria provocado pelo menino engraxate: “Esse pisante aí ta dando medo, hein tio?”.



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Conte Sua História: São Paulo de todos nós

 

Por Carlos Silva
Ouvinte-internauta

Ouça o texto de Carlos Silva sonorizado por Cláudio Antonio

Quem dera mergulhar em águas imaginárias e, ao emergir, fixar meu olhar no ponto onde tudo começou.

Quem sabe meus pés calcassem então o solo enlameado e virgem de projetos e edificações.

Quem sabe dissesse ao colonizador: “O que estás ajudando a construir hoje tornar-se-á, no futuro, o espaço das grandes concentrações voltadas para o lazer, a informação e a cultura. Enfim, para a vida…

Aqui, onde depositas a pedra fundamental, milhares de passos passarão pisando.
Talvez alheios a tudo que hoje aqui ocorre.

Noutros, porém – sobretudo aqueles com olhares poéticos,lúdicos e boêmios, repousarão inspirados versos,cantigas,contos e cantorias. E, mesmo que não verbalizem um agradecimento sonoro que se faça ouvir em toda a plenitude, tenham a certeza de uma coisa: no íntimo de cada ser, desses capazes de enxergar com a ótica poética, haverá ao menos um filete de regozijo e satisfação por estar aqui.

Teus olhos, ó idealizador, obviamente já tragados há muito pelo solo – pois isso dar-se á daqui a mais de quatro centenas e meia de anos – não verão nada disso.

Desde já conforta-te, porém, em saber que tu serás lembrado.

E quando as cortinas do sol abrirem-se no horizonte, e quando vários poetas estiverem reunidos, então saberei que neste dia os calendários do nosso solo paulistano estarão marcando 25 de Janeiro de 2009.

Teu gesto então será celebrado por aqueles que carregam no coração o amor por esta mãe-metrópole tão receptiva e hospedeira.

Que não faz distinção de raça, cor, credo.

E que a todos se dá, sem nada esperar em troca.

A não ser o gozo pela vida e pela preservação de sua própria história.



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Conte Sua História: O sorriso da alma

 

Por Suely Schraner
Ouvinte-internauta

Ouça o texto Sorriso da Alma de Suely Schraner, sonorizado por Cláudio Antonio

Conta-se que Santa Apolônia, a padroeira dos dentistas, foi mártir da Igreja Católica e que, para manter sua fé, foi torturada, sofreu fraturas no rosto e teve os dentes quebrados.

O dentista garante a integridade dos dentes, a limpeza e profilaxia. Hoje prevenção, ontem extração. Hoje restaurações, clareamento, implantes, essas coisas “high tec”. Ontem, soluções caseiras: pinga no buraco do dente, 1 minuto, remedinhos “tiro e queda”. Panela no dente instalada, era só extrair e pronto.

Para ele, ser dentista era a razão de ser. Atendia ouvindo ópera. Vê se pode. Quando não, a Voz do Brasil. Tem notícias interessantes, dizia ele.

Pacientemente, naqueles idos de 70, no Bairro de Campo Grande, avenida Nossa Senhora do Sabará, laborioso nesta São Paulo desbocada. Entre resinas almagmas e dentaduras postiças, seguia amealhando clientes e amigos. Agumas bocas ficaram famosas. Ana Paula Arósio que o diga.

Bom atendimento e parcelamentos na base da palavra dada, que SPC não tinha não.

O instante das coisas. O tempo de uma piscadela e a maturidade se instalando junto com a aposentadoria. A vida correndo como as águas deste verão que se encerra.

O outono da existência, um troféu das experiências vividas.

O cuidado com as bocas. O sorriso que motiva, ensina, encanta. Sorriso da alma.

Na sala do Telecentro Malba Tahan, no Jardim Suzana, Diodi Okamoto, dentista aposentado, aprende informática e também escreve sobre a cidade de São Paulo e sua gente.


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