Uma estreia abençoada pelo Frei Damião

 

Frei-Damião

 

Uma pilha de DVDs está ao lado da mesa de trabalho no aguardo do cumprimento de uma das promessas que fiz no início desta quarentena que já se estende por mais de quatro meses. A primeira foi organizar a biblioteca —cumprida pouco depois de completar um mês confinado. Mesmo que os livros não tenham sido colocados de maneira que me ajude a encontrá-los com a rapidez que gostaria, acredito ter passado no teste de aprendiz de bibliotecário.

 

Desisti da promessa seguinte, assim que percebi que a quantidade de fotografias impressas —- sou do tempo em que este era um hábito comum na família brasileira, imprimir imagens —— superava minha capacidade de colocá-las em ordem cronológica nos álbuns disponíveis. Devolvi um monte delas para o baú. Quem sabe na próxima pandemia.

 

O que hoje é DVD já foi fita magnética com gravação helicoidal, que vinha enrolada dentro de uma caixa de plástico, que “desenrolava” quando introduzida em um aparelho de videocassete —- naquela época, comprado em consórcios organizados por amigos, conhecidos ou colegas de trabalho. A vida útil das fitas de videocassete era bem menor do que a dos DVS, tendiam a perder qualidade, “enrugavam” a imagem e criavam mofo se guardadas de maneira inadequada. Com a habilidade de um amigo, todas aquelas mídias mais antigas ganharam proteção digital. Foram convertidas em DVDs e ficaram por anos guardadas no fundo de um armário.

 

Nestes dias, decidi iniciar a tarefa de assistir ao que estava armazenado em cada uma dessas mídias. Empilhei o material e comecei abrir a caixa de pandora da minha vida profissional. Lá estavam minhas participações em um tempo em que ainda era Mílton Júnior — assim mesmo, com dois acentos agudos, um nome e nenhum sobrenome. Era como me chamavam em Porto Alegre e como migrei para São Paulo, em primeiro de janeiro de 1991.

 

Cheguei aqui com emprego garantido na TV Globo, algumas semanas depois de ter feito um teste meio sem querer quando estava de passagem pela capital paulista. Minha experiência em reportagem televisiva se resumia a algumas poucas pautas feitas na época em que trabalhei no SBT, em Porto Alegre, onde havia sido contratado para participar da equipe de coordenação do novo telejornal da casa. Isso lá em 1989.

 

Apresentei-me na sede da TV Globo, ainda na praça Marechal Deodoro, no bairro da Barra Funda, pouco antes da meia-noite do dia 6 de janeiro. Nervoso, deslocado, roupa pouco alinhada e uma franja do tamanho do meu atrevimento, fui apresentado à redação —- praticamente vazia naquele horário —- pelas mãos do chefe de reportagem da madrugada, João Montenegro, uma espécie de anjo da guarda que passou na minha vida. Ajudou-me a entender a cidade, levou-me ao primeiro ensaio de uma escola de samba, sentou-se comigo em um bar qualquer da região, compartilhou alguns amigos e tentou me guiar até onde era possível nos corredores do jornalismo global.

 

A primeira madrugada de trabalho passou em branco. Nenhuma ocorrência que merecesse registro. Era uma sensação estranha, entre o alívio de não ser testado e passar vergonha logo de cara e a decepção de não emplacar uma reportagem na minha estreia. Antes do dia amanhecer, porém, veio o desafio: fui escalado para entrar ao vivo no Bom Dia São Paulo, apresentado por Carlos Tramontina —- outro mestre na minha carreira. Para quem havia trabalhado até então a maior parte do tempo em rádio, falar ao vivo não chegava a ser um drama, desde que não tivesse uma câmera ligada à sua frente e milhares de pessoas assistindo você na maior emissora de televisão do país.

 

 

Meu cenário de estreia foi a fachada do Hospital São Paulo, na Vila Mariana, onde estava internado Frei Damião —- frade capuchinho, teólogo, considerado milagreiro, especialmente no Nordeste, onde fazia suas longas e corajosas caminhadas para pregar a palavra de Deus, apesar do encolhimento da coluna vertebral que o deixava cada vez mais corcunda com o passar dos anos. Na época estava com 92 anos —- viria a morrer seis anos depois —- e todos os seus passos eram acompanhados com veneração e generosidade. O estado de saúde dele, portanto, era notícia de interesse público.

 

Informações apuradas, texto pensado e a mente travada pelo medo antecederam a minha estreia naquela manhã. Pedi a quem pudesse me ouvir lá no alto — nem quem fosse logo ali no 13º andar, onde ficava o quarto de Frei Damião — que me desse uma luz para espantar o nervosismo e cumprir a tarefa da maneira menos constrangedora possível. Ensaiei o texto uma, duas, dez vezes. Minha entrada no jornal seria pouco depois das sete e meia da manhã. Uma hora antes, recebo uma ordem pelo rádio de comunicação: é preciso gravar um boletim para a TV no Recife, terra que o frade havia adotado como sua desde que veio da Itália, em 1931. Tudo o que havia preparado para dali a pouco, seria obrigado fazer aqui e agora.

