Acredito já ter falado dele neste blog. Se não o fiz, foi injustiça. Merece, mesmo que me acusem por nepotismo. Quem o fizer errará duas vezes: primeiro, a qualidade do artigo merece espaço em qualquer blog que faça referência ao rádio; segundo, nepotismo, na origem, é tio beneficiando sobrinho e aqui a coisa se inverte. Aldo jung é jornalista e publicitário, não lembro qual exerceu e para qual se diplomou, mas fez bem os dois – e meu tio, também.
Chega de elogios e vamos ao texto que justifica esta introdução:
Por Aldo Jung
Cresci ouvindo rádio. Pelo menos até o surgimento da televisão no Estado, em dezembro de 1959, era em volta do rádio que as famílias se reuniam à noite. Lembro-me direitinho de uma cena dominical: eu sentado no chão da sala, brincando com os tijolinhos de “o pequeno engenheiro” (jogo que, de tão saudável, ainda existe à venda); minha mãe, no sofá, fazendo algum trabalho manual de costura ou bordado; meu pai, numa poltrona, ou se preparando para uma semana de trabalho, ou lendo o Correio do Povo, ou fazendo palavras cruzadas; minha avó, noutra poltrona, fazendo suas colchas de crochê. Não vejo meus irmãos mais velhos na cena. Deviam estar nos seus quartos ou na varanda, estudando. O som ambiente: um programa chamado “Grande Rodeio Coringa”. Era um programa de auditório da rádio Farroupilha, com temática gauchesca, apresentado por Darci Fagundes e Luiz Menezes, em que havia invernadas de duplas, trios, trovas e declamações. E assim andavam as noites dominicais, até as 22 horas. Depois disso, cama, porque amanhã tem escola e muito trabalho.
Lembro, também, de uma cena que se repetia diariamente, quando eu chegava da escola, por volta do meio dia. Minha avó sentada na mesma poltrona, com a mesma colcha de crochê em andamento – um pouco mais avançada a cada dia – e o rádio ligado. A emissora era a mesma: Farroupilha. O programa era o “Banca de Sapateiro”, um humorístico em que, através do ator Walter Broda e de seu contraponto, Pinguinho, eram denunciados os problemas da cidade. Também falavam de futebol, representando um deles o gremista e o outro, o colorado. Aliás, essa dupla também participava do Grande Rodeio Coringa.
A partir de abril de 1958, ouvir rádio em minha casa tornou-se uma tarefa praticamente coercitiva. Neste ano, meu irmão, Milton Ferretti Jung, que já atuava como locutor comercial e de notícias na Rádio Metrópole, de Canoas, começava sua jornada na grande Rádio Guaíba. Mas esta é uma história pra muitas outras crônicas. “A voz do Rádio”, como é conhecido Milton Jung, completa, neste ano, 52 anos só de Guaíba. Isso rende um livro grosso.
Desde que parou de trabalhar, até o fim de seus dias, meu pai não perdia uma edição do agora Correspondente Guaíba (que já teve outros nomes), que começou a ser apresentado pelo meu irmão em 1964.
Mas a minha relação com o rádio mudou a partir do início da década de 60. Em 1959 inaugurava-se a TV Piratini, canal 5, afiliada à Rede Tupi, dos Diários e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand. A compra de um aparelho de TV não foi imediata na minha casa. Depois disso, contudo, deixei o rádio de lado, exceção feita às transmissões de jogos de futebol, especialmente por ocasião de Copas do Mundo.
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