“A casa pode tanto prejudicar quanto auxiliar nesse processo que é da longevidade qualitativa e digna.”
O Brasil envelhece rapidamente, mas casas e cidades ainda são projetadas, em grande parte, sem considerar as mudanças físicas, cognitivas e emocionais que acompanham o passar dos anos. Pequenas adaptações nos ambientes podem reduzir riscos, preservar a independência e melhorar a qualidade de vida. Esse foi o tema da entrevista de Ciro Férrer, arquiteto, urbanista, especialista em gerontologia, neurociência e neuroarquitetura ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.
Ao longo da conversa, Ciro desmontou a ideia de quem vê a arquitetura apenas pelo viés da estética. Segundo ele, a forma como uma casa é organizada influencia diretamente o comportamento, a saúde e a autonomia das pessoas, especialmente durante o envelhecimento.
O interesse de Ciro pelo tema nasceu de uma experiência pessoal. Durante a graduação em Arquitetura, ele acompanhou a mudança radical na vida da avó após uma queda dentro de casa. Até então independente, ela passou a enfrentar limitações impostas pelo próprio ambiente onde sempre viveu.
“A casa passou a dominá-la”, resume.
A experiência revelou obstáculos que costumam passar despercebidos: portas estreitas para cadeiras de rodas, banheiros com circulação limitada, pisos escorregadios e mobiliário que dificulta os movimentos. Ao mesmo tempo, ele percebeu que sua formação acadêmica pouco abordava a relação entre envelhecimento e ambiente construído.
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Adaptações simples fazem diferença
Durante a entrevista, Ciro destacou que muitas melhorias podem ser feitas sem grandes reformas. Entre elas estão a instalação de fitas antiderrapantes em pisos lisos, proteção para quinas de móveis, reorganização da circulação da casa e escolha de cadeiras com braços, altura adequada e apoio para as costas.
Ele também alertou que cada adaptação deve respeitar os hábitos e a história de quem mora no local.
“Não adianta a gente pegar a norma. Cada pessoa é única e a casa dela tem que ser única.”
Por isso, antes de definir onde instalar barras de apoio ou alterar a disposição dos móveis, ele observa como a pessoa realiza atividades do cotidiano, como tomar banho, preparar um café ou levantar-se do vaso sanitário.
Outro ponto enfatizado por Ciro é que a casa guarda lembranças, afetos e referências que ajudam na orientação espacial, especialmente para pessoas com comprometimento cognitivo. Ao comentar o hábito de retirar tapetes de residências de pessoas idosas, ele defendeu uma análise individual de cada caso.
“Esse tapete é importante para você? Tem sentido para você? Tem? Vamos manter.”
Quando o objeto representa um risco, a solução nem sempre é descartá-lo. Segundo ele, o tapete pode ganhar uma nova função, como peça decorativa na parede ou sobre um móvel, preservando seu valor afetivo.
A iluminação tem um capítulo especial nesta conversa, seja pela visibilidade do espaço seha porque influencia o nosso cérebro.
Ciro explicou que o organismo humano continua regulado pelo ciclo natural entre claro e escuro. A exposição à luz pela manhã ajuda a sincronizar o ritmo biológico, melhora o estado de alerta e favorece funções como memória, atenção e planejamento. Já durante a noite, a recomendação é reduzir a intensidade da iluminação e evitar luzes fortes diretamente nos olhos.
Como alternativa, ele sugeriu o uso de luzes de vigília próximas ao piso, instaladas entre o quarto e o banheiro. Dessa forma, a pessoa consegue caminhar com segurança sem comprometer o ciclo do sono.
Cidades também precisam envelhecer
Para Ciro Férrer, pensar apenas na casa não é suficiente. O envelhecimento depende também da qualidade dos espaços públicos. Ele afirmou que muitas cidades brasileiras continuam priorizando o deslocamento por automóveis, enquanto calçadas irregulares, falta de acessibilidade e insegurança limitam a circulação das pessoas.
“O desenho da cidade não pode se limitar ao concreto.”
Integrante do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa de Fortaleza, ele defendeu maior investimento em políticas públicas voltadas ao envelhecimento e lembrou que acessibilidade envolve muito mais do que rampas e barras de apoio. Inclui comunicação, atendimento respeitoso, sinalização adequada e condições para que as pessoas exerçam plenamente sua cidadania.
Ao citar uma pesquisa realizada durante seu mestrado, Ciro observou que muitas pessoas idosas convivem com o medo de cair, mas continuam frequentando praças e espaços públicos porque esses locais representam convivência, pertencimento e qualidade de vida.
Ciro reforçou que o envelhecimento não deve ser tratado como responsabilidade exclusiva de profissionais da saúde ou da arquitetura.
“Todos somos seres envelhecentes e todos queremos ser cuidados e acolhidos de maneira independente e autônoma.”
Para ele, construir ambientes mais seguros e cidades mais inclusivas significa criar condições para que as pessoas possam envelhecer com autonomia, dignidade e participação na vida em comunidade.
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