Cético e entusiasmado, o Brasil no voo para o Hexa

 

O aeroporto na Cidade do Cabo estava vazio para suas dimensões. E cheio de torcedores brasileiros a caminho de Johannesburgo. Eram 10 da manhã, e a partida do Brasil seria apenas às oito e meia da noite, hora local. Um deslocamento tranquilo e tenso, ao mesmo tempo. Com check-in sem estresse e voo na hora certa, a apreensão ficava por conta do que aguardaria a seleção no estádio Ellis Park, na disputa pela vaga nas quartas-de-final.

Para completar este cenário de contradições, eu com mala em punho seguia o mesmo caminho que eles, passaria por Johannesburgo, mas não assistiria ao jogo. Nem mesmo na televisão. Estaria a bordo de outro avião tomando o rumo que a nossa seleção só pretende seguir depois do dia 11 de julho: São Paulo.

Duas horas e meia depois de deixar a cidade em que morei nos últimos 21 dias, estava em Johannesburgo e do futebol consegui assistir apenas a alguns minutos da vitória da Holanda na Eslováquia. Suficiente para enxergar o meio-campo Arjen Robben comandando os Laranjas e tocando bola com uma categoria reservada a poucos. Fui saber da classificação holandesa pelo comandante do voo que ao anunciar em um “inglês-africano” o placar foi recepcionado com um leve murmurinho dos passageiros. Ninguém ali parecia preocupado com esta partida.

No ar, restava fechar os olho e esperar que após duas, duas horas e meia, o comandante fizesse novo anúncio. De preferência, a vitória do Brasil. Não consegui dormir. Passei a lembrar daqueles torcedores animados do aeroporto. Um grupo se organizava para vestir a enorme camisa coletiva fabricada em verde e amarelo com o nome do Brasil a frente. Três outros levavam uma imagem de Ronaldinho Gaúcho: “se o Dunga não chama, a gente convoca”. A menina que encerrara seu compromisso no Cabo e deveria voltar ao Brasil conosco ficou exultante ao saber que havia um brasileiro vendendo ingresso para o jogo por U$ 200, bastaria descer na escala em Johannesburgo, remarcar o voo e torcer para que as malas já despachadas chegassem, sozinhas, com segurança a São Paulo.

Todos repetiam o que parece ser um mantra do torcedor brasileiro: “rumo ao Hexa”.

Passavam das 10 e meia da noite, jantar servido, serviço de bordo realizado, quando meu silêncio foi interrompido pela voz no alto-falante: “Ladies and Getlemen: Brazil 3, Chile 0, Brazil qualified for the last 8 of the World Cup”. Gritos e aplausos tomaram conta do voo 224 da South Africa. E eu pude dormir tranquilo sabendo que mais uma vez se confirmava a superioridade brasileira nesta Copa.

O desembarque no Brasil foi depois das 11 e meia da noite, em um aeroporto de Guarulhos ainda mais vazio do que aquele que deixei na Cidade do Cabo. Apenas não tão bonito, muito menos moderno.

Assim que matei a saudade com abraços e afagos, passei a receber um relatório completo sobre o que foi a partida, a partir dos dois analistas mirins que tem me municiado de avaliações técnicas e emocionais durante esta Copa:

“Juan, Robinho e aquele número 9 fizeram os gols”, disse o mais velho. “Precisa ver o que o 9 (eles esquecem o nome composto de Luis Fabiano) fez, pegou a bola assim, cortou pra cá, tirou o goleiro e chutou no gol”, comentou o mais novo desenhando com as mãos toda a jogada do nosso goleador. “Gostei mais do Robinho, ele soltou a perna”. “Legal foi a barreira que os amigos fizeram para o Juan cabecear”, e eles se colocaram lado a lado para mostrar o posicionamento na cobrança de escanteio. “Foi mais de 50 quilômetros por hora a cabeceada que ele deu”. Nesta altura já não sabia mais quem contava o quê. Todos queriam mostrar seu entusiasmo com a vitória sobre o Chile de Bielsa: “o cara não parava no banco, se agachava, virava a cara, bufafa, e ele colocou três atacantes”.

Hoje pela manhã, acordei cedo pra ver os lances da vitória brasileira e ouvir a avaliação dos críticos sobre o futebol jogado pelo Brasil. Do ufanismo que cega ao pessimismo que despreza, havia um pouco de tudo à disposição na TV e nos jornais.

Na dúvida, resolvi pedir ajuda a Marcão, torcedor sofrido do Brasil que tem acompanhado o jogo com os meus dois comentaristas de plantão e que apesar de estar feliz por ter ganhado uma Jabulani de presente ficou cabreiro com a vitória: “Tô lembrando do Maguila que batia em todo mundo, mas quando pegou um cara bom mesmo, se entregou”, referência ao lutador de boxe sucesso por aqui, mas que beijou a lona quando encarou gente grande como Evander Holyfield (1989) e George Foreman (1990).

A alegria dos meninos e o ceticismo do Marcão são sentimentos que parecem uma contradição, mas que se completam e têm ajudado o Brasil a construir seus resultados nesta Copa. Que sigam juntos, assim, até o Hexa.

Um comentário sobre “Cético e entusiasmado, o Brasil no voo para o Hexa

  1. Você perdeu um bom jogo por causa de seu retorno,mas os meninos resumiram bem o que foi a partida. Como eu já disse (ou escrevi) outro dia,os inocentes são sábios.

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