A metamorfose e a subjetividade humana

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

Borboleta

 

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”
Raul Seixas

 

A palavra metamorfose tem sua origem no grego antigo e significa, como bem representada na música de Raul Seixas, um processo de transformação ou de mudança. Apesar de os seres humanos não passarem pelo processo de metamorfose, como compreendido na Biologia, as mudanças ocorrerão em todo o ciclo de desenvolvimento da vida humana, extrapolando as transformações físicas e, sobretudo, contribuindo para a construção da subjetividade: o jeito de ser de cada um.

A subjetividade pode ser compreendida como a singularidade de cada pessoa, construída a partir das experiências vividas, reunindo o conjunto de características, ideias, opiniões e comportamentos. Esse conjunto de características engloba aspectos biológicos, como a nossa herança genética, mas também aquilo que nos representa, como as preferências musicais, alimentares, amorosas, o jeito de lidar com as situações difíceis ou de comemorar as conquistas, as opiniões políticas, a preferência por exatas ou humanas… ou seja, tudo aquilo que expressa quem somos.

Algumas pessoas acreditam que a nossa subjetividade é imutável ou inata. Quem nunca ouviu aquela frase: “eu nasci assim e vou morrer assim”? De fato, as nossas transformações não são abruptas, acontecem pouco a pouco, a medida que participamos do mundo social, da coletividade e do encontro com o outro. Somos influenciados e influenciamos. É no espaço coletivo que manifestamos a nossa individualidade, mudando o mundo e recriando a nós mesmos. A cada dia já não somos mais exatamente como éramos no dia anterior, pois tivemos vivências diferentes, ouvimos coisas diferentes, tivemos novas experiências. Isso permite reflexões e conduz a renovações.

 

Em tempos nos quais prevalecem opiniões acirradas e extremistas, há uma exigência por atitudes do tipo tudo ou nada, ser isso ou aquilo, estar de um lado ou de outro. Mudar de ideia ou descobrir que não há um jeito único para fazer as coisas pode ser visto, nessas circunstâncias até mesmo como uma fraqueza. Valorizam-se os rótulos, sufocando a criatividade, a espontaneidade e a capacidade de adaptação. Essa rigidez ou apego exagerado às próprias ideias e atitudes aprisiona, indicando que existe apenas um caminho e uma única maneira de percorrê-lo.

 

A vida admite tantas definições e possibilidades para termos uma única versão, pronta, acabada ou definitiva de nós mesmos. Da mesma forma que a lagarta se transforma em borboleta, somos seres em constante mudança. Essa é a nossa natureza: podemos mudar de gosto, de ideias, de amigos, de atividades, de opiniões formadas sobre tudo!

 

Disse Luís de Camões:

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”.

É justamente isso que vai possibilitar sermos quem somos!

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Sua Marca: oito razões para as marcas existirem

 

 

“As marcas não estão aí à toa e vão continuar existindo por muito tempo”—- Jaime Troiano

Por que as marcas existem? A pergunta pode parecer ingênua, mas poucas vezes paramos para pensar em qual seria a melhor resposta. Tendemos a consumir determinadas marcas e sequer temos noção do que nos leva a este comportamento. Assim como os gestores das empresas e serviços, que costumam lançar marcas nem sempre de forma estruturada e lógica.

 

 

Para responder a pergunta tema do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime Troiano e Cecília Russo elencaram oito razões para as marcas existirem:

 

Para os consumidores:

1. Reduzem tensão de escolha, em mercados cada vez mais complexos e com uma variedade enorme de produtos e serviços;
2. Ajudam a criar algo que é fonte de conveniência em nossas vidas: são nossos hábitos;
3. Falam de nós, de nossa identidade pessoal.
4. Dão sentido para a compra. Que não é apenas a materialidade do produto mas o que ele significa pra mim.

Para as empresas:

5. Buscar diferenciação frente à concorrência. Já que os produtos e serviços por si só acabam cada vez sendo mais semelhantes;
6. Ser um ativo que agrega valor ao patrimônio das empresas. É um bem a mais que a empresa constrói e aumenta seu valor de mercado;
7. Em muitas empresas, acaba sendo fonte de orgulho motivacional. O crachá que se carrega no peito. Quase um sobrenome a mais;
8. Ser um critério de qualificação do produto. Na medida em que sou dono de uma marca e ela é valiosa, eu tenho obrigação de preservar sua qualificação diante do mercado.