 

Sem muito tempo para pensar —- ainda bem, porque se tivesse teria saído correndo —-, o cinegrafista deu o sinal e eu tive de mandar ver. Disparei a falar o texto que estava planejado. Fui sem respirar. Do início ao fim. Mal consegui prestar atenção no que eu mesmo dizia. Só queria encerrar em segundos aquele minuto de gravação. Assim que assinei a reportagem, com um “Mílton Júnior, de São Paulo”, ouvi alguém da equipe dizer: boa, agora vamos para o ao vivo.

 

O ao vivo não chegou. Um problema técnico impediu o envio do sinal para a sede da TV. Tudo que tive de fazer foi repetir para São Paulo o mesmo boletim enviado para o Recife. E, a partir daquele momento, com a certeza de que eu era capaz — com as bençãos do Frei Damião.

O rádio chora a perda de José Paulo de Andrade

 

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A caminho da rádio, cedo, mas não tanto quanto hoje, preso no congestionamento, em São Paulo, a sintonia do meu rádio migrava da CBN para a Bandeirantes; do Zé Paulo para o Hérodoto. Foi a estratégia que encontrei para conhecer mais o rádio e a cidade. Na CBN, apresentava o CBN São Paulo. E na audiência deles procurava o caminho para fazer minha própria carreira por aqui.

 

Zé Paulo tinha voz forte, opinião contundente, não se deixava enganar pela fala mansa do entrevistado —- especialmente se fosse um político. Mesmo que fosse qualquer político. Não fazia distinção partidária. A pergunta era incisiva, bem embasada, e se mal respondida, não aceitava.

 

Fez do microfone instrumento plural, ouviu vozes divergentes em uma época em que não havia no rádio espaço para tantas —- especialmente pela dureza do regime em vigor. Promoveu debates improváveis, com gente que não queria se falar. E aceitou fazer uma conexão inédita de rádio entre o entrevistado dele no Pulo do Gato, na Bandeirantes, e o do Heródoto, no Jornal da CBN, em 1992 — já que de um lado havia um  acusador e de outro um acusado.

 

Depois de ouvir a força da voz e a contundência da opinião, fui apresentado ao coração generoso que batia no peito de Zé Paulo.

 

Foi quando o conheci pessoalmente. Ele estava sentando na cadeira de um restaurante. Levantou-se para me cumprimentar, assim que me apresentei. Uma reverência ao meu pai, Milton Ferretti Jung, que conhecia desde muito tempo. E a cena se repetiu todas às vezes que nos encontrávamos. Zé Paulo falava do pai e eu, orgulhoso de ouvi-lo, pensava: a lenda falando da lenda.

 

A carreira dele e a do pai, estiveram muito sintonizadas. Narraram futebol e brilharam no jornalismo. Foram longevos à frente dos programas que apresentaram: Zé Paulo no “Pulo do Gato” e o pai no “Correspondente Renner”. E apesar de todo o sucesso que fizeram jamais deixaram que isso se transformasse em prepotência. Respeitavam a força do microfone, encaravam a profissão com humildade e assim conquistaram a admiração dos ouvintes e o respeito dos colegas.

 

Encontrei-me no microfone com ele apenas uma vez, durante programa especial, em homenagem aos 90 anos de rádio, apresentado pelo Haissen Abaki, na rádio Estadão. Sentei-me à mesa ao lado do Heródoto Barbeiro, que já estava na RecordNews e do Joseval Peixoto, da Jovem Pan. Zé Paulo estava em casa e conversou com a gente por telefone. Senti-me um guri de calça curta diante daquelas feras. Fui muito mais para ouvir do que falar. E nas poucas vezes que falei, tive vontade de chorar de emoção pela alegria que aquele momento provocava no meu coração. A história do rádio estava ali na minha frente.

 

Hoje cedo, coube-me anunciar a morte de José Paulo de Andrade, aos 78 anos, por Covid-19. Ele vinha há algum tempo enfrentando dificuldades respiratórias devido a doença pulmonar obstrutiva crônica. Mesmo em casa, desde antes da pandemia, não escapou desse vírus que leva embora mais um talento brasileiro. Foi impossível não me emocionar e chorar, com lágrimas que me tiraram do microfone por instantes. Chorei, sim. O rádio chora a perda de uma de suas maiores referências. Seus admiradores, também. Todos nós devemos muito à jornada que Zé Paulo teve em vida ao nosso lado.

 

À família, nossa solidariedade diante do luto!

No rebobinar da memória, lembranças de meu cotidiano matinal no rádio

 

 

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Foto: Pixabay

 

 

Era cedo — mais uma vez. Tudo parece acontecer logo cedo comigo. Não só parece. Acontece mesmo, porque cedo é que o meu dia começa. Começou, nesta quarta-feira, em 15 de julho de 2020 com as principais notícias do dia. Para logo em seguida uma estranha reversão do tempo atingir minha mente.

