MacMais se despede dos leitores e deixa minha banca de revista sem graça

 

IMG_2766

 

Das bancas de revista tenho aproveitado muito pouco apesar de sempre me chamar atenção aquela diversificação de capas expostas. Gosto de ver o que as publicações estão anunciando, desde as fórmulas matadoras para nos transformarmos em profissionais de sucesso até as belas moças que nos convencem de que com pouco esforço e muita dieta a barriga que nos assusta desaparecerá para sempre – ou até a próxima edição da revista. As semanais, que deveriam ser chamadas jornalísticas, já impactaram mais o noticiário com suas denúncias bombásticas. Acredito que a fugacidade das notícias tenha levado os furos para suas páginas na internet, antecipando-se a edição do fim de semana.

 

Para ser sincero, meu interesse comercial nas bancas tinha um único alvo: a MacMais, única revista especializada em equipamentos da Apple escrita em língua portuguesa. A tenho guardada em coleção desde a época em que se chamava MacMania, quando fui apresentada a ela pelo colega José Roberto de Toledo, com quem dividi redação no Portal Terra, lá pelo início do século (século 21, lógico!). Se não me falha a memória ainda não havia comprado meu primeiro Mac e usei a revista para entender melhor os benefícios que teria nesta mudança. A troca de nome da revista veio acompanhada de mais organização e periodicidade, o que me fez comprador ainda mais assíduo e levando minha coleção a ocupar uma das partes do armário que tenho no escritório de casa. Se nenhum enxerido se atreveu a mexer por lá, devo ter todos os números publicados até hoje.

 

Na MacMais encontrei várias dicas salvadoras para manipular minhas máquinas da Apple, garantindo uma relação que se iniciou com um poderoso PowerBook G4 para depois migrar a todo lançamento legal anunciado por Steve Jobs. Hoje, em casa, tem um iMac, um MacBook, um MacAir, Iphones e Ipods todos incluindo aplicativos ou soluções oferecidas na revista. Tive o prazer de escrever na última página da edição de abril de 2013, reservada a coluna Mais ou Menos, na qual pude expor meu incomodo aos maus serviços prestados por boa parte das assistências técnicas da Apple, em São Paulo. Estão anos luz distantes da qualidade dos produtos desenvolvidos em Cupertino. Foi também a revista quem incentivou a criação do blog MacFuca, escrito por meu irmão, o Christian, que se dedica a falar sobre um dos carros mais apaixonantes no Brasil. A partir de uma foto em que o fusca dele aparecia com o adesivo da maça da Apple e a placa com as iniciais AIR, surgiu a brincadeira que uniu o nome de duas marcas que mantém uma quantidade incrível de fãs pelo mundo.

 

Durante muito tempo ensaiei carta (perdão, e-mail) ao editor Sérgio Miranda propondo a reedição, em minha casa, de um esquadrão que ele e colegas de redação criaram. O grupo, aos moldes do Ghostbuster, era chamado para oferecer soluções múltiplas a usuários de Mac, conectando os equipamentos, baixando programas, ensinando truques e tornando a vida ainda mais prática. Não tenho certeza se chegaram a realizar esta brincadeira por mais de uma edição, mas adoraria tê-los por aqui para me ensinar a explorar 100% ou quase do potencial das máquinas que tenho. Jamais me atrevi a escrever pois não gostaria que minha condição de jornalista e conhecido do editor influenciasse a decisão deles. Até porque se quisesse mesmo resolver todos os problemas que contratasse técnicos especializados, não é mesmo?

 

Neste fim de semana, fui a banca mais uma vez em busca da revista e lá estava a capa dela me oferecendo um guia completo de sobrevivência na nuvem, com informações sobre o iCloud Drive. Mal havia pago, fui surpreendido com o editorial assinado pelo Sérgio no qual a revista se despedia de seus leitores. Sim, a edição 103, de fevereiro de 2015, da MacMais será a última publicada pela editora Escala. Sérgio não explica os motivos desta decisão, mas a realidade do mercado editorial talvez seja suficiente para justificar a medida. Está cada vez mais complicado manter revistas rodando pelo custo da produção (especialmente se forem qualificadas e responsáveis), o baixo número de leitores e o sumiço dos anunciantes. O que surpreende é saber do fim da Macmais no momento em que a Apple está bombando e supera suas principais concorrentes nos mais diferentes rankings de mercado.

