Fui e continuo sendo um pai preocupado

 

Por Milton Ferretti Jung

Rota de Bicicleta

Fui e continuo sendo um pai preocupado, em especial, com a saúde e a segurança dos meus filhos e, agora, dos netos. Nem com o passar dos anos esta preocupação diminuiu. Talvez não tenha aumentado, mas continua exagerada,confesso lisamente. Já que confessei este meu problema, os meus preciosos leitores podem imaginar como ficou o meu estado de espírito quando fiquei sabendo que o responsável pela existência deste blog iria participar do Desafio Intermodal 2010, ele e Heródoto Barbeiro representando a CBN. Desculpem-me os que lembram o que cada um tinha se proposto a realizar no Desafio, mas para quem não sabe, explico: Heródoto, de helicóptero; Milton, de bicicleta, teriam de partir de local predeterminado para saber quem seria o primeiro a chegar ao Viaduto do Chá.
Soube depois que o helicóptero não conseguiu decolar por causa do mau tempo. O registro, em vídeo, do trajeto percorrido pelo Mílton (vídeo que, também, somente vi depois de concluído o Desafio) foi, para mim, o mais assustador. Afinal, sei bem o que é o trânsito em São Paulo e o que representa para um ciclista, ainda mais um pedalador nada acostumado, conduzir frágil bike, misturado com veículos de maior porte. Pelo jeito, a experiência do Mílton apenas assustou seu pai, isto é, eu. Ele repetiu a dose, mas desafiando a si próprio, quando pedalou até a CBN e de lá retornou.

Zero Hora, jornal de Porto Alegre, editou matéria de meia página sobre o crescimento do número de acidentes envolvendo bicicletas no Rio Grande do Sul. Ciclovias, na capital gaúcha, são insuficientes. Sei que isso também ocorre em São Paulo. Aqui no estado, rezam as estatísticas, enquanto diminuíram acidentes fatais automotivos e os números que dizem respeito aos envolvendo caminhões e ônibus, cresceu o número de mortes de ciclistas. Ocorre que mais pessoas estão se utilizando de bicicletas, tanto para passear quanto para trabalhar. O que fazer para evitar tragédias? Colocar à disposição não uma ou duas, mas inúmeras ciclovias. Isso. no entanto, ainda será pouco se não for resolvido o gravíssimo problema da falta de educação de motoristas, motociclistas e ciclistas. Tenho insistido e vou seguir insisitindo neste ponto, mesmo correndo o risco de ser tachado de mala.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Ao olhar para aquele gramado

 

Milton Ferretti Jung

Lembrei-me do meu avô por parte de pai ao olhar para aquele gramado (?) no qual a seleção brasileira perdeu, nos pênaltis, para a paraguaia. Derrota, seja no tempo regulamentar, na prorrogação ou numa série de penalidades máximas, ainda mais quando o perdedor é o time do nosso coração ou a seleção nacional, sempre é algo profundamente desagradável.

O amigo, que porventura leu o início desta postagem, deve estar se perguntando por que me recordei do vô Adolfo Pedro Jung e o liguei ao gramado da nossa desdita futebolística na Copa América. A questão, se levantada, é pertinente. Meu avô, que eu saiba, não dava a mínima atenção para o futebol. Ocorre, porém, ter sido ele, com seus dotes de carpinteiro, o fabricante dos mais queridos brinquedos da minha infância: um carrinho em que me empurravam; um indestrutível caminhãozinho de madeira, que tirava pedaços dos de meus amigos em todas as colisões; e uma mesa em que jogávamos futebol de botões. Ficou nisso a ligação dele com este esporte ou muito me engano.

A mesa, por incrível que pareça, ainda existe. Está aqui em casa. E resiste ao tempo. É perfeita. E tinha que ser. Até hoje guardo três times, mesmo sem ter com quem jogar. Os botões e a bolinha – e isso é fundamental neste tipo de jogo – deslizavam e ainda deslizam maravilhosamente, como se a mesa fosse nova em folha. Novos ou reformados são os estádios nos quais a Copa América está sendo disputada. Naquele em que alguns dos caríssimos jogadores da seleção brasileira desperdiçaram decisivos chutes da marca do pênalti, a grama deveria possibilitar que a bola não apenas deslizasse quando fosse esta a intenção de quem a passasse a um companheiro ou que, num chute em que a precisão é necessária – a cobrança de tiros da marca de 11 metros, por exemplo – tomasse rumos inesperados. O capricho do meu avô ao fazer a mesa de botão não foi, entretanto, o mesmo dos responsáveis pelo piso do estádio em que o Brasil perdeu para o Paraguai. Não estou tentando desculpar nossos desastrados representantes, mas não deixa de ser uma vergonha que, apenas no futebol, a cancha na qual este é praticado, não seja, como a minha mesa de botão, absolutamente perfeita.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele).

