A teoria do furinho na blusa e a autocompaixão

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

            

Foto de Ismael Sanchez no Pexels

Há alguns anos, quando eu ainda tinha um consultório na cidade de Vitória, uma das minhas funcionárias – diga-se de passagem uma das pessoas mais amáveis que já conheci – tinha um comportamento que despertava minha atenção. Ao receber um elogio, seja de um profissional da clínica ou de um cliente, ela não menosprezava o que havia acabado de ouvir e sempre tinha uma resposta que reforçava a veracidade de suas qualidades.

Um dia, ouvi alguém comentar que sua blusa era muito bonita, e ela prontamente respondeu: “Muito obrigada. Eu também acho essa blusa linda”.

Aquilo me fez refletir sobre como lidamos diante da forma como as pessoas pensam e agem sobre nós mesmos.

Semelhante a outras aprendizagens, muito precocemente descobrimos que diante de elogios devemos evidenciar para os outros as nossas falhas, fraquezas ou erros, como uma demonstração de humildade. 

A partir disso, nos tornamos severos conosco. Buscamos modelos de perfeição em tudo que somos e fazemos e, diante de alguns tropeços, temos uma tendência a sermos muito autocríticos, intolerantes com os nossos sentimentos, culpados pelas nossas ações.

Esse exemplo da minha funcionária me fez criar a “teoria” do furinho na blusa. Explico: imagine que alguém diz para você que sua blusa é linda e você prontamente reage alegando coisas como: “mas ela não custou quase nada, ela é tão velha e você não viu esse furinho que tem aqui!”.

Quantas vezes somos admirados, reconhecidos e valorizados por quem somos, mesmo que um pouco desbotados ou com furinhos que marcam nossa trajetória, e não nos apropriamos desse reconhecimento. Pelo contrário, invalidamos o elogio, invalidamos a nós mesmos, com desculpas de não sermos perfeitos.

Queremos saber todas as respostas para o curso que acabamos de iniciar. Queremos bater as metas do mês em seus primeiros dias… Se não somos absolutamente a melhor versão de nós mesmos, automaticamente reconhecemo-nos como uma fraude, um fracasso.

Essa busca exagerada por modelos de perfeição é tão sabotadora que em geral nos leva à procrastinação. Deixamos de agir, de concluir tarefas ou até mesmo de aceitar boas possibilidades porque julgamos não estarmos prontos ou não sermos bons o suficiente para as demandas da situação

O curioso é que muitas vezes, somos compreensivos com as demais pessoas, somos solidários com os seus sentimentos e com seus erros, mas elevamos o padrão de exigências conosco, aumentando os sentimentos de culpa. Usamos de dois pesos, duas medidas. Somos mais compassivos com os outros do que com nós mesmos, porque nos esquecemos que as pessoas passam por nossa vida, mas nós permaneceremos nela.

Carecemos de autocompaixão, ou seja, de sermos capazes de agir conosco da melhor forma, com a qual agiríamos com as outras pessoas. 

Seja gentil com você, se perdoe por seus erros, se apoie e seja amável. E quando receber um elogio ou reconhecimento, antes de verbalizar aquelas várias frases prontas capazes de diminuírem suas qualidades, lembre-se do exemplo da blusa, e ao invés de sair mostrando para o outro aquele defeitinho, saiba que ele pode até não ser o detalhe mais virtuoso, mas está longe de representar a totalidade do ser. 

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: que a alegria dessa gurizada seja eterna enquanto dure

Grêmio 1×0 Inter

Gaúcho – Porto Alegre, Arena Grêmio

Léo Chu comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Havia Brenno no início da jogada, Ricardinho  e Léo Pereira  no meio do caminho e Léo Chu para limpar e concluir o lance que culminaria em um dos mais belos gols que assistimos nos últimos tempos em um Gre-Nal. Um gol com DNA tricolor. De uma gurizada, que tem em média pouco mais de 20 anos, que nasceu ou floresceu dentro do clube, disposta a manter a hegemonia regional e a beleza de um jogo que, há muito, já conquistou outros rincões.

