Utilidade Pública

 

Por Juliana Furtado
Ouvinte-internauta, moradora do Itam Bibi


Era uma vez uma rua sem saída.
 


A moça bonita passa e joga uma bituca de cigarro, rosa como seu batom desbotado e cinza como seus pulmões.
 


O executivo ofegante joga um comprovante de pagamento, do bife à milanesa que aumentou em alguns pontos seu colesterol.
 


A loja ao lado joga uma caixa de produtos vazia, como o cérebro do seu dono.
 


Na caixa vazia o estudante joga um copo de café, que o manteve acordado na aula que não lhe interessa. 
 


Uma empresa joga um vaso com uma planta. Alguém leva o vaso e ali deixa a planta e a terra, mortas como aquela calçada, fazendo companhia para a bituca, o comprovante, a caixa e o copo de café.
 


E a entrada da rua vira um lixão.
 


Por muitos dias passei ali, com a esperança de que o ex-dono da planta a visse, que a prefeitura limpasse, que o lixeiro levasse. Mas nada aconteceu, nada ia acontecer.



Munidos de pá, vassoura e balde, destinamos um tempo do nosso feriado para limpar aquela sujeira que não era nossa, na rua que consideramos nossa.
 


Enchemos dois sacos grandes e uma caixa. Colocamos no porta-malas. Levamos a um lixo adequado. Esfregamos com água e sabão. Corremos o risco de uma leptospirose. Nos sentimos mais leves.
 


No dia seguinte, uma caixa. Hoje, talvez, novas bitucas e copos de café.
 


A cidade é suja como quem está nela. Porque tem diferença entre quem é da cidade e quem apenas está. Sem compromisso, sem consideração.
 


Quem fica sem saída somos nós.

 

Morte na linha do trem da CPTM

 

Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

Morte na linha do trem CPTM

Três funcionários da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), foram mortos por um trem da companhia por volta das 4h30 na madrugada deste domingo (27), próximo ao Metrô Belém, na Zona Leste de São Paulo. Segundo um agente da CPTM, os quatros funcionários caminhavam no leito da via quando em momento de descuido foram abalroados pelo trem que ia no sentido Brás. Um homem conseguiu escapar sem ferimentos.

A Polícia Científica compareceu ao local às 9h55. Curiosos se aglomeraram na estação do Metrô Belém.

De princípio de polaridade

 

Por Maria Lucia Solla

Janela

Ouça “De princípio de polaridade” na voz e sonorizado pela autora

Somos treinados para viver de dedo em riste; ora no nariz de um, ora no nariz de outro, do alto do pódio onde cada um se coloca. Sempre certos, e o mundo à volta, errado. Aprendemos pelo exemplo, e atire a primeira pedra quem não aprendeu a criticar, em domicílio.

esse menino não presta pra nada
tua filha tá perdida
teu pai é um banana
tua mãe uma louca
a tia é lelé
o tio um perdido
vovó um peso
vovô pinéu

para ninguém
hoje
se tira o chapéu

No entanto a todo minuto nos vemos confrontados. Há urgência de recolhermos o dedo. E não dá mais tempo de bobear. Será que foi assim também para os que vieram antes de nós, com a mesma sensação de velocidade estratosférica? Dos exatos porquês de hoje só desconfio, mas concordo com o comando e com a urgência, apesar da dificuldade do caminho. Tem que ser politicamente correto, mas vencer a todo custo. Tem que ser generoso e competitivo num pacote só, estratégico, paciente e pró-ativo, organizado, planejado e expontâneo, ao mesmo tempo. Tem que ter uma pá de amigos no Facebook, mesmo que você nunca os tenha visto, seguir e ser seguido no Twitter, plugado o dia todo e a noite também; sem esquecer de cultivar amigos, amores e flores, meditar, dormir oito horas, de preferência à noite, ler as notícias do país e do mundo, antes de malhar, puxando ferro e tentando encontrar o próprio centro vital, nessa mixórdia. Cabelos têm que brilhar, dentes têm que ser mais brancos. Tem que encarar a moda e, querendo ou não, entrar na roda. Tem que ser perfeito, tendo em mente que a perfeição não existe.