 

Os fãs do Mac provavelmente estejam buscando informações em outra freguesia há muito tempo, afinal a internet está por aí a desafiar todos os modelos de negócio. Muita gente talvez nem soubesse da existência da revista ou ao vê-la exposta a confundia com mais uma das muitas publicações tentando sobreviver na banca. A verdade é que fiquei triste em saber que nunca mais terei o prazer de, ao passar na revistaria, perguntar se a “Mac” chegou. Mais triste ainda em perder uma publicação que desenvolvia um trabalho tão sério quanto difícil, levando em consideração a infraestrutura oferecida ao pessoal da redação e a disputa feroz com os demais meios de informação. Ali você não ficava sabendo de boatos, o que se lia era a verdade. Mesmo fãs da marca, não se acanhavam em reclamar sempre que algo não dava certo. Os leitores tinham a certeza de que as dicas não eram impulsionadas por interesses comerciais. As sugestões tinham conquistado o coração da redação e não o bolso. Eu , em particular, comprava a MacMais pelo o que eles me ofereciam de maior valor: credibilidade. Por terem mantido esta marca até o fim, Sérgio e equipe estão de parabéns.

 

Espero encontrá-los em breve em uma banca qualquer da cidade!

O que fazer quando a água acabar?

 

5185872856_a763126dd9_z

 

Há pouco mais de quatro anos, participei do Blog Action Day, uma ação global de blogueiros comprometidos a discutir o tema da água, um dos grandes desafios do Século 21. Em um dos textos publicados aqui no miltonjung.com.br, falei de cenário que lembra muito o que estamos enfrentando na Região Sudeste, especialmente no Estado de São Paulo, sem jamais imaginar que a falta de água pudesse ser tão grave e imediata. Já se calculava que no mundo 1 bilhão de pessoas não tinham acesso à água limpa para o consumo, e um número impressionante de pessoas ficavam doentes ou morriam devido a falta de saneamento básico.

 

Estudo que acabara de ser publicado na revista Nature mostrava que 80% da população mundial viviam em áreas onde o abastecimento não é assegurado. Curiosamente, boa parte da Europa e América do Norte sofre deste mal que apenas se ameniza graças ao impacto da infraestrutura criada para distribuir e conservar água. Um dos pesquisadores, Peter McIntyre, da Universidade de Wisconsin, alertava, porém, que “uma fatia enorme da população não pode pagar por estes investimentos … que beneficiam menos de um bilhão de pessoas”.

 

Outra publicação, a Newsweek, apontava para a corrida pelo controle da água que estava sendo travada no mundo e questionava se companhias privadas deveriam ter o domínio sobre nossa mais preciosa fonte natural. O texto, assinado por Jeneen Interlandi, relatava a operação de duas empresas privadas americanas para transferir 80 milhões de galões de água do Blue Lake (Lago Azul), no Alasca, para Mumbai, na India, de onde seriam distribuídos para cidades no Oriente Médio. Essa privatização na produção e distribuição, defendida por alguns setores da economia como solução para a crise global de água doce, é motivo de temor para muitas populações. Por definição, uma mercadoria é vendida pela melhor oferta, não para o consumidor que tem mais necessidade. E com estimativas de que o consumo de água tem dobrado a cada 20 anos e a procura vai superar a oferta em 30% até 2040, a questão é saber o que pesará mais na decisão dos “donos da água”.

 

De 2010, quando esses dados foram reproduzidos aqui em miltonjung.com.br, até agora a situação apenas se agravou e, pior, ficou ainda mais próxima de nós.

