Conte Sua História: Cenas paulistanas

 

Por Emily Rodrigues Cardoso:

Ouça o texto de Emily Rodrigues com sonorização de Cláudio Antônio que foi ao ar no CBN SP

“A dona da casa se encontra?”

Vendedores de cartões de crédito, via telefone, já fazem parte da rotina paulistana. Descobri que uma das maneiras de tentar (eu disse “tentar”) livrar-se deles é assumirmos uma segunda personalidade.
– Eu gostaria de falar com a senhora Emília.
– Quem é?
– Aqui é do Banco Etceteraetal.
– Ela não está.
– Com quem eu falo?
– Com a diarista.
Outra modalidade de venda:
– Bom dia – sete da matina. Esse “cumprimento matinal” é uma maneira infalível de reconhecer telemarketings.
– Bom dia – impaciente, tonta de sono.
A dona da casa se encontra?
– Quem quer falar?
– Aqui é da Cartões de Crédito…
– Como vocês conseguiram esse número?
– Ah, senhora. Nós temos um cadastro com nomes e telefones…
– ??!!
Uma amiga adotou esse hábito de se fazer passar por uma segunda pessoa.
– Boa noite – Mas até à noite? – A senhora Eliana se encontra?
Todos a chamam de Lia, em vez do nome de batismo…
– Não, ela não se encontra.
– Com quem eu falo?
– Com fulana de tal.
– O que a senhora é dela?
???????!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Minha amiga diz que um dia vai responder “o que ela é da dona da casa”:
– Amiga bem próxima. Tão próxima que ela tá aqui do meu lado. Ou melhor: bem próxima da alma…



Participe do Conte Sua História de São Paulo. Envie um texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. O programa vai ao ar, sábados, às 10h30, no CBN SP

Conte Sua História: Lembrança de Santo Amaro

 

Por José Roberto Leone
Ouvinte-internauta

Ouça o texto de José Roberto Leone com sonorização do Cláudio Antônio

Nascido em São Paulo. Sou de 1946. Muitos dessa época devem se lembrar do respeito aos mais velhos, às instituição. Lembram das boas escolas públicas e dos professores dedicados e competentes.

Estudei no Grupo Escolar Paulo Eiró e no Instituto de Educação Professor Alberto Conte, na época considerado o melhor colégio estadual do Brasil. Os dois ficam bem no centro de Santo Amaro.

O Paulo Eiró teve seu prédio, uma verdadeira relíquia dos santamerenses, derrubado na gestão Paulo Maluf, e seu espaço ocupado por um camelódromo. Em lugar do murmurio dos alunos na hora do recreio, na entrada e saída das aulas, ganhou-se o mau cheiro, a imundície e um barulho de poucas referências.

Do Alberto Conte restou pouco daquele que conheci. Parece um galinheiro, frequentado por alunos da região.

Sinto saudade do bondinho que nos transportava para bairros próximos, como Brooklin, Piraquara, e Campo Belo. As pessoas tinham aspecto diferente, eram habitantes de um país civilizado, com todos seus problemas, é lógico. Mas naquela época eram felizes, sim.

A gente podia andar sem medo pelas ruas, frequentar festinhas e ao chegar à noite em casa, encontrar a porta da sala “encostada com uma cadeira”. As crianças podiam ir à padaria, no empório, brincar no parque infantil sem qualquer risco. Uma das diversões mais esperadas era a aguardar a boiada que chegava de trem, acompanhadas pelos boiadeiros através do bairro até o matadouro local. Era uma festa quando um animal se desgarrava do grupo e promovia um verdadeiro show.

Com o passar do tempo, já quase adolescente, trabalhando e indo a todos os lugares da cidade como office boy, me encantava todos os dias com as coisas mais simples, como cartazes de filmes dos cinemas do centro, as belas vendedoras do Mappin , da Mesbla, aquela das Lojas Americanas (aquelas sim, exemplo de beleza natural e educação). Não essas que nos atendem mal, que usam tatuagem, piercings e todo tipo de maquiagem de péssimo gosto, além da natural deselegância.