Existem fortes razões para as marcas continuarem existindo e tendo um papel em nossa vida e na das empresas. Portanto, fazer uma bom trabalho de gestão nesta área, conhecida por branding, é fundamental concluem Cecília e Jaime, na conversa com Mílton Jung, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. O programa vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã e pode ser ouvido em podcast.

Avalanche Tricolor: como escolho meus próprios caminhos, prefiro falar da Portuguesa

 

 

Grêmio 0x0 Corinthians
Brasileiro — Arena Grêmio

 

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Memórias de um das vezes em que a Lusa esteve no meu caminho (Foto: Canindé, 2013)

 

Jogar em casa, obriga à busca dos três pontos. E o Grêmio buscou pelos caminhos que gosta de percorrer no campo. Com bola tocada, passe trocado, tentativas pelo meio e investidas pelos lados. Às vezes, fico com a impressão de que preferimos refinar o lance a chutar a gol — como se ele fosse surgir a qualquer momento, de forma natural, resultado do domínio da bola. Quase surgiu, em um cabeceio aqui, um bate e rebate acolá, e um pênalti desperdiçado.

 

Aqui um parênteses: alguém sabe me dizer quantos pênaltis nos perdemos em um ano? Pode ser implicância minha. Mas há algum tempo que reclamo o pênalti em favor do Grêmio — como hoje no carrinho imprudente do marcador de Diego Souza —, mas não comemoro antecipadamente pelo alto risco de frustração. Parênteses fechado.

 

De volta ao jogo.Ou melhor. Não vou falar do jogo, não. Se em campo os dois times fizeram pouco para vencer e saíram com cara de “melhor assim do que perder”, prefiro seguir esta Avalanche pelos meus próprios caminhos. E carinhos.

 

Durante a transmissão da TV, o locutor de esportes lembrou que o último título de Brasileiro conquistado pelo Grêmio foi em 1996, na final contra a Portuguesa, no estádio Olímpico. Isso me remeteu às cenas que ainda estavam na minha memória do filme “Lusitanos — o centenário da Portuguesa” que assisti pela internet na sexta-feira, dia 14 de agosto, data de nascimento da Lusa. A produção é de meu colega Luiz Nascimento e Cristiano Fukuyama, ambos torcedores da Portuguesa, é claro.

 

O filme é um primor, pois relembra momentos incríveis vivenciados por torcedores resilientes; e revela na voz embargada e no olhar mareado da maior parte dos depoentes, a única razão pela qual a Portuguesa sobrevive a tudo que enfrentou na história —- de injustiças a falcatruas; de lances imperdíveis a momentos impensáveis. É uma gente apaixonada. Que revive cenas que talvez jamais tenha vivido, mas que ouviu dos bisavós, dos avós, dos pais ou de algum lusitano com quem um dia sentou à mesa para dividir um prato de sardinha, saborear um bacalhau ou um cozido à portuguesa.

 

A colcha de lembranças muito bem costurada pelos produtores, a partir de depoimentos de torcedores, sócios, ex-jogadores e admiradores da Lusa, me envolveu de tal maneira que passei a pensar como a Portuguesa fez parte da minha vida paulistana, que se iniciou em 1991 — muito mais do que qualquer outro time daqui; e não foi por falta de grandes confrontos com os paulistas nestes últimos anos todos.

 

Logo que cheguei, a primeira partida de futebol que assisti foi a final da Copinha, em que o Grêmio enfrentava a Lusa. Perdemos de 4×0 para um time que tinha como maior destaque Dener, que um dia tive a alegria de ver vestindo a camisa gremista. O talento da gurizada lusitana era tal que nem mesmo a goleada e a perda do título me fizeram tristes naquela manhã, no estádio do Pacaembu.

 

Danrlei era o goleiro naquela final de jovens que acompanhei com resignação e admiração. E estava no gol em outro momento histórico que colocou a Portuguesa no meu caminho, cinco anos depois. Foi a final do Brasileiro em que na primeira partida perdemos por 2 a 0 em São Paulo — jogo que não pude assistir no estádio mas que acompanhei com o rabo do olho em um monitor ligado embaixo da câmera em que apresentava, no mesmo horário, o Jornal da Cultura.