 

Na cidade de São Paulo, quase todos os moradores – mais de 98% – são servidos por rede de abastecimento. Índice um pouco menor – 87,2% – vivem em locais onde há rede de esgoto. Jamais percebemos, porém, o privilégio que tínhamos em receber água limpa na torneira, e sem esta consciência a desperdiçamos com facilidade. Nós e as companhias que são pagas para distribuí-las, pois os índices de perdas na rede beiram os 30%. De forma irresponsável, nossos governos se abstiveram de impor o controle necessário aos gastos. E neste ritmo chegamos a desesperadora situação atual em que o estoque disponível para abastecer 20 milhões de pessoas na Grande São Paulo caiu 74%, em um ano. De acordo com reportagem do jornal O Estado de São Paulo: “Quando a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) emitiu o primeiro alerta sobre a seca no Cantareira, em 27 de janeiro de 2014, os seis mananciais que atendem a região mais rica do país somavam 1 trilhão de litros armazenados. Hoje, restam 267,8 bilhões, 12,4% da capacidade dos reservatórios”.

 

Nossa “caixa d’água” está praticamente vazia e autoridades calculam que, se não houver uma mudança drástica no regime de chuvas, em três meses, corremos o risco de não termos mais água no Sistema Cantareira.

 

O que fazer quando a água acabar?

Venha declarar sua paixão por São Paulo, neste sábado, na CBN

 

5390270278_3c1bc4a4d3_z

 

Se você é apaixonado por São Paulo já está convidado a participar do programa CBN SP – especial, em homenagem aos 461 anos da cidade, que será apresentado, neste sábado, dia 24 de janeiro, a partir das 10 da manhã, no Pateo do Collegio. O Thiago Barbosa e eu estaremos recebendo convidados da área cultural, artística, esportiva e ambiental que falarão sobre suas experiências na capital paulista e as ações que desenvolvem para ajudar a cidade a crescer e melhorar a qualidade de vida.

 

Os ouvintes também terão espaço para declarar seu amor pela cidade. Desde às 9n horas da manhã, a CBN terá locais abertos para que o cidadão paulistano grave uma mensagem para São Paulo. Esses depoimentos serão publicados no site da rádio CBN para você compartilhar com os seus amigos nas redes sociais.

 

Participarão das conversas no palco central, do Pateo do Collegio, Andre Sturm, diretor do Museu da Imagem e do Som e responsável pela reabertura do Cine Belas Artes; Eduardo Kobra, artista plástico, criador de vários painéis de grafite da cidade, alguns representando uma São Paulo do início do século XX; Stela Goldenstein, ambientalista, diretora da ONG Águas Claras do Rio Pinheiros; e os comentaristas da CBN Juca Kfouri e Gilberto Dimenstein. Durante todo o programa vamos ouvir a música de Negra Li que estará ao vivo também declarando a sua paixão por São Paulo.

 

Ouça aqui a chamada para a festa da CBN:

 

Pena de morte nivela o Estado ao criminoso, diz filósofo Renato Janine Ribeiro

 

pena_de_morte_capa

 

O Brasil é pioneiro na abolição da pena de morte, apesar de a Constituição Federal ainda prever essa punição em caso de crimes cometidos em tempo de guerra. A mesma Constituição impede a pena capital em qualquer outra situação ao tratá-la como cláusula pétrea – e aí virá o constituinte a discutir se estas têm sentido. Quem sou eu para me meter com os especialistas? Deixo a discussão jurídica aos estudiosos da lei.

 

Dos tempos em que vigorou no Brasil, a pena morte cabia apenas aos escravos. Gente rica, por mais bárbaro que fossem os crimes cometidos, jamais seria enforcada. Exceção feita ao fazendeiro Manoel da Motta Coqueiro, acusado de matar família de colonos, na metade do século 19. Foi condenado e morto. Justiça? Não, vingança. Em entrevista à BBC Brasil, o jornalista Carlos Marchi, autor do livro “A Fera de Macabu”, disse que Coqueiro tinha inimigos políticos na região, que exerciam influência na política, no judiciário e também na imprensa. Mais tarde surgiram indícios de sua inocência. Como escrevi: era tarde.

 

Com a Proclamação da República – e sem escravos para punir – veio o fim da pena de morte, que voltaria a ser prevista no Regime Militar, no código escrito pelos milicos em 1969. Ainda bem, jamais levada a cabo.