 

 

Às 6h45 da manhã, voltei dois ou três anos ao informar que no centro da cidade a temperatura era de 14°C. Nem a sede da rádio, em São Paulo, está por lá — é na zona Sul — nem meu estúdio avançado da quarentena fica na região — é na Oeste. Costumava usar a expressão quando trabalhava no tradicional endereço da rua das Palmeiras, no bairro de Santa Cecília — este sim no Centro —, onde ficavam os estúdios da CBN e da rádio Globo. Foi lá que comecei a trabalhar. Onde cometi meus  erros e enganos. Onde também tive experiências profissionais memoráveis. Onde pratiquei jornalismo por 20 anos.

 

 

Imagino que tenha sido reflexo de outro recuo que minha memória me proporcionou um pouco mais cedo — não disse que tudo acontece muito cedo comigo?

 

 

Ainda eram 6h15 da manhã quando voltei mais de 30 anos no tempo. Já no bom dia da Aline Tochio, que atualiza a previsão do tempo no Jornal da CBN, e sempre recebe os ouvintes com muita simpatia e precisão, em vez de falar de São Paulo — como fazemos todos os dias —, resolvi perguntar sobre a temperatura em Porto Alegre, onde havia visto, minutos antes, que fazia um frio de renguear cusco — perdão pelo gauchismo.

 

 

Nossa meteorologista, sempre atenta aos monitores e radares, além de bem informada, confirmou que o frio era intenso: “neste momento, temos 5°C no Aeroporto Salgado Filho”.  Foi a senha para a fita rebobinar uns 30 e pouco anos. E eu me enxergar com 23 ou 24 anos de idade, época em que trabalhava na rádio Guaíba, e era o primeiro repórter a entrar no ar no programa matinal — sim, lá também as coisas aconteciam muito cedo para mim. Os termômetros do aeroporto de Porto Alegre faziam parte da minha fala na rádio, assim como as condições dos voos e uma ou outra notícia que surgisse no saguão do Salgado Filho.

 

A Cássia Godoy logo me cobrou que contasse essa história no ar. Não tive tempo. Preferimos tratar de coisas mais relevantes para os ouvintes.  Aqui no blog o espaço é livre e pode ser ocupado com reminiscência, por isso, reproduzo trecho de texto que publiquei no início desta pandemia, quando fui levado à reclusão. No qual comparava o momento que estou vivenciando com a apresentação do Jornal da CBN de casa e aquele tempo em que, de casa, entrava ao vivo na Guaíba:

“É estranho mas não inusitado. Em meus primeiros anos de rádio, nos anos de 1980, tive uma experiência curiosa. Na época, trabalhava na rádio Guaíba de Porto Alegre e fazia minha primeira participação, logo depois das seis da manhã, com informações do aeroporto Salgado Filho. Diante da necessidade de reduzir custos, a rádio combinou que eu continuaria atualizando as notícias do aeroporto — condições para voar, voos atrasados, lotação dos aviões entre outros assuntos —, mas diretamente de casa.

 

Era fim de madrugada quando acordava e ligava para os balcões das companhias aéreas — Varig, Vasp e Transbrasil —, para a torre de controle e para o telefone do ponto de táxi que ficava em frente ao aeroporto. Os motoristas descreviam o movimento de passageiros e informavam a temperatura registrada pelo termômetro de rua. Com esse arsenal de informações, me preparava para entrar no ar na Guaíba.

 

Encerrava meus boletins informando a temperatura na cabeceira da pista, uma forma que encontrei para dar um pouco mais de realidade aos fatos, quando de verdade eu estava falando, ao vivo, da cabeceira da minha cama. Registre-se que
em nenhum momento, no bate-papo com o âncora do Jornal, dizia que estava no aeroporto para não perder a confiança do ouvinte assim como não comentava que estava em casa — algumas vezes fui traído pelo nosso cachorro de estimação, que latia “diretamente do pátio”.

 

Se no ar tudo transcorria normalmente e a prestação de serviço atendia a expectativa do público, lá na minha casa, em Porto Alegre, eu me tornei um estorvo para meu irmão. Imagine que nós dividíamos um quarto e, portanto, todos os dias, às seis da manhã, ele era acordado aos berros por minhas notícias sobre saídas e chegadas de aviões e, claro, a temperatura na cabeceira da pista. Foi difícil para ele e constrangedor para mim, mas nada que estragasse nosso companheirismo, mantido até os dias de hoje”

Tantas lembranças, tão cedo e em tão pouco tempo talvez se justifiquem pelo que a psicóloga Simone Domingues nos ensinou recentemente em outro texto publicado neste blog. Escreveu que diante das restrições que vivemos, com o mundo praticamente parado, incapazes que estamos de projetar o futuro, tendemos a resgatar o passado. Um cenário de saudades que põe nossa memória em ação.

 

Ao menos desta vez, a memória levou-me a momentos felizes que vivenciei. Nem sempre tem sido assim.