Morte de motoqueiros não surpreende

 

Milton Ferretti Jung

Assisti a um vídeo no site Terra que mostrava motoqueiros flagrados pela Polícia Rodoviária Federal fazendo racha na Fernão Dias. Todos, é claro, pilotavam motos potentes. Os infratores, provavelmente, após escutar um sermão que deve ter caído em ouvidos moucos, foram liberados. É evidente que voltarão a se exibir nas estradas, colocando em perigo a vida deles e, o que é pior, a de outras pessoas.

O vídeo não me surpreendeu. No último sábado, aproveitando a trégua concedida pelo duro inverno que os gaúchos estão enfrentando, fui a um município da serra onde se realizava uma festa em que eram servidos vinhos e queijos. No retorno a Porto Alegre, bandos de motoqueiros, não sei se fazendo rachas ou somente correndo por prazer, ultrapassaram, em altíssima velocidade, o carro que o meu cunhado dirigia. O nosso veículo rodava a 80 quilômetros por hora, máximo permitida na estrada. As motos deviam superar 150. E desciam a serra ziguezagueando entre os carros, o que, aliás, os motoboys também fazem nas cidades.

Nessa segunda-feira, era manchete num de nossos jornais, a morte de cinco motoqueiros em conseqüência de quedas e colisões. O número de acidentes fatais em que são vítimas pilotos e, inclusive, caroneiros, aumenta constantemente. Não é de causar espanto que isso ocorra. Motoqueiro pode passar pela maioria dos aparelhos controladores de velocidade sem se preocupar em ser multado. Os pardais (conforme são chamados no Rio Grande do Sul) detectam veículos de quatro ou mais rodas. Nem mesmo obstáculos, como as lombadas, conseguem obrigar motos a diminuir a marcha.

A impunidade, seja nas cidades ou nas estradas, além da absoluta falta de educação de alta porcentagem de motoristas e motoqueiros, facilita a ocorrência de abusos de todas as espécies, de uns e de outros. A educação para a vida começa em casa, mas deveria se estender às escolas e, a referente ao comportamento das pessoas no trânsito, em particular, precisaria ser matéria obrigatória, desde o primário, nos estabelecimentos de ensino. Já escrevi, não faz muito tempo, sobre tal necessidade. Não custa, porém, repetir. Afinal, velho e indesmentível adágio popular, reza que água mole em pedra dura tanto bate até que fura.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Saudade da pracinha de futebol

 

Por Milton Ferretti Jung

Quem, porventura, leu algum ou alguns dos textos por mim postados neste blog talvez imagine que sou saudosista. Houaiss, porém, informa, no seu dicionário, que essa palavra descreve quem cultiva o saudosismo. Este, por sua vez, significa “tendência, gosto fundado na valorização demasiada do passado”. Eu valorizo, sem demasias, tanto o passado quanto o presente. Já o futuro, embora me preocupe, deixo para lá, porque a Deus pertence, diz o ditado popular.

Seja lá como for, sinto saudade de meus falecidos avós, pais, de minha irmã e de muitos amigos que se foram e de outros que ainda aí estão, mas com os quais perdi contato. Tenho saudade também de coisas: meus times de botões. Guardo-os até hoje, mas nem meus netos se dispõem a jogar comigo. Todos preferem os sofisticados jogos de computador. E lhes dou razão. Afinal, também pratico alguns desses, os menos complicados, claro. Por falar nessas maravilhosas máquinas modernas, apresento mais uma prova de como dou importância ao presente. Gosto de novidades: GPS, IPod, IPad, carros modernos, repletos de air-bags, com câmbio automático e avanços incontáveis em todos os sentidos.