 

O fuzilamento do traficante brasileiro Marco Archer na Indonesia trouxe a discussão de volta e as diferenças ficaram evidentes nos debates públicos proporcionados pela internet. Texto que escrevi no fim de semana, originalmente no Blog do Milton Jung, me aproximou de muitas opiniões e revelou personalidades. Nem todas com argumentos muito firmes, mas sempre determinadas: a favor ou contra. No que escrevi, parece-me, não ficou dúvida: sou contra a pena de morte. Quanto aos argumentos que usei, julgue você mesmo.

 

Volto ao assunto, hoje, porque entrevistei, sobre o tema, no Jornal da CBN, o filósofo Renato Janine Ribeiro que definiu a defesa da pena de morte como “a solução para os ignorantes”. Para ele, boa parte da argumentação dos que se dizem a favor da punição está construída sobre o ódio e não se sustenta. Não que o pensamento do respeitado filósofo precise do meu respaldo, mas sempre disse que toda sociedade que age com ódio, erra. Não devemos ser movidos pela vingança, apenas pelo desejo de justiça.

 

“A ideia de matar pessoas quais quer que sejam os crimes é uma ideia fácil de vender para um público assustado pelo aumento da criminalidade”, disse Janine, ao comentar a política de combate ao tráfico de drogas, promessa de campanha eleitoral, do presidente da Indonésia, que fez até um plano de metas: cinco execuções por mês. Está cumprindo. Janine mostra que a pena de morte não tem qualquer influência nos índices de violência. Nem para o bem nem para o mal. Além disso, impõe duas situações dramáticas: a impossibilidade de corrigir um erro judiciário e o nivelamento do Estado ao criminoso. Considera ser esta uma saída simplista com a qual se deixa de discutir a violência e a criminalidade dos pontos de vista da miséria social, da ética e da moral:”para problemas difíceis sempre se tem uma solução fácil e errada”.

 

Ouça aqui a entrevista completa do filósofo Roberto Janine Ribeiro, ao Jornal da CBN

Sinto tristeza e pena da morte de Marco Archer

 

marco-archer-cardoso-moreira-size-598

 

Neste sábado, senti tristeza alheia. Sentimento estranho porque não deveria nos pertencer. A tragédia não é minha, está distante da minha família e ocorre com pessoa de quem tenho quase nenhuma referência. Sei tanto quanto você sabe, assistindo ao noticiário. A tristeza que me tocou foi pelo fuzilamento de Marco Archer, condenado a pena máxima por tentar entrar na Indonésia com 13 quilos de cocaína escondidos em uma asa delta. Ele estava há 11 anos na prisão e havia completado 53 de vida, pouco mais do que eu, o que me faz acreditar teria muitos outros pela frente, não fosse o erro grave que cometeu. A vida se foi diante de um pelotão de 12 soldados que portavam rifles, sendo que apenas três deles realmente tinham balas de verdade para matar.

 

Todos sabemos que Archer cometeu um crime e tinha consciência do risco que corria ao aceitar a oferta que, segundo ele, o ajudaria a pagar dívida hospitalar que contraiu após tratamento por acidente sofrido. Percorreu o caminho mais perigoso, talvez por estar acostumado com as coisas aqui no Brasil, onde a impunidade é a regra. Tudo conspirou contra a vida de Archer, a começar por seu próprio ato. Além de ser flagrado pelos agentes de segurança no Aeroporto de Jacarta – por onde imagino passem outros tantos sem serem importunados -, ainda se deparou com um presidente que acaba de se eleger com a promessa de ser implacável com os criminosos condenados à morte por tráfico de drogas. Assassinar Archer e mais 63 traficantes que já tiveram pena decidida foi promessa de campanha. E lá parece que eles cumprem com suas promessas, mesmo que sejam bárbaras. Mesmo que incompetentes para dar uma solução às drogas.

