Presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (Foto: Pedro França/Agência Senado)
“Cada um faz aquilo que melhor faz, ele (o presidente) tem feito muito isso no governo, né!?!”
O presidente da CPI, senador Omar Aziz, foi curto e grosso na primeira resposta que deu hoje, na entrevista que Frederico Goulart e eu fizemos, no Jornal da CBN, quando perguntei a ele sobre um inusitado palavrão dito por Bolsonaro em seu “cercadinho” digital.
O que o presidente melhor faz, segundo o senador da República pelo estado do Amazonas? Para que fique claro, vamos antes a sequência de fatos que levaram à frase de Aziz, hoje cedo.
No dia 25 de junho, os irmãos Miranda —- o Luis Deputado e o Luiz Servidor — estiveram na CPI da Covid e disseram que levaram ao presidente Jair Bolsonaro denúncia de irregularidades na compra da vacina Covaxin, da Índia. No encontro que ocorreu no Palácio do Planalto, em 20 de março, Bolsonaro teria dito que entregaria o caso à Polícia Federal. Teria dito mais, segundo os Miranda:
“Isso é coisa do Ricardo Barros. [Palavrão], mais uma vez”
Ricardo Barros, deputado federal e líder do Governo Bolsonaro na Câmara, foi rápido no Twitter: no mesmo dia, negou qualquer envolvimento com irregularidades.
Já o presidente, se calou. E calado se manteve.
Diante do silêncio —- nem no cercadinho havia se pronunciado —-, a CPI entregou, ontem, dia 8 de julho, uma carta no Palácio do Planalto, assinada por Omar Aziz, Randolfe Rodrigues, vice-presidente da CPI, e o relator Renan Calheiros. Eles pediram para que Bolsonaro se pronunciasse quanto as denúncias. E o fizesse de forma ‘clara, cristalina, republicana e institucional’:
“Somente Vossa Excelência pode retirar o peso terrível desta suspeição tão grave dos ombros deste experimentado político, o Deputado Ricardo Barros, o qual serve seu governo numa função proeminente.”
À noite, Bolsonaro, já no “cercadinho digital” — aquela live que realiza todas as quintas-feiras —, proferiu a frase que deve ter saído dos anais dele:
“Caguei para a CPI, não vou responder”
Fatos relacionados e contextualizados, imagino, fica claro e cristalino —- ao mesmo tempo que pouco republicano e nada institucional —- o que o presidente da CPI pensa ser o maior “mérito” do presidente da República.
Se quiser saber mais, ouça a entrevista completa com o senador Osmar Aziz:
Era bem cedo, 6h30 da manhã, quando o doutor João Gabardo já dava explicações na rádio sobre porque São Paulo havia relaxado às restrições ao comércio mesmo diante da informação de que a variante delta está circulando entre nós. Ele é o coordenador-executivo do Centro de Contingência de Combate ao Coronavírus do estado de São Paulo —- grupo que olha para índices de morte, contaminação e internações nos hospitais e avisa ao Palácio do Governo: a coisa está ruim, melhor fechar tudo; não vamos mexer em time que está ganhando porque está estável; ou, o que mais os palacianos gostam de ouvir, melhorou um pouco, pode afrouxar. Nesta semana, afrouxaram: comércio fica aberto até mais tarde, permitiu-se mais gente dentro de bares e restaurantes e se planeja eventos testes.
No mesmo horário — no relógio do Mato Grosso do Sul, que está uma hora atrás em relação a São Paulo —-, o governador Reinaldo Azambuja, atendeu ao telefone para conversar com a gente na rádio e falar de como está a situação do estado no combate a pandemia. No início de junho, Mato Grosso do Sul exportava pacientes com Covid-19 para São Paulo, hoje reduziu número de internações e tem a maior cobertura vacinal de todas as unidades da federação: 24,47% da população recebeu as duas doses.
Azambuja disse que isso é resultado de diálogo. Eu prefiro traduzir por vacina, que é o que realmente interessa nesta hora:
“O estado está oferecendo incentivos financeiros para os municípios que aplicam mais doses do imunizante, com equipes que trabalham aos finais de semana”
São Paulo tem até agora 14,7% da população com o ciclo vacinal completo. Vai ter de acelerar. E não é para superar o Mato Grosso do Sul. É para impedir que a variante delta impulsione novamente para cima os números de mortes, contaminados e internados em estado grave.