Não esqueço, entretanto, das coisas passadas que fizeram o encanto da minha infância: os terrenos baldios, por exemplo, quase todos, na minha zona, usados para que jogássemos peladas. Esses foram aos poucos se rarefazendo à medida que eram ocupados por residências. Sobrou a “pracinha” – como a chamávamos carinhosamente – um triângulo formado pela junção de duas ruas, situada bem na frente da casa paterna. Nela, praticamos vários esportes, embora o terreno tivesse um declive e quem jogasse na parte mais alta – a ponta aguda do triângulo – sempre ficasse em desvantagem. Havia, na “pracinha”, todo o tipo de jogo, desde bolinha de gude, vôlei e basquete, até um gol a gol disputado com bola de tênis, impulsionada a cabeçadas e, claro, as peladas, nossas preferidas. Às vezes, entretanto, nos transformávamos em espectadores.

Um pouco distante da minha rua havia um campo de futebol amador no qual jogava o União. Para nós, meninos e adultos, era o União do Buraco, porque o gramado ficava ao lado de um morro. Neste, se aboletava a maioria dos espectadores. Da janela do quarto dos meus avós, ouvia-se o barulho da bola chutada pelos “craques” que, não raramente, se desentendiam e partiam para a pauleira. Era um salve-se quem puder. Lembro que muitos dos que fugiam passavam correndo por minha rua. O futebol, no campo do União, fazia a alegria das tardes de domingo, tanto da criançada quanto dos adultos. Bem mais longe, situava-se o campo do Pombal. Este era outro dos times amadores que não deixavam de ter seus torcedores. A vantagem dessas equipes é que não precisavam ceder seus jogadores para seleções de todas as espécies ou para o futebol europeu, árabe, japonês, russo, ucraniano, etc. Não sei se algum dos nossos “craques” chegou a se profissionalizar. Isso, todavia, nunca impediu que a gente torcesse para eles.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele).

A Copa no Brasil e as minhas copas

 

Por Milton Ferretti Jung

A Copa do Mundo de 2014, como se sabe, deu origem a uma polêmica provocada pela nossa Presidente. Até Sarney se manifestou contrário à medida provisória 527, editada por Dona Dilma e aprovada pela Câmara dos Deputados, que permite ao governo manter em segredo os orçamentos feitos por órgãos da União, estados e municípios não só para as obras do Mundial, mas também, dos Jogos Olímpicos de 2016. Têm razão o Presidente do Senado e Roberto Gurgel, procurador-geral da República. Este último entende que despesas públicas não devem ser assunto sigiloso. É evidente que, num País como o nosso, qualque medida que dê margem a falcatruas – e a 527 dá – deixa todo o mundo, mesmo os mais distraídos, com a pulga atrás das orelha. Espera-se que o Senado vete o artigo da MP que trata do sigilo.

Por falar em Copa do Mundo, lembro-me da primeira que foi disputada no Brasil, em 1950, época em que, imagino, não se metia a mão no dinheiro público com a volúpia vista nos dias de hoje. Tinha 15 anos e minha lembrança daquele episódio é muito vaga. Afinal, naquele tempo a cobertura da mídia (ainda nem sequer se conhecia essa palavra) não era como a que se faz hoje. Só não esqueço é que, enquanto Brasil e Uruguai jogavam no Maracanã, estádio inaugurado em 16 de junho de 50 para permitir que o Brasil sediasse a mais importante competição disputada por seleções de futebol, eu assistia a um filme, não me perguntem qual e que amigo me fazia companhia no Cine Eldorado. Apesar de gostar de participar de peladas nos terrenos baldios da minha zona, em Porto Alegre, e de torcer para o Grêmio, minha relação com o futebol jogado nos estádios era muito distante. Ainda tenho na cabeça, entretanto, que a película foi bruscamente interrompida e uma voz irrompeu nos alto-falantes com a triste notícia da derrota brasileira na partida decisiva, contra o Uruguai. Confesso lisamente que não me abalei com a informação. Saí do cinema com a mesma cara com a qual havia entrado.