 

Sei, também, que o consumo de drogas tem causado danos profundos a pessoas doentes e suas famílias. Um parente viciado faz com que a doença se espalhe como metástase, contamina a todos, quando não os mata. Provoca sentimentos dúbios de compaixão e ódio. Põe em dúvida nossas convicções de respeito à vida. E nos faz sofrer mais ainda quando a morte do viciado traz alívio em lugar que deveria ser destinado à tristeza. Sim, as drogas nos matam. Mas isto não me faz desejar a morte de ninguém.

 

A imagem de Archer, com cara de bonachão, olhar assustado e voz arrependida apareceu com frequência nas nossas casas nesses últimos dias com o aprofundamento da cobertura jornalística. Está na cara que ele não produz, não comercializa e não mata para manter a enorme rede criminosa que atua no tráfico de drogas. Está distante dos que ocupam o topo desta hierarquia. Era uma mula, como muitos desses desgraçados que são presos em aeroportos brasileiros levando droga pra lá e pra cá. Archer era mais um desgraçado consciente do que fazia, é verdade; querendo tirar proveito da oportunidade oferecida, sem dúvida; mas muito longe de ser merecedor da morte nestas circunstâncias. Lembrar do olhar dele voltado para a câmera, como se estivesse pedindo ajuda para alguém, me provocou tristeza.

 

E mais tristeza senti ao me deparar com gente que não acredita na força do ser humano e na sua recuperação. Pior, gente incapaz de perceber a desproporcionalidade da pena diante do crime cometido. Ou muito pior, gente que mesmo diante de uma tragédia humana como a do fuzilamento de Archer, encontra espaço para partidarizar o debate. Gente sem alma, gente desgraçada essa por quem sinto tristeza. E tenho pena, mas não de morte!

Eletropaulo fala de verão atípico para falta de luz e demora no atendimento

 

B60UtSAIcAAMDVs

 

Escrevo este texto um dia após ter enfrentado 10 horas seguidas sem energia elétrica em minha casa, local, aliás, onde também exerço parte das minhas atividades profissionais. E escrevo com a ansiedade de que a chuva não retorne à cidade de São Paulo com a força e o vento que têm caracterizado este verão, pois se isto ocorrer na Zona Oeste provavelmente haverá outra interrupção e novo prejuízo à produtividade. Desde o início de dezembro de 2014, registrei 12 protocolos por falta de luz, só neste ano foram quatro, os dois últimos, nos dias 11 e 12 de janeiro. É de causar indignação. Sentimento, aliás, compartilhado com quantidade enorme de paulistanos, pelo que percebo nas mensagens que recebo no Jornal da CBN.

 

Na noite de segunda-feira, havia ao menos 800 mil pontos sem energia elétrica na capital, e a cidade acordou, na terça-feira, com cerca de 540 mil sem luz, segundo informação da própria Eletropaulo. Houve casos de pessoas que chegaram a ficar quase 20 horas às escuras, alguns tendo de fechar seu comércio e outros perdendo comida armazenada na geladeira. A maior parte se sente desassistida pela concessionária ao ligar para a empresa e ser recebida apenas no atendimento eletrônico.

 

Confesso a você que pouco me importa se falo com alguém ou não, desde que o registro automático de minha reclamação gere conserto imediato. Por isso, prefiro enviar SMS para o número 27273 com a palavra Luz e o número da minha instalação (que você encontra na conta de luz). Esta é a mensagem que identifica falta de energia na sua casa ou no trabalho. Assim que você envia o SMS, a empresa retorna com o número do protocolo e uma previsão de restabelecimento de energia. Curiosamente, no início de dezembro, recebi mensagens falando em 2h40 e 3 horas para o conserto. Desde lá, porém, ninguém mais arrisca um prazo: “será efetuado o mais breve possível” diz o texto.

 

Hoje, após muita insistência, a Eletropaulo elegeu o vice-presidente de operações, Sidney Simonaggio, para das as explicações ao cidadão paulistano, em entrevista ao colega Thiago Barbosa, no CBN SP. Sontaggio disse que a Eletropaulo tem dos melhores desempenhos no setor com menos de quatro dias sem energia por ano e religação em até 1,8 horas, em média, para cada instalação. O cenário atual é bem diferente como podemos constatar na minha, na sua, na nossa casa. Mas a Eletropaulo tem uma justificativa: vivemos um período atípico com uma condição de chuva de verão que nunca se experimentou, com ventos que passam dos 80km/h, derrubando quantidade enorme de árvores e atingindo a rede elétrica.