Gabbardo disse que número de óbitos caiu 10,6% na semana passada; de novos casos, 20%; e de novas internações, 10,4%. As UTIs têm folga para atender pacientes mais graves. Na Grande São Paulo, por exemplo, a ocupação é de 62%. Foram esses os dados que permitiram o estado dar uma folga para o comércio.
Quanto a variante delta —- aquela que surgiu na India —, Gabbardo falou que, primeiro é preciso monitorar e fazer mapeamento genético e, depois, entender como esse vírus se comporta. Lembra que o Reino Unido — onde a variante delta predomina — aumentou a circulação e transmissão do vírus e tem uma taxa de novos casos maior do que São Paulo, no entanto esse aumento não veio acompanhando de crescimento nos casos graves e óbitos. Se em São Paulo, a taxa de mortalidade é de 1,14 pessoas por 100 mil habitantes, no Reino Unido é de 0,03.
“No Reino Unido, a taxa de mortalidade é 38 vezes menor do que no estado de São Paulo, porque as pessoas mais idosas e o público mais vulnerável estão vacinados e a imunização está bem mais avançada”.
Nas duas entrevistas, ouvimos o compromisso de que SP e MS vão aumentar a velocidade da vacinação e espalhar o imunizante para a maior parte da população até o fim de agosto.
Encerradas as conversas com Gabbardo e Azambuja, fiquei com a convicção de que se comprássemos vacina na hora certa — em lugar de criar dificuldade para ganhar pixuleco — muitas mortes seriam evitadas. Quantas? Não sei ao certo. Dia desses, ouvi, na CPI, o doutor Pedro Hallal, epidemiologista da UFPel, falar em até 400 mil mortes a menos, mas para isso era necessário ter investido de verdade nas medidas de controle, no distanciamento social e na celeridade da vacinação.
“A crise da educação não é uma crise, é um projeto”
A frase de Darcy Ribeiro foi lembrada hoje cedo pelo professor Mário Sérgio Cortella, em nossa Conversa de Primeira, para ilustrar a notícia de que o presidente Jair Bolsonaro vai ao STF para impedir que R$ 2,5 bi sejam investidos na infraestrutura que permitiria acesso de alunos da rede pública à internet. Informação que se soma a outra publicada pelo O Globo, manchete na editoria de Educação:
Tudo isso foi dito pouco depois da entrevista que Cássia Godoy e eu fizemos com Florence Bauer, representante do Unicef no Brasil, que antecipou alguns dos argumentos e dados que seriam apresentados em seminário com o tema “A reabertura segura das escolas”:
“O Brasil foi um dos países que mais tempo mantiveram as escolas fechadas e, hoje, apenas dois em cada 10 adolescentes têm algum tipo de contato com a sala de aula”.
Um número que foi registrado em novembro do ano passado —- e como nada mudou de lá para cá, tende a ser ainda pior: 5 milhões das crianças brasileiras perderam o vínculo com a escola durante a pandemia. Antes eram 1,5 milhão.
Por aí se vê o tamanho do desafio que o país enfrenta. Esses jovens precisarão ser resgatados pelo ensino e não se vê quase nenhuma ação de governo para engajá-los. Florence sugere a estratégia da busca ativa, que já é desenvolvida corriqueiramente pelas prefeituras, que identificam as famílias que não colocam seus filhos na escola —- mesmo que alguns estejam matriculados —, fazem contato com os pais e tentam convencê-los da importância de os filhos voltarem à sala de aula.
“Apesar de todos os esforços feitos pelas escolas e educadores para manter a educação remota, os adolescentes mais vulneráveis não conseguem estudar”
Eis outra encrenca. Porque, mesmo que se ofereça o mínimo de segurança sanitária para que as aulas sejam retomadas —- e isso se faz urgente —, a maioria dos alunos chegará com ensino defasado, sem contar outras condições socioemocionais que podem tornar essa volta à escola mais difícil.
A fórmula para a retomada das aulas já é conhecida, ensinou Florence Bauer: máscara, distanciamento, ventilação e diálogo com professores e toda comunidade escolar.
Ouça a entrevista completa com Flaurence Bauer, do Unicef Brasil:
Responder o que você faria com 150 reais a mais no bolso diz muito sobre qual é a sua situação financeira. Para alguns brasileiros, esse dinheiro não paga o happy hour no fim do dia de trabalho. Para outros, será um reforço no orçamento doméstico. Para muitos, é a diferença entre comer e passar fome. Esse é valor que um trabalhador informal com renda familiar até três salários mínimos, morando sozinho, tem direito a receber de ajuda pelas regras do auxílio emergencial, criado ano passado para atender as pessoas que mais sofrem com as restrições necessárias para combater a Covid-19.
