Digital cast: o desafio de comunicar na era digital

Entrevistar me dá prazer. Ser entrevistado, ansiedade.Tive de cumprir esse papel — o de ansioso — diante do convite do Rodrigo Portes e do Carlos Eduardo Boechat, que apresentam o podcast Digital Cast. No fim, sempre é uma boa oportunidade para testar como está nossa perspicácia para encontrar a resposta certa para as perguntas incisivas.

O foco da série de 15 podcasts é a transformação digital e a indústria 4.0. Como pouco entendo de uma coisa e de outra – a não ser por ouvir falar —, nossa conversa de pouco mais de uma hora navegou mesmo pela comunicação. É disso que vivo. É por isso que sou apaixonado. E se tem uma habilidade que devemos desenvolver para sobrevivermos ao ritmo frenético a que foram expostos nossas pensamento, processos e relações é a comunicação.

Aproveite!

Anúncios de atrações do Rock in Rio nos fazem pensar sobre o que é normal

Foto: Divugação

O Rock in Rio começa a atiçar os ânimos dos amantes e saudosos dos shows musicais, que desapareceram dos palcos com a pandemia. Justin Bieber e Demi Lovato foram anunciados como atrações principais nos dias 4 de setembro de 2022. Sim, isso mesmo. Estamos falando do ano que vem ainda. Mas como tudo que é bem planejado, é preciso tomar medidas com bastante antecedência, mesmo que para muitos de nós ainda seja difícil vislumbrar a possibilidade de voltarmos a nos aglomerar: na igreja, na boate, no sambódromo ou em um concerto musical. 

Quando isso acontecer com a segurança devida e a liberdade que adoramos, talvez possamos falar que voltamos ao normal. Alguns apostam que isso vai ocorrer no Reveillon. Outros, no Carnaval. Há quem acredite que logo depois da primeira dose ter sido aplicada no braço da maioria dos brasileiros, a festa já está liberada. Tem pessoas que garantem que está tudo normal —- tenho dúvida do que entendem por normal. É possível que minha reclusão em casa por quase todos esses dias, que se iniciaram em 13 de março do ano passado, tenha mexido com minha estima e capacidade de sonhar, mas sou bastante cético em relação ao calendário de eventos e atividades.

Para pensarmos sobre quando o normal estará entre nós, é bom antes entendermos o que encontramos nos dicionários como definição desta palavra. Ao folhear o Aurelio —- ainda mantenho um aqui na biblioteca que aparece no pano de fundo das minhas apresentações no Jornal da CBN —- fico sabendo que normal é algo usual, corriqueiro, que ocorre a todo momento. Mas, também, surge como aquilo que está conforme as normas, dentro das regras.

Num sentido ou noutro, saber se tudo voltará ao normal dependerá de uma série de fatores. Especialmente do controle da doença que mata desde o ano passado mais de 560 mil brasileiros. A tendência é que até o ano que vem já tenhamos contido o vírus —- e, também, tenhamos vacinas suficientes para retomar um novo ciclo de imunização, a medida que muitos médicos e doutores, que ouvimos na CBN, entendem que o combate a este coronavírus tenha de ser anual, como fazemos com o vírus da gripe.

Diante das definições do dicionário, posso dizer que se fizermos o normal, poderemos voltar ao normal.

Ou seja, se fizermos o normal —- como aquilo que está dentro das regras (neste caso sanitárias) —- poderemos voltar ao normal, fazendo aquilo que é usual nas nossas vidas, seres gregários que somos: nos congregando entorno da música, da história, do amor e tudo aquilo que nos move. 

Aí, sim, provavelmente o Rock in Rio será o grande sucesso de sempre — a despeito de sua line-up —, em lugar de se transformar em mais um desejo frustrado, um sonho abortado por esta pandemia. 

Por que livros emprestados não são devolvidos

Foto de cottonbro no Pexels



Uma biblioteca pública, de Massachusetts, nos Estados Unidos, foi surpreendida ao receber de volta o exemplar de um livro que havia sido emprestado há 50 anos —- “isso, 50!” escreveu a leitora em uma carta manuscrita em papéis de caderno espiral. Além do livro e da carta, a moça, que não se identificou, enviou U$ 20 para tentar compensar a multa das cinco décadas de atraso. 

Pelo texto criativo, tendo o livro em primeira pessoa, a ‘escrivinhadora’ gostava mesmo de ler. E justificou-se dizendo que foi levada a se mudar muitas vezes de lugares, e para longe da cidade Plymouth, o que a fez postergar o desejo de devolver a cópia de “Coins You Can Collect”. Garante, porém, que o exemplar sempre esteve acompanhado de vários outros livros. 