 

No domingo seguinte, coube a mim a tarefa de editar os melhores momentos da final, que seria disputada em Porto Alegre, para o Cartão Verde, programa esportivo da Cultura. Minha escala naquele plantão tinha requintes de crueldade, pois meus colegas de redação apostavam todas suas fichas no time lusitano e queriam ver minha cara editando a conquista da Portuguesa em cima do Grêmio.

 

O fim da história você —- caro e raro leitor desta Avalanche —- haverá de lembrar. Faltando oito minutos para o fim do jogo, no estádio Olímpico, o Grêmio marcou o segundo gol que deixava o confronto igual e nos dava o título pela melhor campanha no campeonato. Minha felicidade não cabia naquela fita Betacam que, com o sorriso de um campeão, entreguei ao diretor do programa para ser reproduzida para todo o Brasil.

 

Apesar de nunca ter assistido nada muito empolgante em campo, desde as finais, em 1991 e 1996, os confrontos entre Portuguesa e Grêmio sempre foram os meus preferidos, aqui em São Paulo. Eram os poucos que conseguia ver, ao vivo, no estádio, e levar meus filhos, por considerar mais fácil de entrar e torcer no Canindé, a despeito da fila interminável na bilheteria e da fúria dos Leões da Fabulosa.

 

Lamento apenas ter sido testemunha do mais triste momento da Portuguesa na série A do Campeonato Brasileiro, em 2013, quando na última partida da rodada, em que o empate deixava todos felizes — o Grêmio, na Libertadores, e a Lusa na primeira divisão — um erro administrativo fez o time paulista ser rebaixado, por escalar irregularmente um jogador (e deixo para os torcedores da Portuguesa a explicação das razões que levaram a escalação equivocada). Era o início de uma longa jornada de decepções lusitanas.

 

Neste momento em que a Portuguesa comemora seu centenário, todo meu carinho aos torcedores da Lusa. E o desejo de que, o mais breve possível, eu possa voltar à assistir ao Grêmio jogando no Canindé, ao lado de meus filhos.

Mundo Corporativo: Marcelo Melchior, da Nestlé, diz que o grande desafio é reimaginar a empresa no pós-pandemia

 

 

“A atitude é uma coisa que faz a diferença entre o sucesso e o fracasso e não só profissional” — Marcelo Melchior, CEO da Nestlé Brasil.

Funcionários das butiques de café foram transferidos para áreas em que a pressão sobre o trabalho aumentou devido as adaptações exigidas pelos impactos da pandemia. As missões colaborativas foram uma das ações desenvolvidas pela Nestlé Brasil para evitar a demissão de profissionais nos setores que tiveram de paralisar suas atividades. Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, o CEO no Brasil, Marcelo Melchior, disse que a agilidade nas tomadas de decisão e a diversidade das equipes ajudaram a empresa a encontrar soluções para os desafios impostos:

“Uma das coisas que ajudam muito é ter todo tipo de diversidade internamente, em termos de idade, em termos de backround, em termos de nacionalidade, em termos de religião, raça; e tudo tudo isso permite você ter todos os ângulos de um de mesmo tema e poder trabalhar de uma forma melhor”

Ter aprendido com a experiências de outras unidades no exterior — na Ásia e na Europa, por exemplo — que enfrentaram antes a chegada da crise do coronavírus, ajudou na reação da empresa aqui no Brasil, de acordo com Marcelo Melchior.

 

Além de planejar como manter o distanciamento entre as pessoas nas unidades da empresa, criar espaços com divisões para evitar o máximo possível de contato, determinar a obrigatoriedade de máscaras em todas as dependências, e fazer a medição da temperatura, na área da saúde houve preocupação quanto ao apoio psicológico dos funcionários. Para Marcelo Melchior, colaborou nessa jornada o esforço para que a comunicação fosse a mais clara possível, com trocas de informações frequentes em um ambiente em que muitas mensagens circulavam pela internet.

“Nós imediatamente entendemos que não poderíamos parar. Então, nós definimos duas prioridades muito importantes. A primeira foi a segurança e a saúde de todos os nossos colaboradores, das famílias deles e de toda nossa cadeia de fornecedores —- caso de caminhoneiros e pessoas doc campo ….. A segunda é que nos não poderíamos desabastecer o mercado no qual temos a presença de nossas marcas em 99% dos lares brasileiros”.