Com o devido respeito e reconhecimento de todos que chegaram depois, que forjaram suas histórias antes de vestir nosso azul, preto e branco —- uma gente da qual também temos orgulho pelas conquistas alcançadas —-, o que mais me alegra nessa gurizada é a reverência aos craques do passado. 

Léo Chu é o mais expressivo —- mesmo que não seja o único. Ele se inspira em Tarciso, a quem foi apresentado pelas histórias que o avô contava e conheceu pessoalmente na Arena, alguns meses antes da morte do Flecha Negra. Admira Renato e não escondeu a alegria de poder abraçar o ídolo ao lado do campo ao comemorar seu gol, como se estivesse redivivo no time que nos levou à glória mundial, em 1983. Pensa em repetir a façanha de Luan que se transformou em Rei da América ao levantar a Copa Libertadores, de 2017.

Tricolor de nascença, aprendeu a sofrer logo cedo, quando assistia ao rival vencer campeonato após campeonato. Calejado pela provocação dos amigos de rua, que torciam para o adversário, e disposto a dar aos pais, avós e afins a alegria que eles contavam ter sentido naquela transição dos anos 70 para os 80, insistiu em permanecer no Grêmio, após o ano de empréstimo no Ceará. Teria chance de ir para o exterior, mas pediu para ficar. Quer realizar o sonho de ser campeão pelo time que ama.

No início da madrugada de Domingo de Páscoa, Léo Chu sonhou acordado quando recebeu a bola dos pés de Léo Pereira —- outro recém-entrado na partida. Havia a possibilidade de retribuir o passe ao colega de ataque, que já se deslocava em direção à área, ou superar os dois marcadores que estavam à sua frente. Preferiu a segunda opção. E no corte para dentro enxergou espaço para colocar a bola longe do alcance do goleiro adversário.

Como um súdito que sabe onde quer chegar, na comemoração do gol, já sem camisa, correu em direção a faixa pendurada por torcedores em homenagem a Tarciso e repetiu o gesto da semana passada, em que esboça o movimento de um arqueiro lançando sua flecha. Não passou despercebida a tatuagem desenhada no ante-braço direito, na qual ele aparece como um menino, pendurado no alambrado do campo de futebol e vestindo a camisa de número sete.

Assim com Léo Chu, muitos dos guris que hoje servem ao Grêmio querem deixar sua marca tatuada no coração dos torcedores. No momento do gol, nove deles estavam no time. E começam agora uma trajetória que costuma ser breve, pela incapacidade de mantermos os talentos entre nós por muito tempo. Assim como o amor de Vinicius de Moraes, em Soneto do Infinito, que a alegria dessa gurizada ao nosso lado seja eterna enquanto dure.

Conte Sua História de São Paulo: criei meu próprio podcast

Vinicius Debian Guimarães

Ouvinte da CBN

Foto Tommy Lopes, Pexel


Vocês fazem parte do meu dia a dia. Enquanto pregavam que o rádio acabaria, sempre acreditei na sua força. O encanto do rádio é incrível, e o digital aumentou seu alcance e potencial. Escuto a CBN não apenas no carro. Escuto no trabalho, no meu notebook, nas caminhadas, no meu celular. 

Trabalho com tecnologia e marketing digital. E apesar de toda fatalidade dessa pandemia, a demanda pelo serviço que presto aumentou. Foi nesse período também que decidi aceitar aquilo que sempre foi o meu propósito.

Depois de tanto recuar e remar contra o que eu acreditava, abracei de vez meu propósito de vida. Repaginei completamente minha vida profissional, abri mão de contas e de trabalhos que estava realizando e resolvi que, mais do que nunca, faria a diferença na vida das pessoas.

Passei a produzir conteúdos. E dentre os projetos que mais gosto… adivinhem?