Como toda notícia publicada na internet —- esta é do portal G1 —, links para fatos semelhantes se destacam e, através deles, fico sabendo que já houve casos de livros devolvidos até 52 anos depois do empréstimo.

A sequência de informações, que inspirou o bate-papo desta manhã, com Gabriel Freitas, do CBN Primeiras Notícias, e a minha colega de apresentação, Nadedja Calado, logo me remeteu a um hábito há muito tempo esquecido (e não me refiro ao hábito de esquecer de devolver livros).  Falo do hábito de retirar livros em biblioteca. Talvez a última vez que fiz essa retirada foi na época da escola. Lá no Colégio Rosário, em Porto Alegre. Depois, exemplares emprestados, apenas de amigos. Todos, se não me falha a memória, devidamente devolvidos. Hoje, o mais comum é comprá-los. geralmente em livrarias. Mais recentemente, em lojas eletrônicas de livros.

Já que estamos falando em memória: lembro de pesquisa do IBGE, publicada em 2018, na qual se identificou dados alarmantes: as livrarias estão sumindo da paisagem urbana do Brasil. Em 2001, quase 43% das cidades brasileiras tinham ao menos uma livraria. Em 2018, eram apenas 18%. E se olharmos bibliotecas públicas, o quadro não é nada alentador. Se em 2014, tínhamos 97% das cidades com ao menos uma biblioteca pública; em 2018 —- último levantamento oficial –, o índice caiu para algo próximo de 87%

Menos livrarias, menos bibliotecas. Não me surpreende que quando pegamos um livro emprestado, não queiramos mais devolver. Vai que eles também deixem de existir.

Presidente vira notícia ao dizer que vai cumprir a lei: isso diz muito do Brasil em que vivemos

Tem certas coisas que transformamos em notícia que se pensarmos ao pé da letra beiram o ridículo. Vou pegar dois casos que estão relacionados e foram motivos de entrevista com Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, hoje cedo no Jornal da CBN. O primeiro deles tem a ver com o tema que foi o centro da nossa conversa: o projeto de emenda à constituição do voto impresso —- um fetiche do presidente Jair Bolsonaro. 

O Brasil começou esta segunda-feira, com cerca de 563 mil pessoas mortas e mais de 20,2 mil contaminadas por Covid-19. Somos 107 milhões de vacinados (50,58%) em primeira dose; e apenas 45 milhões com o ciclo completo (21,49%). Só de desempregados, passamos de 14,7 milhões de brasileiros. E paro por aqui com os números ruins, porque esses já são suficientemente expressivos e graves para uma nação. 

Qualquer país e gestor público sérios estariam debruçados sobre esse desafio e mobilizando a sociedade para superá-los. E se pensar bem até tem algumas propostas interessantes com o objetivo de encontrar uma saída para essa jornada, mas o tema que está no noticiário é o voto impresso —- que não vai salvar uma só vida e talvez só garanta mais emprego para quem produzir a impressora, a despeito de tirar outros milhares com os gastos que a União deixará de fazer em áreas essenciais para sustentar esse delírio bolsonarista.

O próprio presidente da Câmara dá sinais de que extrapolou ao anunciar que levará a PEC derrotada na comissão especial para votação em plenário como uma forma de enterrar de vez o tema —  não é comum este ato, pois geralmente projetos que não tiveram capacidade de convencer integrantes de uma comissão caem no esquecimento. Lira parece temer que, se deixar o assunto engavetado, vai minar a confiança que o governo tem nele. Disse que pretende expor a PEC ao escrutínio dos deputados até quarta-feira. Outra impressão que tive na entrevista é que Arthur Lira também está cansado do assunto e não vai esticar a corda até a próxima semana, como a base bolsonarista está pregando para ver se consegue virar os votos e aprovar a proposta de emenda à constituição, que precisa de três quintos dos deputados ou 308 votos a favor.

Discutir voto impresso com tanta gente desempregada e outras tantas morrendo de uma morte que poderia ter sido evitada, sem dúvida, beira o ridículo. Tanto quanto imaginar que o anúncio de um líder político de que vai cumprir a lei pudesse ser destaque de uma entrevista. Sim, foi o que aconteceu, nesta manhã, após a conversa com Artur Lira. Ele informou que, na sexta-feira, ligou para o presidente da República para falar da decisão de levar a PEC do voto impresso para plenário e ouviu Bolsonaro dizer que aceitará a decisão dos parlamentares. Foi o que bastou para que a mensagem fosse estampada em sites e redes sociais. 