Lembranças, apenas lembranças, de uma época que, tenho certeza, vai ficar na saudade.



Participe do Conte Sua História de São Paulo. Envie um texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. O programa vai ao ar, sábado, às 10h30, no CBN SP

Conte sua história de São Paulo

 

Um programa, um livro e uma série de post neste blog foram os resultados do Conte Sua História de São Paulo que surgiu no CBN SP, em 2004. Ouvintes-internautas enviaram centenas de relatos por e-mail descrevendo coisas do passado e fatos recentes que marcaram suas vidas. No início, ao vivo e diário, hoje o programa Conte Sua História de São Paulo vai ao ar às 10 e meia da manhã, todo sábado, dentro do CBN São Paulo.

Os textos que continuam a chegar no contesuahistoria@cbn.com.br ganham alma na sonorização do radialista Cláudio Antônio, técnico de primeira que está por trás da Charge do Jornal, que vai ao ar às 8h43, e da Rádio Sucupira, que encerra a edição de sexta, no Jornal da CBN.

Após ouvir reclamações de ouvintes-internautas que participaram do quadro e de outros que gostam de ouvi-lo, me comprometi a publicar todos os textos e gravações aqui no Blog. Desde 2007, quando o blog se iniciou, tenho postado alguns destes trabalhos, mas não com a frequência desejada. Alguns, infelizmente, se perderam com a extinção da Globolog e migração para o WordPress. Espero ter fôlego para cumprir com esta promessa pública. Para mostrar minha disposição, pretendo publicar um texto por dia, durante esta semana. E o farei até ter todos as gravações à disposição publicadas.

Conto também com a sua participação, enviando novos textos ou arquivos de áudio descrevendo uma momento vivido na capital paulista. A ideia de ter as história gravadas pelo próprio autor surgiu há dois anos, quando abrimos um estúdio de gravação no Pátio do Colégio, no dia do aniversário da cidade. Em 2008 e 2009, os ouvintes-internautas puderam gravar, em viva voz, sua própria história. Algumas foram realmente incríveis.

Apesar da possibilidade de publicar esta gravação no CBN São Paulo, poucas pessoas aproveitaram a oportunidade. Não desperdice a chance de ser o narrador de mais um capítulo da nossa cidade. Grave no seu computador ou qualquer outro arquivo de áudio e mande para contesuahistoria@cbn.com.br. Se for mais fácil, mande seu texto que eu terei o maior prazer em interpretá-lo.

Conte Sua História: Nariz de palhaço

 

Por Tony Marlon
Ouvinte-internauta

Ouça o texto de Tony Marlon sonorizado por Cláudio Antonio para o CBN SP

Quinta-feira. Ônibus Paraíso – Parque do Engenho. Caminho Avenida Paulista. Meu amor.

Depois de noite mal dormida, o primeiro banco vazio era um, antes da catraca. Ali mesmo me sentei. Próximo ao Shopping Eldorado entra uma menina. Eu tenho quase certeza que ela era uma princesa daquelas bem lindas que gostam de se disfarçar pra ver o que anda acontecendo no seu reino.

Entrou, e com o ônibus cheio, ofereci meu lugar. Sua mãe a pegou, e a colocou no trono. No banco. Encostei na porta do outro lado do ônibus, bem longe dela, séria. Muito séria. De repente, um restinho de olhar passou rápido por mim. Pensei: opa. Eu vi direito?

Ela olhou de novo. Tentou disfarçar, mas não deu tempo. No canto da boca um sorriso bem do arteiro. E eu entre jogadas de corpo e desvios de puro reflexo da porta que não parava de abrir, pensei: é agora. Os olhares se intensificaram. Os sorrisos também, praticamente num filme de Chaplin: tudo em silêncio em nossa relação.

De repente, a mãozinha acena para que eu atrevesse o ônibus. Atravesso; pedido dela é uma ordem.

– Qual é o seu nome?
– Tony.
– Ah. Toony?
– Isso. E o seu?
– Maria Eduarda.
– Que lindo nome, Maria Eduarda.
– É. Eu sei.
– Quantos anos você tem?

