Conte Sua História de São Paulo: Os Amigos do Natal

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Erenice Bruno Pereira
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “Os Amigos do Natal” sonorizado por Cláudio Antônio

Em dezembro de 1996, alguns amigos que se encontravam todos os dias num pequeno bar da região, na época conhecido por Bar do Albino, decidiram se divertir de maneira diferente. Compraram brinquedos e avisaram os vizinhos do Jardim São Bernardo, ali na zona sul, que levassem seus filhos na hora do almoço, do dia 23, para o bar. O Papai Noel estaria por lá distribuindo presentes.

Hora e data marcadas, a criançada se aproximou levada pelas mãos dos pais. O Valmir vestido de Papai Noel apareceu em cima da perua. Os meninos e meninas se aglomeraram em volta dele. Os amigos não imaginavam quanto emocionante seria aquele momento, que surgiu como se fosse apenas uma brincadeira.

Da lágrima de todos, nasceu os Amigos do Natal.

Nos primeiros anos, eles tiravam dinheiro do próprio bolso, e pediam mais um pouco aos comerciantes da vizinhança. Seguiam para a 25 de Março e saiam de lá cheios de brinquedos. Com mais crianças participando, mais presentes sendo distribuídos, tiveram de arrumar um espaço mais amplo. A saída foi transferir a festa para o Bar do Dogi, onde ocorre até os dias de hoje.

A cada ano, a frequência era maior. Havia cada vez mais Amigos do Natal. Alguns tiveram de ir embora, outros chegaram. A organização melhorou. E o dinheiro, encurtou. Não era mais suficiente para atender todas as crianças. Tiveram de mudar a forma de arrecadação. Realizaram vários eventos beneficentes, rifas, bingo, baile, churrasco com pagode. Tudo isso na mesma sede do bar que, nesta altura do campeonato, já era o Bar do Valmir – aquele lá da fantasia de Papai Noel.

Além das crianças que participam da festa no Bar do Valmir, os Amigos do Natal doam presentes a entidades de assistência. Primeiro a creche do Jardim São Bernardo e agora ao Refúgio de Cegonha, no bairro de Vargem Grande.

Em 2008, foram distribuídos 3 mil brinquedos e parece que o número de crianças não vai parar por aí. Hoje, são 17 os Amigos do Natal e um mundo de colaboradores que ajudam na organização dos eventos e na distribuição dos presentes.

Uma semana antes do Natal, as crianças do bairro já sabem, os carros com os Papais Nóeis – sim, agora não é apenas o Valmir que se veste nem dá para transportar tudo em uma só perua – percorrem as ruas chamando a garotada para a entrega dos brinquedos. São todos muito simples, mas doados com muito amor.

Se você quiser se transformar em mais um personagem desta história, nos ajude com mais brinquedos. As crianças agradecem. E o Papai Noel, também.

Se quiser ajudar os Amigos do Natal basta ligar para (011) 5973-5639

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Conte Sua História de São Paulo: Minha primeira escola

 

Por Dalila Suannes
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto “Minha Primeira Escola” sonorizado por Cláudio Antônio

 


Assim que o sol nasceu em um dia qualquer do 1946, seu pai a pegou pela mão e foram caminhando até o colégio alemão próximo de sua casa.

Lá, o pai foi recebido com o respeito que seu fardamento impunha, e encaminhados para uma sala de aulas, aos cuidados de Dona Helga.

Ao se ver sozinha no meio de crianças estranhas, louras, se pôs a chorar, lavando, literalmente a carteira.

Tinha a sensação de que nunca mais veria sua mãe, seus irmãos, ou os amiguinhos de pega-pega, de mocinho e bandido.

Sua vida mudara.

Todos os dias, lá ia ela com a lancheira, livros e cadernos. Era a mais nova estudante da região.

Aos poucos foi se integrando, e, como era muito expansiva, alegre, tagarela, não negando a origem italiana de sua mãe, conquistou seu lugar entre os pares.

Àquela época, foi lançada uma coleção de figurinhas com foto de artistas, e, nasceria daí sua paixão pelo cinema.

Sentia-se superior às demais colecionadoras da classe, de origem germânica, por não conseguirem pronunciar o nome da diva da época, Ana Magnani.

Sentia respeito e admiração pelo diretor da escola e se encantava quando havia passeio ao Horto Florestal, no lugar das aulas.

