Pôster Grêmio Tricampeão Gaúcho publicado pelo site GaúchaZH
Desde 2016, o Grêmio reserva ao menos uma data no calendário anual para comemorar um título. Naquele ano, vencemos a Copa do Brasil —- após 15 edições —-, que nos abriu a porta para o título de Libertadores, em 2017. Em 2018, 2019 e, agora, 2020, fomos campeões Gaúcho. No meio do caminho, colocamos na sala de troféus: Recopa Sul-Americana, Recopa Gaúcha e outras cositas más.
Houve jogadores marcantes nestes cinco anos; gente que ressurgiu no cenário nacional como Geromel, dos maiores zagueiros que já vestiram a camisa gremista; que fez seu futebol se expressar pela liderança e talento, como Maicon — o capitão que ergueu todas essas taças dos últimos anos; ou que se consagrou e foi embora, como Luan, o Rei da América. E, recentemente, Everton.
Por mais importante que cada um seja (ou tenha sido) — e toda minha gratidão a eles —- foi o conjunto da obra, assinada por Renato Portaluppi, quem nos permitiu transformar títulos em rotina. Hoje mesmo se transformou no primeiro técnico, desde o feito de Oswaldo Rolla, em 1958, a conquistar o tricampeonato gaúcho.
Costumam dizer que Renato tem estrela. Concordo que ele deixa tudo mais estrelado por onde passa. Discordo, porém, quando neste conceito vem embutida a ideia de sorte. Renato não é um cara de sorte. É inteligente da sua maneira. Sabe como poucos transformar pessoas. E o faz ao ser capaz de criar um espírito de grupo que está sempre disposto a agregar novos talentos e a abraçar jogadores que chegam com o desejo de provar suas qualidades.
A sequência de títulos chegou com Renato —- e isso não é uma coincidência. É resultado do amadurecimento que teve na vida. De como estudou —- apesar dele dizer que não precisa disso — a dinâmica do futebol contemporâneo e soube levar para campo. Da competência em entender a cabeça de jogadores e de ganhar a admiração dos torcedores.
Depois de ter conquistado o Tri da Liberadores. Agora é Tri do Gaúcho. Renato, indiscutivelmente, é Trilegal!
Viagem quase finalizada. Entro na rua Professor Picarolo. Nunca havia reparado no nome, apesar de sempre passar no local. Era ali o destino final do meu passageiro, um estudante da GV. Em mim, batia um certo cansaço tanto quanto a fome batia no meu estômago. Estacionei, desci do carro, alonguei o corpo, bati a sujeira dos tapetes. Troquei a estação do rádio da Alpha para CBN — é sempre bom ouvir notícias. Tânia Morales se despedia. Pena. Adoro ouvi-la falar de livros e outros temas.
Peguei a mochila com a merenda. Um iogurte, uma maçã e duas bisnaguinhas com queijo. Delícia! Deixei o vidro do carro meio aberto. A brisa era boa, o vento gostoso. A metrópole estava silenciosa a ponto de ouvir o barulho água correndo — era a fonte do Mirante Nove de Julho, deixando a água correr por sua silhueta bela, barroca, iluminada …
Lanche terminado, fio dental passado, álcool gel nas mãos, halls refrescando a boca, veículo Ok. Hora de voltar para as pistas. Em 30 segundos, o aplicativo anuncia: buscar passageira na rua dos Franceses. Cheguei lá e duas garotas se aproximam. Jovens, de mãos dadas. A menor de cabelos curtos e saia sensual, pede para eu esperar um minuto. Pelo retrovisor vejo as duas conversando. Devem estar falando palavras de despedido. Não ouço, mas leio seus olhos emitindo cumplicidade. Os lábios se tocaram com ternura, paixão e libido. Eu, culpado pela inconveniência, não consegui deixa de assistir àquele filme no meu retrovisor.
A mais mocinha entrou no carro, com uma má vontade clara e pesada, acomodando-se no banco de traz à minha direita. Conferi o destino, iniciei a corrida e partimos. Destino: Pinheiros, Rua Francisco Leitão. Ela ainda deu uma leve olhada para trás. Viu seu amor parado, em pé na calçada, com o olhar fixo no meu Uber que se tornava cada vez mais distante. Encostou a cabeça no vidro da janela e, depois de alguns segundos, cerrou seusolhos languidos, meio úmidos. Como o amor entre as pessoas é algo que inebria. Fiquei enternecido por aquele clima que invadiu o carro. Duas garotas e um sentimento tão puro ao meu olhar. Como o preconceito torna certas pessoas cegas para aquilo que a vida nos oferece. Duas garotas que se amam.