Uma espécie de rádio, onde posso de certa forma homenagear o Mílton, a Tati, a Cássia e figuras importantes do mundo do rádio. Crie o meu próprio canal de podcast em que convido as pessoas a fazerem parte do futuro, no qual conto histórias e disseco estudos com o objetivo de ajudar as outras pessoas a enfrentarem este mundo novo que se intensificou com  a Covid-19



Ouça aqui o podcast Faça Parte do Futuro, criado pelo Vinícius

Vinicius Debian Guimarães é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjungcom.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: ao deixar cargo de presidente da L’Oréal no Brasil, An Verhulst-Santos diz que legado é uma empresa mais diversa, digital e próxima das pessoas

Foto: Divulgação

“Vai precisar ter muita resiliência. Nós estamos vivendo um momento difícil. Muita criatividade, muita fé que as coisas vão melhorar. Eu acho que cada um se sente mais conectado com os outros. E vamos sair muito mais fortes do que entramos”


An Verhulst-Santos, L’Oréal no Brasil

“Como você está?” passou a ser a pergunta chave nas conversas corporativas, desde o início da pandemia, nos escritórios e fábrica da L’Oréal no Brasil. Pergunta que pouco se fazia na época em que todos dividiam o mesmo espaço físico; e na pressa de dar início as reuniões de trabalho, era esquecida, sem considerar que o colega ao lado levava à empresa sentimentos e emoções. 

De acordo com An Verhulst-Santos, presidente da multinacional francesa aqui no Brasil, a forma de conversar e ouvir o outro  foi uma das mudanças de comportamento necessárias para que gestores e colaboradores superassem o desafio imposto pelas restrições sanitárias que levaram ao distanciamento e ao trabalho remoto. Uma mudança que permanecerá influenciando as relações com colegas, parceiros de negócio e clientes:

“Nesse momento, nunca fomos tão perto das nossas equipes, dos nossos parceiros e das nossas consumidoras para ouvir suas necessidades … ’Como você está? virou algo muito importante para conectar”.

No último dia como presidente da L’Óreal no Brasil, An Verhulst-Santos conversou com o Mundo Corporativo e demonstrou muita satisfação com os resultados alcançados nesta segunda passagem pelo país. Ela segue agora para o Canadá onde assumirá outro posto de comando na empresa, na qual trabalha há 30 anos:

“O Brasil é um país extremamente especial para mim, é meu pais do coração. Eu sou uma líder muito colaborativa, com muita empatia, que trabalha muito a inclusão. E nós deixamos um trabalho lindo, reforçado  com uma equipe maravilhosa e de excelência. E um grande trabalho sobre a digitalização, sobre a sustentabilidade e sobre a diversidade e inclusão”.

An também deixa uma empresa que investiu alto na transformação digital para se adaptar às necessidades das clientes, no último ano. Ela calcula que em cinco meses foram implantadas mudanças que estavam previstas para os próximos cinco anos, acelerando a ideia que tem movido a L’Oreal de ser a empresa número um de ‘beauty tech’ no mundo. Uma das inovações foi para atender a demanda de clientes acostumadas a experimentar os produtos antes de comprá-los: uma ferramenta na qual é aplicado o conhecimento de ‘realidade aumentada’ que permite que as consumidoras façam simulações com os produtos, sem sair de casa.

Ao mesmo tempo que algumas soluções vieram de experiências no exterior, outras foram caseiras, graças a relação da L’Oréal com startups do setor que atuam no Brasil. De acordo com a executiva, um exemplo foi a plataforma que permitiu o uso de WhatsApp para as clientes tirarem suas dúvidas e receberem conselhos de funcionárias da empresa, o que resultou em 20% mais conversões de venda do que o acesso pelo site. A realização de live-streaming  no qual a cliente podia comprar o produto ao mesmo tempo em que participa do evento foi outro projeto criado no Brasil.

