Quem não ouviu Lupicínio, perdeu a mágica

 

Por Milton Ferretti Jung

Esses moços,pobres moços,
Ah,se soubessem o que eu sei,
Não amavam,
Não passavam aquilo que
Eu já passei…

 

Como de hábito,acordei cedo nesta terça-feira,dia em que já levanto pensando no que escreverei para o blog capitaneado pelo Mílton. Já na primeira edição do Jornal da CBN,fui alertado para um fato que começou a ser comentado desde muito cedo e que de maneira alguma eu não abordaria no texto que o meu filho posta na quinta-feira:neste 16 de setembro,um dos maiores sambistas deste país,o meu patrício Lupicínio Rodrigues estaria fazendo 100 anos. Fiquei muito satisfeito ao ouvir,durante o Jornal,elogiosas referências ao compositor,autor de inúmeras músicas que fizeram grande sucesso em uma época na qual o Lupi teve de concorrer com inúmeros sambistas altamente criativos. Afora o seu vasto repertório de músicas populares,Lupicínio Rodrigues só deixou de lado o samba para assinar o Hino do Grêmio. Reza a sua biografia que Lupe,como era chamado desde pequeno,cultivava três grande paixões:a música,o bar e as mulheres. Será que exagero se acrescentar uma quarta paixão às outras três? Lupicínio não comporia o Hino do Grêmio se não fosse torcedor do Imortal Tricolor. Se ele tivesse criado apenas esta música, eu seria seu fã.

 

Abri o meu texto desta quinta-feira lembrando o início daquele samba que ele chamou de “Esses Moços”,um dos meus preferido dentre o seu vasto repertório. E olhem que é difícil pinçar uma de suas criações no meio de tanta música inspirada. Criei-me em uma época de grandes sambistas e quando virei locutor de rádio,Lupicío Rodrigues,o velho Lupe,já encantava os ouvintes das duas únicas emissoras nas quais trabalhei,fora,é claro,a Voz Alegre das Colina,o serviço de alto-falante que rodava sambas de um compositor que inventou o termo dor-de-cotovelo ou,se fosse sob “a égide” da nova ortografia,sem hífen. Desculpem-me,mas já estou aproveitando ouvir no meu computador, para matar a saudade, os sambas de Lupe. Quem não ouviu Lupicínio,perdeu a mágica.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Palavras no rádio e na TV que não consigo digerir

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Olho para trás e me dou conta de que passei a maior parte da minha vida trabalhando como radialista. Exerci várias funções,pasmem,atuando em apenas duas emissoras:a Rádio Canoas (que mudou de nome e virou Rádio Clube Metrópole ao receber concessão para funcionar em FM) e na Rádio Guaíba. Essa,inaugurada em 1957. Era um sonho dos locutores,na época,ser contratado pela rádio que se firmou no ano seguinte,1958,por ter transmitido a Copa do Mundo da Suécia com equipe própria:Mendes Ribeiro,Flávio Álcaraz Gomes e Francisco Antônio Caldas. De lá para cá,a Guaíba só não se fez presente na deste ano que os brasileiros preferem não lembrar por motivos para lá de óbvios. Além de locutor comercial,comecei a narrar futebol e,em 1964,passei a apresentar o Correspondente Renner que,modéstia à parte, foi durante muitos anos a principal síntese informativa da Guaíba.

 

O leitor – se é que tenho algum,especialmente fora do Rio Grande do Sul – não pode imaginar o que o Correspondente Renner representou,em uma época que o radiozinho de pilha era companheiro sempre presente dos agricultores. Até hoje,encontro quem diga que os pais de família não permitiam que os filhos falassem enquanto o Correspondente Renner estivesse no ar. Fiz esse intróito para dar ao leitor – insisto,se existir algum – uma ideia sobre este que lhes escreve e que vai,daqui para a frente,digitar algumas coisinha que,tanto no rádio quanto na TV atuais,não consegue digerir.