Passeamos na Paulista de vidros abertos. Início de madrugada, vento fresco que banhava levemente nossas caras. No cruzamento com a Peixoto, um biker curtindo sua magrela. À frente, um casal com sorrisos escancarados faz uma self, com o Trianon ao fundo. No farol seguinte, em frente ao Conjunto Nacional, uma galera trabalhava intensamente.
Cheguei ao destino: a mocinha, com a cara de quem um cochilo tinha tirado, disse um obrigado doce e me desejou boa noite. Retribuí por aqueles momentos tão especiais, apaixonados e particulares que vivemos naquele percurso. Ela pelo seu amor, deixado provisoriamente na Rua dos Franceses, eu, pela minha cidade.
Henrique Ribas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. E ouça outros capítulos da cidade no podcast do Conte Sua História de São Paulo.
“O escutar na prática é muito mais do que não falar; escutar não é apenas esperar o outro terminar; escutar é fazer algo com as palavras do outro” — Thomas Brieu, DO IT Brasil
Em um mundo em que todos querem falar, quem souber escutar levará vantagem. Ao pensar o processo de comunicação do ponto de vista de quem escreve e não o de quem fala, você cria novas possibilidades na comunicação com benefícios na vida profissional e pessoal. Como desenvolver a prática da escutatória foi o tema da entrevista com o franco-brasileiro Thomas Brieu, diretor da DO IT Brasil, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.
“Precisamos reaprender a falar para ser escutado, ou seja, mergulhar na comunicação pelo prisma da escuta, mudando o prisma tradicional da fala”
A construção de um diálogo eficiente ganha ainda mais importância diante do declínio da empatia, provocado pelo excesso de informação; e se expressa de forma dramática quando enfrentamos crises como a atual, resultante da pandemia.
“Esse mal estar psicológico está aumentando, porque não consigo verbalizar o que mais sinto; com isso vem o sofrimento e até a violência. Por um lado, a falta de uma escuta interna, me impede de verbalizar o que está dentro de mim; por outro, têm as pessoas que não se sentem escutadas —- são as minorias que não têm voz. E a tendência é de se reagir com violência”.
De acordo com Thomas Brieu, a primeira vez que ele deparou com a palavra “escutatória” foi através do escritor Rubem Alves que, há cerca de 25 anos, reclamou que enquanto todos queriam fazer curso de oratória, era preciso um curso de escutatória. Foi quando, ele percebeu que o trabalho que já realizava em treinamentos em empresas e com profissionais tinha esse objetivo, fazer com que as pessoas aprendessem a escutar mais o outro para se comunicar melhor.
“A diferença entra a escuta ativa e a escutatória, é que a escutatória vai além de escutar mais e melhor; é fazer com que o outro se sinta escutado e eu preciso dar provas disso, de que escutei o outro”
Toda vez que se diz ao outro o que as palavras dele fizeram em nós, estamos dando provas de escuta. Mais do que ficar de boca calada, é silenciar a voz interna que está o tempo todo falando conosco enquanto o outro transmite sua mensagem, explica Thomas Brieu.
“Cada vez mais, nós vamos ter poucas pessoas falando, embora agora todo mundo possa falar nas redes sociais. É um paradoxo, porque agora todo mundo pode ter o seu canal, pode ter o seu blog, mas ter uma prova de escuta genuína é cada vez mais difícil”.
Existem três tendências que prejudicam a comunicação interpessoal: a necessidade de sempre ter razão; de se diminuir diante do outro ou de pensar pelo outro. Essas tendências se revelam por palavras e gestos, que são identificados pela cor vermelha, dentro da metodologia desenvolvida por Thomas Brieu. A estratégia é mudar esses padrões e passar a emitir mensagens que ele caracteriza de sinais verdes.
Um exemplo típico de como a mudança do vocabulário pode tornar o diálogo mais produtivo, é evitar as conjunções adversativas —- tais como mas, porém e entretanto —- e substituí-las por conjunções aditivas — ao mesmo tempo, por outro lado e bem como.
Prefira, também, fazer perguntas abertas que permitam que você investigue melhor o que o outro tem em mente. Como temos a tendência de pensar pelo outro, costumamos fazer perguntas fechadas e desperdiçamos a oportunidade de buscar a solução que está na cabeça do nosso interlocutor.