Uma das estratégias usadas pela Nestlé, explicou Marcelo, foi contar com a colaboração, também, de uma rede de 90 empresários locais que atuam como distribuidores da empresa, que são responsáveis pela venda e depósito dos produtos da fabricante, permitindo que se alcance uma capilaridade maior e em pequenas localidades do país. Por conhecerem de maneira particular cada uma das áreas em que atuam, isso deu agilidade para que esses empresários — que funcionam como uma espécie de força de vendas terceirizada — decidissem suas ações conforme mudavam as regras de restrições nas diversas cidades.

 

Curiosamente, a mesma tecnologia que alavancou vendas e permitiu o trabalho remoto de profissionais, passou a ser usada com parcimônia em outros setores, porque segundo o executivo da Nestlé Brasil houve uma ruptura nos dados :

“A tecnologia perdeu os seus dados históricos, porque a tecnologia são algoritmos que orientam, por exemplo, que se faça uma promoção de um produto em determinado lugar e o quanto de vendas isso vai representar. Como teve uma disrupção muito grande no mercado, a tecnologia… você tinha de ter muito cuidado. Mais do que se basear em modelos estatísticos, nos tivemos de nos basear muito na flexibilidade de jogar as coisas de uma lado par ao outro através da experiência da equipe.”

Para o CEO da Nestlé Brasil, o grande desafio agora é reimaginar a organização, aproveitando o que se aprendeu durante essa crise, o que pode se fazer que seja perene e não voltar aos vícios do passado.

“O grupo do reimaginar é o grupo dos novos planos e com horizontes diferentes. Como eu falei, a semana era um mês, um mês era o trimestre e o trimestre era um ano, porque as coisas estão mudando muito rapidamente”.

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN; aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo; no canal da CBN no You Tube; e pode ser ouvido a qualquer momento em podcast. O programa tem a colaboração de Juliana Prado, Guilherme Dogo, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Há quem prefira viver à base de mentira e os que morrem de Covid-19

 

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Ilustração: Pixabay

 

Estamos às vésperas de mais um fim de semana. Sexta-feira é daqui a pouco. E estou aqui pensando o que (não) fazer no sábado. A semana voou. Nem parece que foi sábado passado que noticiamos a morte de 100 mil pessoas por Covid-19, no Brasil. Hoje, já somos mais de 104 mil mortos. Assim, em um estalar de dedos, os dias desaparecem, os números aumentam, as notícias se sucedem e para aqueles que escaparam de se transformar em estatística “é vida que segue” —- para alguns com muito mais dor no coração do que para outros. Faço parte do segundo grupo, para que você, caro e raro leitor deste blog, não tenha dúvida, já que andaram espalhando que os jornalistas estavam festejando a marca histórica. “Não me convidaram para esta festa pobre”, como cantaria Cazuza.

 

No diálogo que tenho com os ouvintes todas as manhãs —- que pode se estender nas redes sociais, e-mails e outros canais ao longo do dia —-, me chama atenção que apesar de já estarmos vivendo este drama desde março, ainda há descrença, ofensa e ignorância.

Fatos e números são insuficientes para revelar a realidade. Há pessoas que de tanto negar a verdade, hoje são incapazes de viver sem a mentira —- é como se criassem um mundo paralelo, onde o drama de milhares de famílias pelo Brasil (e pelo Mundo, também) fosse parte uma fanfiction escrita por jornalistas obcecados pela morte.

No início, gente de alto coturno disse que não mais de 800 pessoas morreriam desta “gripe”. Houve quem apostasse que o vírus matava mais de susto do que pelo vírus que era. Quando as covas começaram a ser abertas, denunciaram que era cenografia mórbida construída pelos inimigos do Brasil. Assim que os caixões passaram a ocupá-las, desconfiaram que havia pedras em lugar de cadáver. Na redes sociais, surgiu até uma nova epidemia: vários perfis noticiaram a morte em um acidente do “primo do porteiro do prédio” que foi registrada como Covid-19 para inflar os dados.

 

Os números falaram mais alto —- e os descrentes se travestiram de matemáticos. Cobraram a forma como eram calculados. Retorciam gráficos para provar que a coisa nem era tão feia assim. Faziam contorcionismo ideológico para enganar a si próprio.

