Quintanares: Noturno II

O que se esconde no vazio de uma casa quando a noite chega está descrito no texto do poeta Mário Quintana, interpretado por Mílton Ferretti Jung:

Quintanares é publicado terça e sábado neste blog a partir de textos interpretados por Mílton Ferretti Jung, em programa que, originalmente, foi ao ar na Rádio Guaíba de Porto Alegre.

De tempo e espaço



Por Maria Lucia Solla

Olá,

Será que é o tempo que passa depressa demais, ou é a vida que vai ficando cada dia mais interessante e cheia de possibilidades, e a gente quer fazer mais, aprender mais, e então se agita e corre contra ele? Fico com a segundo hipótese, principalmente agora, em que ao mesmo tempo preparo uma salada para o meu jantar, alinhavo as idéias deste texto, me organizo para as aulas de amanhã, e tento entender como funciona o meu mais novo objeto de desejo, a ponto de ser adquirido. Ainda nem sei o preço, mas já percebi que vai acabar como bichinho de estimação. Você desenha uma tabela apinhada de razões para não trazê-lo para casa; é caro, dá trabalho, exige muita atenção, você não tem tempo, viaja muito, não gostaria de deixar a criaturinha solitária, e por aí vai. O caso é que se alguém traz um filhote fofinho para a sua casa e diz, fica com ele por uns dias e, se realmente decidir que não o quer, venho buscá-lo de volta. Cruz credo! Afasta a bruxa! Só de pensar que alguém poderia tentar levar embora aquele serzinho gostoso, que te olhou de um modo como ninguém ainda tinha olhado antes na vida, passa um gelo pela corrente sangüínea, e você enxota a idéia. Final da história, você se transforma em senhor e vassalo do bichinho, ao mesmo tempo. Pois bem, meu mais novo objeto de desejo, do qual estou em vias de tornar-me senhora e vassala, é uma bússola internética moderna, engenhoca eletrônica, das mais incríveis. E ainda cabe na bolsa e não pesa; atributos decisivos, na hora de bater o martelo.

Mas voltando a falar de tempo, às sete e meia da noite estava cortando, no tamanho de pequenas bocadas, o pepino japonês, o tomate italiano, e deixado a alface americana de molho na água com sal, para tentar matar os germes menos resistentes, e fazer uma salada grega. No meio da função, percebi, bem ali na minha frente, cortadinho e colorido, um exemplo saboroso de que o mundo ficou mesmo pequeno. Faltava só cortar a cebola brasileira, separar uma porção de queijo feta, que eu trouxe de viagem, para me sentar e comer a salada grega com um belo pedaço de pão francês.

Doce ilusão. O tempo voou e o relógio já marcava dez horas. A salada, o queijo, o pão e minha fome tiveram que esperar, até chegarem ao juntos e felizes para sempre. Sentei para arrematar o texto, e fiquei pensando no bichinho de estimação, na jóia eletrônica, na salada, no tempo, no mundo ao alcance do paladar e do olfato, e o telefone tocou. Era um amigo querido. Fui tentando fazer o que tinha para fazer, equilibrando o telefone entre o queixo e o ombro esquerdo, me lembrando de separar o livro que vou usar nas aulas de amanhã, subindo e descendo as escadas de casa, e o tempo, o tal do tempo, foi passando. O celular tocou e era meu filho. Disse para o amigo, com quem falava no fixo, concorrência desleal; voou ter que desligar. Manda um beijo pra ele, disse o amigo de verdade. E falamos, meu filho e eu, como filho e mãe, como amigo e amiga, como um homem e uma mulher que vivem neste mundo de hoje, em que o tempo voa, a vida é fascinante com seus altos e baixos e seus tons e meio-tons, e foi difícil desligar. Mãe, a ligação tá ficando cara. É mesmo, filho, a gente fala mais amanhã. Amo você. Também amo você, mãe.
Agora vou me sentar para comer, curiosa para saber: como é que passa o tempo para você?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Quintanares: O Tempo

Mário Quintana descreve a forma como o tempo se reflete no ser humano, na edição deste sábado de Quintanares:

Quintanares é publicado sábado e terça neste blog, resultado de gravações feitas por Milton Ferretti Jung que apresentou este programa, na Rádio Guaíba, de Porto Alegre.