“Em vez de tentar a nossa visão do mundo, só mudando alguns padrões de linguagem, eu consigo passar desse paradigma da competição e da escassez para esse paradigma da abundância e da cooperação”
Para entender mais sobre a técnica da escutatória, assista ao vídeo completo do Mundo Corporativo, que está aqui no blog, e inclua o programa entre os seus podcasts favoritos. Colaboraram com este Mundo Corporativo: Juliana Prado, Guilherme Dogo, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.
Milwaukee Bucks iniciou movimento de paralisação da NBA Crédito: Kevin C. Cox/Getty Images/Site CBN
A ausência de jogadores da NBA nas quadras, na noite de quarta-feira, em Orlando, foi o gesto mais simbólico e de maior repercussão contra a violência aos negros, nos Estados Unidos, desde que policiais de Kenosha atiraram sete vezes e pelas costas no negro Jacob Blacke, no domingo, no estado do Winsconsin. O primeiro ato foi dos jogadores de basquete do Milwaukee Bucks seguidos pelos demais colegas da liga e se estendeu ao basquete feminino e ao beisebol, com a paralisação das rodadas da WMBA e da MLB.
A despeito de o presidente dos Estados Unidos Donald Trump ter feito comentário crítico e dito que é por isso que a NBA está perdendo audiência — o assunto ganhou espaço no noticiário esportivo, avançou pelas demais editorias dos jornais, destacou-se nas manchetes dos telejornais e de programas de rádio pelo mundo.
Eram 5h50 da manhã, aqui no Brasil, quando o apresentador Frederico Goulart nos provocava a refletir sobre o feito, no quadro que fazemos ao lado de Cássia Godoy, no CBN Primeiras Notícias. Ressaltei que foi a jogada mais marcante do basquete americano já vista nas quadras — esporte que quando jogado é um espetáculo por si só. E foi a forma de revelar a força antirracista que se expressa nos Estados Unidos com protestos nas ruas e manifestações nem sempre pacíficas — porque pacíficos também jamais foram os atos contra os negros.
Voltamos em seguida, às 6h, no Jornal da CBN com o noticiário e as reações pelo Mundo, para ainda antes das 7 da manhã, ouvirmos Juca Kfouri comentar que o esporte americano encestou o racismo:
A notícia foi destaque a cada meia hora, no Repórter CBN e tema único do bate-papo com Dan Stulbach, Zé Godoy e Luiz Gustavo Medina, no Hora de Expediente, no qual sempre preferimos ser diversos e divertidos nas notícias abordadas. Os três haviam conversado com Roque Júnior, ex-jogador de futebol, com títulos na Europa e campeão do Mundo pelo Brasil, na sexta-feira passada — oportunidade em que ele destacou as diferenças de reações contra o racismo que se tem nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil; e justificou que o campo reflete a sociedade da qual faz parte.
Ao longo do Jornal da CBN ainda lembrei de entrevista que gravei nessa quarta-feira, com Luana Génot, do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), que vai ao ar no dia 12 de setembro, no programa Mundo Corporativo. Ela e sua organização fazem trabalho de excelência na busca da diversidade e da igualdade racial nas empresas.
Sem spoiler — mesmo porque o vídeo da gravação pode ser visto no Facebook e no canal da CBN no You Tube –, Luana constatou que desde o assassinato de George Floyd, em Maio, e as manifestações que se seguiram nos Estados Unidos, aumentou o número de empresários brasileiros em busca de informações do ID_BR para entender como podem se transformar em agentes desta luta contra o racismo, que restringe a entrada de negros no mercado de trabalho e reduz as chances deles ascenderem aos cargos mais altos da hierarquia corporativa.
Isso não acontece só com líderes empresarias; nós da mídia também somos culpados por, na maioria das vezes, somente sermos alertados para a gravidade dessa injustiça racial quando o noticiário no exterior fala mais alto —- Luana também aborda essa questão no Mundo Corporativo.
Nesse ciclo de crueldade, em que não se vêem representadas nos diversos espaços da sociedade, muitas crianças negras crescem na descrença de que são capazes de mudar esta história, com dificuldade até mesmo de se reconhecerem como cidadãos e negros. Foi o que me disse um ouvinte da CBN em e-mail que fiz questão de ler na íntegra durante o Jornal e compartilho com você, caro e raro leitor deste blog.
Leia até o fim, pense sobre o assunto, busque outras fontes que se expressam sobre o racismo e leve essa discussão à frente. Se uma palavra sua inspirar uma outra pessoa a seguir na mesma direção, tornaremos essa jornada menos árdua.