Medo da Covid-19 e comunicação malfeita agravam transtornos na pandemia

 

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Foto Pixabay

 

Era cedo ainda. Estava escuro lá fora. A segunda nem havia começado direito e duas reportagens publicadas, em O Globo, já se destacavam na tela do meu celular. Dizem que somos mais suscetíveis aos temas que tocam nosso coração (neste caso, nossa mente). E talvez isso justifique meu olhar ainda marcado pelo sono e pela noite nem sempre bem dormida. Falavam de saúde mental e como estamos impactados nesta pandemia.

 

Os links para as duas reportagens estão na sequência deste post. Como o acesso é para assinantes, dada a importância do assunto, tomo a liberdade de reproduzir alguns trechos do trabalho das repórteres Evelin Azevedo e Gabriela Oliva.

 

Uma das reportagens dava nome e sobrenome para um transtorno que se agravou com o risco de contágio pelo coronavírus: ‘Fear of Going Out’ (‘Fogo’), associado a eventos estressantes fora de casa.

 

Entenda o que é Fogo, a síndrome do medo de sair às ruas, agora agravada pela pandemia.

 

Diz Daniel Mograbi, pós-doutor em psicologia e neurociências pelo Instituto de Psiquiatria do King’s College London:

“O medo de sair de casa é uma sequela da ansiedade, que está agravada durante a pandemia. Esse medo ocorre quando a pessoa tem algum evento estressante na rua, como um ataque de pânico. Agora, com a pandemia, a rua se tornou um espaço potencialmente perigoso. Ou seja, foi acrescentado aos medos existentes o novo medo, que é a infecção pela Covid-19”.

E qual caminho seguir? Mograbi responde:

“De uma forma geral, a pandemia fez explodirem os casos de ansiedade pelo medo de contágio e também pelas limitações relacionadas ao lazer. Por isso, se a pessoa está com um pânico, a recomendação é começar devagar. Em um quadro mais leve, exercícios de respiração e práticas contemplativas ajudam. Já em cenário mais grave, recorrente na rotina, aconselho acompanhamento médico — diz o psicólogo”.

A outra reportagem, que também está na versão impressa de O Globo, mostra como a falta de uma comunicação assertiva por parte das autoridades tem impacto na saúde mental das pessoas.

 

Incerteza sobre isolamento social traz impactos para a saúde mental

 

Leia o que diz Ronaldo Pilati, professor de Psicologia Social da UnB:

“Informações conflitantes podem gerar um estado de desamparo nas pessoas, fazendo com que não confiem mais nas notícias oficiais. Isso é algo que prejudica muito a orientação da população. Se existisse um processo mais ordenado de comunicação do governo, provavelmente as pessoas teriam mais segurança ao buscar informações para orientar seus próprios comportamentos e suas medidas de proteção. Essa descoordenação pode ter impacto no aumento eventual de ansiedade, principalmente por conta da incerteza em relação ao enfrentamento da doença no retorno às atividades normais”

E como amenizar essa dor? Quem responde é Deborah Suchecki, professora do departamento de Psicobiologia da Unifesp:

“Quando recebemos um abraço, o corpo libera um hormônio chamado ocitocina, que atua reduzindo a atividade de uma estrutura no cérebro que é reativa a emoções negativas, chamada de amígdala cerebelosa. A ocitocina é liberada com o toque, então, a automassagem pode ajudar muito no controle da ansiedade”

Dito isso, eu sigo por aqui, sem sair de casa.

 

Boa segunda-feira! E aquele abraço!

O improviso quando o locutor esquece os óculos e o editor, as notícias

 

 

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Foto de Milton Ferretti Jung


 

 

Gosto de rádio ao vivo. Gravar entrevistas, me incomoda. Tira o foco. Provavelmente é a resposta do corpo e da mente a uma dose menor de cortisol, que é um dos hormônios do estresse. Quando acende a luz da placa “No Ar”, coloco-me em posição de alerta. O texto improvisado flui melhor, a pergunta é mais direta e o ponto de corte na resposta do entrevistado tende a ser mais preciso. O erro faz parte do jogo que é jogado ao vivo. Conserta-se a frase. Refaz-se a pergunta. Pede-se desculpa quando a palavra não era a mais apropriada e quando se troca o nome ou cargo do entrevistado —- hoje mesmo isso aconteceu comigo.
 

 

O certo é que ao vivo tudo pode acontecer. E acontece com os melhores, tenha certeza.
 

 

Semana passada, enquanto escrevia sobre uma das gafes que cometi, lá no início da carreira, descobri nos meus arquivos textos escritos por meu pai. É bem provável que estejam publicados no livro em que a jornalista Katia Hoffman conta a história dos 60 anos que ele dedicou ao rádio: “Milton Ferretti Jung; gol, gol, gol, um grito inesquecível na voz do rádio”. Mesmo assim, compartilho duas delas com você — caro e raro leitor deste blog. Ambas ocorridas durante a apresentação do Correspondente Renner, na época a mais importante síntese noticiosa do rádio gaúcho.
 