O presidente dizer que vai cumprir a lei não é notícia. Ou melhor, não deveria ser notícia. Tanto quanto a PEC do voto impresso não deveria ser motivo de preocupação neste momento para o país. E a culpa não é de quem põe em destaque as informações, mas quem a faz se destacar. No caso, o presidente Jair Bolsonaro que deveria estar oferecendo soluções para problemas muito maiores e mais graves do que esses. O fato de ambas as informações ascenderem no noticiário sinaliza claramente o cenário político que estamos expostos, aqui no Brasil. 

Assista ao vídeo da entrevista com o presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira:

Prefeito do RJ admite voltar atrás se piorar cenário da Covid-19; cientista tem certeza

Tem de dar uma esperança e esta chega na forma de anúncio do fim das restrições sanitárias nas cidades e estados. É um pouco do tom do que fizeram o governador João Doria, de São Paulo, e o prefeito Eduardo Paes, do Rio de Janeiro, na semana passada. Os dois, aliás, têm travado, diríamos assim, uma batalha midiática em relação a avanços no combate a Covid-19. Um antecipa calendário de vacinação aqui e o outro corre a encurtar o prazo por lá. Eles agora disputam quem vai liberar geral antes — tudo com base no comitê de cientistas e médicos que os orientam, é o que sempre ressaltam.

Se São Paulo disse que pode mais gente dentro das lojas, o Rio contra-ataca com abertura das portas de boates. Se São Paulo já planeja evento teste, o Rio bota na mesa feriado festivo. E por aí vai. Cada gestor com a sua dose de esperança a oferecer, enquanto a dose de vacina chega a conta contas. Eis aqui um ponto sobre o qual nem um nem outro têm controle: quantas vacinas chegarão para ampliar a cobertura da população, depende do Governo Federal, que tem se atrapalhado na logística de compra, recebimento e entrega.

Além da vacina, tem a variante. Estamos na delta. E se deixarmos ela se espalhar de mais, chegaremos na épsilon, como chamou atenção a doutora Margareth Dalcomo, pneumologista e pesquisadora da Fiocruz. Na entrevista, deste manhã, no Jornal da CBN, lembrou que o vírus, quanto mais se multiplica, mais variantes sofre. E nessa evolução, pode ficar mais transmissível e letal. Foi assim que a variante delta chegou aos diversos países e levou gestores internacionais às cordas mais uma vez.

Ouça a entrevista:

Aqui no Brasil, mesmo que digam que estão observando a performance da variante delta, nossos gestores têm preferido acreditar que o risco será menor. Temo —- e disse isso hoje no Jornal —- que a ideia de que a delta mata menos esteja levando os administradores e nós todos a baixarmos a guarda, acreditando que pegar Covid é tranquilo, o problema é ter de ir para o hospital. A despeito do risco que citei no parágrafo anterior — o de nos transformarmos em um criadouro de variantes —, ainda há o fato de muitas pessoas que contraíram o vírus, mesmo em formas mais leves, ficarem com sequelas.

Hoje, com um tom abaixo daquele usado no anúncio da semana passada, o prefeito Eduardo Paes admitiu ao Jornal da CBN que pode recuar das medidas de flexibilização conforme a situação se agrave, mesmo com o avanço da vacinação. Paes prevê que até 18 de agosto, a população com até 18 anos tenha recebido ao menos uma dose. Disse que foi com base nessa previsão que planejou as ações para a reabertura das atividades, inclusive festas e público nos estádios. 

“Se precisar voltar atrás, eu volto”, afirmou o prefeito.

Uma hora e meia depois, ouvimos a cientista, que rebateu:

“Não há dúvida que terá de voltar atrás”

Assista à entrevista do prefeito do Rio, Eduardo Paes, no Jornal da CBN

Brasileiro terá de fazer esforço maior do que nossas medalhistas para não perder na disputa do Imposto de Renda

Começamos a edição do Jornal da CBN com o bronze da Mayra Aguiar, no judô, e encerramos com a prata da Rebeca Andrade, na ginástica artística. Mayra é a primeira brasileira a conquistar três bronzes em três Olimpíadas seguidas. Rebeca é a primeira ginasta a conquistar uma medalha olímpica para o Brasil. Ah, se a quinta-feira se resumisse a esses dois fatos, haveria bons motivos para comemorar.

Ok, ok! Não serei tão pessimista assim. Falar de frio e neve — como fizemos  logo na abertura do Jornal — também pode ser agradável se ficarmos só no campo da curiosidade, dos recordes e dos turistas. 

O problema começa quando lembramos que essa terceira onda de frio, no inverno brasileiro, resulta de efeitos da mudança climática, e muitas pessoas não têm um abrigo decente para se proteger. Igrejas foram abertas em São Paulo, o ginásio de esportes lotou em Porto Alegre e outras ações se fizeram necessária para oferecer um mínimo de conforto a famílias que vivem em situação de rua. 