“A consumidora brasileira é uma consumidora extremamente exigente, uma consumidora que tem demandas sobre a vivência, necessidades muito particulares. E quando você consegue trazer produtos para o mercado brasileiro, você consegue convencer qualquer consumidor no mundo inteiro”

Sobre diversidade, um dos aspectos que chama atenção na troca de comando é que a primeira mulher a assumir a presidência da empresa no Brasil será substituída por um homem, Marcelo Zimet, quando a expectativa era de que continuasse sob uma liderança feminina, especialmente porque a L’Oréal tem como sua clientela principal as mulheres. An nega que isso seja um retrocesso e lembra que as mulheres são 64% dos colaboradores da empresa e 55% dos cargos de liderança:

“Por que seria um recuo? Marcelo é um homem extraordinário, um brasileiro não só de coração, mas também de nascimento, que conhece super bem o Brasil e trabalha há bastante tempo na empresa e que conhece bem o consumidor. O assunto não é só de ser homem ou mulher para trabalhar na beleza. O assunto é de tentar entender, de ter a empatia de escutar o consumidor e de escutar a necessidade que essa pessoa tem … Não é, ser homem ou mulher, é a complementaridade de todas essas pessoas juntas que faz essa empresa mais forte.”

Apesar do crescimento que teve dentro da L’Oréal, An lembra que sua trajetória, sim, enfrentou dificuldades e barreiras inerentes ao mundo corporativo. Para superá-las, exercitou a resiliência – característica que por várias vezes citou durante a entrevista –, especialmente quando teve de convencer os outros de seu ponto de vista. Em relação a liderança feminina, ela diz que, por tudo que passam na vida, as mulheres criam uma força que as capacita a encarar os desafios da profissão:


“Uma mulher que seja CEO ou não seja CEO é CEO da vida dela. Porque nós temos uma força tão grande, as mulheres, de fazer este multitask. Nós somos capazes de fazer nosso trabalho, ser mãe, ser parceira, fazer muitas coisas ao mesmo tempo, eu acho que isso é que faz as mulheres o CEO da vida dela”

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no canal da CBN no Youtube, no Facebook e no site www.cbn.com.br. O programa vai ao ar aos sábados, às 8h10, no Jornal da CBN, domingo, às 10 da noite, e em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Izabela Ares, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e do Matheus Meirelles.

Avalanche Tricolor: a tentação de uma crônica

Foto de Dominika Roseclay no Pexels

Toda vez que penso em escrever, me imagino cronista — autor desse estilo de escrita que nos aproxima do cotidiano, que surgiu com a intenção de oferecer um relato cronológico dos fatos. Ao longo do tempo mudou, sua intenção e formato. Ficou a ideia de textos inspirados nos acontecimentos diários, que tiveram seu auge nos anos 50 e 60, publicados nos jornais brasileiros, atiçando o interesse do leitor que via o comezinho do seu entorno ganhar contornos de literatura, tornando-se ele também personagem do fato. 

Imediatamente à imagem que surge no meu pensamento, sou instado a encarar a realidade e minha limitação. Logo lembro de história contada por um dos bons cronistas deste tempo —- que por privilégio da profissão, posso conversar toda sexta-feira, ao vivo, na rádio. Em um dos comentários, ainda na época do Liberdade de Expressão, Artur Xexeo contou que, ao ser chamado para o palco onde receberia um prêmio de melhor cronista, iniciou sua fala de agradecimento com um ato de humildade: “eu nunca me vi cronista ….”. O que levou um dos que se viam como tal que estavam lá para prestigiar o evento, cochichar em alto e bom som:  “e não é mesmo!”. 

Registre-se: a despeito da arrogância do colega de palco, Xexeo é sim um excelente cronista na palavra escrita e falada —- e para quem ainda tem dúvidas, ligue o rádio às sextas-feiras, sete e pouco da manhã, ou abra O Globo aos domingos. 

Se o Xexeo pode ser questionado pelos cronistas de plantão, imagine então o tamanho de meu atrevimento pensar em fazer crônicas toda vez que começo a escrever neste blog. Para evitar constrangimento ao Xexeo, ao Rubem Alves, a Martha Medeiros, o Otto Lara Resende, a Rachel de Queiroz, ao Zuenir Ventura —- todos integrantes de uma rica lista de cronistas brasileiros —- recolho-me a minha insignificância e decido, imediatamente após imaginar-me cronista, limitar-me a ser um blogueiro, seja lá que isso signifique para você.