 

A conta por milhão de habitantes foi usada várias vezes na tentativa de desmontar a retórica do fracasso brasileiro no combate à doença. Não adiantava explicar que os países vivem momentos diferentes da pandemia nem mesmo que  o cálculo servia para situações crônicas —- casos de assassinato, acidentes de carro, ataques do coração, total de mortos no ano. Em situações pontuais ou agudas, como esta provocada pela pandemia, a projeção traria distorções. Para ter ideia, San Marino, com seus 30 mil habitantes e 42 mortes, por este ângulo, é o cenário da maior tragédia provocada pela Covid-19, no Mundo.

 

Aprenda mais sobre o assunto seguindo Mariana Varella:

O pessoal é incansável: agora que até nesta relação das mortes por 100 mil ou 1 milhão de habitantes a imagem do Brasil não está tão verde e amarela como gostaríamos, surgem outros subterfúgios.

 

Na onda mais recente de mensagens que tenho recebido, percebo a tentativa de minimizar o impacto do coronavírus no número total de mortos no Brasil: “morre-se muito mais de outras causas e vocês não falam nada” —- escreveu-me um ouvinte no começo desta semana. Não esteve sozinho no relato: a mesma mensagem chegou até mim por outras remessas. Acho que até meu vizinho pensa em me falar isso, mas prefere calar para eu não deixar de emprestar minha escada sempre que me pede.

 

Aos negacionistas ou se desiste ou se responde com fatos e dados. Eu também sou chato. Por isso, fui a campo para pesquisar —- perdão, fui à internet porque prefiro não sair de casa do jeito que o bicho está pegando.

 

Com base em dados do portal de registros de óbitos nos cartórios brasileiros, que inclui todos os tipos de causas naturais e externas de morte— e onde, obrigatoriamente, todo óbito tem de ser registrado,:

  • No primeiro semestre de 2019 ocorreram 608.265 mortes, no Brasil.
  • No primeiro semestre de 2020 ocorreram 667.258 mortes, no Brasil,
  • No mesmo período, houve um aumento de 9,7% de mortes, neste ano.
  • O nº de mortes por causas naturais, que inclui Covid-19, aumentou 10,3%
  • As mortes violentas —- assassinato, acidente de trânsito, entre outras causas externas —- aumentaram  1,6%.

Dados registrados por Diogo Schelp, no Uol

Obs: como a atualização de números de óbitos nos cartórios tende a não respeitar os prazos mínimos para registros, ao longo de todo este ano, os números referentes a mortes no primeiro semestre de 2020 são atualizados diariamente e devem aumentar, revelando uma diferença ainda maior.

 

O Conass que reúne todos os secretários estaduais  lançou recentemente o painel de “Análise do excesso de mortalidade no Brasil em 2020” e uma das conclusões que chegou:

  • Desde a primeira morte de Covid-19, no Brasil, em meados de março, até 20 de junho, pelo menos 74 mil óbitos a mais do que o esperado foram registrados nos cartórios brasileiro.
  • O cálculo produzido pelo Conass compara os óbitos por causas naturais do Registro Civil, a partir de março e os compara com a projeção de mortes para o período

Dados registrados pelo Conass

Sei que ainda tem a sexta-feira pela frente, mas estou de olho mesmo é no fim-de-semana. É a chance de descansar um pouco, porque não tenho dúvida, assim que a segunda-feira se apresentar mais uma onda de negacionismo se fará presente. E lá vamos nós despender energia com essa gente.

 

Enquanto muitos morrem de Covid-19, eles vivem à base de mentira — até que a morte os separe.

Sua Marca: só entende de marcas quem ouve e gosta de gente

 

 

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”

 

 

O soneto “Ora (direis) ouvir estrelas” de Olavo Bilac e a experiência que o Celso, o dono de uma barraca do Ceagesp, na capital paulista, apesar de parecem distantes, pelo tempo e pelas funções que exercem, são dois bons exemplos de como gestores de marcas devem agir diante da opinião pública. Em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime Troiano e Cecília Russo falaram da importância de se exercitar a escuta.

“A barraca do Celso é uma aula de branding, pois você chega lá e ele procura entender o que você quer e o que você precisa, ele ouve você”,  Jaime Troiano

Muito longe de ser uma atividade puramente operacional, o gestor de marcas só terá sucesso se gostar de gente e souber ouvir as pessoas.