Comecei a dar mais atenção à seleção brasileiras em 1954. Então estava iniciando carreira no rádio. Comecei na Canoas que, apesar do nome, tinha estúdio em Porto Alegre. O Brasil não saiu campeão novamente na Suíça. Quatro anos depois me transferi para a Rádio Guaíba, onde ainda estou. Por esta ouvi todos os jogos do Brasil, na Copa da Suécia, em 58, como profissional radiofônico. Mendes Ribeiro narrou-os. Até ali, eu havia narrado somente uma partida de futebol: Cruzeiro e Renner, no Estádio da Montanha, mas isso antes de ir para a Guaíba. Festejei com colegas de trabalho o título conquistado por nossa seleção, desfilando no carro de um deles,meu saudoso amigo Pedro Carneio Pereira, morto num trágico acidente no Autódromo de Tarumã, em 1973, em que seu carro se chocou com o de outro competidor e os dois veículos pegaram fogo. Minha primeira Copa como narrador foi a da Alemanha. Nesta, o Brasil também não venceu. Estive de passagem na Argentina, pois relatei apenas uma partida. Na do México, em 1986, acompanhei a seleção brasileira em sua estada na bela Guadalajara. Era o narrador titular da Guaíba e não precisei ir para a Cidade do México, na final, porque o Brasil havia caído antes dela.

A do México foi a minha última Copa do Mundo na condição de narrador. Nas demais, fui apenas torcedor. Serei, na de 2014, se Deus quiser, o que fui na de 2010. Nesta, mais torci para que meu filho,o responsável por este blog,fizesse um bom trabalho jornalístico, ele que esteve lá a serviço do Portal Terra, do que mesmo pela nossa seleção. Os métodos de Dunga e algumas de suas escolhas não me agradaram. Agrada-me ainda menos a medida provisória de Dona Dilma, capaz de beneficiar os que se interessam por Copa do Mundo apenas pelos lucros ilegais que ,provavelmente, a competição lhes poderá render. Ah, por favor, se Mano Menezes for o técnico do Brasil na próxima Copa, mesmo preferindo que ele fosse realizada em outro país, vou torcer para que tenha sucesso. Sou-lhe grato pelo que fez pelo Grêmio.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quartas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele).

Fiscalizar, punir e educar para a vida no trânsito

 

Por Mílton Ferretti Jung

Em uma dessas quintas-feiras postei um texto que tratava de uma viagem que fiz com minha mulher até a praia de Tramandaí, onde temos uma casa, na qual costumamos passar parte de minhas férias de verão. Antes era possível visitá-la com alguma freqüência também nos meses frios ou, pelo menos, durante os primeiros quinze dias de março, pois aqui no Rio Grande do Sul a temperatura ainda se mantém agradável. Isso, agora, se tornou perigoso, uma vez que assaltos a residências são comuns. Arrombamentos de casas sempre foram corriqueiros no inverno, quando os veranistas retornam para suas cidades. Estes, entretanto, são praticados por ladrões locais, que somente invadem casas nas quais os proprietários não se encontram. Seja lá como for, realizar um passeio de ida e volta no mesmo dia não é problema. Só fiz o preâmbulo, porém – me desculpem os leitores – porque meu assunto de hoje está, de certa forma, ligado à viagenzinha até Tramandaí.

Impressionou-me o desrespeito aos limites de velocidade cometido, na free-way, por motoristas de caminhões, ônibus, automóveis e motos. Os veículos de grande porte não podem ultrapassar os 80 quilômetros por hora e devem se manter na faixa da esquerda da rodovia. Os demais têm licença de chegar aos 100, rodando pela direita. Li no site do Terra, no dia 8 deste mês, matéria que vai ao encontro do que observei na estrada e que resolvi imprimir para usar, oportunamente, aqui no blog. Fiquei sabendo, pela notícia, que uma das razões para que o índice de mortes no trânsito, em nosso país, seja três vezes maior do que o considerado aceitável pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é, entre outros, a fiscalização deficiente dos órgãos que cuidam do setor em nossas estradas e nas ruas das cidades. Segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil, enquanto aqui ocorrem, em acidentes, 18,3 mortes a cada ano, por 100 mil habitantes, na Grã-Bretanha, Suíça e Holanda, países com menor mortalidade no tráfego, este índice é inferior a 6.

O que fazer para diminuir o número desse tipo de mortes?