Era o tipo de educação européia, baseada no conhecimento vivo da natureza.

Nesta ocasião saboreou, pela primeira vez, uma bebida com gosto estranho, que mais tarde soube chamar-se Coca-Cola.

Fez seu “debut” em festas infantis ao comparecer ao aniversário de uma holandesa, de sua idade, que costumava usar tranças muito loiras.

Ficou maravilhada e muito feliz ao receber uma lembrancinha da data, já que a família estava retornando para sua terra natal.

Nunca tinha visto nada igual já que para ela o grande acontecimento de reunião entre amigas era “batizado das bonecas”.

Outra colega que lá estudava, havia nascido, juntamente com seus familiares, na antiga Tchecoslováquia.

Nas festas de seu aniversário, os adultos jantavam em uma extensa mesa da sala de jantar, observado por nós, através de um janelão de vidro, já que ficávamos confinados ao quintal e de lá não poderíamos passar.

Relembrou esta cena, ao assistir o filme Amarcord.

Estas experiências marcaram sua vida.

Uma, porém, mais forte que todas.

Entre os estudantes, havia um grupo de meninos e meninas, que se vestia mais singelamente e traziam suas merendas, de pão com banha, em um saquinho de pano.

Chegavam e partiam juntos por morarem todos em uma (única) casa longe de nossa escola.

Eles eram originários dos países dos demais alunos do colégio, porem, ao contrário destes, tinham perdido tudo o que um ser humano precisa para viver, simplesmente por serem judeus.

Ela ficava mortificada com esta situação, e tinha-lhes um carinho especial, principalmente por uma garota alta, chamada Josefa.

Um dia, quando todos os alunos se enfileiravam para adentrar o prédio, e cantavam o Hino Nacional Brasileiro, não se sabe o que fez um dos meninos deste grupo, Schultz.

O fato é que Dona Helga deu-lhe uma bofetada no rosto tão forte, que ela a sentiu em sua face.

Foi para casa chorando e contou o sucedido para sua mãe que ficou muito nervosa, mas nada explicou. Talvez ela mesma não soubesse o que dizer.

A pequena teve por várias noites dificuldade em dormir.

A cena a fez acordar para a vida e entender que as pessoas não são consideradas iguais, e que no mundo existe intolerância, violência, incompreensão.

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Conte Sua História de São Paulo: Hoje eu vi um menino

 

Por Erony Marcellino
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “Hoje eu vi um menino”, sonorizado por Cláudio Antoniop

Hoje eu vi um menino sozinho brincando na rua. Não deveria ter mais do que quatro anos.

O menino, lindo, estava sujo, imundo, nariz escorrendo, pés descalços, usava roupas maiores do que o seu magro corpo.

Hoje eu vi um menino brincando com o lixo jogado sobre a calçada numa rua localizada na zona “nobre”, ou “jardins”, na Capital de São Paulo.

Hoje senti bem de perto o quanto o abandono pode destruir um pequeno e indefeso ser humano.

Perguntei seu nome. Ele respondeu com naturalidade: “Não tenho nome”.

Insisti e falei, todos os meninos tem nome. A frágil criaturinha respondeu com voz de quase bebê:

“Minha mãe me chama de peste”.

Engoli em seco e perguntei: “Quer que eu brinque com você?”

Ele levantou os olhos por um instante e respondeu:”Sim”

Perguntei o que ele queria que eu fizesse. Pediu que o ajudasse a colocar um cone de papelão dentro do outro – muitos deles estavam misturados a outras espécies de lixo descartável. Em nenhum momento sorriu.

Passei algum tempo com o garotinho fazendo de conta que aquela brincadeira era muito interessante para mim.

E era. E foi. E será.

Hoje eu vi um lindo menino abandonado e sujo numa rua que não fica na periferia.

Hoje brinquei, com o coração machucado, com um menino que aprendeu a repetir que seu nome é “peste”.

Quando ele se afastou e foi procurar outra brincadeira, como faz qualquer criança de sua idade, me senti abandonada.

Perdi o rumo.

Hoje brinquei na calçada apoiando cones de papelão para valorizar um menino que desconhece seu nome.

Parada na calçada pensei, dentro de alguns minutos será noite: onde irá se abrigar o menino sem nome que tem como referência de identidade uma mãe que o chama de “peste”?