Neste momento desaparece o som. Quem fala agora é a mão: quatro dedinhos convictamente estendidos.

Me afasto. Volto pro meu lugar. Longe. Sem som. E as brincadeiras continuam. Ela e eu vivemos uma realidade que não é a mesma do restante do ônibus. Nela, eu sou motorista até mesmo sem colocar a mão no volante.

– Tony, deixa eu ver sua mão?
– Claro. Olha.
– Nossa. Sua mão parece de mulher. Olha a sua unha!
– Mas é bonita?
– É. Muito bonita.
– Então melhor assim, né?!
– É. Olha a minha.
– Linda também.
– É. Eu sei.

E tudo para de novo. Cada um pro seu canto. E vamos brincar de Chaplin; num silêncio cheio de coisas mágicas que somente ela e eu entendemos. E ela ri muito.

De repente meu nariz imaginário cai. Procuro desesperado naquele chão sujo do ônibus e não o encontro. A minha cara de preocupação e choro encontra o rostinho da Maria Eduarda, também preocupado. Deve estar pensando ela: como este menino perde o nariz dele assim? No meio do ônibus? Que desastrado.

Passa um senhor de cabelo longo em minha frente e eu, claro, desconfio que ele pode ter achado meu nariz. Procuro até dentro de seus cabelos e nada. Ela, igual a mim, também começa a ficar preocupada. E o rostinho dela fica realmente.

Achei! Achei! Estava ali, perto da lixeira. Como é que eu não vi ? Olho e ela está sorrindo lindamente com cara de aliviada. Comemoro o meu achado. Tanto que meu nariz acaba escapando da minha mão e caindo nas dela. Que menina cuidadosa, segurou firme. E um lindo sorriso de quem acaba de salvar o mundo surge no seu rosto.

Peço que me jogue o nariz. Afinal de contas, é imoral ficar andando por aí sem nariz, não é verdade Wellington? Ela se prepara e joga o nariz.

– (em slow) Nããããão!

Lá se vai meu nariz de novo. Alguém muito distraído esqueceu a janela do ônibus aberta. De dentro do ônibus eu vi meu nariz pingando como bolinha de borracha no chão da Avenida Rebouças.

Olho e ela está com uma carinha de preocupação que mal cabe em seus quatro anos. Deve pensar: o que eu fiz com o nariz do Tony, meu Deus? Serei presa e castigada por isso.

Como eu sou uma alma bondosa, além de muito vergonhosa pra ficar lá nu de nariz imaginário, digo em silêncio que vou resolver. Alguém lá em cima ouve, e o ônibus para em seguida para subida de um passageiro. Dou uma piscada pra ela. E enquanto o passageiro entra no ônibus, eu estico meu corpo pro lado de fora e…e…e…pego meu nariz! Volto eufórico, antes que a porta feche e eu perca também a parte de cima do corpo. Ela sorri aliviada! Um sorriso sincero e lindo!

Ficamos intermináveis horas de segundos comemorando meu ato heróico. E o sorriso da Maria Eduarda mal cabia nela mesma. Até ameaçar uma dança de comemoração ela ameaçou, mas os buracos da Avenida Rebouças mostraram que precisamos repensar sobre cinto de segurança nos ônibus.

E as brincadeiras seguiram, Wellington. Quase todas em silêncio. Próximo à Avenida Paulista, ela se vira totalmente pra mim. Depois olha pra mãe e diz:

– Ele é engraçado, né, Mãe?
– É, né?!
– É. Muito.

E assim, com espírito de quem vai contar o maior segredo do mundo, coloca as mãos em forma de concha. As alinha junto à boca. Assim, deve pensar ela, ninguém ouve o que vou dizer. Respira fundo. Olha pros lados. Olha pra mim. Com voz de sussuro, diz:

– Tony?
– O quê?
– Porque você não vira um palhaço?
– Virar um palhaço? Você acha que ia ser legal?
– Ia. Você é muito engraçado, sabia?
– Hum! Então eu vou virar um, tá?
– Tá.