É certo que a educação para a vida – e o trânsito faz parte dela – começa em casa. Esta última, deveria se estender também aos colégios, porque – provérbio antigo, mas indesmentível – é de pequenino que se torce o pepino. Já fiscalização eficiente é fundamental para punir os que não seguem as regras, seja por dirigir em velocidade excessiva, seja porque se atrevem a conduzir embriagados, sem cinto de segurança, etc. Faz-se necessário, cada dia mais, garantir que os violadores das regras cumprirão as penas previstas pelo Código Nacional de Trânsito. Para tanto, as punições deveriam ser muita mais severas. Não se pode esquecer, por outro lado, as condições das rodovias brasileiras, eis que muitas deixam a desejar. Eu diria ainda, para concluir, que falta ao nosso país, inexplicavelmente (ou,quem sabe,seja explicáve?) ferrovias, sistema de transporte exemplarmente utilizado na Europa e desprezado no Brasil.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Erros de adição

 

Por Milton Ferretti Jung

Arrependo-me até hoje do trabalho que dei ao meu pai no tempo de estudante. Incomodei-o – e à minha mãe, por extensão – desde os primeiros momentos da minha carreira estudantil. Do jardim da infância tenho uma vaga lembrança, mas marcante, pelo jeito. E olhem, leitores, que setenta anos, mais ou menos, me separam dessa etapa.

Derrubei numa das mesinhas da escola o café que levara como merenda. E não quis mais saber de voltar, talvez envergonhado pelo que devo ter imaginado ter sido um grande desastre. Não freqüentei mais jardins da infância. Fiz os meus anos iniciais do primário num colégio dirigido por freiras franciscanas. Tive rápida passagem por um público, mas retornei ao das irmãs porque este me pareceu muito bagunçado. Acho que faltavam professores. Daí para a frente, estive em vários educandários: Roque Gonzales, Anchieta, fui internado no São Tiago,em Farroupílha (do qual fugi mais de uma vez) e, finalmente, no Colégio Nossa Senhora do Rosário, onde meus três filhos também acabaram estudando.

Seja lá como tenha sido, em todos os colégios que cursei minha matéria preferida sempre foi o português. Adorava fazer redações. Tinha prazer em lê-las, depois, diante da turma. Os professores, em geral, modéstia à parte, pareciam gostar das minhas leituras. Creio que já começava a me preparar, sem saber, para a carreira que acabei abraçando – a de locutor. Agradavam-me também tanto as lições quanto as provas de história, que permitiam dissertações orais e escritas. E escrever nunca foi meu problema. Em português, história e línguas – inglês,francês e espanhol (menos latim, que apenas os alunos do curso clássico eram obrigados a estudar), eu me dava bem. Nem sequer conseguia acompanhar com atenção as aulas dadas pelos professores dessas matérias. Quase todos os anos ficava em “segunda época” numa delas, especialmente nas provas de matemática. Acho que hoje já não existem exames orais. Nesses, os alunos, eram chamados ao púlpito e tiravam um papelzinho no qual havia um número, que correspondia ao que teriam de responder. Certa vez, um professor ,ao perceber que eu não sabia a questão que sorteara (?), chegou a me pedir que falasse sobre algo de matemática que eu soubesse. O diabo é que eu, não sabia absolutamente nada de matemática.

Pois não é que descubro agora, com espanto – não muito grande,é verdade – que o Ministério de Educação e Cultura, além de haver quebrado a cara com uma publicação polêmica sobre português, que nem convém lembrar, meteu os pés pelas mãos também na área da matemática. Como esta é uma ciência exata e não permite tergiversações de caráter ideológico, não sei que desculpa será usada para a nova gafe. É impossível explicar somas e subtrações, por exemplo, em que 9 menos 2 é igual a 5 e 8 mais 4 é igual a 11.

