Lembranças de Pedro Carneiro Pereira – II

 

Por Milton Ferretti Jung

 

 

Promessa é dívida. Na última quinta-feira, ao encerrar o texto que postei no blog do Mílton, no qual, para início de conversa, lembrei dos dois jogos da minha longa carreira de narrador que, por motivos diferentes, não pude relatar, embora com tal propósito tenha ido aos estádios onde se realizaram. Em um, para quem não leu o que escrevi na semana passada, a RADIONAL, empresa responsável pela cedência da linha telefônica, me deixou falando em vão, isto é, a transmissão não foi ao ar. No outro, em Vitória, saí do estádio às pressas, junto com meus colegas de trabalho, porque, no Autódromo de Tarumã, Pedro Carneiro Pereira, competindo pelo Campeonato Gaúcho da Divisão Turismo, envolvera-se em acidente que lhe custou a vida.

 

Foi sobre a estreia dele no automobilismo de competição e os passos seguintes da sua carreira em pistas de ruas – 12 Horas de Porto Alegre, por exemplo – em estradas e no Autódromo no qual morreu, que prometi escrever. Pedro, digo de passagem, foi, como Presidente do Automóvel Clube do Rio Grande do Sul e até antes disso, um dos que mais batalharam para que a pista de Viamão se tornasse realidade. Narramos, ainda quando trabalhávamos na Rádio Canoas, corridas realizadas no circuito da Pedra Redonda, em Porto Alegre. Já na Rádio Guaíba, Pedrinho foi a São Paulo para cobrir a famosa Mil Milhas e foi à África, com Armindo Antônio Ranzolin, para narrar uma prova de Fórmula 1.

 

Pedro Pereira sonhava, entretanto, em participar de competições automobilísticas. Sua primeira prova foi um “quilômetro de arrancada”. Seu pai era dono de um Buick, carro com câmbio automático. Sem que o velho soubesse, Pedrinho increveu-se para a prova, disputada na Avenida Praia de Belas, em Porto Alegre, mas o Buick, pesadão como ele só, não permitiu que projeto de piloto se desse bem. Foi então que Pedrinho comprou – ou ganhou do pai – um fusca. O Aldo Costa, experiente piloto, era dono de uma oficina de automóveis. Nela, o fusquinha foi preparado para a prova “Antoninho Burlamachi”, que começava em Gravataí e terminava nas areias de Capão da Canoa. O “preparo” não passava de uma regulagem do carburador. O Volks ficou sem freios muito ligeiro e isso acabou com qualquer chance de bom resultado. Recordo-me que, meu pai e eu, nos postamos à beira da estrada, esperando em vão pela passagem do Pedrinho, no seu fusca.

 

A “Antoninho Burlamachi” era disputada todos os anos. Em uma delas, Pedro pilotou um Gordini 1093. Nessa, sofreu o seu primeiro acidente. Atropelou um porco, saiu da estrada e o carro se chocou contra uma árvore. Pedrinho quebrou o braço direito. Por pouco não foi à Copa do Mundo de 1966. Chegou à Inglaterra com a competição já em andamento. Como o Brasil caiu nas oitavas de final, o narrador Pedro Carneio Pereira fez um discurso inflamado, no qual criticou os erros cometidos na preparação da Seleção Brasileira.

 

Pedrinho teve participações bem interessantes nas “12 Horas de Porto Alegre”. Numa de suas edições, os técnicos de áudio da Guaíba, instalaram um rádio-transmissor no Gordini. Esperava-se que o Pedro corresse e narrasse o que fazia. Se não me engano, durante algum tempo da longa prova no circuito da Cavalhada, ele conseguiu dirigir e transmitir. De repente, porém, o rádio-transmissor parou de funcionar. Se bem me lembro, nessa época, Pedro estava na presidência do ACRGS e, após cada competição, eram julgadas irregularidades cometidas por pilotos. Este seu criado fazia parte da Comissão Julgadora por ser secretário do Automóvel Clube. Numa das “12 Horas” foram tantos os desclassificados, que o Pedro por pouco não ficou em 1º lugar. Não pensem, por favor, que a Comissão Julgadora não era séria.