 

Para atender este momento de emergência, a empresa diz ter cerca de 2 mil pessoas trabalhando na operação, sendo que funcionários de diferentes setores foram deslocados para atuar na rua e religar a luz “o mais breve possível”. Simonaggio diz estar incomodado com o fato de a empresa não ter condições de fazer previsão de restabelecimento de energia de forma mais exata. Diz que isso ocorre porque em muitos casos o conserto não depende apenas da Eletropaulo, já que para as equipes acessarem a rede é preciso retirar árvores e outros obstáculos.

 

Em relação a investimentos para amenizar o drama do paulistano, Simonaggio informou que, desde 2010, é realizado trabalho de reestruturação da rede com implantação de equipamentos que podem ser acionados à distância. Por exemplo, foram instalados 3 mil religadores que podem ser ligados ou desligados da central de comando, assim como foram trocados os reles de 1.750 circuitos de distribuição. Além disso, teriam aumentado as ações na área de manutenção da rede. Mesmo assim, alertou: “contra queda de árvore não tem rede nova ou rede velha, rede boa ou rede ruim, ela causa a destruição”.

 

A solução estaria em lei municipal em vigor em São Paulo, projeto que começa a tramitar no Senado e discussão pública na Aneel – Agência Nacional de Energia Elétrica. O que os une: a migração da rede aérea para subterrânea. O que impede que avance: ninguém quer pagar a conta. A rede subterrânea é de 10 a 20 vezes mais cara do que a aérea. Em São Paulo, ficaria 16 vezes mais cara. Já se fez o cálculo de que cada quilômetro instalado sairia por R$ 6 milhões. A Eletropaulo sugere que as prefeituras assumam parte do custo, porque 70% do valor são obras físicas, que sejam criadas linhas de financiamento e deixa muito claro que a conta luz vai ficar mais cara.

 

Dadas todas as justificativas, fica apenas uma certeza. Na próxima chuva a luz vai acabar e “o restabelecimento será efetuado o mais breve possível”. Basta saber o que significa breve para a Eletropaulo.

Política inovadora somente nas resoluções de Ano Novo

 


8199963671_e908238fe2_z

 

No desejo de que o Brasil reencontre seu rumo, o ex-presidente Fernando Henrique, em artigo publicado no Estadão desse domingo, trata da necessidade de se inovar na política nacional com os dois principais partidos, PSDB e PT, ao lado de novas forças políticas – tais como a Rede e o Partido Novo – incorporando em suas crenças e prática o que ele identifica como sendo algo mais contemporâneo. Sugere que “olhem para as questões da sustentabilidade, da mobilidade urbana, da segurança, educação e saúde, entendendo as funções do mercado e do Estado no século 21”. Nesta lista de temas pede para que não tenham medo das mudanças de estilos de vida e não fujam da discussão sobre a regulamentação das drogas.

 


Mais do que mudanças temáticas, Fernando Henrique propõe passos iniciais para a reforma política reivindicada com mais vigor após as manifestações de 2013 mas que nada avançaram desde lá. Sugere a aprovação da cláusula de barreira, que exige de partidos número mínimo de votos em âmbito nacional e em certo número de Estados para lhes assegurar plena representação no Congresso, acesso ao Fundo Partidário e ao horário gratuito na TV. Inclui ainda a proibição de coligações entre partidos nas eleições proporcionais; e a proibição do uso de marketing político nas TVs, que seriam usadas apenas para debates entre candidatos ou para suas falas diretas à audiência.

