Honestidade não se acha no lixo

Por Denir Amâncio
ONG EducaSP

O gari honestoJosé Gomes da Costa, 35 anos, o “Sucesso”, trabalha como Gari e encontrou um cheque no valor de R$ 2.514,00 em um lixo na Rua Maria Paula, em frente à Câmara Municipal de São Paulo. “Sucesso”, alagoano de Arapiraca, pai de quatro filhos, ganha R$ 636,00 como varredor de rua.

Nesta terça-feira 19.05, foi o primeiro a chegar à Biblioteca dos Garis, Praça da Bandeira, Centro. Quer devolvê-lo para o dono. “Sucesso”, mesmo endividado, vive sorrindo, e está desesperado para arrumar uma namorada.

O recado dele: “Ninguém perde por ser honesto”.

Foto-ouvinte: Paulista em pedaços

Mosaico na Avenida Paulista

Após a reforma da calçada da Avenida Paulista, se iniciaram as intervenções que já deixam cicratizes no piso. As imagens são do ouvinte-internauta Eurípides Romão* indignado pelo desrespeito com o passeio público. E com o dinheiro público, também, pois o investimento previsto era de R$ 8 milhões.

Na mensagem enviada ao CBN São Paulo, ele alerta que “se não brecarmos estas práticas já, em um ano a calçada da maravilhosa Avenida Paulista voltará a ser o que era antes da reforma”. O que me chama atenção é que supostamente o novo piso facilitaria o acesso das concessionárias aos equipamentos subterrâneos.

Serviço de porco, diz secretário das Subprefeituras

As prestadoras de serviço que estragaram o piso da avenida Paulista serão multadas, segundo o secretário das Subprefeituras Andrea Matarazzo por que realizaram um “serviço de porco”. Ele disse que as empresas estão informadas de que o piso usado na Paulista exige a retirada de um bloco inteiro de cimento para que na recolocação não fiquem remendos como os vistos nas imagens acima.

Ouça a entrevista do secretário das Subprefeituras, Andrea Matarazzo

* Por descuido deste jornalista havia grafado o sobrenome do ouvinte-internauta errado. Minhas desculpas.

Foto-ouvinte: Está na rua, Lula 2010 !

Terceiro mandato

O deputado federal Jackson Barreto (PMDB-SE) vai apresentar proposta de emenda constitucional para que o presidente Lula concorra ao terceiro mandato dentro de um mês, conforme disse a Terra Magazine, mas a campanha já está na rua. A constatação é do ouvinte-internauta Paulo Capelo após ver a faixa estendida no Paço Municipal de São Bernardo do Campo, ABC Paulista, durante a Virada Cultural promovida pelo Governo de São Paulo.

Procura-se um ícone do Ipiranga. Dom Pedro, não vale

Era um riacho e por lá passava Dom Pedro I quando decidiu gritar pela independência, no século 18. Talvez nem tenha dito nada tão imponente como aparece nos livros de história, mas foi suficiente para colocar o Ipiranga no mapa do Brasil. Verdade que a região só foi entrar no mapa de São Paulo lá pela segunda metade do século 19 com a estrada de ferro que ligava Santos a Jundiaí integrando o vilarejo ao restante da cidade.

Do bairro industrial dos anos 70, o Ipiranga se transformou em residencial. E horizontal. Construtoras tentam ocupar os vazios urbanos que ainda existem e se esforçam para valorizar a cara de interior que persiste na região. A Gafisa lançou campanha para  descobrir os novos ícones do bairro.

Da maior família que ainda mora por lá ao casamento mais antigo do Ipiranga. Da pessoa mais alta ao que tem maior número de amigos no Orkut. Do nome mais comprido a melhor nota no ENEM. Do dono do carro mais velho à pessoa mais viajada. Todos que comprovarem ser merecedor de um desses títulos podem ganhar Ipods, canetas, GPS, malas e viagens, dependendo a categoria. Quem indicar os nomes também leva.

Claro que tudo tem seu preço. As inscrições e apresentações serão em um dos estandes da construtora e, certamente, você terá de ouvir aquele papo de vendedor. Mas fique tranquilo, é sem compromisso.

Saiba mais no site do “Procuram-se Ícones do Ipiranga”.

Morador de rua faz teatro em São Paulo

“O que é cidade de origem pra quem não tem mais para onde ir ?”

“O que é cidade de origem pra quem não tem mais para onde ir ?”, pergunta o escritor Sebastião Nicomedes que extrapolou o estigma de sem-teto que sempre lhe foi reservado fazendo arte, literatura e teatro. Ele é o autor do monólogo “O Homem Sem País” que estreia semana que vem em duas apresentações para professores e alunos da Uninove (na sede da Barra Funda, dia 25; e na de Santo Amaro, dia 26).

Em junho, Sebastião almeja ocupar apenas com moradores de rua a plateia diante do palco que será construído no Parque da Juventude, em São Paulo. Cartazes serão distribuídos em abrigos, repúblicas, albergues, casas de convivência e nas praças para mobilizar o que ele batiza de “atores principais”.