Neste bairro chamado “jardins”, nesta cidade denominada capital financeira de um país chamado Brasil, conheci um dos muitos brasileirinhos reféns da mais absoluta miséria física e moral.

Hoje eu vi um menino condenado pelo crime de ter nascido!

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Conte Sua História de São Paulo: O lutador

 

Por Gabriel Leão

Ouça o texto “O Lutador” com sonorização de Cláudio Antonio

“São Paulo é minha ultima tentativa, se não der certo pelo menos eu vou morrer sabendo que eu tentei e não consegui, mas não desisti”, a frase é de Leandro Siqueroli de 21 anos que assim como muitos imigrantes brasileiros e estrangeiros resolveu buscar o sonho paulista e encontrou uma sociedade de contrastes.

Ao chegar se surpreendeu com o tamanho do sistema metroviário e durante dias observou o movimento dos vagões nas estações. O ritmo acelerado dos paulistas espantou o jovem boxeador de Londrina. Notou também a frieza e a melancolia presente nos rostos que andam como se fossem um enxame de formigas com pressa em busca de mais trabalho.

Leandro conquistou muitos títulos de boxe amador no Paraná, mas no profissionalismo de São Paulo eles não dizem muita coisa. Pra trás deixou sua família lamentando a morte recente de seu pai. Passou fome e ficou desabrigado até encontrar uma família nova.

As dificuldades o fizeram pensar suicídio e comenta: “Algumas vezes eu vejo o boxe como uma maldição, da qual você nunca se livra dela é ela que sempre se livra de você. Não importa o que você faça, não importa pra onde você vá, se você é um lutador você sempre estará lutando”.

Certa vez pagou do próprio bolso para lutar e deixou de acertar o aluguel, tinha de sair da residência pela telhado para o proprietário não vê-lo. O amparo veio na forma de novos amigos. O peso-pesado Raphael Zumbano, primo de Éder Jofre, o conheceu pela internet e hoje é seu empresário. Outros pugilistas se tornaram seus familiares.

Miguel de Oliveira, ex-campeão mundial e atualmente treinador de uma das mais caras academias do país o aceitou como seu pupilo. Para conhecer Oliveira não foi fácil, a recepcionista da academia olhou com desprezo para seu jeito caipira e o avisou que o professor não estava presente, Siqueroli preferiu esperar do outro lado da rua. Quando viu o senhor se aproximou e disse: “sou lutador de boxe lá do Paraná e vim para São Paulo me tornar campeão mundial e como o senhor já foi campeão eu gostaria que me desse alguma dica do que tenho de fazer para chegar lá”.

No momento Oliveira ficou sem reação e pediu para o jovem de Londrina voltar mais tarde para um treino com seus alunos. Hoje Leandro tem 3 vitórias todas por nocaute e uma derrota por pontos no boxe profissional.

Quando está fora dos ringues ganha sua vida servindo mesas em um pub irlandês na Vila Olímpia, bairro freqüentado por jovens de classes A e B. E mesmo trabalhando e treinando encontra fôlego para freqüentar o curso superior de gastronomia.

Leandro Siqueroli se apresenta em ringues humildes no interior de São Paulo, mas sonha quase que como uma obsessão com o dia que vai reinar em Las Vegas e até lá se apresenta como “o futuro campeão mundial”.

Participe do Conte Sua História de São Paulo enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. O programa vai ao ar sábados logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP

Conte Sua História de São Paulo: A partida

 

Por Vera Helena Gasparotti Praxedes
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto ‘A Partida’ sonorizado por Cláudio Antônio

Este poema fiz quando mataram meu vizinho, em frente a casa dele que fica em frente a minha, em um lugar lindo com uma pracinha, ao lado de um também belo parque que se chama Parque Nabuco no Jardim Jabaquara. O nome dele George Alexandre, um professor de inglês que lecionava em Diadema e chegava todos o dias em sua casa por volta das 00:30 hs. da madrugada. Só sabemos que quem o matou foi um ou dois homens em uma moto, provavelmente queriam entrar com ele, que reagiu.

A Partida

Um grito ecoou pela noite escura,
Desafiante, profundo, cheio de horror,
O peito pulsou sem doçura:
– Seria de dor? – Seria de pavor?