“É quase impossível descobrir um significado relevante para uma marca se a gente não tem essa capacidade — lembrada por Olavo Bilac — de ouvir estrelas”, Cecília Russo.

No programa Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime Troiano e Cecília Russo falam de outras experiências bem desenvolvidas na área de branding porque as marcas entenderam o sentimento dos seus consumidores. O quadro vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN, com apresentação de Mílton Jung.

 

 

 

 

 

 

Autoimagem e redes sociais: aquilo que não se vê

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

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Reprodução do quadro “O Nascimento de Vênus”

 

O Nascimento de Vênus, pintura de Sandro Botticelli, criada entre 1482 e 1485, é uma das inúmeras formas de representação artística que procuram reproduzir Vênus, deusa da mitologia romana associada à beleza. Mais de 500 anos se passaram desde aquela pintura até o surgimento da Internet, a qual facilitou a conexão de pessoas, especialmente através das redes sociais.

 

O que ambas têm em comum?
A exposição de padrões idealizados.

 

A globalização e o avanço das tecnologias favoreceram a divulgação das informações em tempo real, possibilitando novas formas de se relacionar, trabalhar e viver em sociedade. As mídias sociais, além de modificarem as interações entre pessoas, se tornaram fontes de respostas para questões da vida cotidiana.

 

Muitas das informações divulgadas envolvem padrões de beleza, busca pelo corpo ideal e estilo de vida. Embora as telas permitam a aproximação de pessoas distantes, escondem em si que exposições virtuais de vidas interessantes, beleza e felicidade mais correspondem a realidades editadas, amparadas no desejo de aceitação e aprovação.

 

Se antigamente era a proximidade física, o olho no olho, que permitia a compreensão da imagem que o outro tinha de nós, hoje essa aceitação é mediada pelas redes sociais, validada através das curtidas e comentários obtidos nas postagens. Receber um elogio pode ser gratificante. Porém, a preocupação excessiva com a autoimagem ou aparência e a busca constante pela aprovação alheia, podem conduzir a sentimentos de frustração, ansiedade e decepção, tendo em vista a idealização de padrões inatingíveis, vinculados a modelos de perfeição.

 

Dias atrás, lancei um desafio para uma paciente que apresentava pensamentos negativos sobre si, após navegar pelas fotos postadas em uma rede social: fazer uma busca nas mídias sociais e encontrar perfis que revelassem correções digitais de imagem, modificando as fotos e transformando-as em imagens perfeitas. Um dos perfis encontrados foi o de Danae Mercer, uma influenciadora fitness que após sofrer com distúrbios alimentares resolveu mostrar o que estava por trás das suas fotos de “corpo perfeito”, revelando o uso de aplicativos de edição, além da escolha de ângulos certos e iluminação adequada.

 

Na tentativa de tornar a vida uma obra de arte, capaz de ser apreciada pelos outros, corremos o risco de esquecer aquilo que disse Antoine de Saint-Exupèry: “o essencial é invisível aos olhos”.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Há 36 anos comecei a costurar esta colcha de retalhos feita de amigos, paixão e jornalismo

 

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Reprodução de foto do jornal Zero Hora, em dezembro de 1988

 

Foi há 36 anos. Tanto tempo assim faz de nossa memória uma colcha de retalhos em que pedaços são tecidos da vida real e outros, coloridos pela imaginação. Descrever agora o que aconteceu naquele 10 de agosto de 1984 talvez não condiga com a verdade dos fatos —- mas, tenha certeza, revela a memória autobiográfica que fui capaz de armazenar ao longo dos anos.

 

Foi meu primeiro dia de trabalho como jornalista ou aprendiz de jornalista, porque viria a me formar somente um ano depois. Era o início do estágio na profissão que escolhi por inércia, admiração e paixão.

 

O jornalismo fazia parte do meu cotidiano, não escapava dele nem nos almoços de domingo com a família. Filho de jornalista, afilhado de jornalista e sobrinho de jornalista, experimentei o ritmo das redação de rádio e jornal desde muito pequeno. Em minha defesa, o fato de meu irmão e minha irmão terem experimentado o mesmo ambiente e seguido por outros caminhos.