O governo decidiu agora que vai pagar o auxílio por mais três meses estendendo a ajuda para agosto, setembro e outubro. Para quem mora sozinho e tem direito ao benefício é a garantia de mais 450 reais no bolso; para mulheres que são chefe de família, mais 1.125 reais; e para os demais entrarão na conta 750 reais, parcelados em três vezes.
Vamos lembrar que no ano passado o auxílio era de 600 reais, por mês —- mulheres chefe de família recebiam até 1.200 reais —, foi interrompido em dezembro e retornou com valores menores em abril deste ano. Esse vai e vem de pagamento e sobe e desce de valores mexeu consideravelmente na vida de pessoas que vivem próximo da linha pobreza, como constataram estudos da FGV Social.
Pra ter ideia, até agosto de 2020, 15 milhões de brasileiros deixaram a situação de extrema pobreza, uma queda de 23,7% em comparação com o ano anterior, graças a essa transferência de renda. Mesmo considerando que ainda havia 50 milhões de pessoas em situação de miséria, foi o maior movimento social que se assistiu no país.
O diretor da FGV Social, Marcelo Neri, entrevistado de hoje do Jornal da CBN, calcula que a prorrogação do auxílio emergencial vai evitar que 6 milhões de pessoas voltem para a linha de pobreza. Para o economista, a medida de continuidade foi uma solução razoável:
“Não é a cura do problema, mas uma anestesia importante”
A despeito de que toda e qualquer ajuda é bem-vinda, é preciso ressaltar que este dinheiro chegará às mãos dos mais pobres com 1/4 do seu valor comprometido pela inflação —- o aumento de preços do gás, energia e alimentos pesa muito mais nas classes sociais mais baixas.
Na conversa que Cássia Godoy e eu tivemos com Marcelo Neri ouvimos dele o alerta para o que considera ser dois pecados cometidos na pandemia: a questão da saúde, que tornou os mais pobres ainda mais vulneráveis, e a da educação, com crianças e adolescentes fora da escola, “como se isso não gerasse nenhuma perda” —- o que vai cobrar um preço caro no longo prazo, segundo o economista.
Um dos pontos que me chamaram atenção na entrevista foi quanto a preocupação dele com a juventude que deixa de estudar e não encontra vaga no mercado de trabalho — tema que já foi assunto aqui no blog e voltaremos a tratar em breve. São necessárias ações específicas de incentivo para a contratação de mão obra mais jovem que foram os que mais perderam renda de trabalho na pandemia —- 18%, segundo cálculos da FGV Social.
“Precisa algum tipo de iniciativa. O jovem não tem experiência e não consegue emprego. É preciso alguma coisa para conciliar trabalho e estudo. Até agora, a gente, concretamente, não fez nada com isso, embora tenham ocorrido alguns balões de ensaio … e isso deixa cicatrizes“
Ouça a entrevista completa com Marcelo Neri, da FGV Social
Todas as vacinas disponíveis no Brasil são seguras e eficazes e, por isso, a turnê realizada por alguns brasileiros em busca do imunizante preferido é inconsequente e egoísta. Foi o que nos disse, nesta manhã, no Jornal da CBN, doutor Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, quando perguntado sobre os sommeliers de vacinas, que foi como passaram a ser chamadas aquelas pessoas que só aceitam tomar vacina de determinadas marcas seja por desconfiarem da eficiência de alguns fabricantes, seja por temerem efeitos colaterais, seja para facilitar acesso a países no exterior.
Pior do que escolher a marca é se negar a tomar a vacina. Isso é criminoso.
Apesar de dizer que o “brasileiro gosta de vacina” e oferecer uma visão otimista em relação a adesão ao programa nacional de imunização contra Covid-19, Juarez Cunha teme a ação dos negacionista e mostra que ao deixar de se imunizar você coloca em risco também a vida das outras pessoas:
“Não se vacinar é uma decisão egoísta”
Nem os sommeliers nem os negacionistas, porém, são o motivo de, há duas semanas, o número de pessoas vacinadas com duas doses se manter na faixa de 11 a 12% dos brasileiros.
No levantamento desta noite de segunda-feira, feito pelo consórcio de veículos de imprensa, o Brasil chegou à marca de cerca de 27,3 milhões de habitantes com vacinação completa contra a Covid-19 — esse número corresponde a 12,92% da população nacional.
