Há dois meses, o texto abaixo foi publicado no Blog Serendipitanto, da que se auto-intitula quase-jornalista Fernanda Campgnucci, que está na co-produção do CBN São Paulo. Neste tempo todo, ela monitorou as buscas à reportagem feitas por internautas e descobriu que muitos que chegaram lá procuravam kit aborto, cytotex compra e anti-inflamatório uterino. Houve quem estava atrás de orientação sobre como usar os abortivos, também.
É provável que todos estes tenham se decepcionado com o resultado da busca feita. Fernanda, com sua reportagem, não ensina o caminho do aborto, relata a realidade brasileira – certa ou errada – no momento em que se pretende autorizar que bebês que nascerão sem cérebro (leia-se, sem chance de sobreviver) sejam abortados.
Leia e ouça a reportagem e deixe sua opinião sobre o tema:
“Com uma rápida troca de e-mails, é possível comprar, pela internet, verdadeiros kits de aborto. Sem saber que falava com uma repórter, um vendedor afirmou que trabalha com isso há 4 anos e nunca foi pego. Clique aqui para ouvir a reportagem que fiz e leia mais sobre o tema abaixo, no post A indesejada.
Do fundo de quintal para a internet
Você quer RU, ou Cytotec?, perguntou a voz do outro lado da linha. O vendedor explicou as diferenças dos remédios que vende, via internet, junto a kits de aborto que chegam a custar de R$ 300 a R$ 500. O Cytotec é um remédio para úlcera, mas é usado para provocar contrações uterinas. O RU 486 é da Europa, foi criado na França especificamente para o aborto. O RU é mais eficaz. Sua entrada é proibida no Brasil, disse.
Além dos comprimidos abortivos, os kits contêm um anti-inflamatório para previnir infecções uterinas e hemorragias; um normalizador uterino, essencial para voltar o útero ao tamanho normal e normalizar a irrigação sangüínea; um aplicador intra-uterino (aparelho para fazer a introdução do comprimido na vagina) e um manual de utilização que eu mesmo escrevi, afirma o vendedor que forneceu um celular, acreditando que falava com uma cliente indecisa.
Mais três e-mails trocados com pessoas que anunciavam a venda desses comprimidos em fóruns e blogs na internet e outras opções surgiram. Além do envio com depósito antecipado e sedex a cobrar, outro vendedor disse que enviava o kit por meio de motoboy, a moradores do Rio de Janeiro. Um deles anunciou que seu manual havia sido escrito por um enfermeiro especialista em aborto.
Outro afirmou ser um dos médicos vendedores mais conhecidos do Brasil e afirmou que esta no mercado há 10 anos. Ele assinou seu e-mail com o numero de um CRM válido, mas não quis dar seu telefone. Por questões de sigilo e segurança não faço contato telefônico. Caso você comercializa-se (sic) medicamentos ilegais faria esse tipo de contato? Não se iluda com quem lhe informa qualquer telefone, certamente não lhe entregará o produto, escreveu.
O vendedor disse que o único cuidado que toma é não enviar nenhuma descrição do remédio para que o cliente não tenha problemas numa eventual fiscalização nos Correios. Nesse caso a mercadoria volta para mim, afirma. Questionado se já aconteceu de confiscarem seu produto, ele disse que a fiscalização é muito rara: isso é muito remoto de acontecer. Há quatro anos trabalho com isso e nunca me aconteceu nada, diz.
De acordo com o advogado especializado em crime eletrônico, Renato Opice Blum, tanto a venda quanto a compra de remédios abortivos pela internet são ilegais. A comercialização desses produtos com a finalidade específica de provocar o aborto é um crime contra a vida, o crime de aborto, previsto no artigo 124 do código penal, afirma. A pena varia de um a três anos de detenção.
Enquanto isso, o debate sobre a descriminalização do aborto permanece empacado no Congresso Nacional”