 

O Pedrinho era uma pessoa cheia de compromissos. Comandava o esporte da Guaíba, era o principal narrador, advogado e publicitário (foi diretor da Standard Propaganda) e ainda achava tempo para se dedicar ao automobilismo de competição. Quando ainda corria de Volks e Gordini, pedia-me que “amaciasse” os carrinhos. Lembro-me como se fosse hoje que, uma noite, véspera de uma “Antoninho Burlamachi”, fui com o Volks dele, prontinho para a corrida, de Porto Alegre a Tramandaí. Era noite e meu pai, temendo que eu fosse pisar fundo no acelerador, fez questão de me fazer companhia. Outra vez, ao amaciar o motor do Gordini para uma edição das “12 Horas”, como o carro possuía iluminação extra, uma vez que a largada da competição era à meia-noite, no meu rodar amaciante, pessoas me faziam sinal para parar. Pensavam que se tratasse de um táxi.

 

Pedro Carneiro Pereira teve, entre seus carros de competição, um JK (FNM), uma baratinha Fórmula Ford e, finalmente, o Opala 22, envenenadíssimo, com o qual sofreu o acidente fatal, no dia 21 de outubro.

 

*Na foto, o Opala de Pedrinho liderando o pelotão na curva 2 de Tarumã

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Lembranças de Pedro Carneiro Pereira

 

Por Milton Ferretti Jung

 


Em minha carreira de narrador de futebol, que eu me lembre, não consegui narrar apenas dois jogos. Um deles – não me perguntem o ano, por favor – foi Atlético x Grêmio, no Estádio Independência. Já contei, em uma dessas quintas-feiras, o ocorrido com a transmissão da Rádio Guaíba, nesse jogo. Em resumo, a RADIONAL deixou-me na mão: narrei 85 minutos e só parei quando, nos meus fones, ouvi a voz do meu colega Marco Aurélio, que apresentava o rádio jornal noturno. O motivo que me impediu de relatar uma partida pela segunda vez foi, porém, bem mais sério. Fui escalado para narrar, pelo Campeonato Brasileiro, Desportiva x Grêmio em Vitória, capital do Espírito Santo. A equipe que eu comandava desembarcou no sábado, descansou e, no domingo, rumou para o Estádio Engenheiro Araripe. Em Porto Alegre, Armindo Antônio Ranzolin já começara a narrar Inter x São Paulo. O jogo, em Vitória, começa mais tarde. No Autódromo de Tarumã, localizado no município de Viamão, bem próximo da capital gaúcha, o repórter Clóvis Rezende, acompanhava a 4ª Etapa do Campeonato Gaúcho de Turismo. Antes que se estabelecesse o nosso contato com a central técnica da Guaíba, alguém comentou que um grave acidente havia ocorrido no Autódromo. Tão pronto fizemos contato, fomos informados pelo operador da central que deveríamos retornar para Porto Alegre. O nosso companheiro Pedro Carneiro Pereira envolvera-se num acidente com Ivã Iglesias ao tentar ultrapassá-lo. Os carros se chocaram e ambos bateram no muro de proteção dos boxes. Imediatamente se incendiaram. Os pilotos não puderam ser retirados em tempo de serem salvos. No Beira-Rio, o árbitro Arnaldo César Coelho, ao ser informado do ocorrido, interrompeu a partida por alguns minutos. A Rádio Guaíba encerrou a jornada esportiva e passou a rodar músicas. Saímos às pressas do Engenheiro Araripe, corremos até uma agência da Transbrasil e conseguimos voar, debaixo de mau tempo, para o Rio de Janeiro. Lá,embarcamos no “corujão” da Cruzeiro. Eu e meus companheiros largamos nossas bagagens em casa e rumamos para o velório do Pedrinho. Corria, então, o ano de 1973. Estávamos no dia 21 de outubro

 