simples caso de fronteira
extremos da mesma essência
se encontrando no xis

fica todo mundo igual
querendo ser diferente
da unha do pé
ao dente da frente

se busca ser diferente
com medo da diferença
perdendo no trajeto
por ele
a paixão
suportando a dita cuja
com cara de nojo
e foice na mão

diferentes sim
só em grau
parte do mesmo todo
onde extremos
queira ou não
se tocam no final

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Use o brilho e arrase

 

Por Dora Estevam

Perua ! Você já ouviu falar, com certeza. E já falou, também, ao se referir às meninas/mulheres que amam se enfeitar. A expressão está até meio ultrapassada. O fato é que depois dos anos 90, nos quais o minimalismo tomou conta da moda, ficou mais claro na cabeça das mulheres o que era simples ou exagerado. As que gostavam de se arrumar com muitos anéis e pulseiras os deixaram de lado por conta do modismo na época. Uma período em que a mulher teve de abrir mão do gosto pessoal em nome da ditadura da moda: use isto, não use aquilo. Imagine quantas e quantas roupas foram jogadas fora ou abandonadas em um fundo de armário.

Hoje eu estou aqui para dizer que você, querida leitora, pode usar todos os seus acessórios e ousar ainda mais nas roupas brilhantes. Nas ruas das principais capitais do mundo o que se vê é uma mistura de acessórios e roupas com muito brilho que levantam qualquer visual. Deixe de lado aquele seu olhar simplesinho e volte a ser aquela super produzida que tem dentro de você. Que delícia poder usar um par de pulseiras douradas, uma em cada braço; colocar uma calça toda em paetês misturada com uma camiseta básica; uma saia dourada, tudo sem culpa. Sem contar as bolsas de mão, as clutches, que são maravilhosas e charmosas, além de muito femininas.

As fotos de street style que separei neste post é para você ter ideia do que estamos conversando. Eu tenho certeza que na sua próxima virada de armário as suas produções já vão ganhar outro ar.

A intenção aqui é mostrar que hoje em dia você pode usar o que quiser, basta seguir seu estilo e bom senso na escolha das produções. Chega de ficar olhando as celebridades bonitonas e achar que só elas é que podem. Agora é com você, inspire-se, boa escolha e antes de ir em frente assista ao vídeo da DKNY.


Dora Estevam é jornalista é escreve sobre moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do Mílton Jung

As imagens são reproduções dos sites Stretstrut, Carolinesmode e Streetfsn

Alckmin tem de vetar lei que proíbe garupa de moto

 

Motos na Radial

Zé é cuidador da rua, passeia com os cachorros da vizinhança e mora em uma favela próxima de casa. Há 15 anos cumpre a função religiosamente e conseguiu com o dinheiro arrecadado trocar os pés pela bicicleta e esta por uma moto, a primeira caindo aos pedaços e a mais recente novinha em folha. Pouco antes de chegar ao trabalho deixa a mulher Sônia na casa da patroa, onde vai buscá-la no fim do expediente. Uma mão na roda para ambos. Desde que “evoluiu” na vida nunca se envolveu em um acidente de trânsito nem assaltou ninguém que passava por perto – até onde eu saiba. Nem ele nem a mulher. Apesar disso serão tratados como criminosos, em breve, se o Governador Geraldo Alckmin cometer o erro de sancionar a lei que proíbe garupas em motocicletas de segunda à sexta-feira nas cidades paulistas com mais de um milhão de habitantes, entenda-se por Capital, Guarulhos e Campinas (calma, gente: no fim de semana pode).

O projeto foi aprovado pelos deputados estaduais paulistas convencidos pelo autor da ideia, Jooji Hato, que já havia ensaiado a iniciativa na época em que foi vereador paulistano, mas foi vetada pela então prefeita Marta Suplicy, em 2003. De acordo com o deputado do PMDB a medida é para controlar assaltos cometidos por garupas que seriam, segundo ele, responsáveis por 61,5% dos crimes de “saidinha de banco” e mais de 60% dos crimes contra o patrimônio, na capital paulista. Além disso, se evitaria uma quantidade enorme de acidentes de trânsito que, sempre segundo ele, ocorrem pela insegurança em transportar um passageiro na moto.