Foi o que Vitor Del Rey fez hoje e a ele agradeço pela generosidade da mensagem e pela sinceridade em compartilhar com o público da CBN que, frente ao preconceito e racismo estrutural que vivemos, só se aceitou como negro, aos 27 anos:
“Mílton, bom dia!
Acredito ser diferente no Brasil, porque, ainda criança, os negros americanos ouvem sobre Luther King, Rosa Parks, Malcoln X e tantos outros. Aqui no Brasil, ainda criança, nós somos condicionados a odiar a nossa cor. Quando cresce, o ideal é ser moreno, não negro..
Eu me aceitei como negro aos 27 anos, mesmo sendo um negro retinto, ou seja, bem escuro. Na verdade, eu sempre soube que era negro, não tinha como não saber: a polícia jogava isso bem na minha cara. A questão é que eu não tinha estímulo nenhum para amar a minha cor.
Daí, conheci a EDUCAFRO, que além de me trazer a possibilidade do ensino superior me entregou algo bem maior: a oportunidade de conhecer a minha história, os heróis reais que nós temos, e a lutar por igualdade.
Hoje, sou formado em Ciências Sócias pela FGV, faço mestrado lá. em Administração Pública, trabalho com o ex-ministro da Educação Jose Henrique Paim e tenho um instituto: Instituto GUETTO — Gestão Urbana de Empreendedorismo, Trabalho e Tecnologia Organizada. Sou ponta de lança no combate ao racismo no Brasil e no mundo.
Everton comemora seu primeiro gol, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
O caro e raro leitor deste Blog talvez estranhe a história que vou contar por aqui. Nem tanto pela história, mas por ter sido protagonizada por clubes e jogadores sobre os quais não costumo falar em uma Avalanche dedicada — e merecidamente — ao Grêmio. E por história do passado que é, considere que posso cometer falhas de memória — sou muito ruim de guardar nomes e épocas.
Foi em um dia qualquer das minhas andanças pelos estádios de futebol do Rio Grande do Sul, quando trabalhava como repórter setorista, e um dos técnicos de plantão falava do sucesso de Paulo César Carpegiani, no Flamengo, clube que não estava com essa bola toda quando o contratou, em 1977. O jogador havia saído de um Internacional, que ganhava quase tudo naquela época — sim, isso foi muito antigamente — e onde havia formado um dos melhores meios de campos do Brasil, o que lhe rendeu convocação à seleção brasileira. Diziam em Porto Alegre que Carpegiani estava com problemas físicos, algum tempo antes havia feito cirurgia no joelho.
No Rio, os astros se alinharam em favor dele e do Flamengo: estava surgindo um menino chamado Zico, e Carpegiani teve ainda como companheiros Adílio, Tita e Nunes. Ele se tornou um dos lideres das campanhas vitoriosas daquele time. Sobre a suspeita de Carpegiani não dar mais conta do recado, o técnico, contador da história, disse que o pessoal do Flamengo costumava brincar : “sempre que tiver um aleijadinho como esse pode mandar pra cá”.
Lembrei da história quando pensava como iniciar esta Avalanche, escrita um dia depois da vitória que colocou o Grêmio em vantagem e mais próximo de outro título gaúcho. Nestes tempos modernos, você sabe: é o Grêmio quem ganha tudo (ou quase tudo). O um a zero saiu cedo, com o jeito de o Grêmio jogar e com um jogador que leva muito jeito: Pepê. Não me surpreendeu. Nosso atacante está pronto para assumir a vaga de Everton — o que saiu.
O dois a zero, sim. Esse demorou mais e me chamou muito a atenção. Porque foi resultado de uma bola de rebote na entrada da área, que estufou a rede após um chute tão difícil quanto fulminante de Everton — o que chegou. Trocado por Luciano, o meia-atacante deixou São Paulo sob a descrença de seu clube e chegou a Porto Alegre sob a desconfiança de alguns torcedores.
“Só eu sei o momento que estava passando antes de começar aqui. Acharam que estava desacreditado, mas o pessoal aqui acreditou em mim”
Everton, camisa 11
Everton — o que chegou — tende a ser mais um desses casos de jogadores que entram no elenco gremista tendo de ouvir críticas à boca pequena. Precisando provar a todo o instante a sua qualidade. E preparado para se transformar em destaque, ao passar pelas mãos mágicas de Renato. O mais recente deles foi Diego Souza: barrigudo, sem força, ultrapassado — foram alguns dos adjetivos que o acompanharam até se apresentar ao time do qual hoje é o goleador.