 

As esquecidas “Últimas Notícias”

O Correspondente, que apresento, na Guaíba, há 39 anos, ao contrário do que os ouvintes imaginam, só me é entregue em cima da hora de ir para o ar e, às vezes ,ainda sem as “últimas notícias”. Alguns erros cometidos pelos redatores e que escapam da revisão, ainda consigo corrigir no ar. Já enfrentei, porém, problema mais sério. Não foi uma nem duas vezes que, depois de ler a ficha anunciando a parte mais importante da síntese, descobri que o editor havia esquecido de encaixar as “últimas notícias”. Sempre que isso ocorreu, não me restou outra alternativa: fiz de conta que a rádio tinha saído do ar e, quando o editor, apavorado, apareceu com as notícias, depois de desculpar-me dizendo que a transmissão fora interrompida por “problema técnico”, dei  seqüência à leitura.

Óculos Errados



Quando usamos óculos apenas para enxergar de perto, é comum esquecermos deles. Sempre que isso ocorria comigo, algum companheiro, cujas lentes tinham grau semelhante às usadas por mim, me socorria, possibilitando-me apresentar o Correspondente Renner. Certa vez ,no entanto, pedi emprestado os óculos do Idalino, um dos editores do noticiário. Testei-os lendo o texto de abertura do Renner ,redigido em negrito e com tipos maiores dos que eram utilizados na confecção das notícias. Só no momento em que entrei no ar, me dei conta de que os óculos não serviam para que eu enxergasse com a necessária clareza. Li a primeira notícia aos trancos e barrancos, tentei fazer o mesmo com a seguinte, mas fui obrigado a parar e gesticular para que o locutor de plantão me substituísse. Muitos ouvintes, percebendo a troca súbita de apresentador, telefonaram para a Guaíba a fim de saber o que havia acontecido. Houve até quem pensasse que eu tivesse sofrido um mal súbito.

Nosso limite na capacidade de absorver notícias ajuda na disseminação de informações falsas

 

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Foto: Pixabay

 

Uma das formas tradicionais de ataques a páginas, sites ou servidores de internet é a transmissão em massa de mensagens e dados congestionando seus canais e derrubando o sistema —- o que em tecnologia de informação chamam de “ataque de negação de serviço” ou DDoS, um acrônimo em inglês para Distributed Denial of Service.

 

O cérebro humano corre o risco de estar sendo vítima de algo semelhante —- e este foi tema de artigo publicado pelo escritor Eric Ravenscraft, especialista em tecnologia, mídia e cultura nerd.

 

Para Eric, diante do que assistimos nesta pandemia, mas não apenas por isso, o volume de informação e notícia que circula pelos diversos meios prejudica a nossa saúde mental, permite que mensagens falsas se disseminem e torna ainda mais complexo o trabalho dos desenvolvedores de conteúdo:

“o resultado parece um ataque DDoS mental” — Eric Ravenscraft

Da análise, das entrevistas, dos dados e das pesquisas publicados no artigo “Our Ability to Process Information Is Reaching a Critical Limit”, escrito por Eric no canal OneZero, no Medium, chamo atenção para um efeito em especial.

 

Com o bombardeio de informações, o tempo dedicado a cada uma delas diminui; e quanto menos tempo se tem para uma informação, maior é probabilidade de acreditarmos nela —- mesmo que seja falsa, revelou pesquisa publicada no Journal of Experimental Psychology.

 

Um estudo de pesquisadores da Universidade Macquarie e do MIT vai além. Diz que é mais provável que a falta de tempo para que a pessoa se dedique a notícia seja o motivo dela acreditar em informações falsas do que o próprio viés político.

“De tempo suficiente para processar o que está lendo é é mais provável que acredite na verdade, mesmo que isso vá contra suas crenças políticas. Mas o tempo é uma mercadoria cada vez mais rara e afeta mais do que apenas os consumidores de notícias” — Eric Ravenscraft

O artigo completo, em inglês, traz outras abordagens e pode lhe ajudar muito a refletir sobre como estamos produzindo e consumindo informações. E não vai tomar mais do que 5 minutos do seu tempo.

Podcast: comunicação como fator de liderança

 

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No BaruCast, podcast da especialista em comunicação corporativa Erika Barusco, tive oportunidade de falar sobre a importância da comunicação como fator de liderança, baseado no que escrevi no livro “Comunicar para liderar”, ao lado da amiga e fonoaudióloga Leny Kyrillos:

 

…..

 

Mílton, para ir direto ao assunto, comunicar é um fator decisivo para liderar?

 

De todas as competências necessárias para liderar uma empresa, um grupo de trabalho ou a sua própria carreira, considero a comunicação a mais importante, porque sem esta corre-se o risco de as demais não se expressarem em todo o seu potencial. Sabe-se que ter equilíbrio e flexibilidade, por exemplo, são fundamentais para quem assume posto de comando — especialmente diante do cenário crítico que estamos vivendo hoje. Agilidade e empatia colaboram, sem dúvida. No entanto, estarão restritas em suas dimensões se o líder não souber como se expressar. Apenas para ilustrar o que digo: como querer que a minha equipe atue com a velocidade de adaptação que o momento atual nos exige, se eu não estiver capacitando a transmitir ao meu time nossas possibilidades, de maneira simples, direta e objetiva — o que defendo há bastante tempo ser o mantra da boa comunicação? Ser simples, direto e objetivo me ajudará a guiar a equipe ou a demonstrar para o meu time até onde podemos chegar.

