“A Voz do Rádio” completa 50 anos de Guaíba

Há 50 anos, um rapaz de corpo franzino e topete bem ajeitado chegou ao saguão do ostentoso prédio da Companhia Jornalística Caldas Júnior vestido de maneira simples, mas cuidadosa. Teve de pegar um elevador que mais se parecia com uma gaiola de ferro, com portas sanfonadas, para chegar a redação em seu primeiro dia de emprego como locutor comercial daquela rádio que mal completava um ano.

Hoje, 10 de abril de 2008, o mesmo rapaz, sem muitas marcas daquele topete que, imagino, chamava atenção das meninas moças, chegou ao saguão do mesmo prédio que fica há alguns passos da Praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre. O elevador mudou pouco em relação ao daquela época. A voz do locutor, também. Apenas mais afinada, refinada. Resultado da experiência adquirida em pouco mais de cinco décadas de profissão.

Milton Ferretti Jung completou, nesta quinta-feira, 50 anos de Rádio Guaíba, uma das mais influentes emissoras do sul do Brasil. A síntese noticiosa que apresenta desde 1964, na edição da uma da tarde, reservou seus 10 minutos para que colegas, amigos e filhos prestassem homenagem àquele que é, merecidamente, chamado de “A Voz do Rádio”.

No espaço a mim oferecido contei a história de uma ouvinte-internauta da CBN, conterrânea que não perdeu o costume de ouvir a Guaíba (agora pela Internet), e que, logo cedo, encaminhara e-mail para parabenizar –me pela marca alcançada pelo jornalista, radialista e meu pai, Milton Ferretti Jung – o mesmo que você ouve terças e sábados aqui no blog intepretando o poeta Mário Quintana.

É sempre um privilégio ser lembrado como o filho do Milton.

De memória e da falta dela

 

Por Maria Lucia Solla

 

Olá

 

Hoje é terça-feira e, desde ontem, meu laptop está em estado de coma. Eu, em pânico, a ponto de entrar em colapso. Agora me diga, como é que a gente vivia antes da era do computador, quando tudo era escrito a máquina, datilografado, ou escrito a mão mesmo? E antes da invenção das máquinas copiadoras, então? Lembra do papel carbono? As unhas das secretárias eram
um misto da cor de sua preferência e o azul-arroxeado do carbono. Um horror! Se todas as folhas de papel não estivessem bem encaixadas em volta do rolo que as prendia, as cópias dos documentos não poderiam ser enviadas – pelo correio! – para os diversos remetentes, e não tinham como ser arquivadas. Ah, e neste ponto não dá para esquecer dos arquivos, horrendos
móveis de metal, com gavetas enormes e pesadas, repletas de documentos organizados em pastas que tinham uma engenhoca dupla, de alumínio, na lateral esquerda. A parte de baixo do pequeno equipamento era composta por duas antenas feitas de uma molinha estranha ou então de duas hastes fixas de metal que se encaixavam perfeitamente aos furos feitos no papel por uma outra geringonça chamada furador. Tinha o de dois e o de quatro furos. A gente precisava dobrar a página ao meio e fazer uma marquinha na lateral esquerda do papel para que o furador se encaixasse perfeitamente ali, e os documentos fossem arquivados bem alinhados.

 

É um alvoroço só, a cada nova invenção tecnológica, e eu, que sou doida por um aparelho eletrônico, tenho um laptop moderno e três impressoras, porque fui comprando uma mais moderna que a outra, e acabei armazenando todas. Bem lembrado, vou doar duas delas para uma instituição, primeira coisa, na próxima segunda-feira. E tem melhor dia para se tomar uma
atitude?

 

Mas, voltando às invenções na área da tecnologia, comprei também um roteador, ou seja, posso andar com o meu laptop pela casa toda, sem ficar presa a um cabo, e posso ter acesso à magia da internet sem fio. Tenho leitor e gravador de devedês e de cedês e, a partir desta semana, após um tempo de séria reflexão sobre minha atual posição financeira, sou uma das mais novas proprietárias de um GPS e um IPAQ, num pacote só. Quanto à última sigla, não vou me estender. Acredite, é inacreditável! Também tenho máquina fotográfica digital e equipamento especial para descarregar as fotos, diretamente de sua memória para a memória do computador. Não satisfeita, e para facilitar ainda mais minha vida, comprei um pen drive para fazer back up, ou seja armazenar ali tudo o que está na memória do computador, que é quase todo o arquivo da minha vida. Livros, textos, fotos, material de aulas e palestras, e este espaço seria pequeno para eu descrever tudo o que há lá dentro. Só que esqueci de fazer!

