Por Diego Felix Miguel

Prezada leitora e prezado leitor,
Nos últimos meses vivi algumas situações que me provocaram uma reflexão especial sobre o cuidado.
Ao longo deste texto, compartilho uma narrativa baseada na minha experiência como homem gay. O que apresento aqui, porém, também alcança — em diferentes nuances e, talvez, de forma ainda mais intensa — pessoas lésbicas, bissexuais, transgêneras e não binárias.
Durante esse período, recorri aos abraços e à escuta de pessoas que pudessem, ao menos, acolher a ansiedade que eu enfrentava. Por sorte, ou por mérito, tenho por perto amigas e amigos que não mediram esforços para estar comigo e me fortalecer naquele momento.
Um aspecto, porém, chamou especialmente a minha atenção: a dificuldade de compreender, na prática, o contexto da interseccionalidade. E vejam: grande parte das minhas amizades é formada por pessoas que estudam esse tema, atuam na defesa dos direitos humanos e participam do ativismo.
A interseccionalidade é a compreensão de como diferentes dimensões que moldam nossa identidade — como gênero, raça, classe social, geração e orientação sexual, entre outras — se cruzam e produzem experiências específicas.
Ainda assim, vale o velho ditado: é fácil medir a intensidade da pimenta quando ela está no corpo do outro. Não por maldade, evidentemente, mas porque reproduzimos comportamentos socialmente aprendidos sem o exercício permanente da empatia.
Não escrevo isso por ingratidão nem para desmerecer esses encontros. Muito pelo contrário. Vejo essa experiência como um laboratório social que nos convida — e me convida também — a refletir sobre a forma como acolhemos as pessoas. Afinal, o mundo não se resume à nossa própria realidade.
O que mais me incomodou foi perceber que, ao expor meus medos e vulnerabilidades, eu precisava reiterar constantemente algo fundamental: como homem gay da geração dos anos 1980, minha rede de apoio e minhas perspectivas para o futuro não são as mesmas vividas, em sua maioria, por pessoas heterossexuais.
Não me refiro apenas aos aspectos econômicos. Refiro-me a uma pergunta que se torna cada vez mais urgente com o passar do tempo: com quem realmente podemos contar quando precisamos ser cuidados, sem ter de justificar uma existência que tantas vezes já foi colocada em xeque?
Contar com o apoio de uma família de origem homofóbica, que não nos aceita em nossa plenitude, jamais deveria ser visto como uma possibilidade. Quem nunca experimentou a violência da homofobia dificilmente compreenderá toda a dor e o adoecimento que ela produz ao longo da vida.
Também nem sempre encontramos pessoas amigas capazes de formar uma família afetiva — a família de escolha — que ofereça suporte emocional e prático nos momentos de fragilidade e durante o envelhecimento.
A nós também costuma ser negado o conforto religioso. Em muitos espaços de fé, perpetuam-se a discriminação e o incentivo à autonegação. E não me refiro apenas às religiões cristãs. Infelizmente, muitos líderes religiosos ainda são guiados por concepções ultrapassadas e autoritárias, que reforçam desigualdades de poder e restringem o acesso ao acolhimento espiritual.
O letramento em direitos humanos ainda é insuficiente, sobretudo quando se limita a práticas meramente ritualísticas e deixa de considerar os aspectos socioculturais e políticos que sustentam as estruturas de opressão.
No mundo do trabalho, a garantia de emprego formal com proteção social também está longe de ser uma realidade para todos. Ainda persiste um silêncio em torno da homofobia velada nos processos seletivos e em práticas corporativas que padronizam identidades e anulam a diversidade. Nem todo discurso inclusivo vem acompanhado de ações efetivamente comprometidas com a equidade e com a segurança de pessoas LGBT+ no acesso e na permanência no mercado de trabalho.
Como se isso não bastasse, a reprodução de estereótipos sobre a homossexualidade continua sendo perversa. Quando alguém acredita estar acolhendo ao dizer frases como “eu amo meus amigos gays, eles são os mais divertidos e confiáveis”, revela uma espécie de “homofobia cordial”. Esse lugar de adereço ou de “gay funcional” reduz nossa humanidade, como se não tivéssemos direito às vulnerabilidades, às fraquezas e à necessidade de sermos cuidados. É mais uma forma de desumanizar quem não corresponde ao padrão da cisheteronormatividade — estrutura social hegemonicamente organizada a partir da cisgeneridade e da heterossexualidade.
A estrutura tradicional de cuidado foi construída tendo como referência a família nuclear heteronormativa. À medida que o tempo passa, a pergunta sobre quem cuida de quem ganha contornos dramáticos para a população LGBT+, exigindo redes de apoio que a sociedade e o Estado ainda relutam em construir.
Não pretendo reduzir essa dor a uma questão de privilégio velado. Sei que fui acolhido, sou amado e disponho de uma rede de apoio importante. Minha reflexão vai além disso. Se alguém com as condições que tenho já atravessa esse processo deixando marcas profundas, o que acontece quando essa realidade se cruza com marcadores como raça, identidade de gênero, classe social e velhice? Se o acolhimento já falha em espaços relativamente protegidos, ele se transforma em um abismo de invisibilidade para quem vive às margens.
Até quando fingiremos que a solidão e o desamparo no envelhecimento de pessoas LGBT+ são falhas individuais de trajetória, e não resultado de uma estrutura social que insiste em descartar corpos que não reproduzem o modelo heteronormativo?
Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP e especialista em Gerontologia pela SBGG. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.