O Código de Trânsito Brasileiro permite o transporte de duas pessoas em motocicletas, é assim que está determinado, inclusive, na documentação do veículo. A Constituição Federal prevê que cabe à União legislar sobre trânsito, portanto nem Estado nem município têm esta competência. Não bastasse ser inconstitucional, a ideia carece de estudo técnico e se baseia em números que não são confirmados pela Secretaria de Segurança Pública que, por incrível que pareça, diz não ter nenhuma estatística sobre o assunto. Deveria ter para planejar ações de inteligência e evitar que soluções mágicas fossem tiradas do bolso dos paletós de deputados paulistas apenas iludindo parte da sociedade que se sente acuada pela violência. Na dúvida, consulte a opinião do delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Marcos Carneiro Lima. Resumo em duas palavras o que ele disse da lei: desnecessária e inconstitucional.

Vamos, então, ao outro motivo que levou os deputados paulistas a aprovarem a lei.


Clique aqui e leia o texto completo no Blog Adote São Paulo, na revista Época Sp

Na contramão do Ficha Limpa

 

Os deputados estaduais do Rio de Janeiro aprovaram projeto de emenda constitucional que institui a exigência de ficha limpa para ocupar cargos comissionados (nomeados) nos três poderes do estado. Estas vagas não poderão ser assumidas por quem foi condenado pela Justiça em segunda instância. A Câmara de Vereadores do Rio e o estado de Minas também aprovaram projetos com o mesmo objetivo.

Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin perdeu boa oportunidade de demonstrar seu interesse em qualificar os quadros do Estado e implantar o projeto Ficha Limpa. Conforme nota publicada no Painel da Folha, escrito por Renata Lo Prete, Alckmin desistiu de incluir em pacote sobre transparência um decreto que instituiria a Ficha Limpa para o funcionalismo paulista. A medida forçaria o afastamento de José Bernardo Ortiz, aliado histórico do governador na Fundação para o Desenvolvimento da Educação, pois ele tem condenação em segunda instância.

Se Alckmin tivesse tomado a mesma precaução que os deputados do Rio não pagaria este mico. Lá, a lei só vale para quem for nomeado a partir da sua promulgação, portanto não pega quem já garantiu seu emprego.

Canto da Cátia: Uma árvore no concreto

 

Ponte dos Remédios

A imagem feita pela Cátia Toffoletto pode inspirar poesia, mas demonstra descaso. A árvore que insiste em crescer entre o concreto da Ponte dos Remédios, na Marginal Tietê, zona oeste de São Paulo, sinaliza o que havia sido alertado recentemente pelo arquiteto Gilberto Giuzo, do SInaenco – Sindicato da Arquitetura e da Engenharia: a falta de conservação de alguns viadutos da cidade, entre eles o dos Remédios que teve de ser interditado boa parte dessa quarta-feira devido a queda da passagem de pedestre. Em visita que fez ao local há alguns dias Giuzo identificou plantas nascendo entre os vãos da estrutura, além de um emaranhado de fios e aço expostos – informa o jornal Metro.

Uma curiosidade: a prefeitura de São Paulo que teria de dar explicações ao cidadão não divulgou nenhuma informação sobre o incidente e medidas que serão adotadas na capa de seu site. Poderia usá-lo de forma mais prestativa e transparente.

Foto-ouvinte: Analfabetismo cidadão

 

Analfabetismo cidadão

“Apesar da simpatia do grafite, o descarte irregular de lixo ocorre naturalmente na calçada da Escola Estadual Professor Astrogildo Arruda, na Avenida Afonso Lopes Baião – Vila Jacuí, bairro de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo”, escreveu Marcos Paulo Dias, colaborador do Blog do Mílton Jung. É o que dá não ir à escola, vira analfabeto cidadão.