Juarez Cunha explicou que a despeito de algumas pessoas não terem voltado para a segunda dose —- e isso exigirá uma forte campanha no sentido de mostrar que o ciclo vacinal precisa ser respeitado —, o índice se mantém estável porque atualmente a maior parte das vacinas distribuídas no Brasil exige intervalo de até 90 dias entre a primeira e segunda doses.
Ao contrário da Coronavac, que prevê intervalo de apenas 28 dias, e foi aplicada em maior número no início da vacinação, atualmente a maior quantidade de imunizastes é da AstraZeneca que, assim como a Pfizer, sugere cerca de três meses de intervalo entre uma dose e outra. Por enquanto, apenas a Janssen, recém-chegada e em quantidade pequena, prevê apenas uma dose.
Ouça a entrevista completa que fiz ao lado de Cássia Godoy, no Jornal da CBN
Lá se vai mais um amigo levado pela morte. E para que não haja nenhum mal-entendido, minha amizade com Artur Xexéo não era daquelas de mesa de bar. Nem mesmo mesa de redação tive oportunidade de compartilhar com ele, apesar de há dez anos dividirmos espaço no Jornal da CBN. O rádio, que me fixou em São Paulo, enquanto ele morava no Rio, permitiu que fossemos colegas sem nunca nos termos visto pessoalmente por muito tempo. Adoraria o privilégio de tê-lo tido como editor em alguma passagem de minha vida profissional. Ou a ter convivido no ambiente de trabalho, o que teria me ajudado a aprender mais. Nem que fosse pela observação
A amizade com Xexéo, eu cultivava à distância. Como admirador. Era quase que uma relação de mão única. Porque ele próprio não deveria ter meu nome no rol de amigos. No máximo, eu era um colega por quem ele sempre foi muito generoso —- o que não diferenciava em nada da relação que ele sempre teve por boa parte daqueles com quem trabalhou. Generosidade é uma das marcas de Xexéo como podemos ler e ouvir nas muitas declarações dadas desde o anúncio da morte dele nesse domingo.
Quando ligava para falar pessoalmente, eu tinha uma certa cerimônia. Tê-lo acompanhado desde as primeiras edições do Liberdade de Expressão, sob o comando de Heródoto Barbeiro e ao lado de Carlos Heitor Cony, além de ter consumido livros e peças de sua autoria, me fez elevá-lo ao altar dos intelectuais —- daquelas pessoas que não nos atrevemos interromper ou discordar; de quem só queremos absorver. Xexéo, sem dúvida, era responsável por manter em alta o nosso PIB — o Produto Intelectual Bruto, do Brasil, tão dilapidado neste mais de ano de pandemia. A cada ligação, porém, Xexéo me persuadia e me colocava ainda mais próximo dele —- mérito desses seres humanos que, a despeito de sua estatura, sabem exercitar a humildade.
No lançamento do livro É proibido calar! tive a honra de recebê-lo, ao lado do companheiro Paulo, com quem viveu por 30 anos, na fila de autógrafos, no Rio de Janeiro. Entregar nas mãos de Xexéo um exemplar autografado do meu livro, confesso, me pareceu um ato de atrevimento —- uma espécie de Mané repassando sua camisa suada ao fim do jogo para Garrincha. Ele, novamente, aquiesceu. E agradeceu. Generoso e humilde Xexéo!
Com a nova função no Jornal da CBN, titular do quadro Crônica de Sexta, nossos contatos ficaram mais frequentes e ganhei a prerrogativa de ser o primeiro leitor do texto que iria ao ar no dia seguinte.
Ao fim da quinta-feira, ele me enviava uma sugestão de tema já com o artigo praticamente todo rascunhado. E, assim, às 4h30 da manhã, ao acordar, a primeira coisa que fazia era ler a crônica do Xexéo. Nos últimos tempos, andava incomodado com a repetição de assunto que se fazia necessária diante de tantos descalabros no combate à Covid-19 e intolerância aos diferentes. Pelas circunstâncias de um programa de rádio, algumas vezes Cássia Godoy e eu desviávamos do assunto prescrito por ele que, com talento e improviso, refazia seu roteiro no ar. E eu me tornaria o único leitor daquela crônica original.