Travestido de blogueiro, escrevo a Avalanche Tricolor, desde 2008 (se não me falha a memória), que alguns podem confundir com crônica esportiva, apesar da minha confessa parcialidade na escrita. Relato minha paixão pelo Grêmio e me esforço para tê-la como único foco, sem jamais atacar ou até mesmo citar o adversário —- convenhamos, para falar mal dos outros já existem outros. Tento encontrar em cada jogo jogado uma inspiração, e cumpri essa tarefa em momentos bem difíceis desta jornada esportiva. Neste espaço, falo com o caro e raro leitor —- cada vez mais caro e raro —-, logo após as partidas disputadas. Poucas vezes adiei a tarefa. Mais raro ainda foi não dizer uma só palavra sobre nosso desempenho em campo. Pois não é que isso aconteceu nesta semana. 

Tivemos dois jogos disputados —- e nenhum deles aqui relatado. Um no domingo, às nove e meia da noite, goleamos; outro na quarta, às dez da noite, empatamos. Partidas que se encerraram tarde, muito tarde para coincidir com o toque de recolher em vigor no Rio Grande do Sul e impedir aglomeração de torcedor. Escrever me deixaria com pouco tempo de cama, já que às quatro da manhã tenho de estar em pé para trabalhar. No dia seguinte, tarefas de toda ordem me ocuparam o tempo, e a tristeza das notícias me roubaram inspiração. 

Nesta manhã de Sexta-Feira Santa, no silêncio de um dia de feriado, encontrei-me com o blog e com o desejo de escrever uma crônica. Quanta pretensão! Um pecado! Especialmente ao perceber que é tentação expressa em data na qual os católicos reservamos para refletir sobre a humildade de um homem santo que se entregou à cruz e à humilhação para nos salvar. Que Deus me perdoe! E os cronistas, também.

“Dou conforto na passagem e não tormento”

Dra. Isadora Jochims

reumatologista, artista visual

Conheça a história da Dra Isadora Jochims publicada na revista Vogue

Guerra / Não estou em uma guerra /

Cuido de vidas, não ceifo /

Dou conforto na passagem / E não tormento /

Não sou movida a ódio / Mas a amor e afeto /

Não quero ganhar / Quero empate /

Minhas bombas são de infusão / Elas seguram almas /

Seus barulhos são de alerta / E não de explosão e morte /

Não sou um soldado /

Minha vida vale / Não sou um número /

Sou a ponte / Para o outro lado /

Não julgo / Não quero saber seu passado /

Apenas da sua vida /

Agora / O ato / A cura /

Não tenho armas / Nem balas /

Tenho a ciência / O conhecimento das medicinas /

Das prevenções / Do cuidado /

As vacinas /

Estou na linha de frente / E não escondido em uma trincheira /

Na linha da frente / Da vida e da morte /

Não obedeço ordens / Tenho autonomia /

Penso / Existo /

Trato precocemente a loucura / Da disputa e do poder /

Por isso não esqueça / Não estamos em uma guerra! /

A vida é mais do que perder / E ganhar /

Nem tudo vale! /

Me paramento / Se paramente / De amor /

Para a esperança enfim / Renascer em nós!”

Conheça a história da Dra Isadora Jochims publicada na revista Vogue

Temos o direito à tristeza

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Bruno Bueno no Pexels

A pandemia não é mais uma condição recente, no entanto, a impressão que temos é que a cada semana os fatos se renovam, infelizmente, sem trazer alívio ou contento. Atitudes desgovernadas, baixa adesão da população aos meios de distanciamento social, números que selam um momento muito doloroso. Diante desse cenário, torna-se difícil, por mais otimistas e esperançosos que sejamos, conseguirmos manter as emoções sempre positivas.Mas deveria ser assim?