Outra encrenca sobre a qual dedicamos parte do programa é o projeto de reforma do Imposto de Renda, que está nas mãos do relator Celso Sabino, deputado federal do PSDB do Pará. O texto que saiu do Ministério da Economia era uma geringonça e coube ao parlamentar ajustar até onde fosse possível, reescrevendo trechos, eliminando regras e incluindo o que fosse necessário para que se tenha um projeto tributário mais justo. E quando falamos em justiça tributária, a regra é simples: os ricos pagam mais e os pobres pagam menos. Complexo é fazer essa regra ser cumprida.

Na entrevista ao Jornal da CBN, o deputado Celso Sabino se esforçou para nos convencer de que o texto reescrito traz a solução para o disparate que existe atualmente. E que todo mundo vai pagar menos impostos. Confirmou, por exemplo, a manutenção da isenção das empresas cadastradas no Simples da cobrança sobre lucros e dividendos.  Também garantiu a retirada de um tremendo bode que haviam colocado dentro da reforma que retiraria benefícios das empresas que oferecem o vale-refeição e o vale-alimentação. Disse que o assunto sequer será citado no texto, pois sabe que basta um vacilo e é dali que a equipe econômica vai tentar arrancar um pouco mais de dinheiro. E quem vai pagar: o trabalhador. 

Apesar do discurso otimista de Celso Sabino — ele ainda não havia se reunido com os representantes dos governadores e prefeitos —, se nada mais for mexido no texto, nem todos os 32 milhões de contribuintes vão ganhar como ele tenta nos convencer.

Pouco menos de uma hora depois da entrevista, a Miriam Leitão estava no ar para ratificar este alerta: uma enorme fatia da Classe C — daqueles que ganham entre R$ 40 mil e R$ 80 mil anuais —- perderá o direito de fazer a declaração simplificada usufruindo do desconto padrão. Eu havia questionado Sabino sobre o assunto, mas ele puxou um número daqui, uma alíquota dali e uma percentual de acolá para provar que tinha total razão. 

O curioso — e cheguei a expor isso na entrevista — é que a própria equipe econômica calcula que arrecadará de R$ 10 bilhões a R$ 11 bilhões com essa mudança da regra. Se o governo vai ter esse dinheiro a mais, alguém vai pagar a conta e não serão apenas os mais ricos.

A intenção é que o relatório seja votado até o fim de agosto na Câmara dos Deputados e aprovado pelo Senado até o fim do ano para que as regras possam ser aplicadas já em 2022. Até lá muita pressão haverá e quem tem lobby mais forte costuma ganhar esta briga. Pra garantir seu lugar na reforma, o trabalhador brasileiro vai precisar de um esforço descomunal, maior do que Mayra Siqueira teve de fazer para arrancar o bronze olímpico, ou Rebeca para garantir sua prata.

Assista à entrevista completa com o deputado federal Celso Sabino, relator da reforma do Imposto de Renda:

Covid no Brasil: tá melhor mas tá muito ruim; e pode piorar

Vacinação contra a Covid-19 (Foto: Governo do Estado de São Paulo)

Tá melhor mas tá muito ruim. Era a frase que ouvia de um dos meus técnicos de basquete sempre que, ao fim da partida, perguntava sobre algum fundamento do jogo em que buscava me aprofundar. Nem bem havia se encerrado a entrevista do Jornal da CBN desta quarta-feira e a frase ressoava na minha cabeça. Não falávamos de basquete, infelizmente. O assunto era a Covid-19 no Brasil. 

No último boletim, divulgado pela Fiocruz, se vê  que por mais uma semana, há tendência de queda no número de óbitos e nos indicadores de ocupação de leitos de UTI Covid-19. E segue em crescimento o número de pessoas contaminadas de um dia para o outro. São 46,8 mil novos casos por dia, em média. E 1,6 mil mortes por dia, em média.

Diante da experiência e conhecimento da doutora Ethel Maciel, pós-doutora em epidemiologia na Universidade John Hopkins e professora da Universidade Federal do Espírito Santo,  nossa convidada no Jornal da CBN, queríamos entender qual o estágio da pandemia no país, 551 mil mortos, 19,7 milhões de contaminados e 500 dias depois de ter se iniciado por aqui. 

“O momento é de cautela … estamos em uma situação de descontrole e a possibilidade é de  (o número de casos e mortes) voltarem a patamares ainda mais altos com a variante Delta”.

Ou seja, com os dados da Fiocruz em uma mão e a análise da doutora da Universidade Federal do Espírito Santo em outra, podemos dizer que “tá melhor, mas tá muito ruim”.  E pode piorar.