Para não me estender muito nos casos, termino esta Avalanche lembrando Maicon, que trocou o São Paulo pelo Grêmio, em 2015. O que mais ouvi por aqui quando a transferência ocorreu, é que estávamos levando um jogador lento, cansado e que não tinha jeito. Nosso capitão é, sem clubismo, dos jogadores que mais sabem tratar bem a bola, distribuir o jogo e comandar um time em campo, no Brasil. Ver o que é capaz de fazer com a bola nos pés é como estar diante de um globetrotter do futebol.
Que estes relegados estejam todos de volta ao campo, ao lado de nossos jovens e promissores talentos, no próximo domingo para comemorar mais um título na história gremista — esta, sim, uma história que eu adoro contar nesta Avalanche.
“Há mais na superfície do que o nosso olhar alcança”.
Aaron Beck
A busca pela compreensão sobre o ser humano parece tão antiga quanto a própria história da humanidade. Por que uma pessoa age de um jeito e não de outro? Quais os impactos que um evento pode produzir no psiquismo? Por que diante de uma situação semelhante as pessoas agem de maneiras tão diferentes?
Mesmo sem ser psicólogo, todos arriscam respostas para tais perguntas, indicando uma apropriação dos conhecimentos da Psicologia Científica, ainda que superficiais, para explicar e compreender os fenômenos e problemas da vida cotidiana. Por outro lado, tais explicações não podem ser confundidas com a Psicologia, uma área da ciência que envolve estudos acadêmicos e sistemáticos sobre o processamento mental e o comportamento, cuja origem remete à filosofia da Grécia antiga
Os filósofos gregos procuravam compreender a relação do homem com o mundo, valorizando o papel da razão na sobreposição aos instintos. Na Idade Média, o conhecimento psicológico ficou associado à religiosidade, tendo como principais expoentes Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, cujos estudos procuravam explicar a diferença entre essência e existência.
No renascimento ocorreu uma valorização do ser humano e um grande avanço da ciência. O corpo passou a ser visto como uma máquina e os estudos em fisiologia e anatomia permitiram novos conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro.
No século XIX, estudos em psicofísica permitiram a mensuração de comportamentos, especialmente os reflexos, favorecendo a realização de estudos que atendiam aos critérios metodológicos e científicos vigentes. A psicologia foi se afastando da Filosofia e novos estudos começaram a ser estruturados na área da psicofísica, com o objetivo de compreender os fenômenos mentais.
Em 1879, Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório para experimentos em psicofisiologia, na Universidade de Leipzig, Alemanha. Inaugurava-se a era científica da Psicologia.
Desde a fundação do laboratório de Wundt, muitos conhecimentos foram sendo desenvolvidos e aprimorados sobre o funcionamento mental e comportamental, admitindo-se, atualmente, que estes sejam influenciados por três grupos de fatores: biológicos, psicológicos e socioculturais.
Essa perspectiva biopsicossocial do ser humano exigiu que a construção teórica do saber psicológico se amparasse em outras áreas científicas, com estudos em fisiologia, sociologia, neurociências, dentre outros. Se o embasamento teórico exigiu multidisciplinaridade, não seria diferente com a prática psicológica. Na maioria das áreas de atuação, o psicólogo trabalha em equipes ou com diferentes profissionais, de maneira interdisciplinar.
No Brasil, a Psicologia passou a ser reconhecida como profissão apenas em 27 de agosto de 1962, data atualmente instituída como o Dia Nacional do Psicólogo.
Apesar de ser uma profissão relativamente nova, segundo dados do Conselho Federal de Psicologia, nosso país tem atualmente mais de 370 mil psicólogos, atuando nas diversas áreas: psicologia clínica, social, escolar/educacional, organizacional e do trabalho, hospitalar, do esporte, do trânsito, psicologia jurídica e neuropsicologia.
Faço parte desses 370mil profissionais e nessa breve retomada da história da psicologia, fui relembrando um pouco da minha história também…
Ainda na adolescência, a minha curiosidade sobre o ser humano e meu gosto em trabalhar com pessoas acabaram definindo a minha escolha profissional. Recordo o dia da matrícula, quando vi na ficha de disciplinas a cursar que no primeiro semestre teria aula de anatomia. Estudar cadáveres? Não! Eu tinha escolhido a psicologia para trabalhar com gente viva!