Um estampido ressoou pelo ar,
Não murchou as flores, não secou as árvores,
Não calou os pássaros, não rachou o chão,
Certeiro, perfurou o coração.

O corpo caiu num baque aguçado,
Sombreado pela luz da lua,
Vermelho, em vez de prateado.

Um suspiro seguiu…
Nem mesmo o tempo parou
Para velar o quê partiu…

É mesmo assim, fica tudo assim mesmo.


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Conte Sua História de São Paulo: Virou gente grande

 

Por Teresa Botton
Ouvinte-internauta

 

 

Nasci e fui criada em S. Paulo Eu me sinto muito paulistana, e gosto disto. Lembro-me que quando criança, meu avô me levava até a praça da República para ver os patos. Naquela época, a praça era linda, limpa, cheia de árvores, gostosa, as pessoas bem arrumadas passeavam por lá, e os fotógrafos lambe-lambe tiravam fotos.

 

Eram passeios muito gostosos, lembranças agradáveis.

 

As casas de chá, o Fasano, na Barão de Itapetininga. Não me esqueço que uma vez uma prima fez o aniversário lá. Cada coisa mais gostosa que a outra.

 

E a Dulca ? Meus irmãos e eu adorávamos o “merengue” e o “cisne”. Além do que, nos aniversários o bolo era o mil folhas, todo coberto de açúcar de confeiteiro e quando o aniversariante assoprava a velinha, quem estivesse na frente tomava um banho de açúcar e ficava todo branco.

 

Tinha também o Mappin e a Clipper. A gente tirava o dia para fazer compras e ia para o salão de chá comer um misto quente e tomar um sundae ! Que glória!!

 

Sempre gostei de andar no centro.

 

Quando criança, ia ao dentista toda semana, na rua Quirino de Andrade. Eu adorava fazer o percurso a pé desde a Praça da República até lá. O movimento do centro, as lojas, tudo isto sempre me atraia. Gostava de entrar nas livrarias e ficar olhando os livros. Quando na faculdade tínhamos de comprar livros em espanhol, tipo obras completas do Freud, íamos a um importador na rua São Bento, que os vendia num bom preço e em três vezes. Ter que ir ao centro era uma excursão muito prazeirosa tanto para mim quanto para minhas amigas!

 

A gente sentia que estava fazendo turismo, e ia olhando tudo nas ruas: as pessoas, o movimento, as lojas, a paisagem, e, principalmente, a arquitetura. Ah, a arquitetura é o que mais me atraia!

 

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Conte Sua História de São Paulo: Que confusão, QSL !

 

Jorge Petras
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “Que confusão, QSL” sonorizado por Cláudio Antônio

Entre muitas histórias, esta pode se falar que é radiofônica. Na época do relato não existia celular, era o primórdio de enlaces por microondas.

Faziam três meses que tinha chegado de Buenos Aires (ano 1976) com toda a documentação em ordem como engenheiro em eletrônica especializado em telecomunicações, mas estava sem emprego por acreditar em um conhecido “patrício” que me tinha garantido colocação em uma multinacional a um salário irreal (exorbitante para a época, o que só consegui saber a posteriore). Assim sendo em todas as entrevistas que comparecia pedia o mesmo valor ou ou mais.

Já sem dinheiro para o sustento e após 86 dias a noticia “bomba”: a empresa citada pelo patrício não poderia me contratar por que eu não conhecia, ao nível de conversação, o idioma alemão. Totalmente desorientado entrei em um ônibus e pensei: pegarei o primeiro pedido de emprego de eletricista de obra que encontrar. Quando avistei uma placa de técnico eletrônico, corri e desci do ônibus.

O Recursos Humanos me encaminhou para o gerente de assistência técnica. Trêmulo, me apresentei ao Sr. Renato Olandin, pessoa de cabelos brancos, carismático, tentando falar espanhol, em um lapso de sinceridade falei meu problema. Ele com a serenidade de quem esta de bem com a vida, me explicou a faixa salarial, o CREA, e muitos detalhes do primeiro emprego. Terminou fazendo, além de uma oferta, um conselho de pessoa experiente. Imediatamente aceitei e ao dia seguinte comecei a trabalhar.