 

E o que envolve exatamente as competências de uma comunicação de liderança?

 

Consciência do desafio que enfrenta; conhecimento sobre o tema que vai tratar; compreensão sobre seus próprios limites — humildade para saber que eles existem; é preciso ainda exercitar a escuta, abrindo não apenas seu ouvido mas a sua mente para absorver o pensamento do outro e identificar suas necessidades ou restrições; somente assim será possível encontrar pontos em comuns que façam da comunicação uma ponte de aproximação de interesses e desejos. O líder comunicador sabe criar vínculos para fortalecer uma relação.

 

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O bate-papo completo você ouve, no Barucast, clicando aqui

 

 

“A tempestade passa, pode nos encharcar, mas passa”

 

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Foto: Pixabay

 

Chegou em minhas mãos, nesse fim de semana, presente de uma amiga querida, o livro “Dentro de mim — reflexões sobre autoconhecimento, amorosidade e transformação interior” (Intervidas). Foi escrito por José Carlos de Lucca, juiz de direito, dedicado a prática do espiritismo e um dos fundadores do Grupo Espírita Esperança.

 

Com texto claro, escrito de forma direta e iluminado, não precisei de muitas horas para avançar de um capítulo ao outro. Ainda não cheguei ao fim. O farei, com certeza, nos próximos dias. Faço, agora, um intervalo na leitura, porém, para dividir com você o que encontrei logo no início de “Dentro de mim”. De Lucca escreve texto com o título “Vai Passar’. É de 2019 e traz ensinamentos para todos nós que atravessamos com tristeza este 2020.

 

No artigo, há a reprodução do trecho de um texto de outro autor, Caio Fernando Abreu—- este bem mais próximo de mim, por jornalista e conterrâneo que é, e por ter marcado toda nossa geração com seus artigos que tratavam de temas até então não-convencionais, tais como sexo, medo e solitude. Caio morreu jovem, com 47 anos, em 1996.

 

Atrevo-me a publicar a seguir parte do primeiro capítulo de “Dentro de mim”, sem pedir licença ao autor, mas por desconfiar de que se pedisse a licença seria concedida, por útil que sua mensagem pode ser a todos que estão compartilhando das mesmas dores:

 

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Tudo passa!

 

Não há mal que perdure para sempre. Não há dor que se eternize. Não há treva que resista à luz. Todo mal é passageiro, toda dor é temporária. Por essa razão, o suicídio é uma “solução” definitiva para um problema temporário: uma dose excessiva e inócua para uma dor que, com o passar do tempo, encontraria naturalmente o seu fim. O suicídio, porém, não soluciona a dificuldade que nos sufoca: ao contrário, agrava-a.

 

Melhor pensar que o problema de hoje está de passagem. Mais dia, menos dia, ele será apenas uma lembrança na história de sua vida, assim como hoje você se recorda de outras tantas adversidades já superadas.

 

Quantas vezes você imaginou que não teria forças para seguir adiante, e as forças brotaram das suas entranhas mais secretas e o conduziram à vitória? Quantas vezes você pensou que era chegado o fim, mas tudo não passou de um recomeço que o levou a situações melhores? Quantas vezes você acreditou que seu problema não tinha mais solução, e, inesperadamente, a solução surgiu de onde menos se esperava?

 

Maria de Nazaré, a Mãe Espiritual de todos nós, afirma que todo mal é passageiro, e somente o Reino de Deus tem força suficiente para nunca passar. Então, no momento da aflição, não devemos olhar para o abismo nos chamando para a derrota. É hora de olharmos para o céu, de onde viemos, e abrirmos a nossa mente e o coração para a poderosa força da vida que Deus soprou em cada um de nós no momento que nos criou!

 

À medida que nos entregamos à experiência de sentir a força da vida em nós, somos preenchidos de paz, serenidade e confiança em nossas possibilidades de superarmos as adversidades. A força divina dentro da gente começa a mudar o cenário da vida lá fora! O poeta Caio Fernando Abreu chamou essa força divina de “impulso vital”e mostrou, com rara sensibilidade, como ela pode fazer nossa vida seguir adiante, apesar das nuvens sombrias que pairam sobre nós.

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim — nós, não. Contidamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”

Todo mal um dia passará, indiscutivelmente. Deixemos que esse impulso vital nos leve adiante e nos tire do abismo da derrota, das águas fundas da nossa tristeza, da janela de um edifício…

 

Aguente firme, a tempestade passa, pode nos encharcar, mas passa. Depois, o sol seca a nossa alma enregelada. O Reino de Deus, de onde brota o impulso vital, está pronto para crescer em cada um de nós, e o Reino não está longe nem fora, está dentro de mim, está dentro de você! Pacientemente, permita-me esse movimento de Deus em sua vida, a partir do seu coração.

 

Vai passar!