Para a doutora Ethel, uma das médicas que têm se sobressaído na análise de cenário da pandemia, aqui no Brasil, o chocante é perceber um quadro nos números e outro nas ruas. Disse que o movimento de pessoas, a ocupação de locais abertos e fechados —- sem contar os eventos clandestinos — dão a entender que a pandemia terminou. Uma falácia que pode se transformar em extensão da tragédia que vivemos a cada dia. Especialmente frente a demora para se completar o ciclo vacinal na população e a interrupção da vacinação em algumas capitais por falta de doses. 

Nos dados oficias, somos 97.325.965 vacinados em primeira dose. Isso representa 45,96% da população brasileira. E apenas 38.704.270 ou 18,28% das pessoas totalmente imunizadas. Tá melhor (do que no início do ano) mas tá muito ruim, porque demoramos para trazer e produzir vacinas e demoramos para distribuí-las. 

Ethel chamou atenção para o fato de que o Ministério da Saúde leva até quatro dias para receber o imunizante no aeroporto, fazer a checagem necessária e iniciar a entrega nos Estados, que depois têm de distribuir para os municípios. A médica defende uma espécie de via rápida com o produto sendo encaminhado, sem abrir mão dos procedimentos de segurança, em prazo menor:

“Vacina só funciona no braço das pessoas, não nos galpões do Ministério da Saúde”.

É preciso aprender a lição com os outros países e entendermos o risco da variante Delta, muito mais contagiosa. A título de comparação: enquanto uma pessoa com o SarsCov-2 — o vírus como nos foi apresentado lá no início da pandemia —- contamina de duas a três pessoas, se tiver a variante Delta, vai contaminar de cinco a oito pessoas. Mais pessoas infectadas, mais pacientes em hospitais, menor capacidade de atendimento. Tudo isso somando, resulta em maior risco de mortes.

Os Estados Unidos, com cobertura vacinal muito mais ampla do que o Brasil, recuaram na liberação do uso de máscaras por causa do avanço da variante Delta. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças recomendou, mesmo aos vacinados, o uso de máscaras em ambientes fechados nas áreas em que o contágio da Covid é considerado “substancial”ou “alto” —- que representam dois terços do país E lá, quase metade da população (48,8%) recebeu as duas doses das vacina. 

“A gente precisa aprender com os erros alheios”.

Mesmo sob esse alerta e entusiasmado com o avanço da vacinação e a queda no número de pessoas internadas. por Covid-19, o governador João Doria anunciou hoje ampliação no horário de funcionamento do comércio e da capacidade de ocupação dos locais, além de acabar com o toque de restrição à noite. Ao mesmo tempo, antecipou o calendário da vacinação em dois dias e espera ter vacinado os adultos, com primeira dose, até o dia 16 de agosto. No dia seguinte, já indicou, todas as restrições de horário e ocupação do comércio serão suspensas.

Quando falamos com Ethel Maciel, o anúncio ainda não havia sido feito, mas ela já havia deixado o seu recado: 

“Nós precisamos ser mais esperto do que o vírus, por enquanto, o vírus está ganhando”

Assista à entrevista completa com Ethel Maciel, professora e pós-doutora em epidemiologia, no Jornal da CBN:

O diabo da felicidade e os demônios que fazem de Simone Biles e Naomi Osaka seres humanos

Crédito: Breno Barros/rededoesporte.gov.br

O 27 de julho olímpico foi cruel para duas das maiores atletas da atualidade. A poucos metros de distância, a ginasta americana Simone Biles, 24 anos, e a tenista japonesa Naomi Osaka, 23 anos, vivenciaram momentos de profunda tristeza e abatimento, no centro olímpico de Ariake, em Tóquio. 

A número 1 do mundo, na arena de ginástica artística, fez sua pior apresentação desde que surgiu no cenário internacional, desistiu das provas por equipe e teve de se contentar com a medalha de prata, após os Estados Unidos serem superados pelas russas. Nas quadras ao lado, a número 2 do tênis foi desclassificada nas oitavas de final pela tcheca Marketa Vondrousova, frustrando a expectativa dos japoneses de verem sua maior tenista conquistar a medalha de ouro.

Depois de afastada da equipe por ‘problemas médicos’, sem que mais detalhes fossem informados, a própria Simone Biles revelou aos jornalistas sua fragilidade psicológica para a disputa, mesmo sendo o maior nome da ginástica americana de todos os tempos —- e, talvez, exatamente por ser o maior nome da ginástica americana de todos os tempos: 

Assim que eu piso no tatame, sou só eu e a minha cabeça, lidando com demônios. Tenho que fazer o que é certo para mim e me concentrar na minha saúde mental e não prejudicar minha saúde e meu bem-estar. Há vida além da ginástica”.