Conheci Pedro Carneiro Pereira quando a Rádio Canoas, cujos estúdios situavam-se em Porto Alegre, chamou interessados em fazer carreira no rádio. Entre os inúmeros candidatos a uma vaga de locutor, estava um jovem pouco mais moço que eu. Não me esqueço, sei lá a razão, que vestia uma camisa esporte quadriculada. O teste não era dos mais fáceis. Não bastava, para quem buscava lugar na Canoas, ler, sem errar, textos comerciais e noticiários. Exigia-se, também, que falassem de improviso sobre assunto que desse na cabeça do testado. Somente um dos candidatos passou no teste: Pedro Carneiro Pereira. Em 1958, deixei a Rádio Canoas e sentei praça na Guaíba, onde estou até hoje. Pedrinho e eu narramos várias provas automobilísticas quando ambos ainda estávamos na Emissora da Caldas Jr. Pedro saiu da Canoas, fez teste na Rádio Difusora e,claro,foi aprovado. Indiquei-o para Mendes Ribeiro, diretor de broadcasting da Guaíba. Ele foi contratado e voltamos a trabalhar lado a lado, fazendo dupla, às vezes, na locução comercial. Naquela época éramos dez locutores. A Rádio não aceitava jingles nem spots. Era tudo ao vivo. Acabamos os dois trabalhando na equipe esportiva. A história do Pedrinho, porém, não termina aqui. Na próxima quinta-feira, contarei como foi a estreia dele no automobilismo de competição.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Do Dia do Rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O Dia do Rádio – 25 de setembro – foi, em São Paulo, muito bem lembrado. Mereceu citações e programas especiais, além de reportagem no Estadão. Segundo ouvi no Jornal da CBN, nessa terça-feira, deu também assunto, para o bate-papo, sempre interessante, entre o âncora do noticiário, o Mílton Jung, com Dan Stulbach, Luiz Gustavo Medina e Zé Godoy, no quadro denominado “Hora de Expediente”. Neste blog, na data da comemoração do Dia do Rádio, o Mílton postou um e-mail enviado a ele por Maria Célia Machado, filha do Doutor Paulo Roberto. Ela fez – e ainda há tempo para que leiam – um resumo da carreira radiofônica desse que foi, décadas atrás, um dos grandes nomes do rádio brasileiro. Dentre os inúmeros programas comandados pelo seu pai, eu – que tenho mais de 50 anos – me lembro de dois que, de alguma forma, ainda na condição de ouvinte, acompanhei na casa paterna: “Obrigado, Doutor” e “Nada além de Dois Minutos”. Fui fã de carteirinha de Paulo Roberto.

 

No “Hora de Expediente”, o quarteto abordou também as transmissões de futebol e o Mílton disse que, no Rio Grande do Sul, como é um estado e, especialmente, uma cidade na qual reinam dois grandes clubes – Grêmio e Inter ou, para ser imparcial, Inter e Grêmio – as rádios usam o sistema duplex ou dúplex, como o leitor preferir pronunciar nome que veio do latim. Se existe quem não saiba, nesse sistema, se os jogos forem simultâneos, os narradores se revezam cada vez que a bola pára numa das partidas ou um interrompe o outro, no caso de ocorrer gol. Ouvintes, que escutavam o bate-papo na CBN, um de Minas, outro de Pernambuco, lembraram que se dá o mesmo nesses dois estados, porque, no primeiro, Cruzeiro e Atlético são tão rivais quanto a dupla Gre-Nal e, no segundo, três equipes rivalizam-se: Sport, Náutico e Santa Cruz.

 

Seja lá como for, com diferenças regionais ou não, porque o Brasil é muito grande e, como “o brasileiro não vive sem rádio”, este veículo segue prestigiado. Isso não impede que eu sinta saudade do rádio que conheci nos velhos tempos: o das novelas, o das boas músicas, dos programas de cunho educativ, das heróicas transmissões de futebol e de grandes coberturas jornalísticas, no país e no exterior. E o ainda mais antigo: o do tempo, por exemplo, do Dr. Paulo Roberto, médico e radialista. Podem me chamar de saudosista que não fico brabo.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Até a Santa Inveja foi roubada