Ali fui descobrindo que para ser psicóloga teria um longo caminho a percorrer, com muitos estudos, mais completos e complexos do que imaginara. Além da graduação e da especialização, como optei por uma carreira acadêmica, fiz mestrado e doutorado, atuando no ensino da psicologia, uma das minhas atuações favoritas e tão importante para o desenvolvimento da profissão em nosso país.
Quando olho para a história da psicologia e para minha trajetória profissional compreendo que talvez uma das maiores dificuldades que enfrentamos hoje seja a conscientização de que a prática psicológica não pode ser confundida com práticas indiscriminadas, muitas vezes denominadas terapias alternativas, que se afastam significativamente das teorias científicas, seguindo métodos duvidosos e muitas vezes beirando ao charlatanismo.
Pegam carona na Psicologia, se revestem de psicologismos, mas não são Psicologia. Psicologia é exercida por psicólogos!
Ser psicólogo é conviver com os dilemas, dores e sofrimentos alheios. É muitas vezes se perguntar quanta dor cabe numa vida. Mas também é participar da construção de vidas mais adaptadas, realizadas e felizes. É saber que as mudanças são possíveis. É contribuir para que as transformações aconteçam tanto de forma individual como coletiva.
Não apontamos o caminho a ser seguido, mas percorremos esse caminho junto com o paciente, com uma lanterna na mão. Essa lanterna é a luz do conhecimento científico e da experiência, acumulados com muito estudo, dedicação e prática, que permite a nós e aos pacientes enxergarmos aquilo que num primeiro momento, como sugere Aaron Beck, talvez nossos olhos não pudessem alcançar.
Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung
“Marcas que se destacam são aquelas com um trabalho consistente de comunicação” —- Cecília Russo
O estudo Marcas Mais, divulgado semana passada, identificou o nível de envolvimento dos consumidores com as empresas. Em sua sexta edição, a pesquisa reforçou o posicionamento de algumas marcas que têm se destacado ano após ano e, em função da pandemia, pela primeira vez usou a mesma metodologia para revelar as melhores ações de responsabilidade social, que contribuíram para tornar a vida das pessoas mais fácil.
Elaborado por Jaime Troiano e Cecília Russo, comentaristas da CBN, e encomendado pelo jornal O Estado de São Paulo, foram ouvidas 11 mil pessoas sobre 31 categorias de produtos, alguns incluídos pela primeira vez: segurança patrimonial, pneus e postos de combustível.
“As marcas ganham por terem consistência, por uma pressão de comunicação muito bem organizada e ganham por posicionamento muito claro no mercado com os quais consumidores e clientes se identificam”— Jaime Troiano
Dois aspectos que foram relevantes para colocar as empresas no topo do Marcas Mais, na categoria responsabilidade social, foi o fato de já estarem, há mais tempos, através de seus produtos e serviços, realizando trabalhos que os aproximam dos clientes e de terem desenvolvido novas iniciativas com a pandemia, influenciando o bem estar dos consumidores.
As cinco marcas que se destacaram nessa categoria foram:
Nestlé
Natura
Lojas Americanas
Magazine Luiza
O Boticário
Aos gestores que buscam entender o que leva as marcas a se destacarem, além de analisarem o resultado completo do Marcas Mais, que você encontra no site do jornal O Estado de São Paulo, devem levar em consideração o recado de Cecília Russo, no programa Sua Marca Vai Ser Um Sucess:
“Ninguém ganha ranking por sorte: marcas precisam ser cultivadas, bem tratadas e comunicadas”
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar, aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN. O quadro também está disponível em podcast.
Alisson em jogada de ataque; foto: LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
Houve quem duvidasse das minhas escolhas futebolísticas. Apostava que meu programa dominical seria assistir à decisão da Liga dos Campeões da Europa. Uma final que colocou frente à frente um projeto de clube, em que a organização é a principal estratégia, e um projeto de time, em que o dinheiro é estratégico. Oportunidade rara: alguns dos maiores jogadores do planeta se enfrentando em partida que prometia emoção do início ao fim, em competição das mais organizadas e caras do Mundo, e readaptada às novas condições impostas pela pandemia.
Um jogo com expectativa de audiência gigantesca na maior parte dos países para onde e por onde fosse transmitido: na tela da TV, do computador ou do celular. Com tal interesse aqui no Brasil, especialmente pela presença de Neymar com a camisa do PSG, que o clássico paulista marcado para esta rodada do Campeonato Brasileiro teve de mudar de endereço. No estádio em que deveria ser jogado, preferiu-se a transmissão da final europeia no telão —- assistida no modelo drive-in.