Num mundo que se acostumou a buscar soluções imediatas e simplistas para lidar com as dificuldades da vida e a estampar nas diversas fotos que alimentam as redes sociais um excesso de felicidade, sentir tristeza, raiva ou solidão parecem ultrajantes.

Robert Leahy, um dos maiores estudiosos em Terapia Cognitiva, alerta para a busca pelo perfeccionismo emocional. Para o autor, há uma crença – errônea – de que as emoções devem ser boas, felizes e descomplicadas. Isso nos torna incapazes de tolerar a tristeza, a frustração e outros sentimentos desagradáveis, desconsiderando que justamente esse leque de emoções é que nos permitiu a adaptação aos riscos e às demandas da vida em um mundo repleto de escassez e perigo, como aquele vivenciado por nossos ancestrais pré-históricos.

O distanciamento das emoções dolorosas se assemelha a uma ingenuidade emocional, capacitando a negação da realidade, e restringindo, portanto, nossas decisões voltadas para a solução dos problemas atuais de maneira realista e produtiva.

Essa supressão dos sentimentos e a cobrança por atitudes constantemente positivas têm sido apontadas como “positividade tóxica”, termo cunhado a fim de nos alertar sobre os riscos da invalidação de sentimentos, próprios ou de terceiros, através de frases como: “good vibes only” (em tradução literal, boas vibrações apenas). 

Na contramão do benefício, atitudes como essa, em geral, aumentam a percepção de inadequação, gerando culpa e vergonha pelos sentimentos experimentados.

Não falo sobre cultivar os sentimentos que são desagradáveis, mas sobre vivenciá-los integralmente, compreendendo que fazem parte da existência humana. 

Nada dura para sempre. Nem as situações nem as emoções. Que saibamos viver nossas dores, com respeito e compaixão, e que isso nos permita o crescimento e a construção de dias melhores, para que também possamos vivenciar plenamente  os momentos de gratidão e de felicidade.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo: joguei pelo Brasil no ginásio do Ibirapuera

Márcia Perecin

Ouvinte da CBN

Foi no 10 de outubro de 1954 que nasci em uma maternidade na Lapa, de um casal apaixonado, unidos pelo destino, —- um do interior do estado e outro de Santa Catarina. Primogênita de seis lembro-me de ouvir falar na Rua Major Sertório, que deve ter sido um lugar importante para meus pais.  Após a segunda filha, meu pai nos levou a todos para Piracicaba.

Voltamos à capital em uma desesperada necessidade. São Paulo acolheu algumas das minhas irmãs, quando minha mãe se viu obrigada a nos deixar sob os cuidados de uma parente, abençoada, da Congregação das Irmãs Paulinas, hoje Santa Paulina, na Av. Nazareth. Uma foi para creche no Jabaquara. Eu fui para Ourinhos, com dois anos e meio; e outra para Avaré. Crescemos todas fortes e voltamos para Piracicaba.

Em 1972, fui convidada a jogar basquete por São Bernardo. Quando então começou minha andança na capital.

Conheci o ginásio na Vila Mariana, fiquei alojada no Baby Barioni, sempre que convocada para as seleções paulista e brasileira. Joguei pelo Brasil no ginásio do Ibirapuera, esse que agora querem destruir. Fiz corrida de revezamento no autódromo de Interlagos. 

Veterana passei por São Paulo jogando e dirigido equipes de várias cidades . A cada vinda para cá, destinos desconhecidos me aguardavam. Por Santo André fui até o SESI A.E.Carvalho, em Artur Alvim; e mesmo não sendo corintiana, me emocionei a primeira vez que vi a Arena de perto.

Nem só de esporte foram feitos os meus caminhos. Na Paulista, linda, visitei a Livraria Cultura, a Casa das Rosas. No Teatro Alfa, assisti a Billy Elliot; no Credicard Hall, Carmina Burana; no Revista, Ópera do Malandro; no Teatro Municipal, deslumbrante, O Cavaleiro da Rosa, nos transportando a outras épocas e nos fazendo sonhar com um mundo melhor, sem medos e com muito amor.