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Muitos moradores de grandes cidades possuíam santa inveja dos que habitavam as pequenas. Viver em metrópoles tem lá suas vantagens, quem não sabe. Seria ocioso citá-las. Elas, no entanto, enfrentam, hoje em dia, alguns problemas que tendem a crescer. Um deles é o trânsito cada vez mais movimentado e, consequentemente, complicado. Até as classes menos favorecidas conseguem, hoje em dia, por força do alongamento dos prazos de pagamento, possuir veículo próprio, tanto os chamados “carros de passeio”(detesto essa expressão) quanto os usados para outras utilidades. Problema bem maior do que os motoristas enfrentam no trânsito, por pior que esse seja, diz respeito à falta de segurança. Afinal, é uma carência que, não faz muito, afetava mais os habitantes de cidades grandes. Já os moradores de cidadezinhas do interior – isso justifica o que chamei de santa inveja que temos dos interioranos – viviam tranquilos, sem medo de qualquer tipo de violência. Roubos ou furtos eram raríssimos. Assaltos a bancos, então, somente eram vistos no cinema.

 

Os – como sempre diz o Mílton – caros e raros leitores dos meus quintafeirinos textos talvez se perguntem por que digitei “possuiam santa inveja” na primeira linha do parágrafo inicial. Ocorre que a tranquilidade em que viviam, no Rio Grande do Sul, os moradores dos pequenos municípios, já não existe mais. Não sei, por exemplo, se aí em São Paulo os assaltos a bancos são tão rotineiros quanto se tornaram aqui. Estou postando estas linhas, como de hábito, numa terça-feira. É bem possível que a relação de crimes da citada espécie já seja mais ampla do que a elencada pelo jornal Zero Hora em suas edições dos dias 17 e 18 do corrente mês.

 

O primeiro do ano foi levado a cabo no dia 21 de janeiro, em Triunfo. Nesse, um policial morreu e outro foi baleado, numa ação contra o Banco do Brasil. Foram visitados também por facínoras os municípios de Ipê, Sapucaia do Sul, Santa Maria, Caxias do Sul, Canoas (duas vezes), Tapes, Dom Feliciano, Uruguaiana, Bento Gonçalves, Feliz, São Francisco de Paula, Torres, Picada Café, Tio Hugo e Nova Bassano. Algumas das cidades citadas, saliente-se, não podem mais ser consideradas pequenas. No último dessa estatística, que dispensa adjetivo – o décimo oitavo de 2012 – os bandidos utilizaram explosivos para detonar terminal de autoatendimento do Banco do Brasil, a instituição mais visada pelas quadrilhas, em Fagundes Varela.

 

A Polícia Civil e a Brigada Militar (a nossa PM),fazem das tripas coração para coibir esse tipo de crime que, muitas vezes, começa com o roubo de um carro em Porto Alegre. É fácil para os bandidos, entretanto, praticarem seus roubos, em especial, nos municípios menores, nos quais os efetivos policiais são pequenos, embora, repito, o atrevimento dos quadrilheiros não poupe, também, cidades mais populosas. Imaginei que, um dia, ao deixar de trabalhar, poderia estender até fins de março minha estada em Tramadai, praia marítima gaúcha, onde parte da família veraneia. Nessa, porém, se não há assaltantes que usam explosivos, existem gatunos oportunistas, sempre dispostos a invadir as casas de veranistas até mesmo quando esses estão presentes.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Divertidas histórias do rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O Mílton deve conhecer, mesmo sem eu as ter relatado aqui, boa parte das histórias de rádio que, volta e meia, posto neste blog, especialmente aquelas nas quais fui um dos personagens. Às vezes, porém, ele pede que conte algumas que, por não me envolverem, talvez o meu filho não saiba. Vou relatar pequenas e até hilariantes historiazinhas.

 

Aí vai a primeira.