As mãos se desfizeram do segredo. E o sorriso dela também por alguns instantes. Sua mãe a pegou, e a fez descer do banco. Pela porta dianteira, foram saindo. Maria Eduarda se virou. Me deu tchau. Com um sorriso lindo de quem aprontou uma daquelas.

– Dá tchau pro seu amigo, filha?
– Tchau, Tony.
– Tchau, Maria Eduarda. Foi um prazer te conhecer.
– Imagina. O prazer foi meu.

E foi se sumindo. Sumindo. E a Avenida Paulista, em meio ao caos, fez silêncio nascer. Somente para acompanhar esta história. Somente para acompanhar esta história.


Você pode participar do Conte Sua História de São Paulo enviando texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. O programa vai ao ar sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN SP.

Conte Sua História de São Paulo: O Teatro Municipal

Por Pedro D’Alessio
Ouvinte-internauta do CBN SP

Natal no Teatro Municipal

Ouça o texto “Teatro Municipal” de Pedro D’Alessio

Aquela agitada sessão de inauguração do, hoje,  quase centenário  THEATRO  MUNICIPAL DE SÃO PAULO – a ser devidamente lembrada e comemorada, assim esperamos, em 2011, constitui um  fato  histórico que bem exemplifica a opção do paulistano pelo cultivo da “brasilidade”, com a clara intenção de, com isso, expressar sua identidade plural maior :  “São Paulo não é, São Paulo são…”.

A sociedade paulistana resultou da integração de todas as raças e culturas do planeta. Em São Paulo se encontraram migrantes de todas as regiões do Brasil e imigrantes de todas as Nações do mundo. Por isso, a grande diversidade brasileira se expressa melhor em São Paulo, onde se ouviu o grito da Independência.

A cidade guarda, bem viva, a memória dos bandeirantes, que demarcaram e alargaram as fronteiras do Brasil. E, generosa, ainda recebe gente dos quatro cantos do mundo, por dezenas de gerações, há quase cinco séculos. A convivência de origens múltiplas explode na sua diversidade cultural e se identifica com as raízes da própria formação da Nação brasileira.

Em 12 de Setembro de 1911, São Paulo ganhou seu primeiro grande centro de eventos culturais, uma obra imponente e com profundo significado para afirmar a “vocação brasileira”  da cidade: o Theatro Municipal.

Na época, a Comissão Oficial de Inauguração, encarregada de preparar a programação da estréia, decidiu contratar a companhia lírica do famoso barítono Titta Ruffo, que encenava “Hamlet”, de Ambroise Thomas, no teatro Colón de Buenos Aires. Tudo parecia muito adequado… O suntuoso THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO seria aberto com uma ópera inspirada em Shakespeare !!!

Porém, instalou-se uma grande celeuma, travaram-se discussões acirradas junto aos críticos, com protestos de intelectuais na imprensa e fortes pressões da Câmara Municipal : exigia-se dos organizadores que a programação da estréia contemplasse uma obra nacional !!!  São Paulo não poderia inaugurar o “seu” Theatro Municipal com uma obra estrangeira…

A Comissão foi, então, obrigada a ceder diante da polêmica. E a programação foi aberta com a execução, pela orquestra, da protofonia para “O Guarani”, de Carlos Gomes. Com isso, retardou-se a programada apresentação de “Hamlet”, que nem conseguiu chegar ao seu final. Ademais, porque “a praga pegou…”. O espetáculo tinha sido contratado às pressas e os cenários não chegaram a tempo, ficando retidos no porto de Santos. A encenação de Shakespeare acabou ficando mesmo para o dia seguinte.

Era o prenúncio do temperamento “brasilianista” de São Paulo; Shakespeare fica para amanhã…

Assim se afirmava a “brasilidade paulistana”, vocação que se afirmou e intensificou até chegar à metrópole de São Paulo dos tempos atuais, capaz de oferecer aos seus visitantes a sensação mais completa de que, de fato, eles estão no Brasil.