Há duas semanas, recém-saído da cama, peguei o WhatsApp e comecei a ler o texto do Xexéo. Pensava estar diante de mais uma de suas crônicas, sempre escrita de forma leve, com palavras bem apuradas, frases de efeito e ironias perfeitas. Demorei um pouco para perceber que ele escrevia ali a crônica do momento que estava vivendo, depois de algumas semanas de exames e diagnósticos. Compartilhava comigo a doença recém-descoberta: “olha onde me meti”, escreveu. Uma semana depois, quando perguntei, “como estaremos para amanhã?”, ele tascou: “estaremos internado”. Sarcástico e com pitadas de mal-humor —- “o mal-humorado mais engraçado que conheci”, me disse Ancelmo Gois, em entrevista de hoje no Jornal da CBN.
Xexéo sempre foi assim. Sempre encontrou uma palavra, uma expressão ou uma frase para fugir do lugar-comum do texto e da vida. Fazia isso com maestria em suas crônicas no jornal O Globo, minha primeira leitura dominical. Nesse domingo, quando abri o jornal e não a encontrei, senti um aperto no peito. Apaziguei meu coração, relendo a última mensagem que me mandou, ainda na quinta-feira, antes do início da quimioterapia, quando me consolou dizendo que em dois meses voltaria a trabalhar normalmente de casa. Eu ainda não sabia que ele estava providenciando sua passagem.
Escrevi dia desses sobre a turma que faz turismo em posto de saúde em busca da vacina de estimação. Escolhe vacina como se estivesse na gôndola de vinho. A esses que mantém a prática, que sirva de alerta o que acontece em sete capitais brasileiras, desde o início da semana —- cidades em que a vacinação da primeira e, em alguns casos, até da segunda dose teve de ser interrompida por falta de imunizante.
Hoje, entrevistamos no Jornal da CBN, o prefeito da cidade de Aracaju (SE), Edvaldo Nogueira, que acumula o cargo de presidente da Frente Nacional de Prefeitos: foi claro ao dizer que faltarão vacinas em outras capitais, em breve, especialmente naquelas que haviam conseguido avançar mais no calendário. Um dos problemas citados pelo prefeito — além da já sabida gestão incompetente do Governo Federal, que demorou para comprar vacina —- é a falta de previsão de entrega de vacinas pelo Ministério da Saúde. Segundo ele, a informação somente chega um ou dias antes da distribuição na cidade, prejudicando o planejamento:
“Precisamos de um calendário nacional de chegada de vacinas com quantitativo de doses’
Diante dos fatos e dos riscos, o que se entende é que, aqueles que ficarem escolhendo vacina, acabarão sem mel nem porongo — se é que essa expressão, que sempre ouvi do meu pai, faz algum sentido para você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog.
Escrevi agora “sem mel nem porongo” e isso me remeteu a outra expressão, ou melhor, outra história que costumava ouvir no passado. Essa contada pela minha avó, Iva Guartieri.
Toda vez que abria a geladeira para escolher qual fruta pegar e me demorava diante da escolha, vó Iva repetia a lenda da “Escolha da Cruz”, contada na Umbria (ITA), em que um homem se lamentava da vida e considerava pesada de mais a cruz que tinha de carregar. Pedia a Deus que trocasse seu fardo. De tanto reclamar, foi atendido. Deus abriu a porta da sala das cruzes. O homem deixou a dele lá dentro e começou a escolher uma melhor: uma muito grande, outra áspera, havia cruz gelada de mais, quente de mais. A busca durou horas até que o homem deixou a sala feliz com uma cruz que lhe parecia apropriada e foi-se embora para a vida. Deus olhou, sorriu e pensou: “lá vai ele com a mesma cruz que entrou!”.
Assim como escolher qual cruz vamos carregar —- pois cada um tem a sua própria —-, é perda de tempo e risco de vida escolher a vacina. Tome a que estiver disponível e saia do posto de saúde feliz com a vacina que lhe cabe. Até porque, neste caso, nem todos teremos esse privilégio, infelizmente!
Fake news está moda. Tá na boca de todo mundo. Tá na troca de mensagens pelo WhatsApp, e nada de braçada no Telegram — a plataforma preferida dos terraplanistas. Tá em discussão nas redações e em estudos na academia. Tá sendo usada por muita gente. E abusada, enche a nossa paciência. Quinta passada conversei com estudantes e eles queriam saber minha opinião. Quarta que vem, voltarei ao tema em congresso virtual. Dia desses apareci no ClubHouse, e tome fake news —- ops … e tome discussão sobre fake news.
É um fenômeno sobre qual falamos muito e entendemos pouco. Verdade que bem mais do que há alguns anos quando foram fortes suficientes para desestabilizar candidaturas —- haja vista o que fizeram com Marina Silva, em 2014 — e robustecer candidatos — como no fatídico 2018. Atualmente, assistimos ao estrago que faz na saúde pública, enfraquecendo o combate à Covid-19 e fortalecendo a desconfiança sobre as vacinas. É assassinato em primeiro grau.