 

Rogério Boelke, hoje plantão titular e apresentador da Rádio Guaíba, antes de trabalhar em Porto Alegre, atuou numa emissora pelotense como repórter. Era ainda, que fique claro, um aprendiz ou, em linguagem jornalística, um foca. Certo dia,foi pautado para cobrir o roubo a uma casa. O ladrão havia entrado pelo telhado, espécie de roubo que ficou conhecida por “rififi”. Se é que alguém desconheça, o nome foi dado a esse crime, a partir de um filme francês, “Du Rififi chez les hommes”, dirigido pelo cineasta Jules Dassin e estrelado por Jean Servais. Na película, a assaltada foi uma joalheria. O roubo fictício foi imitado por criminosos ao redor do mundo.

 

Ao chegar ao local do roubo, Boelke imediatamente ligou para o técnico que se encontrava no estúdio, pedindo-lhe que o colocasse no ar porque iria dar um furo nas concorrentes. Autorização recebida, o apresentador do programa chamou o neófito repórter. Esse, alto e bom som, despejou:
– Estamos aqui pra informar que, nessa noite, uma residência foi assaltada. O ladrão entrou pelo telhado, no tipo de roubo chamado de Rin Tin Tin.

 

No estúdio,o apresentador não se conteve:
– Rogério,esse tipo de roubo é chamado de Rififi.

 

Imediatamente, Rogério tentou se recuperar do erro:
– Ah, claro, me atrapalhei. Rin Tin Tin é o cavalo do Zorro!

 

O apresentador, a custo contendo o riso, fez mais uma correção:
– Rogério, o cavalo do Zorro se chama Tornado.

 

Há controvérsias sobre o verdadeiro nome do cavalo, mas o Zorro esteve presente em tantas histórias que bem pode ter trocado de montaria mais de uma vez.

 

Contarei, em uma dessas quintas-feiras, as aventuras de um velho companheiro da Guaíba que passou boa parte de sua vida imitando o Barão de Munchhausen. Para os que não ouviram falar desse cavalheiro, o Barão é claro, terei muito prazer em o apresentar.

 


Milton ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Neste feriado, lembre-se: devagar se vai ao longe

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O feriado do dia 7 de Setembro é daqueles que se prolongam por bem mais que 24 horas, razão pela qual são chamados, talvez por influência da mídia, de feriadões. Não gosto desse superlativo.Prefiro que sejam identificados, apenas, como feriados prolongados. O nome deles, porém, não tem a menor importância. Todos, em geral, começam, como o de amanhã, numa sexta-feira e se estendem até o domingo. Cada um aproveita os longos feriados da maneira que mais lhe apraz. Há quem adore assistir ao tradicional desfile comemorativo da Data Magna da nossa independência, existe quem prefira aproveitar o fim de semana comprido para descansar ou, então, para viajar, elegendo, como destino, praia, serra ou mesmo uma visita a parentes que moram em outras cidades. Quem fica ou quem sai, torce para que o tempo seja bom, coisa que nem sempre acontece.

 

Preocupa-me, no caso dos que optam por viajar, seja qual for o tipo de veículo escolhido para tal, com o que ocorre, principalmente, quando os feriados começam em sextas-feiras. Refiro-me às tragédias provocadas por acidentes de trânsito. No último fim de semana – nem era de feriadão – morreram, nas estradas gaúchas, 11 pessoas. Dessas, apenas duas foram vitimadas na Região Metropolitana. Para tentar evitar quaisquer acidentes, a Polícia Rodoviária Federal, em parceria com a Brigada Militar e Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN), vão reforçar os efetivos, montar barreiras e por em ação radares. Isso, com toda a certeza, ajuda. Entretanto, não basta. Os motoristas precisam se conscientizar que não podem transformar os veículos que dirigem em armas letais, o que acontece quando fazem ultrapassagens em locais indevidos, em velocidade superior aos limites ou empunham a direção embriagados. Gosto de velhos ditados. No caso, lembro aquele que diz: “devagar se vai ao longe”.

Caminhando nos trilhos do trem

 

Por Milton Ferretti Jung

 

No dia em que a Presidente Dilma Rousseff anunciou, no Palácio do Planalto, o Programa de Concessões de Rodovias e Ferrovias senti-me mais perto de ver um antigo sonho se tornar realidade. Não pensem os meus raros leitores que o meu sonho englobe os dois meios de transporte privilegiados com os 133 bilhões de investimentos que Dona Dilma destinará para o plano que,segundo uma das frases do seu discurso, servirá para “desatar nós” da economia brasileira. Sou fã de carteirinha de uma das beneficiadas: as ferrovias.