Nesta semana, foi destaque, também, na revista Época em reportagem assinada pela jornalista Eliana Brum:

Tião Nicomedes é escritor. E, por ser um homem sem teto fixo, inventou-se para ele o título de escritor de rua. Porque toda identidade dele se dá no lado de fora das portas, numa vivência entre aqueles que não apenas são destituídos de casa, como perderam os laços com família, emprego, contas a pagar, refeições com horários, finais de semana de lazer, tudo aquilo que constitui a identidade do homem inserido na sociedade, o homem bem ajustado. Tião estreia na próxima segunda-feira, num circuito de universidades e espaços alternativos, um monólogo que nomeou de “O homem sem país”. Logo abaixo, no cartaz do espetáculo, feito por ele em computadores de lan houses do centro, ele diz: “O que é cidade de origem pra quem não tem mais para onde ir?”.

É profunda a indagação de Tião Nicomedes. Perguntei a ele de onde veio essa pergunta. Tião responde que fica incomodado com programas para moradores de rua, assim como discursos de autoridades, que defendem a necessidade de devolver os sem-teto ao lugar de onde vieram. Mas, diz Tião, como voltar se não há mais nada lá?

Leia a reportagem acessando aqui

“Não daria para minhas filhas lerem”, diz cartunista

Cartum de Caco GalhardoO autor da HQ que causou mais uma polêmica na educação pública do estado de São Paulo diz que não daria para as filhas dele ler o livro que foi distribuído para os alunos de nove anos. Caco Galhardo é cartunista e um dos 11 convidados da coletânea “Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol”, publicado pela Via Lettera, e recomendada como maerial paradidático nas escola estaduais de acordo com avaliação de uma comissão da Secretaria de Educação.

Com expressões de baixo calão e conotação sexual, a HQ de Galhardo, segundo ele próprio, jamais poderia ser entregue às crianças. A própria editora afirma que a publicação é para adultos e adolescentes. Mas alguma santa alma da tal comissão deve ter lido apenas o prefácio, assinado pelo jogador Tostão, e autorizou a compra de 1.700 livros que agora estão sendo recolhidos.

Ouça a entrevista de Caco Galhardo ao CBN SP

O trólebus no Brasil, sucessos e decepeções

Com o desembarque do trólebus na cidade de São Paulo, em 1949, estes veículos atraíram a atenção de prefeituras, empresas e passageiros em todo o Brasil. Na maioria das vezes, chegaram em substituição aos bondes, mas nem sempre atendendo a expectativa das cidades. Em Salvador, as ruas irregulares impediram o sucesso deste sistema de transporte público. Em contrapartida, se transformaram em motivo de orgulho na região do ABC Paulista.

Na terceira reportagem fotográfica sobre a história do trólebus, o repórter da CBN e busólogo Adamo Bazani abre sua coleção de imagens com relíquias como a chegada desses veículos no porto de Santos, a cobertura da imprensa e a implantação no Rio de Janeiro. Aproveita mais uma viagem de trólebus acessando o slide-show a seguir. Para amplair as imagens e ver na tela de seu computador clique no botão à direita embaixo, para ver a descrição das imagens clique no botão à direita em cima.

Para ver as outras reportagens da série sobre os 60 anos do trólebus no Brasil acesse aqui.

Foto-ouvinte: Fim de tarde paulistano

São Paulo sábado à tarde

Foi preciso desviar da congestionada Avenida Tiradentes que não tem folga para os motoristas mesmo em um sábado. No caminho até o Viaduto Aricanduva, zona leste da capital paulista, mais carros: “as pessoas correm de um lado para o outro”, diz o colaborador do blog Marcos Paulo Dias. Parece, porém, que tudo valeu a pena depois que ele conseguiu, sobre o viaduto, registrar esta imagem do fim de tarde no outono paulistano.

O labirinto paulistano

A cidade de São Paulo tem uma das mais confusas malhas viárias do mundo e a culpa não é do excesso de carros. Estudo cartográfico feito pelo arquiteto Valério Medeiros constatou que esta desorganização interfere na mobilidade urbana. Na comparação com mapas de 164 cidades do mundo, a capital paulista ficou na 156ª posição. Que conste: quanto mais embaixo na classificação pior para circular na cidade.

Ouça a entrevista com o professor de arquitetura e urbanismo da Universidade de Brasília, Valerio Medeiros

Conheça alguns dos dados que fazem parte deste estudo

O estudo completo está na página da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília


Paseo del Buen Pastor ou como revitalizar o centro

Por Fernando Gallo 

Se o amigo leitor um dia decidir visitar a aprazível cidade de Córdoba, na Argentina, recomendo veementemente que, além de provar os deliciosos sorvetes locais, vá a um lugar chamado Paseo del Buen Pastor.