Ao ouvir Biles, lembrei do que havia dito, em maio deste ano, Naomi Osaka, ao desistir de continuar disputando o Torneio de Roland Garros, pois não queria mais participar das entrevistas coletivas, compromisso que todos os atletas são obrigados a cumprir quando aceitam as regras do jogo. Ela alegou que as perguntas feitas pelos jornalistas causavam um impacto adverso em seu bem-estar mental —- resultado de depressão que surgiu, em 2018. 

Na época em que assumiu publicamente sua fragilidade, a psicóloga Simone Domingues, publicou aqui no Blog o artigo “A grande sacada de Naomi: a coragem de confessar que tem medo” e explicou a reação da tenista: 

“Naomi abandonou o torneio não porque estava fugindo de enfrentar os perigos ou ameaças, mas, possivelmente, porque percebeu a necessidade de se afastar de situações tóxicas, impostas, que exigiam dela algo que naquele momento não poderia ou não queria realizar. Percebeu que precisava se afastar como um sinal de cuidado consigo. De preservação de sua saúde mental”

Hoje, ela estava apática em quadra, descreveram os jornalistas. É preciso um pouco mais de apuro e sensibilidade para entender se os problemas psicológicos influenciaram no desempenho de Naomi. O certo é que com sua apatia, se despediu dos Jogos muito antes do que esperavam dela. 

De Naomi sempre estão esperando mais. Não por acaso, foi a escolhida pelos japoneses para acender a tocha olímpica, na cerimônia de abertura,— protagonizando uma cena que talvez explique muito do que ela e os maiores talentos do esporte  carregam consigo a cada degrau que sobem na carreira. Por mais que o mundo estivsse ao lado dela, admirando-a naquele momento, Naomi teve de subir sozinha as escadas em direção à tocha. Levando ao alto a esperança de várias nações que enxergam nas Olimpíadas a redenção diante da tragédia desta pandemia. Pelo peso da responsabilidade, pela cultura oriental ou pela forma como encara suas obrigações, não havia um sorriso genuíno na jovem atleta.

“É claro que sempre jogo pelo Japão. Mas definitivamente sinto que houve muita pressão sobre mim desta vez. Acho que talvez seja porque nunca joguei antes as Olimpíadas”, disse a tenista após sua desclassificação.

Na voz angustiada e no jogo apático de Naomi; na revelação dolorida e no desempenho pífio de Simone; nas cenas de antes e de agora; o que mais me chocou foi perceber que por maiores, mais admiradas e respeitadas que sejam as pessoas; por mais ‘grand salms’ e medalhas de ouro que tenham conquistado; por mais próximos que estejam do que entendemos serem os semideuses; nada é suficiente se não houver o diabo da felicidade. E encontrá-la, saber cultivá-la é a grande conquista que nós seres humanos precisamos alcançar. Naomi não consegue. Simone não consegue. E nesta ausência destes astros e estrelas, nunca como antes me senti tão integrante desta mesma constelação.

Sem ilusão e com vacina no braço podemos avançar no combate à Covid-19

 Foto: João Gabriel Alves/Agencia Enquadrar/Agencia O Globo

O e-mail e as redes sociais estão cheios de céticos e negacionistas. Para estes, nada a declarar. Apenas lamento pela ignorância. Àqueles, tudo a agradecer. O ceticismo, ao contrário do senso comum, promove o pensamento científico. É questionador. Busca as evidências. Não por acaso, uma das entidades científicas mais prestigiadas do mundo atende pelo nome Committee for Skeptical Inquiry —- em bom português, Comitê para Investigação Cética. 

O jornalismo é feito de ceticistas. Estamos sempre perguntando o porquê das coisas. Não nos satisfazemos com a primeira resposta. Queremos confirmar em uma segunda e terceira fontes. Desconfiamos do político que se faz de bonzinho. E aliviamos menos ainda para que o que fala duro, mas se entrega no primeiro questionamento. Tentamos sempre entender o que está por vir. 

Do comitê de céticos faz parte nossa colega de CBN, a microbiologista Natália Pasternak —- no ar, às terças-feiras, 7 horas, em Hora da Ciência. Aliás, a única brasileira a fazer parte do grupo internacional. Foi ela quem, dia desses, em entrevista ao Nexo, definiu:

“Não podemos confundir o cético com o negacionista. O cético é a pessoa que quer ver as evidências, enquanto o negacionista recusa as evidências que estão diante do seu nariz”. 