 

A grande maioria,sempre que se refere ao juiz de uma partida,diz que a arbitragem acertou ou errou. Ocorre que não é arbitragem que faz isso ou aquilo.O jogo é arbitrado só pelo juiz. Os seus auxiliares,por mais importantes que sejam,a rigor,não passam disso. O árbitro – e repito – apenas ele, é o indivíduo responsável, por fazer cumpriras regras,o regulamento e o espírito do jogo. A arbitragem é,digamos assim,o conjunto da obra. Quem manda,porém,insisto,é o que chamam,quando não fazem direito o seu trabalho,de “sopradores de apito”. Creio que os chefes desses moços que não sabem a diferença entre árbitro e arbitragem bem que poderiam ser alertados pelos seus superiores.

 

Outro erro, que já estou cansado de ouvir, é informar que “o estádio está completamente lotado”. Trata-se de um pleonasmo,isto é,repetição,na mesma frase,das mesmas ideias por meio de palavras. Narradores,comentaristas,repórteres e assemelhados,cometem os tipos de erros que citei. O pior é quando vejo que a mídia brasileirsa,com raríssims exceções,até agora não se decidiu entre chamar a maravilhosa Nova Iorque de Nova York. Que se use o nome em completamente em inglês ou todinho aportuguesado. Não pode,na minha modesta opinião,grafar o nome de maneira híbrida:Nova York.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Livre-se dessa laia, Koff

 

gremioracismo

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Quinta coluna: as gerações brasileiras que nasceram durante a Segunda Guerra Mundial talvez,dando tratos à memória,se lembrem dessas duas palavras. Se algum leitor deste blog se der ao trabalho de abrir o Google,com certeza,ficará sabendo o significado delas. Os sites especializados nos mais diversos tipos de pesquisa,comuns na internet e,diga-se de passagem,muito úteis para esclarecer dúvidas ou desconhecimentos,foram bondosos ao definir a expressão “quinta coluna”. Explicam que ela teve origem na Guerra Civil Espanhola. Nessa, o General (o Google,pelo menos,não esclareceu o nome do dito cujo)referia-se a sua tropa que ía para Madri,como quinta coluna. A expressão foi mais uma vez usada durante a Segunda Guerra Mundial para chamar os soldados que apoiavam a política dos nazistas e de seus aliados.

 

Nasci em 1935 e me criei ouvindo notícias e,mais do que isso,tomando conhecimento da ida daqueles que eram chamados,carinhosamente, de “pracinhas”,para combater os alemães e quem quer que estivesse ao lado dele. Muitos não voltaram aos seus lares. Durante boa parte da minha infância ouvi pessoas chamarem os seus desafetos ou,o que é mais grave,de quintas colunas quem fosse contrário a ida dos nossos soldados para a Europa e coisas do tipo. Alguém – se é que tenho quem me leia nas quintas-feiras – está intrigado com o motivo de eu ter ressuscitado o termo quinta coluna,inusitado nesta época de tantas palavras novas – e mal usadas – por parte das mídia,pode se espantar. E já explico o por quê.

 

O jogo entre Grêmio e Santos,no decorrer do qual “torcedores gremistas”,postados atrás do gol defendido pelas teias construídas por Aranha,ofenderam o goleiro santista com termos racistas,deixou o Imortal Tricolor em maus lençóis,o que era de se esperar,especialmente porque o STJD não gosta dos nossos representes. E não é de hoje. Escrevo este texto numa terça-feira.Como não sou adivinho,não posso saber o que o Tribunal, que não simpatiza historicamente conosco, decidiu.

 

Gostaria, mais ainda de saber,porém,que tipo de penalidades o Grêmio aplicará nos torcedores bem identificados,que contra a grande maioria dos gremistas,não só cometeu racismo na partida contra o Santos como fez de conta que não viu as faixas que os bons torcedores levaram para a Arena em Grêmio x Bahia. Pessoas desse nível têm de ser banidas do clube,especialmente aqueles que conseguiram,por interesses de ordem política,se transformarem – pasmem – em “conselheiros” do Grêmio. Chega de maus elementos,Dr.Koff! Ou isso ou os bons vão acabar sumindo da Arena.É evidente que o Grêmio tem os seus quintas colunas e ainda vai se dar mal caso não se livres desta laia.