 

Compre aqui o livro “Dentro de Mim”, de José Carlos de Lucca

Minha estreia no futebol da Guaíba, ao vivo, da sala do seu Oquelesio

 

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Foto: Pixabay

 

Era o ano de 1986. Mauro Galvão, um dos grandes zagueiros que o Brasil já teve, faria a sua estreia na seleção brasileira. Eu faria a minha no futebol da rádio Guaíba de Porto Alegre. Já trabalhava na casa há uns dois anos, mas no que costumavam chamar de esporte amador — esporadicamente fazia uns “frilas” no futebol. E assinava as reportagens como Mílton Júnior, para que não houvesse confusão com o nome do pai, já que ele, o Milton Jung original, era também narrador esportivo da emissora.

 

Minha primeira tarefa no futebol: assistir ao lado da família do zagueiro, que na época jogava no Internacional de Porto Alegre, à primeira partida dele com a amarelinha da seleção. Era um jogo amistoso, se não me engano em Goiânia, Goiás.

 

Cheguei na casa da família Galvão que ficava próxima do estádio colorado e fui recebido por seu Oquelesio, pai do Mauro, de braços abertos. Ele lembrava do tempo em que eu havia jogado ao lado do filho na escolinha de futebol do Grêmio — sim, Mauro sempre foi gremista apesar de ter iniciado carreira e ganhado títulos importantes no Internacional. A lembrança de seu Oquelesio, evidentemente, não se devida às minhas qualidades técnicas em campo, mas por eu ser filho de quem eu era —  e o pai sempre esteve presente nos nossos jogos.

 

Se para a família de seu Oquelesio a ansiedade era resultado da estreia de Mauro na seleção, a minha era pela oportunidade de participar de uma jornada esportiva que tinha no comando, como narrador, exatamente o meu pai.

 

Galvão estava no banco da seleção. Eu, sentado no sofá da sala de seu Oquelesio.

 

Ao meu lado, além do pai, estavam a mãe, a mulher e o filho recém-nascido de Mauro. Durante todo o primeiro tempo sem o filho famoso em campo, a família aliviava a ansiedade com alguns salgadinhos aqui, uns pasteizinhos ali e muitos goles de cerveja.

 

Constrangido por estar na casa dos outros e nervoso por participar da primeira jornada esportiva, não conseguia sequer aproveitar os petiscos oferecidos. A cerveja, nem pensar. Mesmo alguns anos depois de deixar a prática esportiva de lado, mantinha o hábito de não beber nada que tivesse álcool.

 

O momento tão esperado chegou no segundo tempo. Mauro Galvão aquecia ao lado do gramado. Eu preparava a garganta para a primeira intervenção. Assim que o craque entrou em campo, eu fui ao ar. Por telefone, relatei a satisfação da família como se aquela fosse a mais importante reportagem de todos os tempos.

 

A felicidade da família com a entrada do filho na seleção só não era maior do que a minha com a primeira participação na jornada esportiva. Alegria que me fez esquecer alguns cuidados básicos e aceitar o primeiro gole de cerveja depois de anos. Afinal, tínhamos todos motivos de sobra para um brinde. Um não. Dois, três, quatro copos — sei lá quantos mais.

 

Bola prá cá, cerveja prá lá. E o jogo chegando ao fim. Galvão fez em campo o que se esperava de um jovem zagueiro em dia de estreia. Não comprometeu. O novato aqui também estava bem. Até o último gole, ops, até o último apito.

 

Com o jogo encerrado, corri para o telefone, liguei para a rádio e pedi para ir ao ar.

 

O pai, Milton Jung, orgulhoso de chamar o filho mais uma vez, logo passou a bola para mim. Já na primeira frase senti os efeitos da cerveja. As palavras saíram arrastadas. O pensamento estava lento. As ideias, esquecidas na sala.

 

Apesar disso consegui aos trancos e tropeços passar algumas informações, mas na hora de devolver a bola para o velho Mílton, o jovem aqui se atrapalhou com o próprio nome e tascou de forma solene: “eram essas as informações, ao vivo, diretamente da casa da família de Mauro Galvão. Agora é com você, caro Mílton Júnior!”.

 

O silêncio do outro lado da linha foi o mais doloroso puxão de orelha de pai para filho que já recebi.

A palavra bem escrita no rádio é a palavra falada

 

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Foto: Pixabay

 

 

O rádio é palavra falada. E por falada que é, muita gente pensa que não precisa ser bem escrita.

 

É, também, improviso. E em nome do dito cujo há quem justifique qualquer barbaridade cometida à língua.

 

Essa visão distorcida leva à redação de jornal, quem gosta de escrever; para as de rádio quem gosta de falar —- poderia completar a brincadeira e dizer que vai para a de TV quem quer aparecer, mas não vou dizer não porque é maldade das boas e desrespeito a colegas de muito talento que conheço.