 

Tenho saudade da Copa do Mundo de 1974, na Alemanha, especialmente, porque numa das tantas viagens que os meus colegas e eu fizemos durante a competição, usamos trem. Que maravilha! Estava afastado desse meio de transporte – limpo, silencioso e extremamente confortável – desde que, como tive oportunidade de contar neste blog em uma dessas quintas-feiras, viajei do Rio a Belo Horizonte numa cabina do Vera Cruz, trem noturno que ligava o Rio a Belo-Horizonte. Narrei para a Rádio Guaíba, em Belo-Horizonte, Atlético Mineiro x Grêmio. Foi uma noite para lá de bem dormida. Trens com cabina são ótimos para a gente dormir, ao contrário do que acontece na classe turística dos aviões.

 

Minha relação com os trens começou cedo. Nasci em Caxias do Sul, na residência dos meus avós por parte de mãe, no tempo em que os partos podiam ser feitos em casa, desde que não se tratasse do cesáreos. Com uma semana de vida, os meus pais levaram-me para casa na qual moravam, em Porto Alegre. Foi a minha primeira viagem de trem. Durante minha infância viajamos, inúmeras vezes, em geral na época das férias colegiais, da capital gaúcha para Caxias e vice-versa. Lá pelas tantas da minha infância, meus pais resolveram me internar em um colégio situado em Farroupilha, o São Tiago.

 

Viajamos de trem, o mesmo que fazia o percurso entre Porto Alegre e Caxias. Foi a pior viagem da minha vida. Aquele que viria a ser o meu concunhado, o Bruno, já estava internado no mesmo colégio desde o início do ano. Eu cheguei em agosto. Éramos vizinho e companheiros nas artes, razão pela qual nossos pais adotaram a drástica solução. Desembarcamos em Farroupilha – os meus pais, o Bruno e eu – numa tarde de domingo, véspera do reinício das aulas. Nem bem coloquei os meus pertences no armário ao lado da que seria a minha cama por longos e tenebrosos seis meses, disse ao irmão que me recebera estar com dor de cabeça. Não era verdade. Queria apenas uma desculpa para ficar sozinho e ter uma chance de iniciar minha primeira fuga do internato. Fugi correndo em busca da ferrovia. Pensava que poderia, pelos trilhos do trem, ir a pé até minha cidade natal. Quando alcancei a ferrovia, o irmão Brício e o Bruno me viram e este acabou me alcançando em meio a um milharal. Essa fuga não foi a única. Na segunda, Bruno escapou comigo. Como na primeira, minha meta era chegar aos trilhos e ir até Caxias do Sul. Nove quilômetros antes dessa cidade, porém, a noite caiu e, no escuro assustador, decidimos voltar para o colégio, rezando o terço. Bem que em meio a este texto, eu disse que minha relação com trens e os seus trilhos começou cedo e, talvez por isso ,vou torcer para que o projetado transporte ferroviário, para valer, dê certo.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Vivendo e aprendendo com os anjos da bicicleta

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Vivendo e aprendendo. Quem não conhece esse ditado popularíssimo? Vou até um pouco mais longe: em algum momento, provavelmente, o amigo leitor, no mínimo, ouviu alguém repetir o velho adágio, se é que não se serviu dele num papo com amigos. Lembrei-o quando li reportagem de Priscila de Martini, colunista de ambiente do caderno Nosso Mundo Sustentável, do jornal gaúcho Zero Hora, em sua edição do último domingo. A chamada na contracapa me despertou a atenção: ”AJUDA PARA PEDALAR”. Fiquei tão curioso para saber o que continha a matéria que, contrariando o meu hábito, deixei de lado as páginas de esportes, minhas preferidas, e abri o periódico nas duas que continham a reportagem.