Dito isso, vamos ao tema da minha conversa com você, caro e raro leitor deste blog. Na edição desta sexta-feira, entrevistamos uma pesquisadora e um político, cada um com sua devida expressividade. Na conversa com os dois, uma certeza, baseada nas evidências:

“… a boa notícia: a vacina está fazendo diferença”

Foi com esta frase que a doutora Margareth Portela, da Fundação Oswaldo Cruz e do Observatório Fiocruz Covid-19, abriu a entrevista no Jornal da CBN quando perguntei sobre o que caracterizava a “nova fase da pandemia” —- expressão que se encontra no relatório do observatório publicado ontem. Graças a vacina —- e qualquer uma das vacinas aplicadas no Brasil —, foi possível conter o número de pessoas internadas com gravidade nos hospitais e reduzir um pouco a velocidade de crescimento no número de pessoas infectadas e mortas: 

“Foi registrada uma queda tanto no número de casos novos (-2,1%), quanto no número de óbitos (-2,6%), tendência sustentada desde a análise das semanas anteriores. A taxa de letalidade foi mantida em torno de 3%”, diz o relatório.

Do ponto de vista demográfico, é possível perceber outra mudança. 

Se no início do ano, jovens adultos estavam mais propensos a ficar doentes; a participação deles entre internados e mortos diminuiu. A maior parte dos óbitos por Covid-19 tem mais de 60 anos —- um retorno ao cenário do início da pandemia, no Brasil. E mais uma vez é a vacina quem faz a diferença. Porque em condições iguais —- com imunização para as diversas faixas etárias —, os mais jovens tendem a ser mais resistentes do que os idosos.

A vacina também foi o foco da nossa entrevista com o governador João Doria, de São Paulo —- apesar de que com ele falamos também de outras coisas mais, como sucessão presidencial, PSDB com candidato próprio em 2022 e os embates políticos com o presidente Jair Bolsonaro: “é um golpista”, disse Doria. Isso, porém, você confere ouvindo a entrevista completa.

Vamos a vacina no braço que é o que cabe a este texto. 

Doria está em casa, se recuperando da segunda infecção por Covid-19 e diz que resistiu muito bem ao vírus desta vez. Quem está próximo dele me definiu assim os sintomas do governador: foi como uma gripe. E se o foi, a vacina é a responsável, segundo o próprio governador. Como o é pela redução no número de pessoas internadas e em UTIS, nos hospitais do Estado de São Paulo. O último boletim divulgado mostra que o estado teve a menor média de ocupação de leitos de UTI de 2021, com taxa de 59,25.

Se tiver mais vacina à disposição, o governador antecipou ao Jornal da CBN que o estado pretende reduzir o intervalo das doses de vacinas Pfizer e AstraZeneca, que hoje é de 12 semanas. Nos Estados Unidos, o prazo entre a primeira e a segunda doses é de apenas um mês. O problema, diz Doria, é que o Ministério da Saúde não tem cumprido com os prazos de entrega:

“O Ministério da Saúde, não querendo politizar nesta resposta, prometeu e não cumpriu. Prometeu oito vezes enviar vacinas da Pfizer e da Astrazeneca e entregou, oito vezes, menos doses do que o previsto para o Plano Nacional de Imunização. Se tivermos regularidade na entrega é possível e recomendável esse prazo (menor)”.

Se em São Paulo, os números estão em queda, conforme ratificou o governador. E se no Brasil, o cenário nos estados é melhor do que antes, como diz o relatório da Fiocruz. Isso significa que o pior já passou? Não. O ceticismo é a melhor reação diante dessas duas verdades. Porque só com esse olhar desconfiado é que chegamos ao alerta necessário.

Ainda que os números aparentem uma melhora no quadro da Covid-19 no Brasil, ao ser perguntada sobre o risco de estarmos gerando uma ilusão na população brasileira, a doutora Margareth, concordou:

“Não dá para normalizar esses números …. Tivemos uma situação de absoluta tragédia. Essa semana, está uma situação melhor e isso nos dá um certo alívio, mas não é para comemorar. A situação continua muito grave”. 

Evite palavras que imobilizam o ouvinte como abscôndito fez com o poeta

Foto de Fernando Frazão/Agência Brasil

“Tão comodamente que estava lendo, como quem viaja num raio de luz, num tapete mágico, num trenó, num sonho. Nem lia: deslizava. Quando de súbito a terrível palavra apareceu, apareceu e ficou, plantada ali diante de mim, focando-me: ABSCÔNDITO … Que momento passei!… O momento de imobilidade e apreensão de quando o fotógrafo se porta atrás da máquina, envolvidos os dois no mesmo pano preto, como um duplo monstro misterioso e corcunda… O terrível silêncio do condenado ante o pelotão de fuzilamento, quando os soldados dormem na pontaria e o capitão vai gritar: FOGO!”

