O espírito santo de orelha

 

Por Milton Ferretti Jung

O comandante deste blog, Mílton Jung, se transferiu, em 1991, para São Paulo, com armas e bagagens (armas no sentido figurado, claro;as bagagens não exigiram nada além uma valise, se bem me lembro). Lá – escrevo de Porto Alegre, como sempre, o que explica o uso do advérbio lá – fez carreira, primeiro na televisão, depois no rádio – creio que os leitores concordam – e se transformou, mais tarde, em excelente chefe de família. Daqui, levou a saudade dos que deixou na sua cidade natal e sua paixão pelo Grêmio, ambas imensas. A propósito, ele deixa que esta fique evidente, aqui mesmo neste blog, ao escrever sob o título Avalanche Tricolor o que pensa sobre cada jogo do seu time. Admiro sua capacidade de, sempre que necessário, driblar a realidade, no seu texto, sempre que esta não corresponda ao seu desejo de ver o Grêmio vitorioso.

Foi numa dessas ocasiões, faz pouco – quem leu aquela Avalanche deve estar lembrado – que o Mílton contou ter sido, no tempo em que era gandula no Olímpico, pombo-correio de Ênio Vargas de Andrade. Ênio, que não costumava fazer mis-en-scène à beira do gramado, algo comum hoje em dia, passava ao então gurizinho a instrução que queria fazer chegar a algum jogador ou a determinado setor da equipe. Miltinho corria até o goleiro Picasso e lhe dava o recado do treinador. Ele só não contou na sua Avalanche Tricolor que, quando o Grêmio não era feliz no jogo, Ênio tinha de consolá-lo no vestiário, onde o falso gandula se debulhava em lágrimas.

A tecnologia, porém, chegou ao futebol. Os técnicos, agora, postados durante a maior parte dos dois tempos do jogo dentro de área que lhes é destinada à margem dos gramados, passam a partida inteira berrando instruções e fazendo gestos que, tenho lá minhas dúvidas, esperam que seus jogadores compreendam. Talvez os gritos, em sua maioria, caiam em ouvidos moucos. Imagino, entretanto, que a finalidade dos “professores” acabe sendo atingida, isto é, passam para os torcedores a idéia de que estão dirigindo seus atletas como se tivessem nas mãos a batuta de um maestro de orquestra sinfônica. Calma, chego agora à tecnologia a que me referi no início do parágrafo.

Os pombos-correios, graças aos celulares e aos hand-talkies, já não são mais necessários. Não sei se ainda existem técnicos capazes de dispensar os espíritos santos de orelha. Os que assim chamo, ficam em cabinas nos estádio ou, pelo menos, em posições mais elevadas do que a dos treinadores. Confesso que, como nunca ouvi a conversa entre o chefe e seu subalterno (dizem os linguarudos que, às vezes, esse entende mais de futebol que aquele) desconheço o teor do papo deles. O que eu sei é que no tempo do meu inesquecível amigo Ênio Vargas de Andrade, sobre o qual só ouvi elogios ao ser humano que era e à sua competência, seja como jogador, seja como técnico, não havia acessórios eletrônicos e, com certeza, se existissem naquela época, profissionais como ele e Telê Santana, por exemplo, dariam preferência ao tête-à-tête com os jogadores, no vestiário, antes e após as partidas. E dizer que os antigos não recebiam as polpudas somas pagas hoje a, me desculpem, muitos que não mereceriam receber salário mínimo.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

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