 

A manchete dizia:” Um anjo em duas rodas”. Abaixo, lia-se que o assunto de Priscila referia-se ao trabalho de voluntários que ajudam ciclistas a ir para as ruas. Como escrevi na abertura do meu texto desta quinta-feira, vivendo e aprendendo. Jamais havia imaginado que houvesse pessoas, anjos, segundo a autora da reportagem, especializadas, em instruir quem, como eu, teme enfrentar, pedalando bicicleta, o trânsito cada vez mais maluco, de uma cidade do tamanho da minha Porto Alegre.

 

Em São Paulo, fiquei sabendo agora, esses mestres ciclistas angelicais já existem faz tempo. Aí, com certeza, eles são ainda mais necessários do que aqui. Logo, não estou contando nada de novo. Para os ciclistas porto-alegrenses, porém, salvo melhor juízo, o trabalho gratuito executado pelos Bici Anjos precisa ser divulgado. Priscila de Martini, em sua primeira viajada tendo à frente um deles, o publicitário Cadu Carvalho, garantiu que aprendeu como o trânsito pode não ser tão assustador assim se o ciclista souber como se portar nas vias. Convém salientar, entretanto, que todas as interessantes dicas que Priscila ouviu do seu guia, somente funcionarão se motoristas e motociclistas se dispuserem a compartilhar vias públicas e até estradas, inclusive, com os que usam bicicletas tanto para passear quanto para trabalhar. Vanderlei Cappellari, diretor-presidente da EPTC, lembra que “nosso motorista acha que tem preferência na via, quando, na verdade, o próprio Código de Trânsito determina o contrário”.

 

Em Porto Alegre, há 10 voluntários cadastrados para atender aos pedidos de quem pretende pedalar com menos insegurança nas nossas ruas. Solicite os serviços de um Bici Anjo entrando no site http:/bicianjo.wordpress.com. Particularmente, enquanto os nossos motoristas tiverem pés pesados, por mais valioso que seja o trabalho dos abnegados Bicis Anjos, vou pedalar nas calçadas da Zona Sul de Porto Alegre. Bem devagar,é claro,respeitando os direitos dos pedestres.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

O poder de polícia do Governo e o chip nos automóveis

 

Faz muito tempo que li o livro que George Orwell, seu autor, chamou de “1984”. Foi a última criação literária daquele que o jornal americano Observer considerou “o maior escritor do século XX” e foi publicado em 1949, pouco antes da sua morte. Na sinopse lê-se que “Winston, herói do romance, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio no sentido histórico”.

 

Fiz esse nariz de cera, pensando no “poder de polícia”. Em sentido amplo, o “poder de polícia” significa toda e qualquer ação restritiva do Estado em relação aos direitos individuais. Lembrei-me do livro de George Orwell. Talvez meus raros leitores, se é que os possuo, caso tiveram a oportunidade de ler “1984”, entendam que comparar certas iniciativas do nosso Estado com o que se lê no romance é um tanto exagerado. Não lhes tiro a razão. Ocorre, porém, que existem, pelo menos, alguns motivos para que o “poder de polícia”, existente, hoje, no Brasil, se aproxime do enredo da obra.

 

Irritou-me, por exemplo, saber que, por decisão do Conselho Nacional de Trânsito, todos os veículos fabricados aqui, até agosto de 2013, terão, entre os seus acessórios obrigatórios,nada mais nada menos que rastreador e bloqueador. Não bastasse isso, que encarecerá o preço final dos veículos, o pior da decisão do CONTRAN está no fato de que a privacidade dos motoristas será invadida, uma vez que um dos sistemas prevê a presença de um chip no para-brisa do carro, capaz de fornecer informações para uma central de dados sempre que o veículo passar pelas antenas colocadas em ruas. Vejam só o que pode provocar o chip bisbilhoteiro: pagamento de pedágio por quilômetro rodado, limitar áreas de circulação (como em São Paulo) e multas quem não as respeitar, traçar políticas viárias. Ah,o chamado Siniav vai flagar quem estiver com o licenciamento vencido.