O festival de besteiras patrocinado pelo MEC provavelmente não derrubará um ministro, como aconteceu com Antônio Palocci. Para que alguém caia, como o da Casa Civil,é necessário mais do que simples erros de adição.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

O espírito santo de orelha

 

Por Milton Ferretti Jung

O comandante deste blog, Mílton Jung, se transferiu, em 1991, para São Paulo, com armas e bagagens (armas no sentido figurado, claro;as bagagens não exigiram nada além uma valise, se bem me lembro). Lá – escrevo de Porto Alegre, como sempre, o que explica o uso do advérbio lá – fez carreira, primeiro na televisão, depois no rádio – creio que os leitores concordam – e se transformou, mais tarde, em excelente chefe de família. Daqui, levou a saudade dos que deixou na sua cidade natal e sua paixão pelo Grêmio, ambas imensas. A propósito, ele deixa que esta fique evidente, aqui mesmo neste blog, ao escrever sob o título Avalanche Tricolor o que pensa sobre cada jogo do seu time. Admiro sua capacidade de, sempre que necessário, driblar a realidade, no seu texto, sempre que esta não corresponda ao seu desejo de ver o Grêmio vitorioso.

Foi numa dessas ocasiões, faz pouco – quem leu aquela Avalanche deve estar lembrado – que o Mílton contou ter sido, no tempo em que era gandula no Olímpico, pombo-correio de Ênio Vargas de Andrade. Ênio, que não costumava fazer mis-en-scène à beira do gramado, algo comum hoje em dia, passava ao então gurizinho a instrução que queria fazer chegar a algum jogador ou a determinado setor da equipe. Miltinho corria até o goleiro Picasso e lhe dava o recado do treinador. Ele só não contou na sua Avalanche Tricolor que, quando o Grêmio não era feliz no jogo, Ênio tinha de consolá-lo no vestiário, onde o falso gandula se debulhava em lágrimas.

A tecnologia, porém, chegou ao futebol. Os técnicos, agora, postados durante a maior parte dos dois tempos do jogo dentro de área que lhes é destinada à margem dos gramados, passam a partida inteira berrando instruções e fazendo gestos que, tenho lá minhas dúvidas, esperam que seus jogadores compreendam. Talvez os gritos, em sua maioria, caiam em ouvidos moucos. Imagino, entretanto, que a finalidade dos “professores” acabe sendo atingida, isto é, passam para os torcedores a idéia de que estão dirigindo seus atletas como se tivessem nas mãos a batuta de um maestro de orquestra sinfônica. Calma, chego agora à tecnologia a que me referi no início do parágrafo.

Os pombos-correios, graças aos celulares e aos hand-talkies, já não são mais necessários. Não sei se ainda existem técnicos capazes de dispensar os espíritos santos de orelha. Os que assim chamo, ficam em cabinas nos estádio ou, pelo menos, em posições mais elevadas do que a dos treinadores. Confesso que, como nunca ouvi a conversa entre o chefe e seu subalterno (dizem os linguarudos que, às vezes, esse entende mais de futebol que aquele) desconheço o teor do papo deles. O que eu sei é que no tempo do meu inesquecível amigo Ênio Vargas de Andrade, sobre o qual só ouvi elogios ao ser humano que era e à sua competência, seja como jogador, seja como técnico, não havia acessórios eletrônicos e, com certeza, se existissem naquela época, profissionais como ele e Telê Santana, por exemplo, dariam preferência ao tête-à-tête com os jogadores, no vestiário, antes e após as partidas. E dizer que os antigos não recebiam as polpudas somas pagas hoje a, me desculpem, muitos que não mereceriam receber salário mínimo.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Prefiro meus professores de português

 

São Paulo - Museu da Língua Portuguesa

Por Milton Ferretti Jung

Desculpem-me os leitores dessas mal traçadas linhas, mas vou voltar ao tema da última quinta-feira: o livro distribuído pelo Ministério de Educação e Cultura que provocou polêmica de âmbito nacional. Seus defensores usaram sofismas para defender a sua publicação. A opinião de Ernani Pimentel, que escreveu Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, por exemplo, diz que “muitos educadores acham que falar certo é falar rebuscado”.

Tive vários – e ótimos – professores de português. Considero-me um sujeito de sorte. Os meus mestres jamais me passaram tal idéia, pois nunca exigiram que eu, nas redações que prescreviam, usasse rebuscamentos lingüísticos. Um deles, meu saudoso Professor Marques, no Colégio Anchieta, nos mandou fazer uma “carta aos pais”. Ele costumava escalar um aluno para ler a redação diante dos colegas. Tocou para mim a leitura da “carta aos pais”. Eu havia visto no dicionário uma palavra que muito me agradara. E resolvi usá-la bem no início do texto: “Meus pais, escrevo-lhes esta ignóbil cartinha…” Até hoje fico corado quando lembro a gafe. O meu caro Professor não nos ensinava a rebuscar a linguagem utilizada em nossas redações. Repito: nenhum dos meus mestres de português (seria por coincidência apenas? )queria que rebuscássemos a linguagem. O que espero dos professores da língua chamada por Olavo Bilac de “Ultima flor do Lácio, inculta e bela…”,é que não caiam em sofismas e tratem de dar o melhor de si para ensiná-la aos seus alunos.