 

Minha admiração vinha da maneira como meu pai e seus colegas de trabalho eram recebidos nos locais que frequentavam. Havia um respeito em relação a eles que me deixava feliz e orgulhoso. O impacto que as notícias divulgadas no Correspondente Renner — do qual foi o titular por muito anos —- tinham na sociedade gaúcha, impressionava. A emoção que o grito de gol dele gerava no torcedor era indescritível.

 

Cheguei a me enxergar como professor de educação física —- a ponto de estudar na federal do Rio Grande do Sul —- mas havia alguma coisa no jornalismo que se expressava de maneira mais forte no meu coração.

 

A inércia, a admiração e a paixão construíram o jornalista que teve o privilégio —- pela influência do pai —- de fazer estágio em uma das mais respeitadas redações do radiojornalismo do Brasil, a da Guaíba de Porto Alegre. Era função não remunerada. Sem carteira assinada. O pagamento vinha em créditos para a conclusão da faculdade de jornalismo, realizada na Famecos, da PUC do Rio Grande do Sul. E em experiência pela convivência com alguns dos maiores nomes do jornalismo esportivo.

 

A arquitetura do prédio, que trazia características do século 19, sede da Companhia Jornalística Caldas Júnior, era imponente. Para subir os três ou quatro andares do Edifício Hudson, ao lado da Praça da Alfândega, usava-se um elevador com porta sanfonada e maquinário à mostra —- mantido assim, apenas com algumas adaptações, até ao menos a última vez em que visitei o local. Apesar da pompa e da circunstância, era como se estivesse entrando em casa. Do elevador aos corredores, das salas de redação ao bar —- que hoje não existe mais no segundo andar —-, tudo eu já havia explorado, embalado pela curiosidade de um guri de calças curtas, solto em um parque de diversões.

 

Naquele dia 10 de agosto, entrei no prédio ao lado de meu pai —- não mais de mãos dadas como fazíamos durante minha infância —-, vestindo uma uma camisa de mangas curtas, uma calça de abrigo esportivo e calçando alpargatas. Com ele fui até a sala do departamento de esportes que ficava ao fim do corredor, com janelas voltadas para a esquina da rua Caldas Júnior com a rua dos Andradas. Seria incapaz de reproduzir aqui qualquer palavra que o pai tenha dirigido a mim naquele instante; certo mesmo, pelo que conheci do velho, é que ele estava tomado pela alegria de ver seu filho dando o primeiro passo na profissão no lugar em que se consagrou como jornalista.

 

Fui apresentado ao Alexandre Pussieldi, produtor do único programa dedicado exclusivamente ao esporte amador do rádio rio-grandense. Hoje muito mais conhecido por ‘Coach’, pelos anos em que foi treinador de natação nos Estados Unidos e agora comentarista de natação da SporTV, Pussieldi foi um baita professor. Não bastasse ter sido o criador do programa em que sempre sonhei trabalhar —- afinal joguei basquete por 13 anos e, lembre-se, imaginei seguir o curso de educação física —, Alex Pussieldi foi meu mentor naquele início de carreira. Ajudou-me a construir fontes, escrever textos, produzir reportagens, fazer entrevistas e apresentar o “Esporte Amador na Guaíba”.

 

Do esporte amador para o futebol profissional; do departamento de esportes para o de jornalismo; da redação de rádio para a de jornal. Minha carreira seguiu em frente a ponto de me trazer para São Paulo. Aqui comecei pela televisão, trabalhei na internet e fui redescoberto pelo rádio. Ganhei reconhecimento e prêmios. Sinto-me privilegiado pelo espaço que me oferecem e pelo jornalismo que realizo.

 

Nestes 36 anos de profissão, em meio a tropeços e aprendizados, memórias afetivas foram construídas e alguns nomes foram essenciais para essa jornada. Assim como o pai foi o primeiro a me abrir a porta do elevador do Edifício Hudson, em Porto Alegre, teve o Alex e a Sandra que me acolheram; o Flávio que me levou para o jornalismo; o Afonso que me apresentou à vida; o Zezo que me trouxe para São Paulo; a Dina que me encaminhou para a Globo; o Montenegro que cuidou de mim na madrugada; o Marco que me aceitou na Cultura; o Everton, a Malice, a Maria e o Tato que moderaram meu ego; o Sérgio que foi minha referência como família; o Heródoto que me convidou para a CBN; o Juca que me inventou narrador na Rede TV!; o Toledo que me ensinou como funcionava a internet; a Mariza que apostou no meu talento. E, claro, a Abigail, que é o amor da minha vida.