 

Em tempo: na quarta-feira, o STJD decidiu excluir o Grêmio da Copa do Brasil.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

O mocotó do Tito Tajes

 

Por Milton Ferretti Jung

 

titofoto_Fotor_Collage

 

Tornou-se um hábito para mim ler o caderno Donna,que vem encartado aos domingos na Zero Hora,jornal gaúcho que assinamos aqui em casa. Ocorre que,como já revelei em textos anteriores deste blog,minha sobrinha Claudia Tajes,escritora de vários livros e,mais recentemente,roteirista da Globo,em sua coluna no Donna (ou seria na Donna?),volta e meia conta histórias sobre as famílias Tajes e Jung,mas separadamente. Desta vez,juntou a dela e a minha. Nesse domingo,o assunto foi “Almoço em família”. Lembrou,com riqueza de detalhes,os ágapes que o Tito,o seu pai,promovia em uma casa de veraneio e também de invernos gelados,que pertencera ao chefe do clã dos Jung – o seu Aldo,meu pai – localizada nas proximidades do Guaíba. A propósito,continuo defendendo a sua condição de rio e não,como querem teimosos e quejandos,lago.

 

A casinha de madeira foi a parte herança do meu pai que coube ao Tito e à Mirian,minha irmã e que se transformou em uma casa de alvenaria. Hoje,tenho saudade da casa antiga e dos nossos banhos diários nas águas do Guaíba,durante o verão,um rio com águas límpidas,no qual a gente entrava sem medo de se afogar,temor que me impede de enfrentar o mar. Foi essa casa que,reformada,transformou-se mais tarde no local das nossas comilanças dominicais,nas quais o Tito deixava por um dia de ser jornalista para se transformar em exímio cozinheiro. Tios e primos se reuniam,satisfeitos da vida,para saborear o variado cardápio,composto em um domingo por churrasco,no próximo por massa,feijoada ou comida árabe,como lembra a Claudia na seu texto.

 

Ah,havia o domingo do mocotó que,conforme a Claudinha,acontecia uma vez a cada inverno. Pelo jeito,nem todos apreciavam mocotó. A culpa era do odor que danado,enquanto ficava em ebulição,horss e horas,no fogão à lenha. Não recordo,mas a Claudia garante que o cheiro saía da panela e grudava (será que cheiro gruda?)nos cabelos e nas roupas dos convivas. Não sei se o Mílton,que é o âncora deste blog,tem em sua coleção de fotos a dos Jung e Tajes em um dos almoços dominicais que eu,particularmente,jamais vou esquecer. A Claudia bem que poderia parafrasear o seu texto desse domingo chamando-o de “Conte a sua historia de Porto Alegre”. Tenho certeza de que o Mílton o leria com grande prazer.

 

Nota do Blogueiro: fotos dos almoços de domingo não temos, mas apresentamos na ilustração deste post as imagens do cozinheiro, jornalista e meu tio Tito Tajes

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Atropelando o bom senso e a língua portuguesa

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Invejo os colunistas de jornais diários que necessitam encontrar a cada dia assuntos capazes de satisfazer aos seus leitores e sempre descobrem um tema. Houve uma época na qual eu escrevia aos domingos sobre futebol,dividindo com Ibsen Pinheiro meia página do Correio do Povo. Ele tratava do Internacional e eu,do Grêmio. Quem não está a par da rivalidade que reina absoluta no futebol do Rio Grande do Sul talvez desconheça que os meios de comunicação gaúchos devem cuidar para não fazer diferença entre os dois times. Hoje,o meu compromisso com o blog do Mílton me permite escrever sobre assuntos variados,inclusive futebol. Nem por isso,entretanto,fico menos agoniado quando chega a terça-feira,dia em que entrego o meu trabalhinho para o âncora deste blog.E não há nada a me inspirar. Não é,felizmente,o caso de hoje.