De minha parte, que não gosto de modismos na comunicação, tenho batido na mesma tecla, a começar pelo esforço em desconstruir a farsa que está estampada no nome próprio do crime. Você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, já deve ter lido por aqui o que se transformou em meu mantra pela informação saudável:
“se é fake, não é news, se é falso, não é notícia; é falcatrua! O princípio da notícia é a busca da verdade; da falcatrua, é a entrega da mentira.”
Ao longo do tempo, fomos aprendendo a lidar com a desinformação, especialmente aquela manipulada pela autoridade constituída. Porque uma coisa é o seu vizinho fofoqueiro dizendo mentiras sobre sua vida; mas quando omentiroso tem status e mandato, o crime é federal e precisa ser combatido de forma estratégica.
Há quem defenda que não devemos sequer noticiar o absurdo. O problema é que autoridade que mente é notícia. Acreditamos que desmentir a autoridade com nota pé na reportagem fosse suficientemente forte para dar um basta na declaração mentirosa em destaque na manchete. Ledo engano. Passamos a incluir na própria reportagem o flagrante da mentira. Também não resolveu. O desmentido precisou encontrar espaço na manchete, espremido entre a autoridade e a sua mentira.
Hoje, já temos cientistas e estudiosos da comunicação que desenham fórmulas na tentativa de conter a propagação da desinformação, sem abrir mão do papel do jornalista de reproduzir o que é notícia.
Em “Por que mentiras óbvias fazem boa propaganda”, vídeo baseado em estudo da RAND Corporation, um think tank de política global, vê-se uma estratégia comum de governos populistas e mentirosos: geram uma enxurrada de informação falsa, produzida em alta velocidade, sem nenhum compromisso com a realidade ou nexo causal entre uma coisa e outra. Chamaram isso de ‘firehosing’, que surge da ideia do grande fluxo de água da mangueira de um bombeiro — no caso da mentira com o intuito de colocar ainda mais fogo na narrativa.
Essa tática nos remete a constatação já dita neste blog, com base em pesquisa publicada no Journal of Experimental Psychology, que com o bombardeio de informações, o tempo dedicado a cada uma delas diminuiu; e quanto menos tempo se tem para uma informação, maior é a probabilidade de acreditarmos nela, mesmo que seja falsa
A proposta para contrapor a mentira vem do linguista americano George Lakoff, apresentada no formato de sanduíche, em 2018. Professor emérito de ciências cognitivas e linguística na UC Berkeley, Lakoff analisa o discurso político na sua profundidade para extrair dele elementos que possam proteger a verdade e a Democracia —- sim, geralmente, a mentira está na contramão dos valores democráticos, porque é explorada com o objetivo de perpetuar pessoas e pensamentos no poder.
O que George Lakoff batizou de verdade-sanduíche foi assim resumido pelo próprio autor:
Comece com a verdade — o primeiro frame leva a vantagem na mente humana
Aponte a mentira — evite reproduzir as palavras específicas do mentiroso.
Volte para a verdade. Sempre repita verdades mais do que mentiras.
Em um hipotético país em que o presidente eleito defendesse o uso de remédio para vermes como droga para combater vírus, o fato seria assim noticiado ao aplicarmos o método Lackoff:
“Não há evidências de que a ivermectina, usada para vermes, proteja contra a Covid-19. O presidente Jair Bolsonaro recomendou o remédio em ato público, mas nenhuma pesquisa científica sustenta esta tese, e médicos já afirmaram que o remédio pode causar efeitos colaterais perigosos”.
É um ótimo exercício para conter as mentiras oficiais, mas não suficiente para impedir que a desinformação contamine um público que já tem baixa imunidade em virtude de seu viés político, caráter, ignorância ou falta de atenção. Nós, jornalistas, seguiremos sendo desafiados diariamente a encontrar alternativas para seguir informando de maneira séria, responsável e precisa. Até que fake news vire démodé.
Foi a pergunta que mais ouvi nos cerca de 30 minutos em que esperei —- ao lado da minha esposa — a oportunidade para tomar a primeira dose da vacina contra a Covid-19. Vacinei em um posto avançado, criado pela prefeitura de São Paulo, em uma escola de classe alta, na zona Oeste da cidade.