Em “Trágico acidente de leitura”, Mário Quintana descreve, de forma tanto criativa quanto irônica, o seu espanto diante de palavra pouco comum para seu vocabulário —- e, pense comigo, para um poeta com a riqueza vocabular de Quintana se espantar com alguma palavra …  meu Deus! No caso dele foi “abscôndito”, que o Aurélio diz ser aquele “cuja identidade ou procedência não se quer mostrar; escondido”. No meu caso, sem a riqueza do mestre e com uma enorme implicância adquirida ao longo da carreira, encaro constantemente momentos como os relatados pelo poeta. É na leitura dos jornais ainda na madrugada, é no texto da redação do rádio logo cedo, é na audição das reportagens, é na televisão que tenta tirar minha atenção enquanto apresento o programa. Nos e-mails, releases e mensagens que chegam pelas mais diversas fontes.

Minha implicância não é com abscôndito —- que não aparece no noticiário por nossa total falta de competência —-; é com coisa bem mais simples e tão incompreensível quanto. Diante dos números absurdos da Covid —- de infectados, de mortos, de vacinas e de dinheiro roubado —-  e, provavelmente, em busca de alguma variante para o honesto “quantidade”, tão bem aprendido na escola, decidimos introduzir o “quantitativo”. Até sei de quem é a culpa. É dessa turma de mentirosos e enrolados que se apresenta na CPI da Covid. Acusados, eles atacam com “quantitativos”. Os acusadores não se dão por rogados, e devolvem na mesma moeda. Nós jornalistas, de ouvidos atentos a tudo que acontece por lá, concluímos o serviço repetindo a expressão, sem pestanejar. 

Fico eu pensando no seu Zé, lá da padaria, que todas as manhãs ouve a turma pedindo pão cacetinho. Ops, perdão, isso a gente só pode falar lá no sul. Aqui em São Paulo, é pão francês, mesmo que o padeiro seja de origem lusitana. Mas vamos ao que interessa: será que o seu Zé, alguma vez na vida, quando o freguês chegou pedindo o pão francês, contra-atacou com um insólito: “qual o quantitativo de pães que o senhor deseja?”. Claro que não, seu Zé fala a língua do freguês. Então, por que nós jornalistas preferimos falar a dos acusados?

Quantitativo à parte, a tristeza do vocabulário jornalístico não tem limite. A cada dia sofremos ‘momentos de imobilidade e apreensão’ diante de palavras ditas sem pensar. Palavras e expressões.

Recentemente sofremos com a pandemia do ‘novo coronavírus’ —- que um ano e meio depois, já com nome, sobrenome e apelido, segue sendo “novo”. A variante dessa expressão migrou para o campo do comportamento: o “novo normal” — que  costuma ser acompanhado por um lugar comum dos mais miseráveis que ocupa espaço em textos e manchetes: “nestes tempos de pandemia …’.

Tem coisa sendo digitada e reproduzida por aí, que me incomoda muito mais. O verbo disponibilizar, com todos os seus dês e bês, mesclados de instigantes is, é das palavras mais lindas do ponto de vista estético, da língua portuguesa. Hipopótamo, recôndito e proparoxítona talvez se encontrem no mesmo nível de beleza, sem contar que ao serem ditas enchem a boca de sonoridade. A despeito de sua arquitetura, disponibilizar não é verbo conjugável na língua popular. 

Lembro sempre de recomendação do amigo e jornalista Afonso Licks, com quem trabalhei em Porto Alegre: não tem pauta se não estiver na rua da Praia. A tal rua, batizada oficialmente de Rua dos Andradas, nasceu com a capital gaúcha. É a mais popular, apesar de ter perdido parte de seu charme com os centros comerciais. É lá que o povo anda. E Afonso defendia que assunto que interessa ao povo que anda na rua da Praia é assunto que tem de estar na nossa pauta. Usurpei da lógica “afonsiana” para pensar sobre o vocabulário jornalístico, em especial no rádio: não existe vocabulário se não estiver na rua da Praia.

Digressão feita, volto ao verbo disponibilizar que tem aparecido com exagerada frequência no noticiário em lugar de palavras bem mais acessíveis como oferecer, conceder e apresentar. Os governos não oferecem mais nada, só disponibilizam. Arquivos públicos também são disponibilizados, nunca estão acessíveis. A loja não vende produtos, os disponibiliza aos clientes. Pense comigo, na rua da Praia, na do Brás, no Saara ou no Mercado Modelo será que as pessoas disponibilizam alguma coisa para as outras, ou vendem, ou oferecem, ou dão? 

Sei que temos o dever de enriquecer o vocabulário, mas não elitizá-lo ou, ainda pior, desvirtuá-lo e reinventá-lo. Precisamos ouvir a rua, dar um trato na palavra, consertar seus erros e disponibilizá-la … ops, perdão …devolvê-la mais bem elaborada colaborando com a cultura nacional.