 

Tanta tecnologia não prevê, entretanto, ao que eu saiba, melhorias na fiscalização das ruas e rodovias por meio do aumento de efetivo das forças policiais, sejam federais ou estaduais, visando a diminuir o número de acidentes fatais. No Rio Grande do Sul, morreram, até junho, mais de mil pessoas, número igual ao registrado no primeiro semestre de 2011. Somente no fim de semana do Dia dos Pais 25 pessoas perderam a vida em acidentes. Seria interessante que o Governo brasileiro, ao contrário de inventar moda, aumentasse a remuneração do pessoal da Polícia Federal que, na terça-feira, dia em que escrevo este texto, que será lido na quinta, estava disposto a entrar em greve de protesto por melhores salários.

Reviravoltas na cobertura esportiva

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Os Jogos Olímpicos de Londres aproximam-se do seu encerramento. Este, a exemplo do que aconteceu na sua abertura, é de se imaginar, será outro espetáculo inesquecível. Duvido que, mesmo os mais exigentes turistas, jornalistas e telespectadores, ao fim e ao cabo desta Olimpíada, terão algum reparo a fazer sobre o que viram. Os que ficaram em suas casas assistindo ao que as emissoras de televisão mostraram, principalmente os felizes proprietários de tevês Full HD e 3D, com certeza, deliciaram-se com as sensacionais imagens que brotavam de seus aparelhos. Tomara que, daqui a quatro anos, quando chegar a vez de o Rio de Janeiro sediar os próximos Jogos Olímpicos, o Brasil possa também encantar o mundo, em todos os sentidos.

 

Fui um dos que tiveram a chance de acompanhar, em casa, boa parte dos jogos. Ao ver a cobertura realizada pelos meu colegas de profissão, invejando-os com santa invídia, lembrei-me da época em que compartilhei da experiência vivida na Inglaterra pelos jovens e veteranos jornalistas que lá ainda estão. Das Copas do Mundo que fui escalado para cobrir como narrador da Rádio Guaíba, a de 1974, na Alemanha, me dá saudade. Escrevi faz duas semanas, que a nossa chegada – minha e do comentarista Ruy Carlos Ostermann – começou com um susto. Achávamos que a nossa bagagem tivesse se perdido. Seria um mau começo. Para quem não leu o texto em que relatei essa história, esclareço que as encontramos no dia seguinte ao do nosso desembarque em Frankfurt. Estavam na sala de bagagens não reclamadas.

 

Conhecer a Alemanha – ou um pouquinho dela, porque jornalista e radialista não são turistas – foi muito agradável. Afinal, meu bisavô paterno,o primeiro dos Jung do meu ramo que desembarcou no Brasil, era alemão. A primeira etapa da nossa estada no país avoengo foi na industrializada cidade de Frankfurt. A equipe da Guaíba que nos precedeu, alugara um Fusca, depois trocado por um BMW. Ruy e eu viajamos com esse carro por boa parte das “bundesautobahnes”, as maravilhosas rodovias que, em 1974, já era excelentes. A última das nossas viagens foi, para mim, pelo menos, inesquecível. Precisamos sair de Honnover e ir até Essen. A maioria da equipe nos esperava hospedada em um hotel, nessa cidade. Lá pelas tantas, anoiteceu. Foi quando encontramos a primeira placa indicando que estávamos em Essen. Eu dirigia o BMW. O Ruy olhava para as placas. Andamos um pouquinho mais e começaram a surgir outras placas. Era um tal de Essen isso, Essen aquilo que parecia não ter fim. Tínhamos que tomar uma resolução. Então, entramos na próxima saída com esse nome na placa.

 

E agora? Sabíamos somente o nome do hotel em que se hospedavam os nossos companheiros. E mais nada. Não se via viva alma nas ruas. Quem sabe a gente parava numa cabina telefônica e ligava para um dos nossos? Não lembro quem atendeu e informou que tínhamos de entrar numa elevada, perto de onde nos encontrávamos. E veríamos o hotel. Chegamos aonde queríamos ir. Foram necessárias, porém, tantas voltas, subindo e descendo a elevada, que elas já ameaçavam se tornar infinitas, até que, finalmente, atinamos com a saída. Foram dois caras famintos e com sono que, ainda por cima, tiveram de suportar a gozação dos colegas.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)