Assim que informados de que a vacina disponível era a fabricada pela AstraZeneca, que chegou ao Brasil em acordo com a Fiocruz, davam meia volta e seguiam em frente — provavelmente ao posto mais próximo, onde repetiram o ato. Desconfio que a reação seria a mesma se dissessem que era Coronavac. A vacina da moda entre os mais abastados é a da Pfizer —- seja porque acreditam que terá menos reação adversa que as demais, seja porque esperam que a aplicação de uma dose da fabricante americana sirva de visto para viagem ao exterior.
Mesmo para quem fala de gestão de marcas todos os sábados pela manhã com a dupla de especialistas Jaime Troiano e Cecília Russo —- no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso —, e sabe o quanto elas ditam nossos comportamentos, descobrir que vacina têm marcas e com força suficiente para adiarmos a proteção de nossa vida porque não têm a grife preferida na “loja”, me deixou embasbacado. Tive reação adversa maior a essa atitude do que pela marca da AstraZeneca que carrego no braço desde a quarta-feira, ao meio-dia.
Agimos como estivéssemos diante da escolha de uma roupa para vestir ou uma bolsa para comprar:”Chinesa? É falsificada, né!”; “essa inglesa aí não dá nem pra viajar”; “é a americana? meu sonho de consumo, os amigos vão morrer de inveja”. Selecionamos vacina como vinho na adega: “nunca soube que a uva chinesa faz bons vinhos”; “esse inglês, dizem, dá dor de cabeça”; “ouvi falar que o americano é incrível, quero dois!”.
Quando a Janssen chegar —- aquela que ‘a gente vai estar recebendo dos Estados Unidos não sei quando” —, imagine a maratona em busca de postos que aplicarem a vacina: uma dose só, eficácia que chega a 95%, reações adversas mais intensas desconhecidas e, dizem, abre as portas para o paraíso (se não o paraíso, para os Estados Unidos).
Faz parecer aquela disputa em festa de madames que põem as roupas de melhor marca, do estilista famoso, e levam no braço a bolsa de luxo pra desfilar na cara das amigas.
A senhora chega com a sua clutch Lana Marks’Cleopatra de US$ 400 mil, acha que está abafando e de repente vem a frustração. A metida do condomínio entra com uma Birkin da Hermès (US$ 1,4 milhão) a tiracolo. Mas como alegria de rico também dura pouco, a vingança não tarda. A moça da cobertura entra pela porta conduzindo uma Mouawad 1001 Nights Diamond, comprada por imbatíveis US$ 3,8 milhões. Onde será que ela conseguiu?
Como vacina é assunto em tudo que é canto —- ainda bem —-, fico curioso em ouvir o bate-papo no vestiário da academia entre os senhores marombados. “Tá vendo essa marquinha aqui ó, é Janssen”, diz o coroa de toalha na cintura. “A minha é Pfizer, gostou?”, arrisca o outro enquanto seca os dedos do pé. O gerente da multinacional que estava por ali, vestiu logo sua camisa Lacoste, aquela do jacaré, para ir embora antes que descobrissem, tadinho, que ele só encontrou a Coronavac.
A saber: a vacinação ocorre por ordem de chegada das doses e não é possível escolher qual tomar. Recusar o imunizante e deixar passar o dia previsto da primeira dose é a abertura de mais uma janela de oportunidade para contrair e transmitir o vírus. É um desserviço à sociedade, porque para controlar a Covid-19 é preciso de alta cobertura vacinal e rapidamente, diminuindo a circulação do vírus e o risco de surgir variantes com maior poder de contaminação, além de conter o aumento da velocidade de pessoas doentes e mortas.
Ao amigo e amiga que usa como argumento a busca por vacinas consideradas mais eficazes, lembre de que do ponto de vista individual a proteção entre uma vacina e outra muda muito pouco.
Todas à disposição no Brasil nos protegem do risco de morrer e diminuem consideravelmente qualquer possibilidade de termos sintomas graves. A eficácia faz sentido aos gestores de saúde que planejam o número de pessoas que têm de ser vacinadas para alcançarmos a imunidade coletiva.
Quanto as reações adversas, algumas pessoas que foram vacinadas disseram ter tido febre, dor de cabeça, indisposição e dor no local onde foi feita a aplicação —- muito pouco para quem até então corria o risco de morrer por contrair a Covid-19. Outras, que estão por aí correndo atrás da vacina da moda, e desperdiçando a chance de se imunizar em troca de um luxo, consta que tiveram o sentimento de egoísmo acentuado nos últimos meses. E para isso não tem cura.