O autor do Conte Sua História de São Paulo é Pedro D’Alessio. A sonorização é de Cláudio Antonio. Você participa, também, enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br.  Conheça mais capítulos da nossa cidade no Blog do Milton Jung. Até lá

Conte Sua História de São Paulo: Dos velhinhos

Por César Cruz
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto “A história dos velhinhos” de César Cruz

Como são gostosas as histórias que os velhinhos contam!

Quando eu era menino lembro de ouvir meu pai dizer a cada vez que perdíamos um ancião da família: “Que pena, mais um velhinho que parte levando suas histórias!”. Uma grande pena mesmo!

Meu tio Milton, irmão mais velho do meu pai, contava causos sensacionais passados na meninice deles. Tais histórias envolviam tios e parentes que eu e meus primos nem havíamos conhecido! Era sempre uma delícia ouvir relatos de uma época tão diferente da nossa, e de imaginar nossos pais ainda crianças, aprontando as mais diversas safadezas em uma cidade tão diferente da que conhecemos hoje, com poucos carros, outros hábitos de vida… Tão ingênua!

Minha mãe também era dona de histórias ótimas. Eu gostava de uma em especial.   Nela, papai e mamãe ainda namorados, no final dos anos 50, foram certa tarde ao cinema e depois a uma lanchonete no centro da cidade comer um hot dog, programa típico de casaizinhos jovens da época.

Pouco antes de irem embora, já à noitinha, minha mãe, que era linda – e as fotos não desmentem -, levantou-se e desfilou em direção ao banheiro. Na outra extremidade do estabelecimento havia um grupo de 4 sujeitos mal-encarados rindo e bebendo. Quando ela passou toda graciosa em sua saia e blusa, um deles curvou-se para trás na banqueta e segurou-a pela cintura: “oi chuchuzinho, vem comigo, vem…”. Minha mãe, temperamento forte que sempre teve, não titubeou, desceu-lhe um sonoro tapa na cara.

Meu pai que terminava seu cachorro-quente na outra ponta da lanchonete ouviu o bafafá e quando se virou viu parte da cena. Tomado por uma ira explosiva, característica de sua personalidade, não contornou o balcão em formato de “U” duplo, preferiu ir saltando-o olimpicamente, pisando alternadamente nas banquetas fixas e nas mesas, para desespero dos casais de namorados que, assustados, tiravam da frente suas garrafas de Grapete e Coca-caçula e seus pratos com misto-quente! Em segundos estava cara a cara com os sujeitos!

Deste momento em diante, minha mãe dizia que sua vista havia escurecido e que ela não conseguiu ver mais nada. Apenas alguns flashes teriam ficado tatuados em sua lembrança. Neles via homens sendo arremessados pelo ar e se estatelando sob pilhas de copos e pratos, como nos filmes de saloon.

Em certa parte do relato, Dona Diva passava a falar baixinho e a espiar por cima do ombro, como se houvesse o perigo de alguém, 50 anos depois, ouvi-la. Confidenciava que, na escuridão do seu pânico, pode escutar os sons dos murros, os gritos abafados de dor na voz dos homens e os ruídos secos de maxilares e ossos sendo quebrados… Terminava dizendo que não esqueceria aqueles sons ainda que vivesse 100 anos, e que desde aquele dia, passou a morrer de medo a cada vez que meu pai ficava nervoso: “ninguém segura ele, Cesar… ninguém!”.

No final da história, o jovem Aloísio, atleta praticante de judô e boxe, deixara os 4 maus-elementos moídos no chão em meio aos escombros.

Partiram correndo a tempo de pegar o bonde andando.

Minha mãe, assim como o meu tio Milton, já se foram. Partiram levando com eles todas aquelas apaixonantes histórias… Irrecuperáveis, por mais que nós, os filhos, tentemos reproduzi-las.

Eu, infelizmente, não tenho mais avós nem pais vivos. Transformei-me precocemente em um órfão de causos sensacionais como estes… Arrependo-me tanto por não ter gravado os meus velhos contando alguns deles!

O autor de hoje foi César Cruz. A sonorização é de Cláudio Antonio. Você também participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para  contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: A lanterna

Por Antonio Quadrado

Ouça o texto “A lanterna” de Antonio Quadrado

Gira-fogo, gira-fogo… gira-mundo.