Apesar de afirmar categoricamente aos meus colegas de rádio que me dedicaria a partida do Grêmio, em São Januário, disputada no mesmo horário que a final da Liga, a dúvida persistiu. E ao fim desta Avalanche, você —- caro e raro leitor deste blog —- talvez se mantenha no time dos descrentes. Duvidarem do meu comportamento e intenções não chega a ser novidade por jornalista que sou.
O curioso é que esse jamais foi um dilema para mim. Minha agenda dominical estava bloqueada para ver a partida válida pela quinta rodada do Campeonato Brasileiro desde o rearranjo do calendário, necessário para se ajustar a parada forçada pelo coronavírus. Nem mesmo a escolha de Renato em escalar um time mezzo a mezzo, meio titular e meio reserva, já que temos decisão do Campeonato Gaúcho na quarta-feira, me demoveria da ideia de ver o Grêmio em campo.
Eu gosto muito de futebol. E futebol bem jogado, gosto mais ainda. Mas assistir a qualquer outra partida de futebol que não seja a do Grêmio, jamais será uma opção. Pelo Grêmio, eu torço; e torço muito.
Tá bom, me perguntará o incrédulo: se você antes do jogo soubesse que Vasco e Grêmio fariam uma partida medíocre, com muitos passes errados, bolas desperdiçadas e sem gols, nem assim você aceitaria trocar o programa desse domingo?
Incrédulos e crentes, minha resposta é não. Vou repetir: eu gosto de futebol mas antes eu torço para o Grêmio; e se é pelo Grêmio que torço, é com ele que estarei onde o Grêmio estiver!
PS: bem que poderia ter me dado uma força também jogando um pouquinho melhor.
O que essa pandemia nos mostrou é que nós já tínhamos várias ferramentas, várias tecnologias, e, talvez, nós não estivéssemos utilizando a sua total potencialidade; e mesmo as pessoas, quão resilientes as pessoas estão sendo durante esta pandemia”
Um dos processos digitais impulsionados pelas restrições impostas pela pandemia foi o da telemedicina; o que antes se resumia a trocas eventuais de mensagens entre médico e paciente, através do WhatsApp, transformou-se em canal de atendimento e consulta. Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, da CBN, Carlos Marinelli, presidente do Grupo Fleury, falou de como a empresa, o setor de saúde e seus profissionais tiveram de se adaptar desde que os primeiros casos de Covid-19 chegaram ao Brasil.
“Desde o primeiro momento, o foco sempre foi na segurança dos nossos colaboradores porque a gente sabia que, uma vez esses colaboradores estivessem seguros, nós iríamos trazer essa segurança também para os nossos clientes”.
Dentro das mudanças realizadas pelo Grupo Fleury, também houve a aplicação do serviço de atendimento móvel com a inclusão de procedimentos, como o de ultrassom e exame de imagens, medida que fez diminuir a necessidade de pacientes terem de se deslocar até as unidades de saúde. De acordo com Carlos Marinelli, foi criada uma área de consultoria às empresas que precisavam desenvolver suas atividades dentro de normas mais rígidas de segurança sanitária. Em 50 dias, aderiram ao programa 300 empresas e cerca de 400 mil pessoas foram atendidas por esses serviços, muitos para a realização de testes de Covid-19.
O executivo destacou, ainda, a participação de seus laboratórios e profissionais em projetos de sequenciamento da mutação do Sars-Cov-2 e de desenvolvimento da vacina de Oxford:
“Esse é um momento em que o conhecimento precisa ser constituído, precisa ser elaborado; e quanto mais a gente passar rapidamente o conhecimento que a gente elabora, que a gente constrói, melhor para todo mundo. Essa é uma responsabilidade que também a gente trouxe para a gente”.
Um aspecto que tem desafiado os gestores é o de entender o que vai acontecer com as empresas e os negócios após a pandemia. Apesar de apostar na ideia de que as pesquisas com uma ou mais vacinas estarão concluídas até o fim do ano, o que identifica como sendo libertador para o cidadão, Carlos Marinelli alerta que isso não significará que voltaremos a nos comportar como antes da pandemia. Nem devemos. O executivo acredita que diminuirá a necessidade de todos os profissionais estarem todos os dias dentro do escritório, o que restringirá a frequência de deslocamentos e colaborará com a redução da pegada de carbono, com impacto positivo na questão ambiental:
“Já estamos identificando pessoas que não voltarão para a sua principal forma de trabalho. Elas vão trabalhar de casa, elas vão trabalhar remotamente a maior parte do tempo e aquelas pessoas que vão trabalhar parte do tempo no escritório, vão trabalhar muito mais por missão. Essa história de jobs description — ou descrição de função — cada vez vai existir menos. Cada vez mais vamos contratar talentos e competências e entregar desafios”.