No meu caso, que fui vacinado com a AstraZeneca, porque fiquei na pequena fila que se formava no posto lá da escola, perto de casa, o único efeito colateral que tive até agora —- quase 24 horas depois da primeira dose —- foi uma alegria extrema de saber que estou mais protegido e, em um ato de cidadania, estou ajudando a proteger as pessoas que amo. Uma felicidade que contaminou a família, amigos próximos, colegas de trabalho e ouvintes da CBN, muitos dos quais vibraram quando contei no ar que a vacina acabara de ser aplicada. Que essa felicidade contamine a todos!
Papo mais chato é esse das falcatruas na eleição com urna digital. Não é novo, como todas as chatices. Mas ganha dimensão porque o negacionismo tem porta-voz no Palácio do Planalto. O que é mais incrível ainda porque quando eram os preteridos pelo povo que reclamavam, a gente podia alegar que era choro de perdedor (vide Aécio Neves). Chegamos ao cúmulo no Brasil de o vencedor dizer que houve fraude: “e tenho provas” — afirmação tão falsa quanto a cura da Covid-19 com cloroquina.
O curioso é que muita gente que olha desconfiada para a urna eletrônica se esquece do que eram as eleições no voto de papel, aqui no Brasil. Um monte de cédulas jogadas sobre a mesa para apuradores contarem papel por papel, conferirem uma ou duas vezes; e os fiscais de partido pedirem anulação de uma cédula e outra porque supostamente a sinalização do candidato não estava clara, o número era incerto ou o garrancho do eleitor impedia de se entender o nome escolhido. Sem contar os locais em que boa parte dos partidos não tinham fiscais. Era um vale tudo. Uma zona (não-eleitoral)!
Dia desses, entrevistei o presidente do Tribunal Superior Eleitoral Luis Roberto Barroso sobre as críticas de Bolsonaro e a intenção de partidos que se movem na Câmara dos Deputados aprovar a inclusão do voto impresso na eleição do ano que vem. Para ele é um retrocesso, não vai adiantar nada e ainda vamos gastar R$ 2 bilhões. Quem quiser manter o discurso de fraude, vai continuar fazendo isso, haja vista o que aconteceu nas eleições americanas em que o candidato derrotado e negacionista Donald Trump acusou fraude no voto … impresso.
Semana passada foi a jornalista Cristina Tardáguila que, em sua coluna no UOL, identificou seis mensagens falsas que os apoiadores do voto impresso costumam usar para combater a urna eletrônica. Para cada desinformação, ela oferece uma informação verdadeira. A saber: Cristina foi fundadora da Agência Lupa e ganhou relevância internacional com seu trabalho na checagem de fatos.
O processo tem 10 etapas. Partidos, Ministério Público e Polícia Federal podem participar da auditagem. Temos o boletim de urna (emitido no encerramento da jornada eleitoral, com o total de votos computados na seção). Há o teste de integridade, que é a seleção de urnas aleatórias para uma auditoria no dia da eleição. E temos o RDV, que é o Registro Digital do Voto, um arquivo que contém todos os votos, como se fosse uma urna de lona, só que não identificando o eleitor”
As urnas não podem ser violadas e não houve fraude em eleições passadas
Estamos diante de um perfeito paradoxo tecnológico. Se você duvida da urna, por que confiaria no recibo de voto que ela imprimiu?
As urnas eletrônicas não estão conectadas à internet e, portanto, “não são passíveis de acesso remoto”
Na Alemanha, o voto em papel não é um problema, e os alemães o utilizam sem problema. Mas, ao longo da história brasileira, repleta de coronelismo, clientelismo e votos por cabresto, o voto em papel sempre foi considerado um problema. Caminho direto para fraudes.
O voto impresso não aumenta a credibilidade da eleição
Não é porque vários países desenvolvidos preferem o voto em papel que temos que segui-los.
Mesmo que um hacker invada o TSE, a eleição não será afetada
As urnas eletrônicas jamais estão integradas a esse sistema e, como já dito, não estão ligadas à Internet. O voto computado na urna fica lá.
Ter o “voto impresso” custa muito. E demora bastante
O Brasil precisaria fazer um investimento de R$ 2 bilhões e se duvida da capacidade de fazer a troca de todo o sistema até a eleição de 2022.
Claro que o texto da Cristina é mais completo e tem outras informações importantes. Por isso, reforço o convite, clique no link, copie as respostas e deixe no seu WhatsApp. Sempre que o chato do “Voto Impresso” aparecer no grupo, manda uma saraivada de notícias verdadeiras e checadas sobre o assunto.