 

Chamou-me a atenção matéria publicada pela Zero Hora dessa segunda-feira. Trata de trânsito,assunto com o qual preenchi muitos dos meus textos de quinta. O jornal começa assustando quem tem de enfrentar,especialmente,as rodovias deste país,ao lembrar que,”em uma década,meio milhão de pessoas tiveram as vidas interrompidas em ruas e estradas do Brasil,enquanto outros 2 milhões ficaram feridos”.Os dados foram compilados pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na proporção para cada 100 mil habitantes,o Brasil ganha – acho melhor dizer que perde – de goleada para os Estados Unidos,Finlândia,China e Reino Unido. As estatísticas não tratam de quantos desses acidentes fatais tiveram caminhões como participantes. É incompreensível que,em uma terra como a nossa as ferrovias sejam as filhas desprezadas. Por quê? Seria interessante que essa pergunta fosse feita para a candidata à reeleição,Dona Dilma,em cujo governo nada foi feito em prol do transporte ferroviário,muito menos poluente e pouco sujeito a acidentes. Pelo menos,não se encontra,entre os maquinistas,bêbados e drogados.

 

Os números que acabei de repetir,retirados da reportagem sobre acidentes de trânsito,deveriam preocupar,por exemplo,os nossos senadores. Mas não é o que ocorre. Pelo jeito,resolveram imitar os linguistas e assemelhados,eis que estão estudando modificar,novamente,as regras ortográficas que,segundo imagino,não é assunto para curiosos. Ou eles são doutos em ortografia? O último acordo ortográfico,droga contestada por professores de português,que retirou o hífen de várias palavras,ainda nem foi assimilado pelos viventes de todas as idades,e já querem nos impor mudanças ainda mais estúpidas do que a última. Os portugueses,simplesmente,não ligaram para a reforma,eis que ainda chamam meninos de putinhos e insistem em meter um “c” em facto,além de outras idiossincrasias que vão impedir por “saecula seaculorum” que falemos todos a mesma língua,sem tirar nem por.

 

Imaginem que o “H” desapareça,o “G”fique com som de “GUE”,o “CH” seja substituído por “X”e outras asneiras que as alterações trarão no seu bojo. A vontade que eu tenho é de “EZECUTAR”os nossos senadores e todo e qualquer defensor de nova reforma ortográfica. Como cantaria Roberto Carlos,”quero que vá tudo pro inferno”!!!

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele).

Passeando de mãos dadas com meu pai

 


Por Milton Ferretti Jung

 

00a3affe

 

Espero que ninguém estranhe que este texto trate do Dia dos Pais,cuja comemoração ocorreu no domingo passado,10 de agosto,data em que a maioria faz almoços comemorativos, caso tenha pai vivo, ou lembre, com saudade sempre renovada nessas ocasiões, aqueles que já se foram. Graças a Deus ainda posso festejar a efeméride com a Jacqueline e o Christian,além de manter contato telefônico com o Mílton.É uma agradável troca de cumprimentos,eis que tanto eu quanto os meus filhos também são pais e me deram quatro netos.

 

Afora o prazer do nosso reencontro,ao vivo com o Christian e a Jacque e, pelo celular, com o âncora deste blog,o Mílton deu-me o prazer de ler mais um dos seus sempre inspirados textos,este sobre o significado do Dia dos Pais,no qual lembrou um episódio que vivemos quando ele era bem pequeno,inesquecível para ambos. Tenho certeza que os leitores deste blog já leram ou ainda lerão (recomendo que leiam,se ainda não o fizeram),uma Avalanche Tricolor que não fala somente das relações entre pais e filhos,mas de como aqueles influenciam seus filhos na escolha da cor clubista. Mesmo que possam ler aí acima a última frase do texto criado pelo Mílton,permito-me reproduzi-la,o que faço com os olhos marejados: “É diante de tudo isso que,neste domingo,independentemente de quanto não merecíamos o resultado alcançado,que lhe agradeço pai por ter-me ajudado a ser o homem que sou. E,claro,por ser gremista”.

