Por Maria Lucia Solla
Olá,
Passo por um processo tão monumentalmente importante que não tem como não partilhar.
Não dá para calar.
Sem susto; não vou confessar o inconfessável, não vou dizer o indizível
e muito menos revelar o invisível.
Ao contrário, vou dizer o óbvio, mais uma vez.
Vou dizer o que você já sabe, talvez.
Processo vem, processo vai e finalmente me dou conta:
o mesmo já passou pela minha vida, vezes e vezes sem conta.
Aquele repeteco do qual a gente já está cansada
e revive e revive, sem nunca terminar a empreitada;
sem colocar um ponto final na frase,
abusando de reticências e se esquecendo da crase.
Aquilo vai e volta, e a gente não sai do lugar.
E diz:
Por quê, meu Deus?!
Ou nem diz.
Como se tivesse zero-responsabilidade, a gente diz que não sabe o porquê, que não sabe o que se passa na própria vida e faz pose de sofrida.
Algo como a mão direita não saber o que faz a esquerda;
o que termina quase sempre em perda,
Pois isso tem que acabar; começando na tua vida, e se espalhando pela avenida.
Alguém corte o cordão que nos escraviza a todo tipo de religião, e nos faça exercer, de novo, a religiosidade.
Que é no fundo o que nos dá maior saudade.
Alguém proclame como Lei Universal que, a partir de hoje, esquerda, assim como direita, é termo que determina posição geográfica virtual,
e que não é, nem de longe, pecado mortal.
Alguém nos livre dos grilhões do certo ou errado conveniente,
da penitência do quiçá arrependido penitente,
e da insensatez do convicto descontente.
Alguém se dê conta e conte para o mundo
que claro não é condição de limpo
e escuro nada tem a ver com imundo.
Tudo bem. Se eu tinha isso tudo pra dizer, está dito, mas não era disso que eu falava. Falava de perceber o que acontece a cada momento da vida.
Do vício de sofrer que empana o brilho da emoção do puro perceber.
E quero falar do estar acordado,
do deixar-se permear pelo bálsamo do momento de prazer fugaz
e de se proteger do vampiro que, se deixar, de matá-lo será capaz.
Falo da situação em que tudo vira de cabeça para baixo, na vida da gente;
que te faz encarar prateleira, gaveta e caixa, cheia de tudo e de nada,
deixando a gente, num primeiro momento assustada.
Onde você dá de cara com o fantasma que morre ainda pela liberdade.
E a gente lhe dá o possível.
Dou um pouco mais de tempo a um papel amarelado
onde rabisquei sentimento com razão levemente temperado.
Um documento que me faz perceber que estava no lugar errado, na hora indevida,
quando acreditei que daquilo dependia a continuidade da minha vida.
O que teria sido dela se não tivesse havido…
…a viagem.
Qual teria sido a vantagem.
Pois está aí, meu amigo, no meio da maior confusão, a oportunidade de aprender a encarar os fatos como foram, e como são.
De olhar para si mesmo, e depois para frente, em busca de solução.
Se chorar pelo presente que poderia ser e não é, o soluço não me permite agradecer ao passado que foi, e deixá-lo ir.
Pois é aí que eu me encontro, mais uma vez.
Na gangorra da vida que me deixa tonta e me faz acreditar que eu, definitivamente,
perdi a vez.
E me esforço, me sacudo e me faço ficar acordada, mesmo sentindo dor.
Me pego pela mão e me deixo animar por gestos, palavras e suspiros de amor;
e luto para manter o equilíbrio que mora no ponto limítrofe
entre a loucura e o socialmente aceito.
É preciso acrescentar que a monumentalidade do dito processo se deve, simplesmente, à tomada de consciência. Ao perceber a oportunidade de exercer o direito à vida.
Bem-vinda !
E você, a quem dá boas-vindas?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. É bem-vinda neste espaço dominical desde sempre e recebe a você abrindo as páginas de seu novo livro, disposta a ser reescrita com sua ajuda.