A alegria e o entusiasmo do primeiro emprego no Brasil era tão grande que “transbordava em todo meu ser”. Já na semana, o Sr. Renato me chama e pergunta: tem registro de condutor ? E com afirmativa pedante da juventude respondo: minha carta é internacional. OK, responde.

Na manhã seguinte me entrega as chaves de um fusca 0 km e me fala para fazer um conserto aqui perto. Mais que feliz eu sai. Quando vi a distância, quase tive um colapso (primeiro serviço externo = Ilha solteira) A viagem foi uma odissea, mas isto é outra história.

Posterior ao batismo, o serviço externo virou uma rotina, quando uma noite, quase oito horas (eu sempre ficava mais tempo após o expediente normal), o meu gerente me chama gentilmente e pede um favor. Se posso fazer um atendimento urgente na repetidora situada na torre da TV Gazeta.

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Conte Sua História de São Paulo: Meu Brooklin

 

Por José Manuel Cascão Costa
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto “Meu Brooklin” sonorizado por Cláudio Antonio

Aqui você lê o texto original, escrito pelo autor, sem os cortes necessários (feitos pelo próprio) para adaptar ao programa de rádio:

Faz um mês que estou trabalhando no sétimo andar de um prédio na Rua Arandú, no Brooklin, paralela à Berrini. Daqui até aonde a vista alcança (o que dependendo da direção que eu olhe, não dá mais do que um quarteirão) posso ver uma parte do bairro ainda não tomada pelos prédios. Fosse este onde estou, o único, e estivéssemos nós em 68, quando vim morar no Brooklin, minha vista alcançaria alguns quilômetros em todas as direções, já que não havia um único edifício no quadrilátero compreendido entre a Marginal de Pinheiros, a avenida Santo Amaro, a avenida Vicente Rao e avenida dos Bandeirantes, território onde vivo desde os 11 aos atuais 52.

Antes do Brooklin, meu universo era bem mais reduzido: uma pequena aldeia ao norte do Portugal, cuja população total não era muito maior do que o número de pessoas que hoje trabalha num edifício qualquer da região. Saí dessa aldeia com meus pais em 1968, para nos juntarmos aos meus irmãos que cá estavam. Depois de 14 dias a bordo do navio Theodor Erzl de bandeira israelense, que saiu de Lisboa às 7 horas de uma manhã fria e nevoenta de dezembro, e viajando numa classe que não me recordo ter alguma das letras do alfabeto, desembarcamos finalmente no Porto de Santos.

Confesso que aquele Brasil de 68, e tudo que estava acontecendo nele, eu só conheci mais tarde, já no colegial. E depois, mais profundamente, durante os tempos de repressão na faculdade de comunicação em meados dos anos 70. Mas ali, garoto, imigrante recém-desembarcado, com a terra prometida em baixo dos meus pés, o que eu via com os olhos esbugalhados, o queixo caído e a boca aberta era a esperança, o futuro promissor, o maravilhoso mundo novo chamado Brasil!

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Conte Sua História de São Paulo: Sabiá da minha terra

 

Por José Domingos Vasconcelos
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça “Sabiá da minha terra” com sonorização de Cláudio Antônio

Sabiá, do álbum de ®oberto's photostream no Flickr

Sabiá, do álbum de ®oberto's photostream no Flickr

A cidade está na época dos sabiás. Nos últimos meses notei lá onde eu moro, no Itaim Bibi, a presença freqüente de alguns sabiás. Não foi a primeira vez, mas fazia meses que eles não eram ouvidos naquelas bandas.

Eu acredito que onde tem bem-te-vi não tem sabiá. Já vi bem-te-vi escorraçar sabiá de um coxinho de restos de frutas, na chácara de um amigo, lá na Cantareira. Tinha fruta pra todo mundo, mas a natureza crua não tem nada de paraíso. Digo isso porque os bem-te-vis foram donos do pedaço onde moro até algumas semanas atrás. Agora que não tem mais bem-te-vi, lá estão os sabiás.

Já vi bem-te-vi fazer correr carcará, aquele gaviãozinho que fica pairando no alto do rio Tietê, procurando não sei o quê… Pequeno mas umas três ou quatro vezes maior que o bem-te-vi.

Eu olhava pela janela do terceiro andar de um prédio, na Vila Leopoldina, quando vi um bem-te-vi fazer um vôo rasante sobre um carcará, como em uma batalha aérea entre dois caças. Mais ágil e veloz bica a cabeça do gavião e sobe; em seguida outro bem-te-vi já havia feito a mesma manobra para repetir o ataque. Dava pra ouvir os gritos estridentes dos bem-te-vis. Duas ou três investidas dessa e o carcará se rendeu, fugindo dali.

Sem dúvida era um casal de bem-te-vis protegendo seu ninho, instalado em alguma das poucas árvores infiltradas por entre os prédios da região. O fato é que o carcará havia descoberto o ninho, certamente com ovos ou já com as crias nascidas e barulhentas, e tinha planos para elas.

Os bem-te-vis são irritadiços e agressivos, guerreiros e mandões enquanto o sabiá é delicado. É questão de temperamento e não de porte, pois as duas espécies têm quase o mesmo tamanho.
E a cantoria dos sabiás é magnífica, cada um se esmerando em oferecer o melhor trinado aos nossos ouvidos. É claro que não é pra nós que eles cantam, tudo faz parte do ritual de acasalamento, me disseram. Mas não tem nada de mais pensar que o canto deles existe simplesmente para o nosso deleite.

Mas digo que São Paulo está na época dos sabiás por que já faz uma semana que os ouço em outro ponto da cidade, no alto da Av. Paulista, do quarto do hospital em que convalesço de uma cirurgia. Outra cantoria, outra família, outra tribo de passarinhos. Linda cantoria que começa muito antes do sol nascer.

Tanto no Itaim como aqui a primeira fase do concerto começa lá pelas duas e meia da madrugada. Às vezes quando estou apenas indo dormir, outras depois de dormir algumas horas, ao acordar em meu sono picotado. Nessa hora eles parecem os únicos seres alegres no meio da noite. Mas sempre acabam embalando meu sono, com sua música que vem de longe e invade o escuro do quarto.
Minha terra tem garoa. Tempestades, enxurradas. Muitos prédios e avenidas. Com filas e filas e filas de carros. Minha terra tem pinheiros. Azaléas, gramados e palmeiras. Eucaliptos, helicópteros e Corinthians… onde cantam os sabiás.


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Conte Sua História de São Paulo: O ponto de encontro

 

Mário Cezar Nogalez
Ouvinte-internauta do CBN SP

Dia Mundial Sem Carro na 23 de Maio

Ouça o texto “Ponto de Encontro” sonorizado por Cláudio Antônio

Nos idos do anos de 1998, fazia eu consultoria para a implantação de um hotel lá na Vila Ema, com a obra já finalizada e com a decoração quase pronta, equipe já contratada e fornecedores na ponta da agulha. Tudo pronto para começar a operar.

Faltando 15 dias para a inauguração do Hotel,estava com todos os convites enviados e com 80% confirmados para tão galante festa. Como um dos proprietários era parlamentar, então políticos, colunistas e colunáveis estariam presentes a tão suntuoso momento.

Eu, belo e tranqüilo, pois estava com os trabalhos em dia, resolvi me dar uma folguinha (para quem não sabe, hoteleiros quase nunca descansam).

Enquanto curtia com minha namorada (hoje, minha esposa, uma outra historia), passei no hotel para checar se estava tudo em ordem e voltando para a casa decidimos almoçar proximo mesmo. Como moramos na Mooca, opções de boa comida não falta.

Pois bem, voltando, estávamos seguindo pela Av. Paes de Barros e o trânsito naquele dia estava engarrafado por conta de muitos carros na Avenida (e olha que era 1998), e então, conversando com a bela namorada, vi que o trânsito ao meu lado andou, logo engatei a primeira marcha e BUM, bati no carro da frente.

Desci do carro. Buzinadas e xingamentos dos demais motoristas. Logo me prontifiquei a pagar qualquer estrago com o outro motorista, porém, foi parachoque com parachoque e não aconteceu nada com nenhum dos carros.

Quando trocamos cartões, me dei conta de que o motorista era Agente de Viagem, e ele de que eu era Consultor Hoteleiro, e, protamente, entreguei mais um convite para a festa de inauguração.

Enfim, este encontro de parachoques foi o ponto de encontro de um cliente para o hotel que nunca imaginaria que iria conseguir.


Mario Cezar Nogales é autor desta história. Você também participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. O programa Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, às dez e meia da manhã, no CBN SP.