 

Por mais distante que esteja de muitos daqueles que me ajudaram nesses anos todos —- e de tantos outros que sequer citei neste artigo —- quero que saibam o quanto os admiro pela paciência, experiência e conhecimento que compartilharam comigo. E que a colcha que minha memória está costurando desde aquele 10 de agosto de 1984, certamente, só se faz possível por sua causa.

Avalanche Tricolor: gostou do nosso time, pai?!?

 

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Brasileiro — Arena Grêmio

 

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Diego Souza comemora gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

“Esse guri aí no ataque é muito bom”

Sou capaz de ouvir a voz do pai ao telefone descrevendo Diego Souza, que apesar de veterano para o futebol, com os seus 35 anos, ainda assim seria definido como um guri para o velho que já passava da casa dos 80 anos. Já estava com a idade avançada e ainda sofria como um garoto à frente da televisão sempre que assistia ao Grêmio jogar —- fosse futebol de botão, em que ele era craque, fosse no campo. Telefonar para ele ao fim das partidas era quase um ritual que se iniciava com uma pergunta típica:

“E aí, pai, que tu achastes do nosso time?”

Mesmo com a idade avançada e a doença lhe tirando de forma cruel parte das lembranças do cérebro, o pai sempre arrumava um jeito de compartilhar sua percepção sobre a perfomance gremista em campo. Jogadores não tinham mais nomes, eram descritos por suas características: “esse carequinha que corre que nem o diabo da cruz” —- era como se referia a Everton em início de carreira. “Esse número 10, barrigudinho, é bom demais, heim!?” — era a senha para falarmos de Douglas. “Que baita zagueiro” era a expressão que mais me deixava em dúvida: não sabia se falava de Kannemann ou de Geromel — os dois, convenhamos, merecem a deferência.

 

Ligava para ele na vitória e na derrota. Pra nossa felicidade, os últimos anos que convivemos, falamos muito mais de títulos e conquistas. Campeão Gaúcho, da Copa do Brasil, da Libertadores ….  teve ainda a homenagem que fizemos a ele na final do Mundial.  Foram assuntos que dominaram nossas conversas até o momento em que o pai ainda era capaz de entender o que falávamos e, principalmente, se fazia entender com seus códigos mentais.

 

O dia em que percebi que nossas conversas passariam a não fazer mais sentido foi quando, juntos, na sala da casa de Porto Alegre, o pai quis iniciar uma bom papo sobre futebol e foi incapaz de pronunciar o nome do Grêmio. Tudo que conseguiu foi dizer “o azul”, que era o que o cérebro dele conseguia decodificar daquela história que nos uniu desde pequeno, iniciada ali mesmo na Saldanha Marinho, rua que fica a poucos metros do estádio Olímpico.

 

Fiquei triste naquele dia. Muito triste. Entendi que a vida e a memória estavam me tirando o único cara que foi capaz de me acolher mesmo quando cometi os maiores erros —- e nunca me negou um abraço, apesar das injustiças que lhe proporcionei. Talvez a única pessoa que, se viva estivesse, me receberia com carinho e generosidade diante das piores situações que eu possa enfrentar na vida.

 

O pai morreu há um ano. Há mais tempo já apresentava dificuldades de se comunicar. Mesmo assim, ficava sentado à frente da TV vendo o Grêmio jogar. A última vez foi em abril do ano passado, quando disputamos um Gre-nal. Vestiu a camisa do Grêmio e mesmo no silêncio que a doença o impôs foi possível vê-lo, em alguns momentos, reconectado com a realidade: talvez uma das últimas vitórias dele contra vida, apesar do empate em 0 a 0 (para saber mais, leia Avalanche Tricolor: uma vitória no Gre-nal).

 

Hoje não tive para quem ligar e falar da vitória gremista na estreia do Campeonato Brasileiro. Não tive um pai para dar os parabéns pelo seu dia. Mas tive as boas lembranças que ele me deixou em vida. E me faz sorrir por dentro, mesmo que meus olhos se encham de lágrima a cada parágrafo que escrevo nesta Avalanche.