É junho, noite e frio!
Não fossem as lanternas, o duro breu da noite engoliria a todos.

Estamos chegando ao topo do morro, onde nos esperam; da arriscada aventura. Não foi fácil ao pequeno grupo cumprir a missão de afanar as batatas-doces, pinhões e, sobretudo, o quentão que as mães haviam preparado em fogueira montada na rua, frente as casas dos vizinhos – que sabiam se cotizar nos afazeres.

Não seria ali, sob os olhos dos adultos, que a turma iria passar o Santo Antônio; que abria o período das esperadas festas juninas.

Há pouco, de longe, já nos era possível avistar o giro das lanternas em nosso aguardo. Os rodopios circulares, verticais na lateral do corpo ou horizontais sobre as cabeças, só eram superados em destreza pelos movimentos em forma de oito-infinito, frontais ao corpo dos pequenos acrobatas.

O conjunto, dos sincronizados movimentos luz-calor, era de tal belezaque a visão turva, pós-quentão, certamente brotaria em lágrimas, mas que a fumaça das lanternas, faria desculpadas.

A sensação de liberdade que a companhia da turma,a distância dos adultos e a cobertura da noite propiciavam, precisava ser comemorada. Em nenhum outro período do ano seria possívelestar fora de casa depois da Ave-Maria. Não, ao menos, sem a surra de praxe.

Era junho, na periferia da provinciana e ingênua São Paulo, nos idos 60’s.Periferia, hoje quase centro, da principal megalópole do hemisfério sul.

Os garotos do pequeno grupo haviam cumprido a contento sua missão; por isso recebidos, quase como heróis.

As poucas canecas de alumínio, logo cheias do quentão pinga-gengibre-açucar,
eram repassadas entre todos, para dar à festa o clima que faltava.

Os cigarrinhos de machucho, cada um fazia o seu, mantidos acesos mais pelo fogo das lanternas do que pela destreza dos fumantes-recrutas.

Os pinhões eram facilmente divididos; não, as encarvoadas e escaldantes batatas-doces, que só as folhas dos jornais – dos balões-galinha – permitiam segurar para o corte das maiores, já que a grande quantidade de batatas surrupiadas, nunca era suficiente para atender toda a turma.

“Segura a lata, pô! Como cê qué que eu corte a abertura?”

A pedra martela a faca, há pouco subtraída aos olhos da mãe. A abertura de controle da ventilação vai sendo aberta na lata de óleo: uma lingüeta, furada do meio ao piso-dobradiça, na lateral mais larga da lata; de há muito guardada para a ocasião.

A parte superior, já tinha sido aberta. Por ela, e sobre as brasas emprestadas da fogueira, iriam sendo introduzidos os gravetos, sempre renovados, quando consumidos pelo calor do fogo,fonte da luz que permitia ao grupo se deslocar em segurança na noite em minguante.

Em seguida, com o auxílio do prego emprestado, seriam feitos os furos no topo superior das laterais mais estreitas da lata, por onde seria passado o arame de sustentação que permitiria, à mão, ficar longe do fogo e comandar as acrobacias pirotécnicas que, só funcionalmente, serviam para reavivar o fogo. De fato, a lúdica-estética era tudo o que contava.

Era essa imagem, da confecção da lanterna, que povoava a imaginação infantil, enquanto os olhos vislumbravam as, ainda visíveis, miríades de estrelas do céu paulistano daqueles, ainda-novos, tempos.

A imagem se completa: o efêmero vôo piro-fumegante do balão-galinha corta a cena. Uma folha de jornal, cujas pontas dobradas para baixo se juntam por delicada torção, é o que basta para que, ao ter as pontas incendiadas, leve ao céu preces e sonhos da molecada da Turma da Monteiros, da Vila Monumento.

Antonio Quadrado é ouvinte-internauta do CBN SP. Você pode participar do Conte Sua História de São Paulo enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: Cadeira da alegria

Por Cleiton Munhoz
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto “Cadeira da alegria”

Estudo à noite. Faço matemática na USP. Saio da zona oeste em direção a leste, no Parque São Lucas. E de ônibus tenho de passar pelo Terminal Parque Dom Pedro II.

Numa sexta-feira, eu estava na plataforma, sozinho, era quase meia noite. Três jovens se aproximaram a espera do mesmo ônibus que eu tomaria. Falavam alto, riam, comentavam alguma coisa sobre a balada da qual estavam voltando. Uma delas, em especial, me chamou atenção: loira, olhos verdes, muito atraente. Das três, era a mais animada. E vinha numa cadeira de rodas.

Sempre me ressenti de ver como nossa cidade trata as pessoas com deficiência. Seja na escadaria sem rampa ou na guia sem rebaixamento ou no ônibus que não está adaptado.  Infelizmente, nossa arquitetura, salvo exceções, não facilita a vida dos deficientes físicos. Some isso ao preconceito que muitas pessoas tem contra os que chamam de “aleijado” e o quadro que temos tornaria impossível a cena que eu assistia.

Nós que “temos as duas pernas”, que encaramos escadas de degraus altos numa boa nem somos carimbados com o rótulo de “incapazes”, como será que nós vivemos? Celebramos a vida ? Nos alegramos por essa dádiva de Deus, como a jovem loira que estava ao meu lado naquela plataforma escura ? Ou será que nós ficamos reclamando por qualquer coisa pequena, sem importância, seja a fila que não anda ou a comida sem sal ?

A jovem cadeirante, aparentemente, tinha todos os motivos do mundo para amaldiçoar sua sorte. Imagine todos os preconceitos que ela deve ter sofrido por estar naquela cadeira de rodas. Imagine a frustração por querer ir a algum lugar e não ser capaz de passar por uma escada.

Não estranharia se ela fosse uma das muitas pessoas que conheço, essas que reclamam o dia inteiro. Mas não. Ela estava ali, se divertindo com as amigas, enquanto nós, mesquinhos que somos, superdimensionando qualquer barreira que surja na nossa vida.

O ônibus chegou. E embarcamos todos. Ela, seu sorriso e suas amigas desceram uns dois pontos antes do meu. Nunca mais a vi, mas nunca vou esquecer dela e do que me ensinou: seja qual for o problema que tenhamos, não podemos jamais abandonar a alegria pelo presente que Deus nos deu: a vida.

Cleiton Munhoz é o autor do Conte Sua História de São Paulo que vai ao ar, aos sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN SP.  Você também participa com texto ou gravação em áudio. Envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História: Carteirinhas da Ordem (Para o Zé)

O trio na charge de Erico San Juan, enviada por Guarabyra

Ouça “Carteirinha da Ordem”

Zé Rodrix está na lista dos amigões de Guarabyra, assim como Sá. Eles tem uma amizade daquelas que todos nós gostaríamos de ter. Lá no Sul, o pessoal diria que são amigos de “escovar o dente” de porta aberta. O dizer gauchesco não se refere a escovação, a bem da verdade. O que interessa é que esses caras ao serem lembrados por nós, parece que são todos uma só pessoa: “Muito Prazer, Eu sou Sá Rodrix Guarabyra”.

Construíram suas história lado a lado. E foi para contar uma dessas peripécias que comprovam o que eu disse acima que Guttemberg Guarabyra, assim mesmo com todos o Ts e Gs, enviou um texto para o quadro Conte Sua História de São Paulo apresentando aos sábados no CBN SP, em fevereiro deste ano. Não se contentou em apenas escrever, anexou a charge do Erico San Juan na qual os três aparecem como se em um porta-retrato estivessem.

Para lembrar o trio, para homenagear Zé Rodrix e em nome da amizade, reproduzo neste sábado, o texto de Guarabyra:

Em 1973, morava no Rio e fazia parte do trio Sá, Rodrix & Guarabyra, que antes era uma dupla apenas, Sá & Rodrix. Minha adesão se deu quando, após encontrar Sá perambulando por Ipanema, soube que acabara de se separar da mulher e que ficara sem ter para onde ir, visto que a ex-esposa continuaria a ocupar o apartamento do casal.