 


Tenho dúvidas sobre o impacto em relação a formação do eleitor caso se modifique a forma de se fazer campanha eleitoral no rádio e na TV, pois corre-se o risco de se reduzir ainda mais o interesse por estas peças que, mal ou bem, esclarecem algumas propostas dos candidatos, partidos e coligações. Com certeza, porém, um das grandes distorções do nosso processo eleitoral começaria a ser corrigida que é o custo das campanhas. Como referência, apenas neste ano, se gastou R$ 5,1 bilhões, de acordo com as despesas declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral. Valores que nos levam a outro problema a ser atacado na legislação atual: a doação para as campanhas.

 


Em seu texto, o ex-presidente sugere que “o financiamento privado, se mantido, deve limitar-se a algo como R$1milhão por conglomerado de empresas, dado apenas a um partido, e não a todos, o que cheira corrupção”. Já o financiamento da pessoa física seria livre, desde que limitado em valores. Outra mudança que considera ser bem mais difícil por sua audácia: introduzir em caráter experimental o voto distrital nas eleições para as Câmaras Municipais, abrindo espaço para se estender a prática às eleições estaduais e nacionais em um futuro quando se teria menos e mais bem definidos partidos.

 


O Congresso Nacional já têm em mãos projetos de lei e propostas de iniciativa popular que mexem nas regras eleitorais brasileiras. O próprio Supremo Tribunal Federal – STF foi provocado inúmeras vezes a se pronunciar em ações judiciais que questionam a legislação atual. Nem o Legislativo nem o Judiciário parecem interessados em avançar nestes aspectos. Apenas para registro: desde abril do ano passado, o ministro Gilmar Mendes deve uma resposta à nação em ação que proíbe as doações de empresas privadas para campanhas políticas. Seis ministros já votaram a favor mas o processo emperrou desde o pedido de vistas feito por Gilmar Mendes.

 



A opinião de um ex-presidente da República que teve a relevância de Fernando Henrique poderia nos oferecer alguma perspectiva de avanço na reforma política, neste início de legislatura, mesmo que não fosse no sentido pleno em que ele propõe até porque outras estão por aí em discussão e com bons argumentos a nos convencer da sua utilidade para a melhoria da prática política no país. Porém, como se sabe, o fato de uma ideia vir abaixo-assinada por integrante de um partido político, especialmente se for da oposição, a inviabiliza. Passa a ser bombardeada de imediato pelos grupos que estão nos demais espectros políticos independentemente da qualidade do que é apresentado. Em lugar de provocar a reflexão, gera a agressão, porque, no Brasil, política inovadora, por enquanto, é apenas resolução de fim de ano, daquelas que se acabam na primeira semana do novo ano.

 



A foto publicada neste post é da galeria de Favaro Junior,no Flickr,e segue a licença creative commons

Que sem graça seria se os calendários não existissem!

 

TCE calendario 13.03.14 cor

 

Lembro das folhinhas dos calendários pendurados na parede de casa, geralmente na parede da cozinha, ao menos até os imãs de geladeira aparecerem. Arrancava-se as folhas a medida que os dias passavam e com elas iam-se as homenagens que, imagino, seus criadores procuravam a dedo nos livros das bibliotecas – como deve ter ficado desinteressante a tarefa deste pessoal depois que a internet chegou!?. Ficava-se sabendo que o 8 de outubro era Dia da Santa Pelágia Penitente, enquanto o 25 de julho, o Dia da Abóbora. Havia as folhinhas com mensagens que pareciam tiradas de cadernos baratos de poesia: “a beleza das pessoas está na capacidade de amar e encontrar no próximo a continuidade de seu ser”, dizia uma que sei lá bem porque guardei na memória. Nada que fosse mudar nossas vidas, mas as folhinhas nos ofereciam a cada dia uma curiosidade por mais inútil que fosse.

 

Hoje, ainda recebo alguns calendários de mesa, de plástico e feios. As folhinhas são raras e chegam com tanta propaganda que mal têm espaço para as mensagens e homenagens. Para não jogá-las fora, passo à frente, muitos para minha sogra que insiste em pendurá-las na parede da cozinha. Os dias se passam agora no computador, em agendas virtuais, nas quais há lugar apenas para as atividades do cotidiano: reunião, palestra, conta para pagar, consulta no médico. Mesmo assim, ainda servem para marcar o nosso tempo e nos oferecer a oportunidade da renovação de esperanças sempre que o ano se encerra. E esta é uma sensação curiosa, porque, pense comigo, amanhã será apenas a sequência de hoje; vamos acordar e nos deparar com a mesma casa, a mesma cidade, a mesma família (neste caso, ainda bem); os compromissos que não atendemos continuarão pendentes e as coisas mal resolvidas permanecerão assim até que encontremos uma solução. Nada de novo, a não ser o dia, e, graças ao calendário, o ano.

 


Que sem graça seria se os calendários não existissem!

 

Feliz 2015!

Neste Natal, vamos comemorar em família

 

IMG_2463

 

O olhar voltado para o painel que anunciava o desembarque dos voos em Congonhas era de preocupação e dúvida, na noite dessa segunda-feira. Muitas pessoas não tinham ideia do horário em que o avião que esperavam aterrissaria em São Paulo. Bem pior: se desceria na capital paulista. Havia a possibilidade de seguir para Guarulhos ou Campinas. A chuva forte havia parado as operações no aeroporto e causado transtorno para muitas pessoas, em ar e terra. Apenas quando se aproximava das 10 da noite, os primeiro voos receberam autorização para chegar. E em meio a centenas de passageiros que saíam do setor de entregas de malas, para mudar o clima no saguão, surge um que estava vestido de Papai Noel. A preocupação da espera foi substituída pela surpresa e curiosidade em torno daquela figura exótica apesar da época do ano. Convenhamos, as roupas de inverno, completadas pelo gorro na cabeça, pouco têm a ver com o verão que acabara de se iniciar no Brasil, marcado pelo início da temporada de chuvas na região sudeste.

 

O Papai Noel passageiro claro que me chamou muita atenção, mas estava longe de ser minha maior surpresa no saguão do aeroporto nessa semana. Um dia antes, no domingo que antecedia a semana de Natal, fui receber parte da família que chegava para as festas de fim de ano, em São Paulo. Havíamos combinado de nos reunirmos em casa, mas não teríamos a presença do pai que ficaria em Porto Alegre. Assim que a porta de desembarque abriu, minha irmã apareceu empurrando o carrinho com mais malas do que costuma transportar, o que não foi suficiente para me antecipar a boa notícia que viria em seguida: meu pai, que você está acostumado a ler às quintas-feiras, decidiu nos acompanhar nas festividades e, sem avisar, embarcou para São Paulo. O que para a turma que mora por aqui, assim como para todos que se juntaram a nós, foi um grande presente de Natal.

 

Nesta noite, véspera de Natal, teremos bons motivos para estarmos juntos e compartilharmos o que vivemos neste ano que está chegando ao fim. Cada um de sua maneira poderá relatar vitórias e emoções, por mais difícil que tenham sido os momentos enfrentados. Apenas a possibilidade de, ultrapassados todo este período e todas as barreiras, estarmos mais uma vez reunidos entre irmãos, mulheres, maridos, sobrinhos, primos, filhos, pai e avô é razão suficiente para comemorarmos. Se há uma conquista da qual temos de nos orgulhar é a de estarmos unidos mais uma vez.

 

Como já escrevi em natais passados, a data sempre foi comemorada em família com rituais curiosos, como as saídas de casa no fim da tarde para que o Papai Noel chegasse e distribuísse os presentes embaixo da árvore. O roteiro era sempre o mesmo, ano após ano, com os irmãos arrumados e engomados fazendo um passeio com o pai até o Morro da TV, próximo de onde morávamos em Porto Alegre, enquanto a mãe ficava em casa para abrir a porta para o Papai Noel. Programa que durou um bom tempo, mesmo quando já tínhamos noção de que o tal passeio era apenas desculpa para a mãe ajeitar os presentes e acender as luzes da árvore. Hoje, mais importante do que o passeio, a árvore e os presentes é a possibilidade de nos encontrarmos.

 

Desejo que você, caro e raro leitor deste blog, tenha ótimos motivos para compartilhar suas alegrias e angústias em família, neste Natal.