Desde 4 de agosto de 2007 o Buen Pastor é um complexo comercial, cultural e recreativo na região central da cidade, uma espécie de bulevar, com restaurantes, sorveterias, lojas, espaços para exposições, palestras, mostras, e também uma bela fonte, que à noite, de hora em hora, dança, num espetáculo de som, luz e cor. É bastante freqüentado durante o dia, mas principalmente à noite, sobretudo pelos jovens do bairro universitário de Nueva Córdoba, que depois das aulas vão até ali para conversar, tocar violão, dar risadas e aproveitar a agradável atmosfera do lugar.

Dois anos atrás, no entanto, eu não sugeriria que alguém fosse conhecê-lo. À época o nome do lugar era o mesmo, mas sua função social muito diferente: Paseo del Buen Pastor era o presídio feminino da cidade, com seus muros altos, suas grades, sua iluminação escassa e aquele ar carregado que costuma circundar os presídios. Durante a ditadura militar (1976-83), a prisão guardava presas políticas, que sofriam violentas torturas e privações. Nove delas sumiram misteriosamente e nunca mais apareceram.

É possível que quem passasse por ali antes da demolição do presídio sentisse algum medo e um certo frio correr-lhe a espinha, porque desses lugares que não acolhiam boas energias.

Pois então veio a transformação, numa brilhante aula de urbanismo.

Em 4 de abril de 2007, cerca de 20 milhões de pesos depois – aproximadamente 10 milhões de reais à época -, (e se falamos em “cerca de” é porque na Argentina, como aqui, às vezes falta um milhãozinho aqui, outro ali…) enfim, 20 milhões de pesos depois era inaugurado o moderno complexo arquitetônico-urbanístico que hoje está lá.

A agradável área motivou os cordobeses a reocuparem o local, fosse para ir às compras, às freqüentes exposições e outras atividades culturais, fosse para tomar um sorvete ou apenas para sentar nos bancos e ver a noite cair ou o dia passar. A região valorizou-se, o que animou empresários a abrir por ali lojas, cafés, restaurantes e afins. Numa espécie de efeito dominó, quase todo o entorno do Paseo del Buen Pastor foi revitalizado pela iniciativa privada.

A umas 10 quadras dali, ainda no centro, também é possível encontrar, às 11 da noite de uma terça-feira qualquer, dois calçadões movimentados, com alguns poucos bares, artesãos-vendedores (que são cadastrados pela prefeitura para poderem estar ali), aspirantes a astrônomos que observam a Lua por meio de uma luneta, e pessoas que andam despreocupadas apesar do adiantado da hora porque as ruas são bem iluminadas, limpas e porque há policiais circulando por ali.

Em 28 de abril último li no Estadão que a Associação Imobiliária Brasileira (AIB) contratou o ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná, Jaime Lerner, arquiteto renomado e consultor da ONU para assuntos de urbanismo, para que fizesse um projeto de revitalização da Nova Luz (Nova Luz se o amigo leitor preferir o eufemismo; Cracolândia se optar pela dura realidade).

De acordo com o repórter Bruno Paes Manso, estão entre as propostas de Lerner uma torre de 200 metros e 80 andares, um bulevar na Avenida Rio Branco com edifícios altos e 16 quadras com prédios de uso misto e altura máxima de 8 pavimentos.

Vejo a idéia com otimismo e ceticismo. No primeiro caso porque exemplos como o do Paseo del Buen Pastor nos mostram que toda uma região pode ser revitalizada a partir de um único complexo. No segundo, por vários motivos, a saber: porque creio ser um dos trunfos do bulevar cordobês a estrutura aconchegante e convidativa do complexo, que no seu ponto máximo deve ter uns 10, 12 metros; porque desde há muuuuito tempo ouço falar em “revitalização do centro de São Paulo” e “revitalização da ‘Nova Luz’” e nada vi de concreto acontecer; porque tenho dúvidas da capacidade da prefeitura manter a região limpa e segura; porque pairam dúvidas sobre a lisura das intenções da AIB desde o recente escândalo das doações irregulares a mais da metade dos vereadores de São Paulo.

Certa vez, não faz muito, conversando com Álvaro Aoás, simpático dono do Bar Brahma, perguntei quantas vezes ele ouvira falar em “revitalização do centro”, e se ele, por bem relacionado, nunca conversara sobre isso com quem de direito. Ao que ele me respondeu que vira e mexe eles aparecem lá no bar, dizem muitas coisas… mas nada acontece.

– O segredo – disse ele – é água, sabão e segurança. Nada mais. Se você fizer isso, os empresários vêm. E o resto das pessoas vêm também.

Água, sabão e segurança. E iluminação, acrescentei eu, ao que o Álvaro concordou.

Funciona. Principalmente se o poder público fizer a sua parte.

O Paseo del Buen Pastor é um excelente exemplo disso.

Fernando Gallo é jornalista da CBN e escreve no Blog Miradouro