 

O domingo me reservou uma outra surpresa,essa quando li o que Claudia Tajes,minha sobrinha escritora e colunista do caderno Donna,encartado na ZH dominical,escreveu e postou fotos relativas ao Dia dos Pais. Duas mostram o pai dela,Tito Tajes e outra com o avô dela – meu pai,Aldo Jung – passeando na Rua da Praia,de mãos dadas,comigo e com minha irmã,Mirian,mãe da Claudinha. Talvez ela nem ficará sabendo que o seu texto também marejou os meus olhos e,em especial,a foto do meu pai,ainda bem jovem,trajando impecável roupa branca,contrastando com o cabelo bem preto. Resta-me agradecer a minha sobrinha pela postagem das fotos do meu pai e do pai dela.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A lei da palmada e a falta de disciplina

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Não sei se sou apenas um senhor idoso,um velho impertinente ou um sujeito demasiadamente exigente sem que isso tenha alguma ligação com os meus quase 78 anos. É possível também que eu não preencha nenhum dos três quesitos que expus na primeira frase do meu texto desta quinta-feira e, neste caso,esteja cheio de razão quando não concordo com uma lei aprovada pelo Senado e com uma ideia do Conselho Estadual de Educação do Rio Grande do Sul. Vou por partes.

 

O senadores aprovaram na início de junho a Lei da Palmada ou lei do menino Bernardo,esse vitimado por crime hediondo cometido na cidade gaúcha de Três Passos. A legislação altera o Estatuto da Criança e do Adolescente na medida em que os pais não podem castigar os seus filhos de maneira a lhes impor sofrimento ou lesões. Até aí,não há o que se discutir. Há pais desnaturados que continuarão,com lei ou sem lei,a tratar os filhos com violência e até abusar sexualmente deles. Esses têm de arcar com os rigores da lei. O Estado – pergunta-se – teria poder para interferir na educação das crianças. Há controvérsias.Estaria correto coibir a “palmada pedagógica”? Penso que não. Trata-se do que eu chamaria de santa palmada,que não machuca e ajuda a dar a entender às crianças que elas precisam se dar conta de que os seus pais é que mandam em casa. Afinal,todos nós,seja no jardim-da-infância e daí para a frente sempre teremos que aceitar comandos de todas as espécies e em todos os estágios de sua existência.

 

Sou pai de três filhos e avô de quatro netos. Lembro-me,apenas,de ter dado um tapa na bundinha do Mílton ao vê-lo,no dia em que o Inter inaugurava o seu estádio,passear pela calçada com uma bandeirinha do nosso tradicional adversário,que lhe foi dada por “banditismo”de um parente colorado. Foi um exagero que me doeu por muito tempo. Quando criança e adolescente,levei chineladas da minha mãe. E ela sempre tirava o chinelo com boas razões.

 

Já o Conselho Estadual de Educação está,a meu modesto ver,prevendo que as escolas gaúchas não reprimam a indisciplina com afastamento do aluno ou sua transferência. Estamos diante de mais uma medida,no mínimo,polêmica. Desde já tenho pena dos professores se a ideia do Conselho for posta em prática. Tenho uma filha que é professora de uma escola situada em uma vila de Porto Alegre. Seus alunos são crianças entre cinco e seis anos. E ela passa enorme trabalho para os manter com um pouco de disciplina. Imagino o que os seus alunozinhos farão quando forem adolescentes. Conheço inúmeros professores que desistiram da profissão por se sentirem incapazes de dar aulas a adolescentes e outros já marmanjos,eis que esses,por dá cá aquela palha,chegam ao ponto de ameaçá-los fisicamente. A presidente do Conselho Estadual de Educação,Cecília Farias, entende que a escola não pode ser punitiva,mas deve investir na solução dos problemas dos alunos para mantê-los nos colégios”. Será que ela,atualmente,trabalha em sala de aula? Já Osvino Toillier,vice-presidente do Sinepe/RS,diz que a pretensão do Conselho “vai tirar o último resquício de autoridade da escola”. E concluiu afirmando: ”Se você tem algum aluno que coloca outros em risco,perde a liberdade de definir o afastasmento”. Li essas duas posições na ZH do último dia 4 de agosto. Fico com a do professor Toillier.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele), que aprendeu bem a lição.

