Por Adamo Bazani

Marcus é hoje fiscal de ônibus, em Santo André
O transporte público tem um fim social. Não apenas de levar pessoas pra lá e pra cá. Por isso ainda precisa desenvolver ações de inclusão. Por enquanto, boa parte das histórias envolvendo pessoas portadoras de necessidades especiais é construída pelo esforço individual e a consciência de algumas poucas empresas.
O fiscal de tráfego Marcus Moreira da Silva, de 36 anos, fosse se guiar por palavras negativas ou pelas barreiras físicas e financeiras não teria conquistado o emprego que lhe dá orgulho e condições de manter a família com três filhos, que é a maior recompensa dos desafios que ele nunca se negou a enfrentar.
Nascido no Estado do Ceará, com um ano de idade, devido a um procedimento médico errado na aplicação de uma vacina, Marcus teve os nervos inferiores afetados. Paralisia irreversível. De família muito pobre, já na escola encarou o preconceito. “Ninguém acreditava em mim. Até mesmo quando eu fazia o curso na escola Técnica Federal Agropecuária do Ceará, tinha gente que perguntava porque eu estudava, insinuando que, com minhas pernas não desenvolvidas, eu não teria futuro”
Marcus não desanimou. Mesmo com todas as limitações, andando literalmente com as mãos e se apoiando apenas nos joelhos, ele viu que a família estava necessitada financeiramente. Não teve dúvidas, partiu para São Paulo. “Pessoas que se diziam amigas minhas chegaram a falar com todas essas letras: o que esse aleijado vai fazer em São Paulo?” ” conta Marcos que diz que a pior deficiência não é a falta de perna ou braços, mas a de garra e vontade. E foi nesse espírito que, em 1994, Marcus veio para São Paulo. Ele prometeu aos parentes, quando se despediu, que nunca pediria esmola, só ajuda para trabalhar.
Marcus vendia balas na região central da capital paulista.
“Muita gente me desanimava e o que mais me desanimava não eram palavras negativas, mas o sentimento de compaixão errada que as pessoas demonstravam. Chegaram a me oferecer passagens de ônibus de volta, auxílio mensal sem trabalho, possibilidade de auxílio por invalidez, mas nunca quis isso. Minha cabeça é boa, não seriam as pernas que me atrapalhariam de ter uma vida que chamam de normal”.
Um dia, um jornalista de uma emissora de TV fazia reportagem na região e o entrevistou. O cearense não teve dúvida. Disse que queria trabalhar em um emprego fixo e que, mesmo com a paralisia, mudaria a situação da família dele. O repórter, tino jornalístico e humano, sentiu a força de vontade de Marcus e o apresentou para Marcos Mendonça, presidente da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura de São Paulo, na época. Mendonça ofereceu alguns pequenos trabalhos. Marcus, no mesmo ano, voltou para o Ceará para buscar a família. Mas ele ainda não estava satisfeito. Queria um emprego registrado como qualquer pessoa “normal”. Convenceu Mendonça a apresentá-lo à família Sófio, dona da Transportes Coletivos Parque das Nações ” TCPN – , uma das empresas mais tradicionais de santo André, com mais de 50 anos de existência.
“Quando me falaram da situação do aranha (apelido de Marcus), eu fiquei com medo de contratá-lo, pois temia que ele se machucasse na garagem ou nos ônibus” – revela Carlos Sófio, um dos proprietários da TCPN. A empresa pensava em ter Marcus como fiscal, mas ele queria começar como todos os demais colegas: primeiro como cobrador e depois chegar à fiscalização.
Em fevereiro de 1995, Marcus inicia na linha I 08 (Jardim das Maravailhas / Bairro Paraíso) ” municipal de Santo André. “Ninguém nunca foi preconceituoso comigo na empresa, mas o pessoal não sabia lidar com deficiente de maneira adequada. Hoje a situação na TCPN é diferente, mas vejo muito desse problema nas empresas”.
O motorista do primeiro ônibus que Marcus trabalhou dirigia com cuidado excessivo e toda a hora olhava pelo espelho interno para ver como o rapaz estava. A força e a alegria demonstradas por Marcus transmitia segurança aos colegas: “Eles que se sentiram seguros comigo e não eu com eles”, brinca.
“A agilidade desse rapaz me surpreendeu. O ônibus sacolejava pra lá e pra cá, quando via tava ele lá na catraca, quando chegava a garagem, olhava para o ônibus e onde estava o Marcus? Já prestando conta da féria do dia”, lembra o empresário Carlos Sófio.
O cotidiano de Marcus, antes nos ônibus e agora nos pontos finais, é marcado pela contradição: pessoas solidárias e amigos convivendo com preconceito e restrições.
“Por quantas vezes, eu, agachadinho do lado do ônibus, quieto, só desempenhando meu trabalho, vinha gente e me oferecia esmola….Aí eu falava, não obrigado, eu sou o fiscal da empresa. As pessoas ficavam constrangidas, mas isso não via como preconceito, mas como uma cultura implantada há muitos anos de que o deficiente é carente e dependente”
Em setembro de 2008, como fiscal de linha, Marcus advertiu uma senhora de que não poderia embarcar num determinado veículo com o passe gratuito de idoso, pois o vale só dava direito a ônibus intermunicipal e não municipal. “Quem é você “alejadinho” pra dizer que ônibus eu devo pegar ou não?”, respondeu a senhora. “Ela sim era portadora de deficiência grave: faltava-lhe educação e respeito, a maior deficiência que existe”.
O transporte de passageiro apaixonou Marcus. E foi a relação com as pessoas que o conquistou. O dinamismo do serviço também é outro ponto destacado por ele. “Tem as programações das viagens, mas na rua tudo muda. É trânsito, enchente, quebra de ônibus, adaptação aos horários das linhas concorrentes. Na prática, os transportes são bem diferentes que no papel, por isso, mesmo sem as pernas funcionando, eu tenho de rebolar e dançar muito pra não deixar o passageiro na mão” ” diz, com um sorriso no rosto.
Marcus se orgulha em dizer que nunca se afastou da empresa por doença, nunca chegou atrasado e já trabalhou em todos os horários e funções, menos motorista, o que não significa que ele não dirige. Com um Kadetti adaptado, viaja até o Nordeste para rever parte da família que ficou no Ceará. “E dirijo muito melhor que muita gente por aí. Na minha carta diz que não posso dirigir comercialmente, tipo táxi, o que é um preconceito também. Ora, se eu posso levar minha família pro Nordeste, por que não posso levar uma senhora a um hospital?” .
Se depender de Marcus, aposentadoria só se estiver muito velho mesmo. “Me sinto a mais perfeita das criaturas de Deus e para isso não preciso ir à igreja ou ouvir palavras de auto-ajuda. A minha deficiência é minha bênção”
Marcus já deu várias palestras gratuitas para empresas, hospitais e executivos e mostra que um portador de necessidade especial, muitas vezes, pode ser o funcionário ideal de uma empresa de tramsporte, pois sabe o que é problema, dificuldade, limitação e com isso, sabe respeitar ainda mais passageiro e dar valor à empresa que deu a oportunidade de trabalho
Adamo Bazani é repórter da rádio CBN e busólogo. Toda terça-feira traz mais um capítulo da história do transporte de passageiros aqui no blog