Márcia Perecin é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: José Carlos Teixeira Moreira e a importância de saber falar outras culturas

“Sabe que hoje mais importante do que falar outras línguas é falar outras culturas?”

José Carlos Teixeira Moreira

A diversidade cultural brasileira influencia nas relações de negócio e precisa ser considerada para que a busca de resultados não seja frustrada. Negociar no Ceará é diferente do negociar no Rio Grande do Sul, construir relações com os clientes na Bahia não é o mesmo que construir em Minas Gerais. A distância é tamanha que até soluções criadas com esmero podem ser um fracasso se atropelarem os rituais culturais de cada uma das regiões.

Cansado de ouvir empresários reclamarem da cultura de alguns estados, José Carlos Teixeira Moreira, presidente da Escola de Marketing Industrial, decidiu ir a campo para entender a forma de pensar, de sentir e de reagir do brasileiro. Há cerca de dez anos, realizou mais de 14 mil entrevistas, em todos os estados, no interior e na capital, nos setores de indústria, serviços e comércio. Usou o método da teoria da dimensão cultural, publicado nos anos de 1980 pelo psicólogo holandês Geert Hofstede —- que se transformou em um parceiro de estudos e desenvolvimento de pesquisa.

Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, José Carlos Teixeira Moreira explicou os aspectos culturais que pautam os negócios no Brasil e divulgou dados que sempre foram de domínio privado da Escola de Marketing Industrial —- parte do resultado desta pesquisa, você acessa nas telas disponíveis aqui no blog:

“Lembre-se de uma coisa: nenhuma cultura é ruim. Cultura é o jeito que eu vivo, o jeito que eu trabalho, é o jeito que eu morro … Se você respeita a cultura e usa os rituais que naquela cultura expressam o valor, você tem muito sucesso”

As empresas têm culturas próprias; e seus colaboradores, também. Tudo isso, somado e misturado com a cultura de uma região, cria um coquetel de informação que precisa ser muito bem compreendido dentro das dimensões que afetam a construção de valor entre empresas, das quais cinco fazem parte da metodologia de Hofstede:

  1. distância hierárquica
  2. individualismo/coletivismo
  3. masculinidade/feminilidade
  4. controle da incerteza
  5. orientação para o longo prazo

Para o estudo no Brasil, mais três dimensões foram analisadas:

  1. Fluxo: estabilidade x mudança
  2. Ansiedade: harmonia x tensão
  3. Autonomia: sujeição x protagonismo

Diante de tantas informações que podem ser coletadas, José Carlos recomenda que se invista um bom tempo para conhecer o seu parceiro de negócios em lugar de ficar refém de números expostos em relatórios. Ou, pior ainda, de preconceitos culturais que tornam intoleráveis as relações. 

“No Pólo Industrial de Camaçari, toda a gestão era de paulista, não podia colocar um baiano na gestão por conta desses arquétipos, desses rótulos. Tenho a impressão de que a riqueza da diversidade ainda não foi explorada como devia nos negócios”.

Um exemplo de diferenças culturais entre estados, citado na entrevista, é a que se percebe entre Paraná e Rio de Janeiro. Enquanto no estado do sul do país, tem-se uma visão de longo prazo, no Rio o que interessa é o aqui e o agora. É possível vender uma turbina —- que exige muito tempo de produção, construção e instalação —- nos dois estados, mas o negociador tem de oferecer informações que mostrem os ganhos imediatos para o empresário fluminense para convencê-lo de fechar o contrato.