Procura-se o Felipão dos velhos tempos

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Obriguei-me,durante a Copa do Mundo,a tratar de futebol. Antes do Mundial esse era um assunto que somente abordava ao comentar o que o Mílton escrevia neste blog após cada jogo do Grêmio. Vou,nesta quinta-feira,retornar ao tema,eis que o nosso time – o dele e o meu – saíram do lugar comum ao trazer de volta um dos mais discutidos técnicos de futebol não apenas do Brasil,mas do mundo,em razão do elástico 7 x 1 aplicado,sem dó nem piedade pelos alemães,na nossa Seleção. Duvido que, até hoje,nem mesmo os maiores “experts” em futebol se atrevam a dizer,sem medo de errar, qual foi a verdadeira razão do tremendo apagão sofrido,em uma Copa do Mundo,por um selecionado que,além de ter sido pentacampeão do mundo em 2002,,derrotando na final a Alemanha que,de certa forma,12 anos depois,se vingou ao enfrentar o técnico responsável por nossa vitória:Luiz Felipe Scolari.

 

É esse,exatamente,o treinador escolhido pelo Grêmio para substituir Enderson Moreira,aposta fracassada da direção tricolor. Zero Hora postou,na capa de sua edição de 29 de julho,essa manchete: “Em busca do técnico perfeito”. Não creio que exista tal tipo de profissional. Muito são bons…enquanto não esbarram em uma série de maus resultados. O que levou Fábio Koff a trazer de volta Felipão? Em primeiro lugar,o presidente gremista mostrou que o passado dele – Scolari – no Olímpico,está acima de qualquer suspeita. Sua passagem pelo velho estádio foi uma das mais exitosas que os gremistas da minha idade têm na lembrança,sem falar,é claro,na de Ênio Andrade,que deu ao Grêmio o primeiro título nacional em um jogo inesquecível contra o São Paulo,no Morumbi. Lembro-me,como se fosse hoje,como Ênio,conversando comigo às vésperas da partida final,explicou-me como pretendia que o Grêmio jogasse. E deu no que deu. Desculpem-me,caros e raros leitores,por ter colocado Ênio Vargas de Andrade em meu texto. Com estilo bem diferente de Luiz Felipe – jamais ouviu-se um palavrão brotar da boca do meu amigo Ênio – enquanto,no dia da derrota acachapante da Seleção Brasileira,proferiu-os sem papas na língua. Seja lá como for,eu gostaria de ver de retorno ao Grêmio um Felipão igualzinho ao dos velhos tempos,em que garimpou,no Olímpico,uma carreira cheia de vitórias. Koff,ao trazê-lo de volta,deve ter baseado a sua escolha no Felipão que ainda não era famoso.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Textos são invadidos por palavras-clichês

 


Por Milton Ferretti Jung

 

Claudia Tajes,minha sobrinha,que já citei no mínimo duas vezes nos meus textos,em sua coluna no Donna,caderno dominical do jornal Zero Hora,periódico gaúcho,talvez ainda sob a influência da Copa do Mundo,criticou os lugares comuns preferidos pelos jogadores de futebol – os brasileiros,claro – quando,após as partidas,são entrevistados pelos repórteres que correm para os ouvir como se deles fossem extrair sábias declarações,capazes até de renderem manchetes. Permito-me repetir as que a Claudia escolheu e intitulou de “Os campeões do clichê”:

 

“Agora é levantar a cabeça e seguir em frente;a vida continua e não é um insucesso que vai abater a nossa equipe;a gente pecou em alguns aspectos e pagou o preço no final;tem que assumir a responsabilidade e começar a pensar em 2018;não é porque a gente perdeu que vai dizer que está tudo errado”.