Quintanares: Minha morte nasceu …

Negociar com a morte e enxergá-la bela tanto quanto natural só é possível aos homens geniais como Mário Quintana. É o que se encontra neste texto interpretado por Milton Ferretti Jung que apresentou Quintanares, na rádio Guaíba de Porto Alegre:

Quintanares é apresentado neste blog sábado e terça-feira

Idas e vindas



Por Maria Lucia Solla

Olá

Hoje, depois de um mês de férias, um amigo sugeriu que eu falasse sobre minha volta a São Paulo, a cidade onde nasci, cresci e para onde voltei, depois de algum tempo longe, para criar meus filhos. Achei que a tarefa seria fácil, sentei na frente do computador, rascunhei um punhado de pensamentos, e não consegui juntar lé com cré. Então fui reler um texto meu, publicado em 2004, no livro “São Paulo 450 anos Sua História e seus Monumentos – Destaques e Personalidades”.

Meu amor por São Paulo
Admiração e repúdio. Prazer e desprazer.

Amor passional é o que se tem por São Paulo. Nada aqui é cinzento, a não ser o seu céu – esporadicamente e não diariamente como dizem, em momentos de repúdio ou de dor de cotovelo –, assim como não somos cinzentos os seus moradores.

Somos valentes e ela é valente. Somos violentos e ela é violenta. Somos artísticos e ela é artística. Somos caóticos e ela é caótica. São Paulo é, sempre foi e sempre será, o resultado da soma de todos os que aqui trabalham, amam, geram, destroem, educam, choram e riem. São Paulo é o grito coletivo do êxtase da vida que criamos a cada amanhecer. São Paulo será melhor, mais amável, mais cordial, mais alegre, menos violenta e mais limpa, quando formos melhores, mais amáveis, mais cordiais, mais alegres, menos violentos e mais limpos.

Voltei, há apenas três dias, sentindo algo diferente. Um tipo de força que já esteve em mim antes, mas que fazia tempo não se manifestava. Talvez tenha sido a mudança de posição, que muitas vezes ajuda. Há um colorido diferente no meu modo de olhar as pessoas, suas atitudes, e os acontecimentos do dia-a-dia. É uma força que está louca para sair e se expressar. Quer vir à luz, nascer, crescer, se exercitar, ter seu próprio ciclo de vida.

Jamais tive intenção de colocar o que sinto numa caixa, colar-lhe um belo rótulo e desenhar um mapa indicativo de como atingir o que considero bom. Longe de mim. Só o que sei, quando sei, é que quando se está presente no presente, no momento real, tudo fica mais claro, e é onde estou agora. Se depender de mim, e esta força for bem cultivada, a cidade será cada dia melhor. Quando cheguei, não vi o caos, vi a cidade onde nasci. Vi a cidade onde moram muitos dos meus amigos mais queridos, vi uma cidade que se enche de mistério ao cair da noite, onde a solidão busca seu antídoto, a riqueza se esbalda ao seu modo e a pobreza ao seu. Vi uma cidade onde proliferam movimentos de esperança, de construção, de solidariedade, e me senti muito bem.

E você, como se sente na sua cidade?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Quintanares: Poema

Um ouvido atento nas pequenas beleza fazem do poeta um ser especial. Mário Quintana mantinha sempre os dois ouvidos abertos às surpresas do dia … e da noite, também, como neste texto interpretado por Milton Ferretti Jung que por 10 anos apresentou o quadro Quintanares, na Rádio Guaíba, de Porto Alegre:

Quintanares você ouve somente aqui no blog e toda terça e sábado uma nova interpretação da poesia de Mário Quintana.

Quintanares: A Morta é que esta morta

Na poesia de Mário Quintana, a morte sempre foi desafiada com textos irônicos e dramáticos ao mesmo tempo. Acompanhe mais este capítulo de Quintanares programa que foi apresentado originalmente na Rádio Guaíba de Porto Alegre pelo jornalista Mílton Ferretti Jung:

Você ouve Quintanares toda terça e sábado, neste blog. Não deixe de pesquisar as poesias que já foram publicadas aqui.