“Sabe qual é o efeito adicional? Você passa a gostar mais das pessoas. Porque permite que você tenha o estranhamento amoroso. quando você vê que a pessoa tem cultura diferente e o valor é o mesmo.  Estranhamento amoroso é assim: é uma distância amorosa que não permite que eu seja tão familiar,  porque  a familiaridade impede de eu ver o outro. Eu vejo eu no outro. E como ele não é igual, eu brigo com ele o tempo todo”

Assista à entrevista de José Carlos Teixeira Moreira ao Mundo Corporativo, em 2017: “atenção ao óbvio da sua empresa

Assista à entrevista com José Carlos Teixeira Moreira ao Mundo Corporativo, em 2019: “a arte de clientar e apreçar”

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, às 11 da manhã, no canal da CBN no Youtube, no Facebook e no site. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativa. E esta também em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Bruno Teixeira, Matheus Meirelles e Débora Gonçalves.

Avalanche Tricolor: (des)memórias de Porto Alegre que comemora 249 anos

Juventude 2×1 Grêmio

Gaúcho – Montanha dos Vinhedos, Bento/RS

A mais bela paisagem de Porto Alegre: a Arena Grêmio e o pôr do sol

Já vivo há mais tempo em São Paulo do que em Porto Alegre. São 30 anos aqui na capital de 57 de vida. Foi lá no Rio Grande, porém, que vivi os mais marcantes na formação de meu caráter e personalidade. De pequeno, segurando a mão do pai e da mãe; de criança, correndo com os amigos  na calçada da Saldanha; de adolescente, batendo bola nas quadras e beijando no escurinho do cinema; até ser jovem, primeiro sem muita responsabilidade, fazendo aquelas coisas que hoje nos fazem pensar “como é que eu sobrevivi?”, para depois ser do tipo que tinha de pagar as próprias contas.

Saí por acaso de Porto Alegre, quase sem querer, para uma viagem festiva em São Paulo, quando deparei com a oportunidade de ouro na vida profissional. Tive tempo de voltar para Porto Alegre, jogar todas as roupas na mala, colocar o fusca grená à venda e dar um beijo nos mais queridos. Ainda passei lá no Zelig, o bar do Pio, ponto de encontro, bebedeiras, namoros e choradeira de muitos anos, na Cidade Baixa. No dia seguinte, um primeiro de janeiro, desembarcava na cidade que, hoje, é cenário de outros momentos muito importantes na minha vida. Deles conto em outra conversa. 

Hoje, estou aqui ocupando o espaço de uma Avalanche —- em que o desafio seria garimpar valores e aprendizados na primeira derrota, lá em Bento Gonçalves, do time de jovens que está disputando o Campeonato Gaúcho — para falar de Porto Alegre porque minha cidade completa 249 anos, nesta sexta-feira, 26 de março. Aprendi na escola que a cidade foi fundada por casais açorianos que desembarcaram no Porto das Pedras, no século 18. Construí a fantasia  de que sendo casais, teriam chegado em pequenas embarcações a remo, nas quais as moças estariam de chapéu largo e vestindo longo, enquanto os moços vestiam-se elegantemente de cartola, casaco e colete. Impossível, tendo todos vindos de tão longe. 

Nossa imaginação é capaz de construir histórias que jamais vivemos e as contamos como se verdadeiras fossem. É efeito do cérebro que para rodar em alta velocidade deixa de lado algumas informações, inventa coisas e manipula pensamentos.

Se eu disparar a contar as experiência marcantes de Porto Alegre é possível que alguém mais próximo venha me cochichar no ouvido de que não foi bem assim que aconteceu.

O amor não era tão apaixonante, a beleza tinha lá suas distorções e as aventuras que acredito ter vivido eram até meio sem graça

Independentemente dessa realidade e sem saber ao certo o quanto do que lembro é ilusão, Porto Alegre é meu chão —- é onde tive meus primeiros traumas e prazeres. Muito do que experimentei lá, trago no meu comportamento, mesmo que hábitos tenham sido abandonados no meio do caminho. E agradeço de coração a todos que me ajudaram a viver e a aprender naquela cidade.

Quem sabe, para a passagem do próximo ano que nos levará a marcante data dos 250 anos, não dedique mais espaço neste blog para contar as histórias nas quais é provável tenha sido apenas um observador mas que as transformarei em memoráveis, até que me provem o contrário.