Na defesa do português não se pode, entretanto, cometer exageros como o praticado pelo Deputado gaúcho Raul Carrion, autor de projeto visando a barrar o uso de palavras ou expressões estrangeiras, felizmente vetado parcialmente por Tarso Genro, Governador do Rio Grande do Sul. Prestem atenção, por favor, ao texto do Artigo 1º (que, pelo menos, deveria ter sido escrito em bom português, e não foi): “Institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa, em todo o documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação por meio da palavra escrita sempre que houver em nosso idioma palavra ou expressão equivalente”.

Vá lá que as emissoras de televisão, por exemplo, não precisariam usar para denominar seus informativos a palavra “news”, porque pareça, talvez, mais charmosa dos que “novas”. É aceitável, por outro lado, que em documentos oficiais (parte vetada pelo Governador) não sejam utilizadas as tais palavras ou expressões estrangeiras que tanto horror causam (ou causaram) ao autor do projeto. Aliás, este está satisfeito com o veto parcial porque “o governador do Estado deu importância ao tema e avaliou que ele merece uma legislação. Foi uma vitória – eu diria que, de Pirro – que enriqueceu o debate na nossa população”.

De minha parte, queria ver como seria regulamentada a lei da proibição de palavras e expressões estrangeiras. Transformaria o Rio Grande amado, sem dúvida, em alvo de chacotas dos outros estados. Existe uma verdade imutável: a virtude está no meio. Nenhum projeto pode mudá-la.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A imagem deste post é do álbum digital no Flickr de Ronaldo Lima Junior

Falar errado não está certo

 

Por Milton Ferretti Jung

Quem é Machado de Assis?

Estamos, em âmbito nacional, diante de uma aberração: 485 mil estudantes dos ensinos Fundamental e Médio receberam um livro dito didático, que defende erros de português, algo surpreendente, pelo menos para mim, vindo de quem vem, isto é, do Ministério da Educação. Já em nível estadual, o deputado gaúcho Raul Carrion criou projeto, aprovado pela Assembléia Legislativa do meu Rio Grande do Sul, que prevê a proibição do uso de estrangeirismos na denominação de estabelecimentos comerciais, centros de compras, etc. O Governador Tarso Genro vetou parcialmente o tal projeto. Com isto, este voltará para a Assembléia e, talvez, os nobres deputados se deem conta, então, da asneira que fizeram ao o aprovar.

As iniciativas do MEC e de Carrion têm, alegadamente, propósitos semelhantes: aquele quer estimular a formação de cidadãos que usem a língua com flexibilidade, porque a escrita, segundo o Ministério, deve ser o espelho da fala… O parlamentar do meu estado pretende defender a nossa língua da invasão de termos estrangeiros, como se isso fosse viável num mundo cada vez mais globalizado.

Quanto ao livro polêmico, na minha opinião, se trata de mais um atentado ao tão maltratado português. Não bastasse a precariedade do seu ensino em todos os níveis de escolarização, há quem entenda, como se percebe, que falar errado está certo. Ou não? É evidente que há diferenças entre o que se escreve e o que se fala. Quem ensina o português, porém, tem obrigação de explicar que, quando é escrita, a língua precisa obedecer regras rígidas. Nisto não há como tergiversar. Fecho com o Professor Sérgio Nogueira. Conforme ele, a publição do MEC é um absurdo. “Trata-se de um incentivo ao desvio da norma. Existem variações na nossa língua. Só que todos terem de aceitar é uma outra história”.

O diabo é que se o Governador gaúcho vetou o projeto de Carrion, o mesmo não faz o Ministério da Educação e Cultura com o livro que defende erros de português.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)


A imagem que ilustra este post é do álbum digital de Joanna Maciel