 

Pense nisso, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

 

Do blogueiro: Este texto foi publicado neste domingo com atraso devido a problemas no computador do autor do blog.

Quintanares: Poema de Circunstância

A ocupação do espaço urbano pelos enormes prédios já preocupava o poeta Mário Quintana como se pode notar no texto que você ouvirá agora na interpretação de Milton Ferretti Jung:

Quintanares foi, originalmente, apresentado na Rádio Guaíba de Porto Alegre. Toda terça e sábado, você ouve aqui um texto do poeta gaúcho na voz de Mílton Ferretti Jung

Quintanares: Ventos andarilhos


Foto de Itamar Aguiar e publicada no site sobre o centenário de Quintana

“A tua vida o que fizeste dela ?”, pergunta o vento neste poema de Mário Quintana que você ouve a seguir, na interpretação de Milton Ferretti Jung:

Quintanares é quadro que aparece neste blog toda terça e sábado com poesias de Mário Quintana que foram ao ar em programa de mesmo nome apresentado, originalmente, na Rádio Guaíba de Porto Alegre.

De Páscoa e sonho

Por Maria Lucia Solla

Olá,

A casa já estava em festa quando os netinhos chegaram. Vibraram com os cartazes, coloridos, que conduziriam a gincana preparada especialmente para a folia da caçada aos ovos e aos brinquedos que o senhor Coelho, gentil e invisivelmente, escondera em lugares estratégicos. O senhor Coelho, assinando com a pegada de uma de suas patinhas sujas pelas calçadas mal varridas e ainda úmidas pela chuva que tem lavado e inundado a alma da cidade, e a nossa, espalhou tarefas divertidas, pela casa.

Para a caçada aos ovos, as tarefas eram as seguintes:
1: Os netinhos devem beijar e abraçar muito a vovó.
2: “A” deve contar até dez e abrir a porta do móvel apontado pelo cartaz que traz o seu nome.
3: “B” deve subir numa cadeira, cantar “Atirei o pau no gato”, imitando um cantor de ópera, e depois ir até o tesourinho dos brinquedos, engatinhando e miando.
4: “C” deve fazer cinco polichinelos sorrindo, depois contar até dez em inglês (se necessário com a ajuda da vovó) e ir até a geladeira, pulando num pé só.

Para a caçada de mais presentinhos amorosos, ele determinou:
1: “A” deve pular como coelhinho, com os dentinhos da frente para fora, beijar os irmãozinhos e depois andar de costas até o sofá e procurar bem direitinho, seguindo as orientações do cartaz.
2: “B” deve fazer cinco abdominais ajudado pelo papai e depois, com as duas mãos nas costas, abrir a gavetinha do móvel do aparelho de som.
3: “C” deve subir seis degraus da escada, de costas, segurando bem firme no corrimão, usando só os calcanhares, sem colocar a ponta dos pés no chão, e olhar para onde estiver indicando o último cartaz.

Cansados e felizes pela folia, sentaram-se para um delicioso café da manhã e depois foram assistir aos novos devedês trazidos pelo senhor Coelho. Um enorme, fumegante e perfumado saco de pipocas, encontrando barriguinhas cheias, passou a atração secundária, frente a tantas aventuras e novidades.

A vovó então se recostou no sofá, com o coração mais repleto do que o estômago, os olhos marejados pela alegria de verem a alegria dos pequenos, desmanchou o coque que prendia seus cabelos na nuca, tirou os óculos que trazia pendurado estrategicamente na ponta do nariz, e cochilou. Teve sonhos lindos. Viu a si mesma, ainda no viço da juventude, rodopiando pelos salões, sendo cortejada pelos moços mais cobiçados, e sonhando em se casar e ter uma linda família que a amasse e se deixasse amar por ela. Sonhou em cores naquele dia. Lindas cores. Sonhou com enredo e tudo, com seu casamento, com o nascimento dos filhos, o casamento dos filhos e o nascimento dos netos. Se alguém olhasse para o seu rosto, naquele momento, perceberia que a pele se iluminava e as rugas se atenuavam. Ao ajeitar o corpo no sofá, acordou. Olhou em volta e deu-se conta do enorme vazio na sala. Não havia nada e nem ninguém ali. Sonhara que tivera um sonho e seus olhos, estranhamente marejados, permitiram o fluir natural das lágrimas.


Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Quintanares: Canção de Inverno



Clique na imagem e conheça o site em homenagem a Mário Quintana

O poema desta terça-feira foi publicado, originalmente, no livro Canções, lançado em 1946 pelo poeta. Talvez você considere um despropósito falar de inverno na chegada do outono, mas quem disse que quero ser proposital … Aproveite Mário Quintana em mais esta edição de Quintanares programa apresentado por Milton Ferretti Jung, na Rádio Guaíba de Porto Alegre:

De tempo e mulher

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Pois é, a questão do tempo não pára de me rondar. Fica me convidando à reflexão, e à viagem por plagas – como diria Castro Alves – esvanecentes, quase esquecidas, e também a passeio por memórias que nunca deixaram meu coração e clamam por atenção. Aceito a carona, é claro, e embarco na viagem, antes de piscar.

Enquanto me entrego aos convites, tenho mais uma confirmação de que somos nós que decidimos sobre experiências, e muitos dos acontecimentos do nosso dia-a-dia. É questão de abrir ou fechar as portas. No caso, escolhi abrir, e vivo encontrando amigos de longa data, amigos mais recentes e outros recentíssimos, e entro, sem medo, numa ciranda de incríveis emoções. As memórias recuperam seu colorido, e vão sendo projetadas em minha tela mental, com qualidade de imagem de altíssima resolução. Tudo de última geração. É o digital do futuro me mostrando cenas do passado. Posso ouvir som de vozes, sentir perfumes, texturas e toques. De repente aparece alguém, de uma história lá de trás, e enriquece mais um fragmento da minha vida. Se bem que há pessoas que saem da história e, sabe-se lá quando, e se, vão aparecer outra vez; e outros ainda que deleto sem dó nem piedade, num toque de tecla, por puro instinto de sobrevivência.

Ainda no embalo da viagem, não contente com as estradas pelas quais já passei, vou me embrenhando por realidades que não vivi, e me dou conta de que o mundo melhora a cada dia, na direção contrária à dos pessimistas de plantão. Deixando de lado meus óculos de lentes cor-de-rosa, tento me ater a dados concretos, e chego à conclusão de que apesar de ainda termos muito para aprender – e põe muito nisso -, já aprendemos um bom bocado. Somos mais asseados do que éramos na Idade Média, por exemplo, quando o lixo, em parceria com o excremento de humanos e animais, se acumulava em volta das casas e ao longo dos caminhos. Nossa consciência também jazia em sono muito mais profundo do que hoje, e poucos se preocupavam em procurar alternativas à progressão geométrica de baratas, ratos e epidemias.

Percebi isso, e muito mais, que deixo para você refletir, no carro com uma amiga de muitos e muitos anos, indo a uma festa, sexta-feira tarde da noite. Duas mulheres, uma casada e uma divorciada, em plena Marginal Pinheiros, papeando sobre coisas sérias e rindo das bobagens da vida, já no espírito da festa. Duas eleitoras, motoristas, independentes, empreendedoras, uma delas com a defesa de seu doutorado em Economia marcado para esta semana, as duas com um tanto considerável de experiência de mundo, e de consciência desperta, e cheias de planos para o futuro. Há não muito tempo, isso teria sido impensável.

Então, concluí, para sermos úteis, não é preciso grande sofisticação. É só usar as experiências do passado, viver intensamente o presente, e criar um futuro melhor. Como? Fazendo o que sabemos fazer, dando o melhor de nós, criando, falando, escrevendo, ensinando, ou simplesmente dando o exemplo de que é possível sermos dignas da liberdade que conquistamos, sem deixarmos de ser femininas, mães, amigas, amantes, vaidosas e competentes.

Pense nisso, e até a semana que vem.


Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Quintanares: Lunar



Clique na imagem e visite o site pelo Centenário de Mário Quintana (Foto: Liane Neves)

A noite chega e o poeta se inspira. E traduz seus pensamentos nos versos de Lunar, texto interpretado por Milton Ferretti Jung, no programa Quintanares, que foi ao ar na Rádio Guaíba de Porto Alegre. Mário Quintana publicou este poema no livro “Apontamentos de história sobrenatural”, de 1976, e relançado pela Editora Globo, em 2005:

Toda terça e sábado, tem novo Quintanares neste blog. Se quiser ouvir os poemar de Mário Quintana navegue na área destinada aos arquivos aí ao lado.