Jânio da Silva Quadros e o marketing político

 

Por Nelson Valente
Professor universitário, jornalista e escritor

As peças publicitárias de caráter oficial apresentavam o candidato numa postura mais séria, em estilo tradicional, com cabelos penteados e roupas alinhadas. Já as peças publicitárias produzidas por simpatizantes demonstram um Jânio carregado de traços regionais, incorporando costumes e tradições das várias regiões do país em estilo bem populista. É o caso da capa de um pequeno livro, sem referência do local, mas pelas características da figura produzido a partir de um personagem típico do nordeste: o cangaceiro. Na animação é mostrada uma charge de Jânio com a barba por fazer, bigode desalinhado, olhos arregalados, usando um chapéu de cangaceiro e tocando uma sanfona. Logo abaixo vem a mensagem: “Ó xente! O povo falou tá falado!”.

Nas várias regiões do país o povo construía a imagem de JQ a sua maneira, as habilidades físicas e sensitivas do candidato produziam várias imagens no receptor que, de alguma forma, encontravam ressonância no povo. Ele soube compreender as tradições regionais do país e aplicá-las adequadamente conforme a sua intuição. Na propaganda soube, a partir de São Paulo, se desdobrar em vários “jânios” pelo resto do país, nunca perdendo a individualidade, mas incorporando outras características conforme os contrastes regionais.

A propaganda política de JQ em 1960 demonstrou que não se pode impor um estilo pasteurizado de valores e conceitos pré-estabelecidos. Mas que as referências devem ser trabalhadas considerando os diversos aspectos culturais, de modo a estabelecer uma relação entre o nacional e o local. O reforço e a solidificação de valores e atitudes foram explorados em detrimento da imposição de novos estilos. Entre os discursos de campanha, comia sanduíches de mortadela e pão com banana, numa tentativa de identificar sua imagem com o eleitorado mais pobre. Jânio procurou sempre se diferenciar dos outros políticos. Vestia roupas surradas, usava cabelos compridos, deixava a barba por fazer, os ombros cheios de caspa e exibia caretas aos fotógrafos.

Sua sintaxe era um caso à parte. Em seus discursos procurou sempre utilizar um vocabulário apurado, recheado por frases de efeito. É um enigma saber como conseguia se comunicar de forma eficiente com seus eleitores, a maioria sem instrução escolar.

Chefe do Executivo fosse municipal, estadual ou federal, o autoritarismo e o carisma foram seus traços característicos. Seus bilhetinhos, com ordens a subordinados, se tornaram célebres.

Segundo seus adversários, Jânio sempre demonstrou desprezo pelos partidos e pelo Poder Legislativo. Ao longo de sua carreira, trocou de legenda sucessivamente. Essas demonstrações de força aumentaram sua popularidade junto a diversos segmentos do eleitorado. Jânio parecia diferente dos outros políticos.

Eleito pela Segunda vez prefeito de São Paulo, em 1985, seu primeiro ato ao tomar posse, em 1º de janeiro de 86, foi desinfetar a cadeira de seu gabinete. Alguns dias antes da eleição, seu adversário de campanha, Fernando Henrique Cardoso, candidato do PMDB, ocupou a cadeira para ser fotografado pela imprensa.

J.Quadros, vereador

A imagem política de J.Quadros foi sendo composta associando-se modernização à eficiência da administração pública. Ele se apresentava como um político novo e refazendo a liguagem política no Brasil, com práticas voltadas para critérios impesssoais e na defesa da racionalização do Estado.

J.Quadros, deputado estadual

Para essa campanha  confeccionou cartazes com a frase: ” Jânio pede o seu voto ” e contou com simpatizantes para distribuí-los no interior do Estado de São Paulo. E como deputado, sempre defendendo o direito do consumidor.

J.Quadros, campanha à prefeitura de São Paulo

Surgiu um dos mais expressivos slogans de sua carreira política: ” A revolução do tostão contra o milhão” . Simbolizava a luta de um candidato humilde, sem o apoio da máquina política.
 
 
Em se tratando de simbologias, o maior símbolo politico de J.Quadros: A VASSOURA ( criação de Eloá do Valle Quadros, esposa de JQ). Ela se tornaria a maior referência eleitoral de sua carreira política e colaboraria para projetar JQ para as classes mais abastadas.