O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, no Canal da CBN no You Tube, às quartas-feiras, às 11 horas. O programa vai ao ar no Jornal da CBN, aos sábados; domingo, às 10 da noite, em horário alternativo; ou a qualquer momento em podcast.
No fim dos anos 1960, o prefeito Faria Lima começou a retirar os bondes de circulação. A desativação do bonde Fábrica, que fazia o trajeto Praça João Mendes e Sacomã, no Ipiranga, foi anunciada para janeiro de 1967. O nome Fábrica se referia à indústria que havia no início da linha, Estabelecimento Cerâmico Saccoman-Frèresa, onde trabalharam o vovô João e o tio José.
Desde 1900, os bondes elétricos eram o meio de transporte popular na cidade. Grandes e pesados, correndo sobre trilhos e dependendo de fiação elétrica aérea, destoavam dos ágeis e maleáveis ônibus, que apareceram décadas depois. Naqueles anos 1960, os bondes estavam sendo substituídos por ônibus. Ao longo da década, as linhas foram sendo suprimidas. A última viagem de um bonde passou pelas avenidas Ibirapuera, Vereador José Diniz e Adolfo Pinheiro até Santo Amaro — em 27 de março de 1968.
De nada serviriam os lamentos da população. A hora tinha chegando. E o bonde Fábrica, que rasgava o bairro do Ipiranga pela rua Silva Bueno, seria desativada. Tia Tereza, irmã caçula de minha mãe, assim como outros milhões de paulistanos, estava agitada com a mudança. Afinal, o famoso bonde Fábrica, presença constante nas boas e más ocasiões, sempre estivera ali, companheiro e solidário.
A família de minha mãe morara no Ipiranga. Primeiro na Rua Lima e Silva; depois na das Juntas Provisórias. Tia Tereza tomava o bonde na Silva Bueno para ir às compras no centro e à infinidade de salas de cinema que havia nas avenidas São João e Ipiranga. No Fábrica, ela, mamãe e vovó visitavam os parentes no Pari, com baldeação na Praça João Mendes. No Fábrica, se ia ao médico; até o Sacomã, aos sábados e domingo, para o footing, ou o“vai e vem”: os rapazes ficavam parados nas calçadas, enquanto as moças caminhavam pra lá e pra cá, de olho num pretendente.
Os velhos bondes atravancavam o trânsito. Retirá-los das ruas parecia uma medida drástica, mas diziam que era necessária para a melhoria da circulação urbana.
Tia Tereza sempre foi uma entusiasta do progresso e da renovação, mas lá no fundo, sabia que os bondes deixariam saudade. Em janeiro de 1967, ela decidiu:
“Vou levar a Fatima para um paseio no Fábrica antes que ele pare de rodas. Essa menina nunca andou de bonde! Quando for moça, vai poder dizer que andou de bonde em São Paulo.
Na Vila das Mercês, zona Sul, onde morávamos, só havia ônibus — eram pintados de amarelo clarinho, com faixas vermelhas na parte inferior. Tia Tereza planejou com detalhes a aventura. Ajudou-me a escolher um vestido bem bonito. Do portão de casa, na antiga Rua B — hoje Rua Caloji — nos acenavam a avó Dolores e minha mãe, Rafaela, com meu irmão Vanderlei no colo, enquanto íamos para o ponto. Junto com a gente, foi a prima Eliana, filha da Tia Tereza, que sequer tinha completado um ano.
Descemos do ônibus no Sacomã e logo pegamos o bonde no ponto inicial. Sentei num daqueles bancos compridos, que ficavam nas laterais —- eram de madeira envernizada, duros, que faziam a gente escorregar, quando o freio era acionado. Confesso que achei escuro o interior do bonde, desconfortável.
Antes do bonde deixar a Silva Bueno, descemos, atravessamos a rua e tomamos o ônibus de volta pra casa. Eu tinha apenas quatro anos e jamais esqueci desse passeio. Mais do que a lembrança do bonde, ficou o carinho de minha tia. Penso que tia Tereza era uma mulher de visão. Ela já sabia, lá em 1967, que 53 anos depois, minha única e última viagem de bonde seria um capítulo do Conte Sua História de São Paulo.
Fatima Martin R. F. Antunes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para o contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça também em podcast.