Convidei-o, então, para morar comigo num quarto na rua Alberto de Campos, ali mesmo em Ipanema, num apartamento que eu dividia com alguns jornalistas, aparelhagem de som, instrumentos e caixas de bebidas — além das duas Marlys, serviçais da casa, de quem desconfiávamos seriamente de que completavam o ordenado com suspeitos programas noturnos.

Convite aceito, Luís Carlos Pereira de Sá, a quem também denominamos Dr. Pereira – já que possuía carteirinha da OAB, ainda na edição antiga, vermelha e vistosa — veio morar conosco. A tal carteirinha, inclusive, tirou-nos de variados apertos estrada da vida afora.

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Conte Sua Historia: O penico

Ouça o texto de Suely Aparecida Schraner

A Loja das Folias era mesmo uma folia. As coisas, empilhadas no chão de
cimento, encerado com vermelhão e em cima de plásticos, que prateleira não
tinha não. Tinha de um tudo: roupas, panelas, cordas, lampiões, redes,
pratos, talheres e, penicos.  Competia às vendedoras meninas moças,
acompanhar o cliente e ajudá-lo a carregar a compra até o setor de pacotes.
Ah, trabalhar no pacote, o objeto de desejo de todas elas. Era o lugar mais
limpo e discreto. E ninguém tinha que andar pela loja segurando um penico
pela alça.

A rotina: no alvorecer, levar as duas pilhas de penicos (uma esmaltada e a
outra de alumínio) e deixar na frente da loja, em destaque. Como ninguém
gostava e dava vergonha, esta tarefa era feita por sorteio. Cada dia da
semana, uma garota ‘sortuda’, bem cedo, ao alvorecer, tinha que levar as
pilhas e postar na entrada da loja. Na boca da noite, ao escurecer, a
obrigação era recolher os bispotes para o interior da loja. Fim do
expediente que era das 7h as 19h.(E hoje em dia, ainda falam em crise…).

Ano 1965,a Loja das Folias, funcionava na Barão de Duprat em Santo Amaro.
Em frente, ficava o ponto final do ônibus Pedreira. Ela era a balconista
mais jovem. Tinha 15 anos, pagava I.A.P.I. e ganhava metade do salário
mínimo. Assim era a lei, que ECA não tinha não.

Naquele dia, trajava saia justa vermelha, blusa branca de  jabot (voltou a
moda)  e usava delicada sandália, com saltinho de metal. Tac-tac-tac.Num
átimo, era só pegar a pilha de urinóis e entrar correndo antes de alguém
ver. Num átimo a estratégia falhou. Escorregou. Caiu de bunda. Na queda, seu
pé esbarrou nas pilhas e lá se foi penico pra tudo quanto é lado. Bem no
meio da rua. O som dos penicos rolando no asfalto doeu na alma. Ninguém
podia saber que se faz isso naquilo.  Seu Geraldo, o gerente, gritando: “Vai
lá logo recolher os urinóis, menina!Os carros buzinando sem parar.

De relance ela visualizou a fila inteira do ônibus Pedreira, com seus
paqueras habituais, rindo desbragadamente. Prostrada estava, prostrada
ficou. Queria que o chão se abrisse e a tragasse como naquele acidente do
metrô há pouco tempo. Que Deus a perdoe.

Foi correndo chorar no banheiro.  Benedito, o menino laçador e que ficava
na frente da loja, cuidando  pra ninguém roubar, é quem teve que catar a
penicada sob risos gerais.

Do banheiro ela não queria sair nunca mais. Já que o chão não se abriu,
melhor era morrer de vergonha na privada. Os gritos do Seu Geraldo nem mais
a incomodavam. Depois de muito insistirem e na certeza que a fila do ônibus
já tinha entrado, ela deixa seu sonho de um dia ser promovida ao ‘setor de
pacotes’. Saiu de fininho.
No breu da noite alguém ainda comentou: ‘Foi aquela ali que derrubou os
penicos’.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN São Paulo. E você participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br