De Stratos e gratidão


Por Maria Lucia Solla

Olá,

Hoje pela manhã, caminhei pelo bairro onde estou hospedada, em Atenas, com familiaridade e segurança. Fui ao supermercado porque quero levar comigo e ter à mesa, por algum tempo, pedacinhos da Grécia. Suas cores, seus aromas e seus sabores. Então, num dado passo, num estalo, me dei conta de que cada viagem é uma pequena vida, com início, meio e fim. Quando se adquire a confiança necessária para usufruir cada minuto, é hora de ir embora.

No início desta minha pequena vida, sentia-me insegura e tateava o terreno com cuidado, temendo o caminho nunca trilhado. Passei por tudo um pouco; ilusão, desilusão, aprendizado de todo quilate, mudança de hábito e de opinião, emoção de todo tamanho e feitio, ruído e silêncio, companhia e solidão. No entanto, uma das fases mais importantes desse meu pedaço de vida começou com a viagem de trem, de Atenas para Edessa, cidade de aproximadamente cento e cinqüenta mil habitantes, capital do distrito de Pella, na região da Macedônia Central, ao norte da Grécia. No balançar do trem que deixava a cidade e se embrenhava entre montanhas cobertas de neve, um novo tipo de solidão tomou conta de mim. Não havia tristeza; só solidão, pura, com gelo. Já estive na tristeza antes, em diferentes latitudes, e diversas estações. Passei pela tristeza que desabrocha com as flores, pela tristeza alquebrada, que vai largando a carga ao longo da estrada, por aquela que arde como fogo e a que queima como gelo. Ali não. A tristeza ficou na estação de Atenas, fazendo companhia para a ansiedade e a expectativa. Levei comigo apenas uma espécie de entrega e confiança no passo seguinte. Ah, que bom seria, sempre assim, a vida.

Num dos tantos momentos mágicos, numa quarta-feira despretensiosa, meu amigo Stratos dirigia na descida da montanha, depois de um dia na estação de esqui Kaimaktsalan, derrapando aqui e ali, na estrada ainda gelada. De repente, parou num cotovelo de montanha, de tirar o fôlego.
– Quer voar de Paraglide?
– Eu? Não sei!
Começou a desembarcar os equipamentos, enquanto eu observava, sentindo tudo em mim se expandir.
– E então, decidiu? Quer voar?
Lá, muito lá em baixo, como miniaturas, os pequenos povoados viviam mais um dia-a-dia corriqueiro. Tentei calcular a altura, e não cheguei a conclusão alguma. Eram momentos que, curiosa e misteriosamente, se arrastavam e corriam, simultaneamente. Meu coração saltava no peito, querendo voar, e eu disse não. E o meu não ecoou na vastidão solitária da montanha gelada.
– Vai perder uma oportunidade na sua vida.
O tom era suave, sem intenção de me convencer de absolutamente nada. Pura e honesta constatação. Respirei fundo uma, duas, três vezes e disse quase gritando, sim!
– Sim, o quê?
– Eu quero voar!

E você, sabe o que quer?

Pense nisso, e até a semana que vem

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Quintanares: A Cor do Invisível

Quando os sapatos ringem
– quem diria?
São os teus pés que estão cantando!

Mário Quintana, A Cor do Invisível, Ed.Globo.

Texto publicado nos comentários do Quintanares de ontem (26/02) pela ouvinte-internauta Celina. Tudo bem, era uma resposta dura ao outro participante da discussão, mas a lembrança é ótima e não deve ficar escondida por lá.

Quintanares: Rua dos Cata-ventos XVIII

Inquieto como o poeta são os ventos que movem a vida nas ruas onde a imaginação de Mário Quintana passeou. Hoje, você ouve um dos trechos de publicação das mais conhecidas deste gaúcho de Alegrete.

A gravação é parte do programa Quintanares, apresentado por Milton Ferretti Jung, na rádio Guaíba de Porto Alegre, durante 10 anos. Toda terça e sábado, você encontra uma nova publicação aqui no blog: