Ansedonia, Toscana, verão, praia, sol e futebol. É daqui que acompanharei o restante da Copa do Mundo, na terra da atual campeã, título escondido pela façanha vergonhosa da Azurra na África do Sul. Sem inveja, por favor. São os ossos do ofício.
MÍLTON JUNG
Cético e entusiasmado, o Brasil no voo para o Hexa
O aeroporto na Cidade do Cabo estava vazio para suas dimensões. E cheio de torcedores brasileiros a caminho de Johannesburgo. Eram 10 da manhã, e a partida do Brasil seria apenas às oito e meia da noite, hora local. Um deslocamento tranquilo e tenso, ao mesmo tempo. Com check-in sem estresse e voo na hora certa, a apreensão ficava por conta do que aguardaria a seleção no estádio Ellis Park, na disputa pela vaga nas quartas-de-final.
Para completar este cenário de contradições, eu com mala em punho seguia o mesmo caminho que eles, passaria por Johannesburgo, mas não assistiria ao jogo. Nem mesmo na televisão. Estaria a bordo de outro avião tomando o rumo que a nossa seleção só pretende seguir depois do dia 11 de julho: São Paulo.
Duas horas e meia depois de deixar a cidade em que morei nos últimos 21 dias, estava em Johannesburgo e do futebol consegui assistir apenas a alguns minutos da vitória da Holanda na Eslováquia. Suficiente para enxergar o meio-campo Arjen Robben comandando os Laranjas e tocando bola com uma categoria reservada a poucos. Fui saber da classificação holandesa pelo comandante do voo que ao anunciar em um “inglês-africano” o placar foi recepcionado com um leve murmurinho dos passageiros. Ninguém ali parecia preocupado com esta partida.
No ar, restava fechar os olho e esperar que após duas, duas horas e meia, o comandante fizesse novo anúncio. De preferência, a vitória do Brasil. Não consegui dormir. Passei a lembrar daqueles torcedores animados do aeroporto. Um grupo se organizava para vestir a enorme camisa coletiva fabricada em verde e amarelo com o nome do Brasil a frente. Três outros levavam uma imagem de Ronaldinho Gaúcho: “se o Dunga não chama, a gente convoca”. A menina que encerrara seu compromisso no Cabo e deveria voltar ao Brasil conosco ficou exultante ao saber que havia um brasileiro vendendo ingresso para o jogo por U$ 200, bastaria descer na escala em Johannesburgo, remarcar o voo e torcer para que as malas já despachadas chegassem, sozinhas, com segurança a São Paulo.
Todos repetiam o que parece ser um mantra do torcedor brasileiro: “rumo ao Hexa”.
Passavam das 10 e meia da noite, jantar servido, serviço de bordo realizado, quando meu silêncio foi interrompido pela voz no alto-falante: “Ladies and Getlemen: Brazil 3, Chile 0, Brazil qualified for the last 8 of the World Cup”. Gritos e aplausos tomaram conta do voo 224 da South Africa. E eu pude dormir tranquilo sabendo que mais uma vez se confirmava a superioridade brasileira nesta Copa.
O desembarque no Brasil foi depois das 11 e meia da noite, em um aeroporto de Guarulhos ainda mais vazio do que aquele que deixei na Cidade do Cabo. Apenas não tão bonito, muito menos moderno.
Assim que matei a saudade com abraços e afagos, passei a receber um relatório completo sobre o que foi a partida, a partir dos dois analistas mirins que tem me municiado de avaliações técnicas e emocionais durante esta Copa:
“Juan, Robinho e aquele número 9 fizeram os gols”, disse o mais velho. “Precisa ver o que o 9 (eles esquecem o nome composto de Luis Fabiano) fez, pegou a bola assim, cortou pra cá, tirou o goleiro e chutou no gol”, comentou o mais novo desenhando com as mãos toda a jogada do nosso goleador. “Gostei mais do Robinho, ele soltou a perna”. “Legal foi a barreira que os amigos fizeram para o Juan cabecear”, e eles se colocaram lado a lado para mostrar o posicionamento na cobrança de escanteio. “Foi mais de 50 quilômetros por hora a cabeceada que ele deu”. Nesta altura já não sabia mais quem contava o quê. Todos queriam mostrar seu entusiasmo com a vitória sobre o Chile de Bielsa: “o cara não parava no banco, se agachava, virava a cara, bufafa, e ele colocou três atacantes”.
Hoje pela manhã, acordei cedo pra ver os lances da vitória brasileira e ouvir a avaliação dos críticos sobre o futebol jogado pelo Brasil. Do ufanismo que cega ao pessimismo que despreza, havia um pouco de tudo à disposição na TV e nos jornais.
Na dúvida, resolvi pedir ajuda a Marcão, torcedor sofrido do Brasil que tem acompanhado o jogo com os meus dois comentaristas de plantão e que apesar de estar feliz por ter ganhado uma Jabulani de presente ficou cabreiro com a vitória: “Tô lembrando do Maguila que batia em todo mundo, mas quando pegou um cara bom mesmo, se entregou”, referência ao lutador de boxe sucesso por aqui, mas que beijou a lona quando encarou gente grande como Evander Holyfield (1989) e George Foreman (1990).
A alegria dos meninos e o ceticismo do Marcão são sentimentos que parecem uma contradição, mas que se completam e têm ajudado o Brasil a construir seus resultados nesta Copa. Que sigam juntos, assim, até o Hexa.
Árbitros, erros e trapalhadas no caminho do Hexa
Direto da Cidade do Cabo
O Brasil estará em campo na disputa por uma vaga nas quartas-de-final enquanto eu estarei em um avião no caminho de volta pra casa, duas semanas depois de ter desembarcado na África do Sul. Dunga terá todo seu time à disposição ao que parece, com o retorno de Kaká, insubstituível mesmo combalido, Elano, imprescindível neste momento, e Robinho, imbatível quando se solta a driblar. O treinador vive o melhor dos cenários, comparado a colegas de profissão, despachados mais cedo ou com times sem capacidade para ficar entre os 16 melhores.
De todas as seleções que apareceram até aqui, boa parte da crítica esportiva, fora do País, concorda que o Brasil é das mais equilibradas – outras equipes tem um ou outro setor em destaque – e segue firme e forte entre os candidatos ao título. Mesmo o baixo rendimento do jogo anterior, prejudicados que fomos pelas mudanças por suspensão ou exaustão, mostrou que o time pode segurar ataques fortes e atrevidos.
O Chile é um adversário curioso, pois apesar de seus bons momentos aqui na Copa e mesmo nas Eliminatórias sofre ao saber que terá de pegar o Brasil pela frente. Foi goleado na ida e na volta (3×0 e 4×2) na disputa sul-americana. E Bielsa terá de ter muito mais do que arrojo e competência para ganhar da seleção brasileira, apesar de alguns de seus jogadores apontarem suposta fragilidade da nossa defesa.
Hoje, vimos o que pode acontecer com uma equipe que respeita além da conta seu adversário. E me refiro ao México que, apesar de prejudicado pelo árbitro, visivelmente, temia a força argentina.
Nosso favoritismo, porém, não nos dará o direito de errar. O futebol jogado nesta Copa e a estratégia montada pelos treinadores têm demonstrado que o espaço para construir é cada vez mais escasso. O ato de destruir tem privilégio nos esquemas táticos e, assim, fica-se a espreita da bola mal cortada, do passe irresponsável, da falta próximo da área, do vacilo do goleiro ou de alguma artimanha da jabulani.
Soma-se a isto o erro dos árbitros, fundamental nos dois resultados desse domingo, a começar pela conquista alemã. A seleção da Inglaterra não tinha futebol suficiente para superar a Alemanha, mas se o gol legítimo tivesse sido sinalizado as dificuldades da equipe de Joachim Low seriam muito maiores.
Dunga e o Brasil mostraram que sabem encarar estas situações e têm dado poucas chances ao adversário. Portugal, o mais habilitado, não alcançou nada além de um empate contra uma seleção desmontada em seu meio-campo pelos motivos que já conhecemos. Por isso, não se arrisca nenhum resultado que não seja o da vitória, com direito a classificação a fase seguinte.
É provável que somente saiba do placar quando estiver a bordo do avião. Não terei o direito de torcer pela bola chutada por nossos atacantes ou secar o avanço chileno contra o gol de Júlio César. Fico com a impressão de que não terei como ajudar o Brasil neste desafio. Pura pretensão de torcedor, sem dúvida. Pois nada do que façamos lá fora é suficientemente maior do que os jogadores podem aprontar em campo. Ou o que podem aprontar com eles.
Que a seleção brasileira jogue o futebol para o qual está capacitada e foi preparada. E que esteja livre destes árbitros trapalhões no caminho do Hexa.
Azar do Chile !
Direto da Cidade do Cabo
E os meninos ? Não viram o jogo ontem ?
A pergunta chegou por e-mail de um internauta pouco disposto a ler o que os comentaristas de plantão – dentro os quais este que escreve o blog – pensam sobre a seleção brasileira. Para ele, quem elogia o Dunga é puxa-saco, não entende nada de futebol. Quem critica, é uma anta que não aprendeu que o futebol atual busca o resultado. Nunca está contente. Por isso, prefere ouvir os inocentes de coração, como se estes ainda existissem.
E como me cobrou, fui procurar os dois garotos que têm me ajudado a entender alguma coisa de futebol durante esta Copa, sobre os quais já conversamos neste espaço. Fiquei preocupado logo que os consultei, pois a primeira coisa que ouvi foi que “não tenho nada pra falar sobre este jogo”, na voz de quem esperava mais.
Nada ? Gostou, não gostou ? Qualquer coisa pra me ajudar.
“Só o goleiro é que foi bem”, disse um deles em elogio ao Julio César por quem ficou preocupado quando viu aquelas ataduras protegendo as costas. Machucado ou não, ele segurou a onda lá atrás, disse o outro.
“Aquele cara de perna comprida foi legal, eles tirou uma bolas do Cristiano Ronaldo”, falou o outro se referindo ao Lúcio.
Conversa vai, conversa vem, descobri que eles gostaram também de uma outra coisa: o juiz mexicano, principalmente quando ele resolveu dar um cartão amarelo duplo. Puniu um brasileiro e sem precisar baixar a mão puniu um português, também. “Parecia minha professora quando dá bronca num colega e aproveita para puxar a orelha do outro que estava rindo fora de hora”.
O mais velho, admirador de Elano, queria mesmo é a garantia de que o meio-campista estará de volta no próximo jogo. “Quando eu vi o tanto de escanteio que os caras erraram lembrei dele”, disse ao falar, sem lembrar o nome, de Daniel Alves que assumiu a função na partida contra Portugal. “Ele não acertava uma, o escanteio sempre dava na perna do zagueiro”.
Não gostaram do Júlio Batista, também. Defenderam a ideia de que ele teria de ter saído do time no primeiro tempo. Aprendi nestes três jogos que os dois são impacientes e imediatistas. Entrou, não mostrou, substitui. É o que defendem.
Sabe do que eles gostaram? Do Felipe Melo quando devolveu a botina no Pepe. “Tinha que fazer aquilo mesmo, porque o Pepe tava muito chato e brigando com a gente”. Estão perdoados pelo desejo de revanche, eles ainda são crianças. Felipe Melo, não.
Por serem crianças, não terem compromisso com a seleção, cansados de verem a chatice que marcou este terceiro jogo do Brasil, foram pragmáticos como o futebol atual: “delisgamos a TV e fomos jogar video-game”.
Pelo tanto que o Dunga reclamou do time durante o jogo, parece que ele também teria preferido ficar diante do video-game e, quem sabe, disputar uma partida de Fifa 2010, na qual não teria necessidade de abrir mão do Kaká, Elano e Robinho, que fizeram muita falta ao nosso time.
Segunda-feira eles estarão de volta, meninos.
“Azar do Chile”, concluiu o mais jovem e atrevido.
O pebolim estava mais emocionante
Direto da Cidade do Cabo
O melhor do Brasil foi Dunga.
Explico, antes que alguém pense que fiquei louco, afinal, das três substituições que fez, as duas primeiras não funcionaram e, ainda, impediram que a terceira desse certo.
Júlio Batista estava mais perdido que cusco em procissão, corria pra cá, se movia prá lá, e não sabia o seu papel em campo. Daniel Alves entrou em campo disposto a enfiar um canudo nos portugueses de qualquer jeito e esqueceu que futebol é coletivo, tem mais gente doida pra marcar e mais bem colocada para tal.
Nilmar que substituiu Robinho, poupado devido a lesão, bem que tentou fazer alguma coisa, deu o chute mais perigoso do Brasil após uma bola que o Luis Fabiano não-tocou pra ele. A ideia era outra, mas chegou no lugar certo. É o que interessa. Pena o goleiro português ter feito o papel dele tão bem
Nosso goleador e Nilmar, porém, foram vítimas do meio campo sem criatividade, que se movimentava menos que time de pebolim, apesar de algumas tentativa sem sucesso. Verdade seja dita, a defesa de Portugal que, além dos quatro de trás, ainda recebeu o reforço de mais cinco meio campistas, deixando apenas Cristiano Ronaldo para as bolas sorteadas lá na frente, também não se mexia. Resultado: nada.
Os portugueses jogaram o primeiro tempo pra garantir a segunda vaga, e o segundo pra conquistar a primeira. Os brasileiros jogaram para vencer, ou melhor, queriam jogar para vencer, mas não havia gente capacitada.
O legal foi confirmar que Júlio César é o melhor goleiro do mundo, pois todas as vezes que é exigido atende nossas expectativas. Hoje, por duas vezes, fez o que o pessoal da marcação não havia conseguido: tirar a bola dos pés dos atacantes portugueses.
Por falar nos nossos defensores, se houve uma jogada emocionante no segundo tempo foi o quase carrinho de Lúcio, dentro da área brasileira, que cortou as pretensões de Cristiano Ronaldo em uma das muitas escapadas que deu. Apesar de que o Lúcio, esse sim, poderia ter ficado cravado lá atrás como a linha de defesa em time de pebolim. Às vezes, ele resolve se mandar pra frente com a bola nos pés e fica parecendo caminhão sem freio descendo a ladeira, desgovernado.
Mas vamos a justificativa para a primeira afirmação deste texto.
Na entrevista, após o empate com Portugal, Dunga disse que Robinho fez mais falta porque é driblador e sabe aproveitar os espaços curtos, comentou que a seleção insistiu muito em tocar bola na área mais congestionada do campo e falou que o futebol do Brasil precisa evoluir em relação ao que fez até aqui nesta Copa. O que justifica sua irritação ao lado do campo. Em uma partida na qual ninguém foi além da média, ao fazer a leitura correta do jogo, Dunga cumpre bem sua tarefa.
De minha parte, vou continuar assistindo ao jogo de pebolim disputado por torcedores brasileiros e portugueses aqui no Village Terra, em Cidade do Cabo, muito mais emocionante e disputado do que o Brasil e Portugal que assistimos, nesta sexta-feira.
Uma nova dimensão para o futebol do Brasil
Direto da Cidade do Cabo
Uma das atrações desta Copa é a transmissão em terceira dimensão por emissoras de TV confirmando um casamento antigo no qual tecnologias inovadoras nos são apresentadas tendo como atração o Mundial de futebol. Há dois dias, tive oportunidade de assistir ao compacto da vitória do Brasil sobre a Costa do Marfim em um aparelho destes, à disposição em um shopping da Cidade do Cabo. Somos obrigados a colocar um óculos, não muito cômodo, diga-se, caso contrário o que teremos é um jogo sem foco, parecido com aquelas televisões nas quais se enrolava um bombril na antena para captar melhor a imagem – ou com o futebol apresentado pelos franceses, compararia algum crítico da crônica esportiva.
Assim que nos posicionamos diante da tela e com óculos a postos, o espetáculo muda. Mais nítido do que aquele que vemos das arquibancadas dos estádios brasileiros. Nas imagens, o torcedor por trás da cena e os jogadores se deslocando parecem estar ao nosso alcance. Oferecem uma noção de profundidade que nos permite avaliar bem a distância do atacante para o gol.
O corredor que Luis Fabiano encontrou entre os zagueiros para receber o passe de Kaká e a visão que tinha para encher o pé contra o goleiro marfinense são nítidos. O duplo chapéu dele nos defensores fica ainda mais belo gravado naquele formato. Tem-se ideia da lucidez do atacante ao encontrar por cima da cabeça do marcador o caminho para deixar sua marca nesta Copa. Um gaiato ao meu lado chegou a dizer que até parecia haver alguma distância entre a bola e o braço que ele teria usado para facilitar as coisas.
Fico imaginando o que seria a imagem em 3D do terceiro gol do Japão no fim da rodada dessa quinta-feira com o drible malandro de Keisuke Honda que diante de um goleiro apavorado teve tranquilidade para servir Shinji Okazaki e deixar o gol aberto e livre para o companheiro fechar a vitória que classificou os japoneses às oitavas de final.
O chute distante do italiano Quagliarella sobre uma área congestionada de eslovacos que alcançou o gol pode não ter sido suficiente para impedir o vexame de os campeões mundiais serem desclassificados ainda na primeira fase, mas deve ter proporcionado um lindo momento para as câmeras que captam os lances em 3D.
No jogo visto nesta dimensão temos impressão que fomos convidados para a festa, mesmo longe do estádio. E, assim, nos tornaremos ainda mais exigentes em relação ao show que nos será apresentado.
Verdade que o futebol mundial evoluiu tanto quanto a tecnologia.
Para se ter ideia, as 12 seleções mais velozes desta Copa aceleram acima dos 30 km/h em uma partida. O México, segundo na sua chave e primeiro em velocidade, bate a casa dos 32 km/h, enquanto o Brasil, o quinto mais rápido, chega a marca de 30,75 km/h.
Se tiver interesse confira no site da Fifa, também, a quilometragem percorrida pelos jogadores. O alemão Sami Khedira, líder na estatística, já rodou 35 km em três jogos. Todos estes números são o dobro dos registrados na época da TV em preto e branco.
O problema é que enquanto a evolução da televisão foi na qualidade, a do futebol foi na força e velocidade.
Aprendi com meus colegas do Portal Terra que o que assistimos nesta Copa são equipes com algo que os especialistas chamam de futebol concreto. É um jogo mais objetivo, sem floreio, pois a marcação forte e veloz não dá tempo para o jogador pensar. Um, dois, três toques no máximo para que se encontre uma boa solução em campo. É preciso muita disciplina tática para atender os padrões atuais.
A criatividade tem ficado em segundo plano.
Espero que, nesta sexta-feira, a seleção brasileira, mesmo sem seu principal nome, Kaká, e com a ausência de Elano, autor de dois gols até aqui, seja capaz de mostrar novamente a sua superioridade em relação a boa parte dos adversários desta Copa. Com um futebol que respeita as regras atuais, equilibrado em seus diferentes setores, forte na marcação, disposto a chegar com a bola no chão até a área inimiga e sempre pronto a nos surpreender com um lance particular.
Um Brasil capaz de nos presentear com um futebol de outra dimensão.
A justiça se faz nesta Copa (até aqui)
Direto da Cidade do Cabo
A justiça não é uma máxima do futebol, haja vista as eternas e amadas seleções que não venceram as Copas para as quais eram favoritas. A Hungria na Suiça, em 54, o Carrossel Holandês na Alemanha, em 74, e o Brasil de Telê na Espanha, em 82, são exemplos do que escrevo.
Aliás, o futebol não foi inventado para que houvesse justiça, haja vista o fato de ser dos poucos esportes em que o time inferior tem quase a mesma possibilidade de vencer que o superior. Quantas vezes sua equipe, a melhor de todas, perdeu o jogo dito imperdível, saiu fora de uma competição após o tropeço contra uma agremiação insignificante.
Apesar disso, é da justiça que o futebol nos ofereceu até esta altura da Copa que irei escrever neste espaço.
O gol emocionante aos 46 minutos do segundo tempo, marcado por Donovan que classificou os Estados Unidos às oitavas de final, foi mais do que justo. Registre-se, quem diz isso foi autor de um texto neste mesmo blog no qual comentei que havia torcido pela Inglaterra contra os americanos porque afinal de contas os EUA não podem ganhar em tudo.
Na partida seguinte contra a Eslovênia, após estarem perdendo por 2 a 0, o time de Bob Bradley e sua cara de Steve Jobs não apenas conseguiu empatar de maneira espetacular como teria virado, não fosse a intervenção indevida do árbitro que inventou uma falta dentro da área no momento do gol. Outro erro na arbitragem impediu que os EUA saíssem na frente contra a Argélia e quase os deixou fora da Copa. Noventa e um minutos e 22 bolas chutadas a gol depois, a justiça se fez. E o chute de Donovan entra para a galeria de gols sensacionais.
E como o assunto é justiça, não posso deixar de citar a França. Alguém dirá que a seleção de Raymond Domenech e sua cara de não-fede-nem-cheira sequer teria de ter passaporte para a África do Sul, pois precisou de um lance irregular para ganhar sua vaga nas eliminatórias europeias. Depois de assistir ao vexame dos franceses nesta Copa, fiquei pensando na peça que o destino havia pregado a eles. Deixou que viessem, chegassem aqui com jeito de menino malandro que enganou os outros para, então, serem punidos diante dos olhos do mundo com os péssimos resultados dentro e fora de campo.
A vitória de Gana, mesmo perdendo seu último jogo para a Alemanha, torna justa a presença africana nesta Copa. O time de Milovan Rajevac e sua cara séria e sérvia era considerado o melhor do continente e, provavelmente, será o único a representá-lo nas finais do Mundial feito para a África, oportunidade para que o povo daqui siga acompanhando e vibrando com os jogos de futebol. Hoje era tocante, nos restaurantes e nas ruas, ver os africanos da África do Sul, os africanos de Angola, os africanos da Nigéria, enfim, os africanos de toda África comemorarem cada lance dos ganenses. Diferentemente da rivalidade que existe entre os países sul-americanos.
Assim como a classificação de Gana é justa, coloca o continente em seu devido lugar no cenário mundial. Por questões políticas, Joseph Blatter inchou a participação da África no futebol, ofereceu à região cinco vagas na Copa, além do próprio país-sede. Não mereciam tanto e a maioria tinha de ficar pelo caminho mesmo. A América do Sul de futebol superior tem quatro vagas à disposição e uma disputada na repescagem, por onde o Uruguai entrou.
Se é injusto este desiquilíbrio, a presença de um africano na sequência da Copa é boa para a competição e para a África, lógico.
E a África do Sul? Primeiro país-sede a deixar a competição ainda na primeira fase? Isto é justo para um povo que investiu tanta alegria no futebol? O time de Carlos Alberto Parreira e sua cara de Ronald Golias não tinha força para ir muito além, mas se despediu da Copa com uma vitória sobre a França, e isto ofereceu aos sul-africanos um sabor especial. Hoje, ainda, os jornais daqui fizeram manchetes destacando o orgulho desta conquista.
Argentina e Coreia do Sul, no Grupo A; Uruguai e México, no B; EUA e Inglaterra, no C; Alemanha e Gana, no D; além de Holanda no E e Brasil no G; são as seleções que já estão na próxima fase da Copa do Mundo. E pelo que apresentaram nesta primeira fase, não tenho medo de afirmar que o futebol foi mais do que justo até aqui.
Ainda faltam seis vagas para serem decididas. E estou curioso para saber se a justiça ainda vai prevalecer nesta Copa do Mundo. Vamos ver o que os Deuses do Futebol nos reservam. Não, melhor, não. Essa coisa de misturar Deus com futebol, ultimamente, tem dado muita controvérsia. Esta, aliás, uma briga pouco justa.
O que levar da Cidade do Cabo
Direto da Cidade do Cabo
A beleza intransferível da Cidade do Cabo seria o melhor que teríamos para levar daqui para São Paulo, pensei logo que a Fabíola Cidral perguntou-me sobre o assunto durante o CBN São Paulo, desta terça-feira. Fui injusto com certeza com esta que é a mais europeia das cidades sul-africanas, pois uma atenção maior no entorno e veremos que há muito mais do que a natureza ofereceu.
A limpeza do Cabo chama atenção, mesmo com a cidade tomada de turistas desde o início do mês. São milhares deles desfilando todos os dias, em especial no Waterfront, sem que deixem espalhados pelas calçadas suas marcas. Tive a curiosidade de perguntar a moradores daqui se a situação se devia aos cuidados para a Copa do Mundo e estes me garantiram que a vida por aqui é assim.
Desconhecem a Lei Cidade Limpa, pois é possível encontrar nas empenas dos prédios alguns anúncios publicitários. A poluição visual, porém, é imperceptível, talvez resultado do respeito que têm pela paisagem da cidade, desenhada pela Table Mountain e a baía logo em frente. Mesmo as lojas não usam luminosos extravagantes e na rua principal, Long Street, se esforçam para manter o cenário do passado, com balcões de arquitetura vitoriana que se estendem sobre as calçadas.
O desrespeito arquitetônico mais gritante está no pé da montanha, onde uma empresa de construção usou de uma brecha na legislação para levantar três torres absurdas que rasgam o visual da cidade. Exageraram tanto que chamaram atenção dos locais e as autoridades foram obrigadas a impedir que a construção seguisse para cima. Foi concluída, está em funcionamento, mas é uma vergonha viver ali.
Hoje pela manhã, encontrei com o jornalista Daniel Piza, do Estadão, que foi nosso colega na CBN, também. E ele me alertou para outro fator interessante que muitas vezes passa despercebido de nossos olhos: a organização nos pontos turísticos. Comparamos a subida a Table Mountain, feita por um teleférico, e a subida ao Corcovado, no Rio de Janeiro, que já havia sido motivo de queixa de um artista chileno que conheci. Aqui, chegasse aos 1.000 metros de altura e se tem um enorme parque para andar de maneira segura e rápida para as condições. As filas, apesar de grande, fluem sem cansar, ao contrário das que encontramos na capital fluminense. A estrutura oferecida ao turista também é muito boa.
Isto se repete em todos os demais pontos de visitação.
Levaria para São Paulo, o respeito que os motoristas tem com as faixas de segurança. Em um trânsito que anda na mão inglesa, principalmente na área turística, o pedestre tem preferência para atravessar as ruas. Aliás, apesar dos problemas alegados para deslocamento, temos um tráfego bem mais ameno que o da capital paulista, pois falamos de uma cidade com 1,3 milhão de moradores que vivem em um extensa área geográfica, o que faz com que a densidade demográfica seja baixa, muito diferente de São Paulo.
Falaria, também, do respeito aos ciclistas, fator que presenciei nos primeiros dias de visita à cidade, porém ouvi queixas de brasileiros especializados no tema que estiveram por aqui. Renata Falzoni, por exemplo, disse que correram riscos ao encarar ruas e avenidas da cidade. Na dúvida, que levemos apenas o que eu vi e deixemos por aqui o que ela identificou.
A reclamar o serviço de táxi, bastante precário, apesar de termos encontrado motoristas sempre simpáticos e perdidos. Sim, eles pouco conhecem a cidade, parece que desembarcaram por aqui dias atrás para faturar com o movimento da Copa. Aliás, não só parece, pois é o que acontece com vários prestadores de serviço.
Deixemos por aqui, também, a violência que impera nesta sociedade. Mas São Paulo também é muito violento ? Índices comparados, a taxa de homicídio na capital paulista é metade da que encontramos na Cidade do Cabo. A insegurança, aliás, leva os restaurantes a manter hábito estranho para nós, às 11 horas as cozinhas fecham e não servem a mais ninguém. Quem chegou atrasado terá de se virar em algum pub da área turística.
Uma última coisa que gostaria de levar na mala é o clima que tomou conta da cidade neste Mundial, mas para tal teremos, primeiro, que garantir a participação de São Paulo na Copa2014.
Restaurantes eliminam vuvuzela
Direto da Cidade do Cabo
A vuvuzela toca mais baixo desde a desclassificação prematura da África do Sul. O som que marca esta Copa caía um tom a cada mau resultado da seleção local e, hoje, passou a soar desafinada com a vitória de pirro contra França.
O técnico Carlos Alberto Parreira não conseguiu fazer com que o time nacional brilhasse a ponto de se encontrar algo tão destacado em seu 11 quanto o som da corneta que se espalhou pelo mundo através das transmissões de televisão. Provavelmente poucos lembrarão, daqui um ano, o nome dos titulares da África do Sul, mas o som da vuvuzela será difícil esquecer.
A medida que os sul-africanos se afastavam da possibilidade de alcançar as oitavas-de-final, aumentava também a campanha contra as vuvuzelas. Não que uma coisa tivesse a ver com a outra. Aparentemente, uma coincidência.
Bares e restaurantes em Waterfront decidiram restringir o uso das cornetas em seu interior para não afastar a freguesia. Em lugar de cartazes solicitando para que se evitasse fumar em local fechado (estes praticamente não existem e o uso do cigarro depende do bom senso do cliente), nos últimos dias surgiram alertas para que as pessoas não soprassem vuvuzelas no local
Assim que conversei sobre o assunto com o gerente de um dos mais movimentados restaurantes do WaterFront, área turística da Cidade do Cabo, o som da corneta soou alto em uma mesa no fundo. Era um turista com pinturas mexicanas no rosto marcando o início de Grécia e Argentina, na televisão. O próprio gerente foi até a mesa e, com um sorriso entre dentes, mostrou o cartaz que pedia: “Please, refrain from blowing vuvuzelas in this store”. Ok, sinalizou o torcedor já com um pedaço de pizza na boca.
Acabar com a vuvuzela é derrubar uma tradição de quase dez anos nos estádios sul-africanos, portanto a intenção é torná-la amigável, evitando os exageros. Soprá-la dentro de aviões está proibido por determinação do governo, dá prisão e processo. E as empresas aéreas foram recomendadas a permitir que estas sejam despachadas em malas no bagageiro.
A prefeitura de Cidade do Cabo, em outro golpe na ‘cornetagem’, mandou a Hyundai calar a super-vuvuzela de 37 metros que tocava a cada gol do alto de um viaduto que está em processo de demolição, no centro. O som, acionado através de um botão, estaria causando transtorno no trânsito – e na vizinhança, também, imagino. A patrocinadora quer convencer a administração municipal a ceder nas partidas finais da Copa.
Fora da África, já há manifestações para impedir a importação da ideia para outros esportes. No Torneio de tênis de Wimbledon, já foram feitos alertas para a inconveniência da vuvuzela no entorno das quadras de grama do All England Club, em Londres, assim como os organizadores da Regata Henry Royal, que terão provas a partir de 30 de junho.
No fim de semana, promoção do Florida Marlins distribuiu 15 mil vuvuzelas batizadas de “air horn” (estaria certo se traduzisse por “corno de ar” ? Ok, minha professora de inglês iria corrigir para “buzina de ar”), ação que causou protestos de blogueiros e reclamações em sites especializados. O correspondente do Bleacher Report, Mike MacConell, questiona o fato de que beisebol e vuvuzelas são um choque de cultura. E pergunta: será que a relações públicas do Marlins acredita que os demais torcedores aceitarão ficar no estádio enquanto 15 mil fãs assopram estas cornetas ?
Apesar das reclamações, prepare-se porque esta praga vai se espalhar pelos estádios brasileiros assim que a temporada for reiniciada. Fabricantes chineses estão prontos para encher o mercado com as cornetas que tem origem no chifre de um antílope, o kudu, que servia para convocar os moradores de aldeias para reuniões. Isto me lembra o berrante feito de chifre de boi usado para chamar o gado, no Brasil.
O que você faria se um torcedor estivesse ao seu lado assoprando a vuvuzela durante um jogo de futebol do seu time ?
Esperança africana
Dia de quatro jogos na Copa da África. E de decisão para oito seleções. Por isso, atualizarei o blog mais tarde. Agora há pouco, conversei com a Fabíola Cidral por telefone, no CBN São Paulo, e resolvi passar por aqui para deixar esta foto do Cabo da Boa Esperança feita pelo meu colega Eduardo Palacios. O cabo leva nome apropriado para todas as seleções que ainda tentam na última rodada desta primeira fase o direito de seguir na África. Inclusive, a própria.