 

Não se pode esperar muito mais de jogadores,a maioria pessoas de pouquíssimo ou nenhum estudo. Há,porém,quem tem condições de se expressar melhor e dizer coisa com coisa,embora eu entenda que depois de uma derrota por 7 x 1 seria bem mais interessante que os responsáveis pela catastrófica cifra sumissem do mapa. Claudia,na sua coluna, enumera também anúncios que encheram a paciência dos telespectadores,além de políticos e candidatos que concorrerão às eleições em outubro e que,em seus discursos,não conseguem fugir dos clichês.

 

Já as palavras-clichês,não sei bem a partir de que data,começaram a invadir toda espécie de textos. Stanislaw Ponte Preta,se vivo fosse,teria material para encher bibliotecas com novas edições do seu livro O Festival de Besteiras que Assola o País. Fazia tempo que pensava em reunir em um dos meus textos de quinta-feira no blog do Mílton. Não sei quem é ou quais são os responsáveis pelo lançamento de palavras-clichês Vejo que elas invadem,principalmente,a mídia impressa. Uma delas é “apontar”. Não passa dia em que não lemos nas páginas dos jornais. Bastaria que,de vez em quando,o verbo apontar fosse substituído por seus sinônimos, por exemplo,indicar,embora tenha muitos, entre eles, indigitar, mostrar,etc. Pior,se é que se pode considerar um modismo mais irritante do que outro,a locução“por conta de” passou a ficar presente na boca de meio mundo,como se não pudesse ser substituída por um simples “porque” ,“por causa”,”devido a”,etc.

 

Os erros,depois que os jornais demitiram os seus revisores, se amontoam nos textos de quem divulga notícias de contratações de jogadores,seja nos jornais seja nas rádios. É comum ler-se ou se escutar esta frase: O Grêmio contratou, junto ao Dnipro, o ex-colorado Giuliano. Errado:o Grêmio adquiriu,comprou ou tomou emprestado ao Dnipro o ex-colorado Giuliano. Está errado também informar que,por exemplo,João Paulo deu entrada a um processo “junto a …”. O processo não chegará ao destinatário,mas ficará aguardando que seja encaminhado ao juiz.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no blog do Mílton Jung (o filho dele)

Cara de quem ganha é bem diferente da cara de quem perde

 

Por Milton Ferretti Jung

 

 

Cara de quem ganha é bem diferente da cara de quem perde. Basta que,como diria o Mílton,os meus raros leitores tenham aberto o vídeo acima deste texto e, tanto visto quanto ouvido, a coreografia dos Campeões do Mundo ao gozar com os argentinos. Malena,minha mulher,acha muito feio o que os alemães fizeram ao lembrar,cantando a plenos pulmões,enquanto dançam alegres, que “asi andan los gauchos” – de cabeça baixa – enquanto eles,como vitoriosos que foram,ficam eretos. Não é de se duvidar que os gaúchos deste lado do continente prefeririam ver os germânicos dançando com os pataxós aqui no Brasil,imagem bem mais simpática,aliás,que a do vídeo que encabeça o que,antigamente,se chamaria de mal traçadas linhas. Malena,que torceu pelos “hermanos” como se estivessem vestidos com a camiseta do Grêmio,não digeriu a brincadeira da turma que representou a Deutschland Über Alles na Copa do Mundo. É bem possível que os argentinos tenham visto a farra alemã como brincadeira de mau gosto.

 

Pode-se discutir a correção dela,mas é indiscutível que o título que premiou a Alemanha não teve nada de ocasional. Ocasional,me atrevo a dizer,seria se a Seleção Brasileira, mesmo que não houvesse sido vitimada por goleada vexatória e,em seguida,por outra derrota,deixou claro não merecer resultado menos infeliz. Fosse apenas a deficiência técnica da Seleção Brasileira a causa do cataclisma, a preocupação de quem deseja que,nos próximos anos,o nosso futebol viva tempos melhores,aumenta ao invés de diminuir,quando a gente se dá conta de que o exemplo da Alemanha dificilmente será seguido.Afinal,os nossos pró-homens(?)são todos da mesma casta,para não dizer, laia. Olha-se para o futuro e o que se vê? Dos gestores da CBF aos das Federações regionais será que existe algum que o amigo leitor se encorajaria de aceitar como genro?

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)