 

Verdade que no rádio a dependência ao texto escrito é bem menor do que em outras mídias, mesmo se comparado ao tipo de televisão que assistimos nos canais dedicados ao jornalismo ao vivo, onde cada vez mais apresentadores e repórteres se desprendem do roteiro prévio para contar as histórias do cotidiano. Na TV, ainda existe uma burocracia técnica que exige uma disciplina maior dos profissionais para que a reportagem entre no ar. E os telejornais seguem tendo que rodar no teleprompter.

 

No rádio, a coisa funciona mais ou menos assim — e vou me basear no Jornal da CBN.

 

Das quatro horas de programa que vão ao ar, texto lido de verdade só na abertura, quando, ao lado da Cássia Godoy, apresentamos os destaques do dia, escrito pelo editor —- geralmente o Edmílson Fernandes (esse merece um capítulo especial). A cada meia hora tem, também, o Repórter CBN, obra do redator de plantão dedicado ao programa.

 

Daí pra frente, é um improviso só.

 

Chama a reportagem do Queiroz! Quem fez? Tem repórter de Brasília ao vivo na linha. Qual o assunto? O entrevistado está esperando. Me dá o crédito dele!

 

A conversa entre âncoras, produtores e operadores rola solta enquanto a programação está no ar. Hoje, no isolamento, sou obrigado a fazer esse bate-papo virtual. Perde-se um pouco de agilidade, mas nada que prejudique a performance e a dinâmica.

 

As reportagens gravadas têm textos de apresentação, escrito pelo editor ou pelo próprio repórter. Coisa de quatro, cinco, seis linhas no máximo. Mais do que isso é exagero. Servem de orientação para chamar o conteúdo preparado pelo repórter. Costumo passar por cima desse texto, porque escrito no bastidor tende a não ter o ritmo da minha fala.

 

Prefiro um tom mais autoral. Que provoque no ouvinte a sensação de que o que ele vai ouvir em seguida faz parte daquela conversa que começou às seis da manhã e se estenderá até às dez. Por isso, gosto sempre de relacionar com algo que já havíamos falado ou falaremos mais à frente. De contextualizar o assunto para que a reportagem não caia como um paraquedas do céu. De esclarecer algum aspecto que ajude a mensagem a ser mais bem absorvida pelo público. Precisamos sempre lembrar: nunca se está só ouvindo rádio. Então, chamar a atenção do ouvinte para o que vem ou para o que foi, é essencial.

 

Disse que gosto de fazer isso. Não significa que o faça sempre assim. E, principalmente, que meu improviso seja melhor do que o texto escrito. Quando se fala ao vivo, tem dessas coisas. Aumenta-se o risco de errar. O que me consola é que erro por conta própria. Pior coisa que deve haver é a gente só cometer o erro dos outros. Tenho de ter, no mínimo, competência de errar por mim mesmo.

 

Aliás, errei muito nesta vida do rádio.

 

Dia desses, revendo CDs e DVDs do passado —- uma das tarefas que me impus para suportar esses mais de 90 dias de quarentena —-, encontrei e-mail do jornalista Eduardo Martins, o homem de um emprego só. Trabalhou no Estadão a vida toda. Começou lá aos 17 anos, fazendo palavras cruzadas como colaborador, virou redator, repórter e editor. Foi autor de “O Manual de Redação e Estilo”, que o jornal publicou em 1990 e guardo na minha estante com orgulho. Morreu em abril de 2008.

 

Sua missão em vida foi valorizar a boa língua portuguesa e em nome desta missão me escreveu em abril de 2001. No texto, convidou-me a visitar o site dele “para evitar alguns erros que cometemos diariamente”. Usou o plural, mas entendi que a crítica era singular. Foi gentil ao citar apenas um dos muitos erros que saem da minha boca: o uso inadequado da locução “em função de”.

 

Escreveu Eduardo Martins:

“1 — A locução em função de só pode ser usada quando equivale a finalidade, dependência:

 

O time jogava em função do adversário/ O político agia em função dos seus objetivos/ O homem vivia em função da família

 

2 — Ela não corresponde, porém, a em virtude de, por causa de , em conseqüência de ou por, casos em que deve ser substituída por uma dessas formas:

 

A entrega do navio foi antecipada pela (e não “em função da”) rapidez do trabalho do estaleiro./ A Justiça tomou a iniciativa em conseqüência do (e não “em função do”) grande número de processos à espera de julgamento./ Na década passada as montadoras pararam por causa das (e não “em função das”) greves. / Recebeu a promoção graças às (e não “em função das”) suas qualidades.”

Guardei esse e-mail por causa da consideração (e não “em função do”) que sempre tive por Eduardo Martins. E pela maneira como ele me considerou. Ao escrever uma carta digital de “próprio punho” para me corrigir, demonstrava respeito aos jornalistas de rádio. Sabia da responsabilidade e da capacidade que temos de influenciar outras pessoas.

 

Que se influencie de maneira certa: falando o bom português, enriquecendo o vocabulário do cidadão, evitando o lugar-comum, valorizando a nossa língua e seguindo o ensinamento do professor catalão Ivan Tubau de que “ao escrever para quem ouve, deve-se escrever como quem fala”. Ou seja, a palavra bem escrita no rádio é a palavra falada.