J.Quadros, campanha ao governo de São Paulo

Surge em sua campanha o seguinte slogan: ” Honestidade e Trabalho “. Na realidade JQ se apresentou novamente como um candidato pobre, de saúde combalida. Seu perfil magro lembrava um sujeito mal-alimentado. O jingle “Varre, varre, varre, vassourinha…” para a campanha política de Jânio Quadros a Governador de São Paulo, em 1954.

Os bilhetinhos de JQ foram uma excelente estratégia política para o governador atrair a imprensa, sem pedir que ela o procurasse.

Jânio – Deputado Federal


 
JQ lançou-se candidato a deputado federal pelo Paraná pelo PTB, em 1958. Venceu com a maior votação do Estado e passou a ocupar os dois cargos simultaneamente.

Jânio – Presidente da República

Nascia o MPQ – Movimento Popular Jânio Quadros – Slogan : ” Jânio vem ai ! (Ilustração que abre este artigo)). Vendas de botons e vassorinhas no famoso livro de Ouro. O jingle “Varre, varre, varre, vassourinha…” para a campanha política de Jânio Quadros à presidência da república, popularizando em nível nacional.

O jingle musical sobre a vassourinha de Jânio se popularizou muito na campanha presidencial de 1960, a ponto de surgirem pelo país compositores que produziram outras marchinhas e canções em oferecimento ao candidato J.Quadros. Em algumas ocasiões os autores mandavam as partituras para os coordenadores da campanha avaliarem se era possível transformá-las em material de campanha. As letras também endossavam as mensagens ideológicas de outras peças publicitárias. 



De princípio da vibração

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De princípio da vibração” na voz e sonorizado pela autora

Ando preocupada comigo; será que estou caindo no buraco da depressão? Não tenho procurado amigos, e quando a gente não está nadando na alegria e nem em condições de entreter, o mundo se afasta de você. Ando muito mais quieta do que sempre fui, saio pouco, tenho me fechado. Basta o sol se esconder por meio dia, e eu murcho. Tudo bem que a vida anda difícil para todos os que têm que viver sozinhos e do próprio sustento. Tudo bem que os relacionamentos vão se equilibrando no tênue fio do ritmo da vida e do interesse de cada um. Tudo bem que o dia amanhece às vezes nos dando tranco sem aviso, sem preparo, e leva embora certezas que, teimosos, insistimos em manter, apegados que somos. Mas tá puxado!

Os estrangeiros que estudam a língua portuguesa se surpreendem com os dois verbos que traduzem o verbo to be e o verbo être. Temos ser e estar, que apontam, um para o permanente – ser, e o outro para o transitório – estar. Não sei você, mas sinto que sou cada vez menos e estou cada vez mais, o que é inevitável, me parece, pois pelo princípio da vibração nada está parado, tudo muda, tudo vibra. Além disso o filme da vida tem passado em velocidade assustadora, e tem dias que nem me lembro de mim. Tudo muda em mim o tempo todo. Muda o paladar, o ouvido musical, o modo de ver e de viver a vida, o modo de lembrar e o modo de sonhar, o modo de lembrar e de não ser lembrada. E como a memória traz sabor mais agradável que a solidão, me farto.

muda o tipo e a medida
do amor
da expectativa
da dor
muda tudo
sempre
dentro e fora

De novo, não sei você, mas às vezes me sinto um bicho acuado, e noutras uma leoa faminta. Quando a gente não toma antidepressivo – o que hoje em dia é como andar na montanha russa sem cinto de segurança – percebe a gente e o mundo, nus e crus. Como obturar um dente sem anestesia. Por outro lado há um quê de paz em mim que não existia antes. Algo como: então tá! e um quê de agressividade na medida para me defender antes de cair no buraco já que nunca falta quem tente puxar ou empurrar. Vai ver tudo isso é só uma veia criativa com tons de depressão, ou vice-versa, que tanto faz.

só percebo com clareza
que não caí na depressão
quando olho para a mesa de vidro
no lugar daquela de madeira
que morreu
e babo com a beleza das rosas brancas
que alçam voo do vaso
de vidro também
onde eu as arranjei

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung