Uma estreia abençoada pelo Frei Damião

 

Frei-Damião

 

Uma pilha de DVDs está ao lado da mesa de trabalho no aguardo do cumprimento de uma das promessas que fiz no início desta quarentena que já se estende por mais de quatro meses. A primeira foi organizar a biblioteca —cumprida pouco depois de completar um mês confinado. Mesmo que os livros não tenham sido colocados de maneira que me ajude a encontrá-los com a rapidez que gostaria, acredito ter passado no teste de aprendiz de bibliotecário.

 

Desisti da promessa seguinte, assim que percebi que a quantidade de fotografias impressas —- sou do tempo em que este era um hábito comum na família brasileira, imprimir imagens —— superava minha capacidade de colocá-las em ordem cronológica nos álbuns disponíveis. Devolvi um monte delas para o baú. Quem sabe na próxima pandemia.

 

O que hoje é DVD já foi fita magnética com gravação helicoidal, que vinha enrolada dentro de uma caixa de plástico, que “desenrolava” quando introduzida em um aparelho de videocassete —- naquela época, comprado em consórcios organizados por amigos, conhecidos ou colegas de trabalho. A vida útil das fitas de videocassete era bem menor do que a dos DVS, tendiam a perder qualidade, “enrugavam” a imagem e criavam mofo se guardadas de maneira inadequada. Com a habilidade de um amigo, todas aquelas mídias mais antigas ganharam proteção digital. Foram convertidas em DVDs e ficaram por anos guardadas no fundo de um armário.

 

Nestes dias, decidi iniciar a tarefa de assistir ao que estava armazenado em cada uma dessas mídias. Empilhei o material e comecei abrir a caixa de pandora da minha vida profissional. Lá estavam minhas participações em um tempo em que ainda era Mílton Júnior — assim mesmo, com dois acentos agudos, um nome e nenhum sobrenome. Era como me chamavam em Porto Alegre e como migrei para São Paulo, em primeiro de janeiro de 1991.

 

Cheguei aqui com emprego garantido na TV Globo, algumas semanas depois de ter feito um teste meio sem querer quando estava de passagem pela capital paulista. Minha experiência em reportagem televisiva se resumia a algumas poucas pautas feitas na época em que trabalhei no SBT, em Porto Alegre, onde havia sido contratado para participar da equipe de coordenação do novo telejornal da casa. Isso lá em 1989.

 

Apresentei-me na sede da TV Globo, ainda na praça Marechal Deodoro, no bairro da Barra Funda, pouco antes da meia-noite do dia 6 de janeiro. Nervoso, deslocado, roupa pouco alinhada e uma franja do tamanho do meu atrevimento, fui apresentado à redação —- praticamente vazia naquele horário —- pelas mãos do chefe de reportagem da madrugada, João Montenegro, uma espécie de anjo da guarda que passou na minha vida. Ajudou-me a entender a cidade, levou-me ao primeiro ensaio de uma escola de samba, sentou-se comigo em um bar qualquer da região, compartilhou alguns amigos e tentou me guiar até onde era possível nos corredores do jornalismo global.

 

A primeira madrugada de trabalho passou em branco. Nenhuma ocorrência que merecesse registro. Era uma sensação estranha, entre o alívio de não ser testado e passar vergonha logo de cara e a decepção de não emplacar uma reportagem na minha estreia. Antes do dia amanhecer, porém, veio o desafio: fui escalado para entrar ao vivo no Bom Dia São Paulo, apresentado por Carlos Tramontina —- outro mestre na minha carreira. Para quem havia trabalhado até então a maior parte do tempo em rádio, falar ao vivo não chegava a ser um drama, desde que não tivesse uma câmera ligada à sua frente e milhares de pessoas assistindo você na maior emissora de televisão do país.

 

 

Meu cenário de estreia foi a fachada do Hospital São Paulo, na Vila Mariana, onde estava internado Frei Damião —- frade capuchinho, teólogo, considerado milagreiro, especialmente no Nordeste, onde fazia suas longas e corajosas caminhadas para pregar a palavra de Deus, apesar do encolhimento da coluna vertebral que o deixava cada vez mais corcunda com o passar dos anos. Na época estava com 92 anos —- viria a morrer seis anos depois —- e todos os seus passos eram acompanhados com veneração e generosidade. O estado de saúde dele, portanto, era notícia de interesse público.

 

Informações apuradas, texto pensado e a mente travada pelo medo antecederam a minha estreia naquela manhã. Pedi a quem pudesse me ouvir lá no alto — nem quem fosse logo ali no 13º andar, onde ficava o quarto de Frei Damião — que me desse uma luz para espantar o nervosismo e cumprir a tarefa da maneira menos constrangedora possível. Ensaiei o texto uma, duas, dez vezes. Minha entrada no jornal seria pouco depois das sete e meia da manhã. Uma hora antes, recebo uma ordem pelo rádio de comunicação: é preciso gravar um boletim para a TV no Recife, terra que o frade havia adotado como sua desde que veio da Itália, em 1931. Tudo o que havia preparado para dali a pouco, seria obrigado fazer aqui e agora.

 

Sem muito tempo para pensar —- ainda bem, porque se tivesse teria saído correndo —-, o cinegrafista deu o sinal e eu tive de mandar ver. Disparei a falar o texto que estava planejado. Fui sem respirar. Do início ao fim. Mal consegui prestar atenção no que eu mesmo dizia. Só queria encerrar em segundos aquele minuto de gravação. Assim que assinei a reportagem, com um “Mílton Júnior, de São Paulo”, ouvi alguém da equipe dizer: boa, agora vamos para o ao vivo.

 

O ao vivo não chegou. Um problema técnico impediu o envio do sinal para a sede da TV. Tudo que tive de fazer foi repetir para São Paulo o mesmo boletim enviado para o Recife. E, a partir daquele momento, com a certeza de que eu era capaz — com as bençãos do Frei Damião.

Voo de fênix: estratégias resilientes

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

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Foto: Pixabay

 

Vários povos da antiguidade utilizavam os mitos para explicar diferentes questões da vida humana. Um desses mitos refere-se à fênix, um pássaro lendário que, após morrer, ressurge das próprias cinzas. Não bastasse o seu renascimento, a fênix ainda tem como característica uma força extraordinária, capaz de carregar cargas muito pesadas durante o voo.

 

Devido a esse caráter simbólico, envolvendo renascimento, superação e esperança no futuro, a fênix tem sido frequentemente associada à resiliência, termo usado em Psicologia para explicar a capacidade de enfrentar e superar situações desafiadoras ou dramáticas, mantendo-se física e psicologicamente saudável.

 

Se houve um momento em que buscávamos compreender os fatores que levavam ao adoecimento, hoje há um interesse crescente em compreender os mecanismos pelos quais uma pessoa mantém a saúde mental, apesar das adversidades. Vários fatores estão associados à capacidade de resiliência, como autoestima, autoconfiança, criatividade, relacionamentos com familiares e amigos, habilidades sociais e espiritualidade.

 

Diversos estudos têm sido conduzidos, com o rigor científico e metodológico, e apontam que o envolvimento espiritual – capacidade de ter um sentido para a vida, independentemente de estar ou não relacionado com religião – está associado ao bem estar psicológico, como satisfação com a vida, felicidade e afetos positivos (o que não significa que pessoas que não têm atividades espirituais não sejam resilientes).

A capacidade de enfrentar as dificuldades e superá-las não é uma característica que temos determinada em nós, mas um conjunto de estratégias que vamos treinando e desenvolvendo desde a infância. Envolve aceitação, altruísmo e autorrealização: aceitar o que não se pode mudar; fazer algo para ajudar outras pessoas; realizar coisas importantes para nós. Em geral, as pessoas lidam melhor com as dificuldades e têm mais esperança quando a vida tem um significado, um propósito.

 

Para os que acham que pode ser tarde demais acreditar na capacidade de superação ou ter projetos para o futuro, cito aqui um trecho da poetisa Cora Coralina, considerada uma das maiores expressões da poesia moderna, cujo primeiro livro foi publicado quando ela tinha 75 anos:

“Nasci em tempos rudes. Aceitei contradições, lutas e pedras como lições de vida e delas me sirvo. Aprendi a viver”.

A resiliência não diminui as durezas da vida, não extingue as dores, mas minimiza o sofrimento e nos permite seguir em frente, com esperança em dias melhores. Otimismo? Pode ser, mas prefiro chamar de coragem. Como no mito da fênix, ainda que a carga seja pesada, que o renascimento (ou a resiliência) nos encoraje e nos habilite a buscar voos mais altos.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O digital permite, sim, a retomada das feiras de negócios

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Reprodução da fachada virtual da feira

 

De 27 a 31 de julho estará em operação uma reprodução online da feira física da Coopercitrus-Cooperativa de Produtores Rurais de Bebedouro/SP. A Coopercitrus Expo Digital exibirá um ambiente 360º desenvolvido em 3D, recriado em computação gráfica, para possibilitar ao visitante virtual, caminhar pelos corredores e stands dos expositores, numa réplica do mundo físico.

 

Como observador da movimentação dos empreendedores de Feiras de Negócios, a notícia da Coopercitrus me surpreendeu. Pois embora de forma geral há um entendimento de que o mundo digital veio para ficar, não é o que tenho verificado ao acompanhar as lives dos grandes players das feiras de negócios. A ponto de considerar que Bebedouro veio em boa hora me acordar do pesadelo “De volta ao futuro” que estava acometido.

 

Ou seja, em 2000, ao aderir ao mundo digital, e atuando em Moda e no Varejo enfrentei a barreira do experimento. A incredulidade de compras sem provar, tocar, cheirar, saborear.

“Não há como comprar roupa sem provar”, ou “a internet é só prejuízo, veja a Amazon”. Eram as sentenças corriqueiras.

Hoje, como se sabe, as peças de moda são as mais vendidas no mundo digital, e a Amazon, de Bezos, o coloca como o homem mais rico do mundo.

 

Aquelas barreiras que imaginava vencidas, decorridos 20 anos, mesmo com o auxílio do devastador Covid-19, que pensava ter ajudado a curar a miopia de marketing do início do século, não foram superadas.

 

A verdade é que a evidência de que a digitalização pode enfrentar o desastre econômico e social do vírus, ainda não é entendida, e os empreendedores de sucesso das feiras do mundo físico não têm a visão da essencialidade do digital. Nem como função compulsória de atualidade e agindo como substituição ao físico, nem como omnicanalidade quando o físico estiver liberado. Em suma, o mundo físico das feiras de negócios não acredita no mundo digital para a sua operação.
Portanto, o pioneirismo dos citricultores de Bebedouro é fato a destacar e acompanhar.

 

A Coopercitrus Expo Digital, terá 130 expositores, com produtos e serviços agrícolas dentro das tendências atualizadas, para servir aos 37 mil associados da Coopercitrus e demais interessados, neste setor do agronegócio nacional e internacional — agora facilitado pela disponibilização no mundo digital.
A Feira destacará 100 consultores agrícolas que estarão apresentando os mais recentes conhecimentos da área em palestras e painéis técnicos. Programas subordinados ao sistema ILPF – Integração, Lavoura, Pecuária, Floresta, e relacionados aos Hortifrúti e à Agricultura de precisão. Ao mesmo tempo, trará um espaço destinado ao empreendedorismo feminino, para atender a demanda e oferta de ações, focando no empoderamento das “Mulheres do Campo”.

Afinal, para quem ouviu um dia que “O Brasil será o celeiro do mundo”, o AGRO sair na frente não é de todo surpreendente.

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

Sua Marca: o que as marcas regionais ensinaram às grandes do mercado

 

“Os grandes não vão morrer, é claro, mas têm de ficar bem atentos para cobrir algumas deficiências que são bem atendidas pelos pequenos” —- Jaime Troiano

As pequenas marcas e os negócios regionais que souberam se adaptar às necessidades de seus clientes, sairão melhores e mais fortes desta pandemia. A opinião é de Jaime Troiano e Cecília Russo comentaristas do quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN. Um dos aspectos que beneficiaram nessa relação foi o atendimento personalizado:

“Tem facilidade para entregar o produto, é mais barato e você conversa com a atendente ou o gerente por WhatsApp; você sabe com quem está falando”, diz Cecília Russo.

Marcas maiores que entenderam esse diferencial, também passaram a investir na proximidade de seus funcionários com os clientes, inclusive gerando vínculo com trocas de mensagens pessoais. E essa é uma das lições que ficarão assim que passar esse período de restrições.

“Deve-se estar muito atento neste momento porque as deficiências ficam mais evidentes …. como já dissemos, outras vezes, até ‘tropicão’ leva a gente para frente. Então, vamos aprender”, comentou Jaime Troiano.

Algumas dicas que podem ajudar o seu negócio a ficar mais próximo do cliente: treinei a sua equipe para prestar atendimento personalizado; crie canais de comunicação que facilitem o diálogo; e torne mais simples e respeitável o processo de trocas de produto —- há casos em que o cliente parece estar sendo punido porque precisou trocar a compra.

 

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55, e está disponível também em podcast.

Conte Sua História de São Paulo: as rotas de fuga da cidade no som da rádio e no guia de ruas

 

Por Pedro Lúcio Ribeiro
Ouvinte da CBN

 

 

 

Em 1997, havia três anos que eu já trabalhava como Agente de Segurança no Tribunal do Trabalho, em Campinas —- o que significa ser motorista. Aprendi a guiar caminhões; dirigia ônibus, utilitários e automóveis. Era um tremendo prazer. Só ficava em pânico quando tinha de buscar magistrados na capital. Tinha medo de me perder na imensidão de São Paulo —- para mim, um mar de prédios entre ruas e avenidas.

 

Em junho, tive de buscar o vice-presidente do Tribunal, no bairro da Aclimação, às 9 e meia da manhã. Acho que ele entrou no carro por volta das 10 horas —- a falta de pontualidade era hábito nos magistrados, ao menos naquela época.

 

“Otoridade” a bordo, segui para Campinas. Passei na praça Campo de Bagatelle, rumo a pista logal da Marginal Tietê. Até aí tudo normal. Desviei para a expressa e tudo parou. Parou, fiquei travado! E o tempo, andando. E o trânsito parado.

 

Pedi licença ao magistrado para ligar o rádio. Ele autorizou, só se fosse na Cultura. Liguei, Mas nada de informação sobre o trânsito.

 

Tomei coragem e pedi licença novamente: pode ser na CBN? Aqui em São Paulo sempre me viro bem ligando nessa rádio.

 

Sintonia autorizada! Nem isso me salvou. A informação que queria não chegava. Recorri ao Guia de Ruas, no porta luvas do carro — era o Google da época. Sugeri uma escapada pela Vila Nova Cachoeirinha, na Brasilândia. Ouvi um autoritário “não”! Poucos minutos depois, o “não” virou “sim” — meio a contragosto.

 

Quando estávamos quase chegando, através de ruelas clandestinas com acesso à rodovia Bandeirantes, ele mandou eu voltar à Marginal: “já deve estar livre, depois de três horas”.

 

Ledo engano. Negociei outro caminho. E o peso da toga falou mais alto. Segue por aqui —- mesmo que tudo estivesse parado.

 

De Campinas, meu “tijólokia” —- um celular ainda dos tempos analógicos —- chamava a todo momento. Era do Tribunal, preocupado com os prazos processuais do magistrado que ocupava cargo de alto escalão.

 

Após horas de atraso e cansados de congestionamentos, entramos na Bandeirantes —- eu preocupado com a missão a ser cumprida e o magistrado orgulhoso de supostamente conhecer os caminhos da cidade, que insistia em dizer que conhecia como a palma de sua mão.

 

Chegamos a tempo, antes do fim do expediente jurídico. No caminho ainda sugeri a criação de um serviço de informação do tipo 0800 para auxiliar motoristas e taxistas. Um sugestão em tom de ironia, porque se tivesse me deixado seguir as rotas indicadas pelo Guia de Ruas e atento às notícias da CBN, teríamos chegado bem mais cedo ao nosso destino. E descoberto que naquele três de junho de 1997, a Ponte dos Remédios tinha sofrido uma rachadura.

 


Pedro Lúcio Ribeiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Mundo Corporativo: Tathiane Deândhela sugere que você assuma o controle de suas decisões para encarar essa crise

 

“Onde a gente coloca nossa energia, onde a gente coloca o nosso foco, vai determinar também aquilo que a gente realiza” —- Tathiane Deândhela, consultora

Assumir o controle de suas decisões, identificar os caminhos a seguir e eliminar os ladrões do tempo são algumas medidas que precisam ser adotadas neste momento em que a pandemia paralisa negócios, reduz o faturamento e, em muitos casos, elimina empregos. A consultora Tathiane Deândhela, entrevistada do programa Mundo Corporativo da CBN, tem se dedicado a conversar com empresários e profissionais das mais diversas áreas na tentativa de mostrar que existem saídas para esta crise.

“E o que que eu percebo; muitas vezes quando as pessoas estão focadas nos danos, focadas naquilo que não podem controlar de alguma maneira, a pessoa suga a energia de tal forma que não tem disposição, que não tem vitalidade para fazer acontecer”.

Focar a energia nas tarefas realmente importantes é o que Tathiane chama de blindagem mental que precisa ser realizada para que os resultados apareçam. Em conversa com Mílton Jung, a autora do livro “Faça o tempo enriquecer você”(Editora Gente) lembrou ensinamentos de Viktor Frankl, neuropsiquiatra austríaco que sofreu a crueldade dos campos de concentração:

“Uma fala que muito me marcou, foi quando ele disse assim, a gente tem a liberdade de escolher o que a gente quer mesmo em meio ao caos; a gente tem liberdade de fazer escolhas sobre o que eu quero sentir, como eu quero reagir a essas circunstâncias”.

Especialista em produtividade e gestão do tempo, a consultora disse que com o trabalho em casa, forçado pela pandemia, um dos principais ladrões do tempo foi eliminado que é o deslocamento no trânsito. Além disso, conversas paralelas que costumam ocorrer no local de trabalho também deixaram de existir, momentaneamente. Por outro lado, novos ladrões podem surgir com o homeoffice se o profissional não organizar suas tarefas e não planejar sua agenda, considerando os compromissos de trabalho e os familiares.

“Tão importante quanto definir o que a gente vai fazer ao longo do nosso dia ou o que que merece o nosso foco, ou que merece a nossa atenção, é a gente entender também o que é que a gente tem que abrir mão. Isso aqui não é importante agora, isso aqui não é prioridade. Tirar as coisas do caminho porque nós temos 24 horas e não dá para fazer tudo”

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Juliana Prado, Guilherme Dogo, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

O rádio chora a perda de José Paulo de Andrade

 

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A caminho da rádio, cedo, mas não tanto quanto hoje, preso no congestionamento, em São Paulo, a sintonia do meu rádio migrava da CBN para a Bandeirantes; do Zé Paulo para o Hérodoto. Foi a estratégia que encontrei para conhecer mais o rádio e a cidade. Na CBN, apresentava o CBN São Paulo. E na audiência deles procurava o caminho para fazer minha própria carreira por aqui.

 

Zé Paulo tinha voz forte, opinião contundente, não se deixava enganar pela fala mansa do entrevistado —- especialmente se fosse um político. Mesmo que fosse qualquer político. Não fazia distinção partidária. A pergunta era incisiva, bem embasada, e se mal respondida, não aceitava.

 

Fez do microfone instrumento plural, ouviu vozes divergentes em uma época em que não havia no rádio espaço para tantas —- especialmente pela dureza do regime em vigor. Promoveu debates improváveis, com gente que não queria se falar. E aceitou fazer uma conexão inédita de rádio entre o entrevistado dele no Pulo do Gato, na Bandeirantes, e o do Heródoto, no Jornal da CBN, em 1992 — já que de um lado havia um  acusador e de outro um acusado.

 

Depois de ouvir a força da voz e a contundência da opinião, fui apresentado ao coração generoso que batia no peito de Zé Paulo.

 

Foi quando o conheci pessoalmente. Ele estava sentando na cadeira de um restaurante. Levantou-se para me cumprimentar, assim que me apresentei. Uma reverência ao meu pai, Milton Ferretti Jung, que conhecia desde muito tempo. E a cena se repetiu todas às vezes que nos encontrávamos. Zé Paulo falava do pai e eu, orgulhoso de ouvi-lo, pensava: a lenda falando da lenda.

 

A carreira dele e a do pai, estiveram muito sintonizadas. Narraram futebol e brilharam no jornalismo. Foram longevos à frente dos programas que apresentaram: Zé Paulo no “Pulo do Gato” e o pai no “Correspondente Renner”. E apesar de todo o sucesso que fizeram jamais deixaram que isso se transformasse em prepotência. Respeitavam a força do microfone, encaravam a profissão com humildade e assim conquistaram a admiração dos ouvintes e o respeito dos colegas.

 

Encontrei-me no microfone com ele apenas uma vez, durante programa especial, em homenagem aos 90 anos de rádio, apresentado pelo Haissen Abaki, na rádio Estadão. Sentei-me à mesa ao lado do Heródoto Barbeiro, que já estava na RecordNews e do Joseval Peixoto, da Jovem Pan. Zé Paulo estava em casa e conversou com a gente por telefone. Senti-me um guri de calça curta diante daquelas feras. Fui muito mais para ouvir do que falar. E nas poucas vezes que falei, tive vontade de chorar de emoção pela alegria que aquele momento provocava no meu coração. A história do rádio estava ali na minha frente.

 

Hoje cedo, coube-me anunciar a morte de José Paulo de Andrade, aos 78 anos, por Covid-19. Ele vinha há algum tempo enfrentando dificuldades respiratórias devido a doença pulmonar obstrutiva crônica. Mesmo em casa, desde antes da pandemia, não escapou desse vírus que leva embora mais um talento brasileiro. Foi impossível não me emocionar e chorar, com lágrimas que me tiraram do microfone por instantes. Chorei, sim. O rádio chora a perda de uma de suas maiores referências. Seus admiradores, também. Todos nós devemos muito à jornada que Zé Paulo teve em vida ao nosso lado.

 

À família, nossa solidariedade diante do luto!

No rebobinar da memória, lembranças de meu cotidiano matinal no rádio

 

 

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Foto: Pixabay

 

 

Era cedo — mais uma vez. Tudo parece acontecer logo cedo comigo. Não só parece. Acontece mesmo, porque cedo é que o meu dia começa. Começou, nesta quarta-feira, em 15 de julho de 2020 com as principais notícias do dia. Para logo em seguida uma estranha reversão do tempo atingir minha mente.

 

 

Às 6h45 da manhã, voltei dois ou três anos ao informar que no centro da cidade a temperatura era de 14°C. Nem a sede da rádio, em São Paulo, está por lá — é na zona Sul — nem meu estúdio avançado da quarentena fica na região — é na Oeste. Costumava usar a expressão quando trabalhava no tradicional endereço da rua das Palmeiras, no bairro de Santa Cecília — este sim no Centro —, onde ficavam os estúdios da CBN e da rádio Globo. Foi lá que comecei a trabalhar. Onde cometi meus  erros e enganos. Onde também tive experiências profissionais memoráveis. Onde pratiquei jornalismo por 20 anos.

 

 

Imagino que tenha sido reflexo de outro recuo que minha memória me proporcionou um pouco mais cedo — não disse que tudo acontece muito cedo comigo?

 

 

Ainda eram 6h15 da manhã quando voltei mais de 30 anos no tempo. Já no bom dia da Aline Tochio, que atualiza a previsão do tempo no Jornal da CBN, e sempre recebe os ouvintes com muita simpatia e precisão, em vez de falar de São Paulo — como fazemos todos os dias —, resolvi perguntar sobre a temperatura em Porto Alegre, onde havia visto, minutos antes, que fazia um frio de renguear cusco — perdão pelo gauchismo.

 

 

Nossa meteorologista, sempre atenta aos monitores e radares, além de bem informada, confirmou que o frio era intenso: “neste momento, temos 5°C no Aeroporto Salgado Filho”.  Foi a senha para a fita rebobinar uns 30 e pouco anos. E eu me enxergar com 23 ou 24 anos de idade, época em que trabalhava na rádio Guaíba, e era o primeiro repórter a entrar no ar no programa matinal — sim, lá também as coisas aconteciam muito cedo para mim. Os termômetros do aeroporto de Porto Alegre faziam parte da minha fala na rádio, assim como as condições dos voos e uma ou outra notícia que surgisse no saguão do Salgado Filho.

 

A Cássia Godoy logo me cobrou que contasse essa história no ar. Não tive tempo. Preferimos tratar de coisas mais relevantes para os ouvintes.  Aqui no blog o espaço é livre e pode ser ocupado com reminiscência, por isso, reproduzo trecho de texto que publiquei no início desta pandemia, quando fui levado à reclusão. No qual comparava o momento que estou vivenciando com a apresentação do Jornal da CBN de casa e aquele tempo em que, de casa, entrava ao vivo na Guaíba:

“É estranho mas não inusitado. Em meus primeiros anos de rádio, nos anos de 1980, tive uma experiência curiosa. Na época, trabalhava na rádio Guaíba de Porto Alegre e fazia minha primeira participação, logo depois das seis da manhã, com informações do aeroporto Salgado Filho. Diante da necessidade de reduzir custos, a rádio combinou que eu continuaria atualizando as notícias do aeroporto — condições para voar, voos atrasados, lotação dos aviões entre outros assuntos —, mas diretamente de casa.

 

Era fim de madrugada quando acordava e ligava para os balcões das companhias aéreas — Varig, Vasp e Transbrasil —, para a torre de controle e para o telefone do ponto de táxi que ficava em frente ao aeroporto. Os motoristas descreviam o movimento de passageiros e informavam a temperatura registrada pelo termômetro de rua. Com esse arsenal de informações, me preparava para entrar no ar na Guaíba.

 

Encerrava meus boletins informando a temperatura na cabeceira da pista, uma forma que encontrei para dar um pouco mais de realidade aos fatos, quando de verdade eu estava falando, ao vivo, da cabeceira da minha cama. Registre-se que
em nenhum momento, no bate-papo com o âncora do Jornal, dizia que estava no aeroporto para não perder a confiança do ouvinte assim como não comentava que estava em casa — algumas vezes fui traído pelo nosso cachorro de estimação, que latia “diretamente do pátio”.

 

Se no ar tudo transcorria normalmente e a prestação de serviço atendia a expectativa do público, lá na minha casa, em Porto Alegre, eu me tornei um estorvo para meu irmão. Imagine que nós dividíamos um quarto e, portanto, todos os dias, às seis da manhã, ele era acordado aos berros por minhas notícias sobre saídas e chegadas de aviões e, claro, a temperatura na cabeceira da pista. Foi difícil para ele e constrangedor para mim, mas nada que estragasse nosso companheirismo, mantido até os dias de hoje”

Tantas lembranças, tão cedo e em tão pouco tempo talvez se justifiquem pelo que a psicóloga Simone Domingues nos ensinou recentemente em outro texto publicado neste blog. Escreveu que diante das restrições que vivemos, com o mundo praticamente parado, incapazes que estamos de projetar o futuro, tendemos a resgatar o passado. Um cenário de saudades que põe nossa memória em ação.

 

Ao menos desta vez, a memória levou-me a momentos felizes que vivenciei. Nem sempre tem sido assim.

Sua Marca: três sugestões para construir relação com o cliente mesmo à distância

 

“Profilaxia e exames regulares garantem sobrevida e vigor para as marcas”— Cecília Russo

 

 

Dos muitos desafios impostos pela pandemia um deles foi o distanciamento das marcas com seus consumidores, que deixaram de frequentar os pontos de venda, obrigando-as a mudar de estratégia e o modo de agir. Saíram-se melhores aquelas marcas que, antes das restrições impostas pela Covid-19, já tinham a preocupação de criar vínculos consistentes com os clientes.

“Não se cria preferência por marcas da noite para o dia … estamos sempre diante de um processo que é longo, cansativo e exige consistência de uma marca” — Jaime Troiano.

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime e Cecília relembraram a analogia que fazem com os contos do livro “Mil e uma noites”, no qual a personagem Sherazade constrói histórias sobre diversos temas que encantam o Sultão e, assim, evita que ela seja morta.

“Marcas precisam ser alimentadas por histórias, por comunicação, por trazer uma nova embalagem e encantar o seu consumidor todos os dias em todas as possibilidades que tiver” — Cecília Russo

Três sugestões de como as marcas devem se comportar estando à distância do consumidor, neste momento, e construir uma ponte para o futuro:

 

  1. Consulte seu cliente: às vezes ouvimos o que não gostamos, mas é fundamental para o saber o que ele está falando de você, e mudar o rumo se for necessário;
  2.  

  3. O público interno tem papel fundamental na construção da marca: são os colaboradores que ajudam a criar sólida consistência na relação com o consumidor, com aquilo que ele fala da porta para fora. Lembre-se que marca não é tapume;
  4.  

  5. Seja simples na hora de falar da sua marca, não complique nem prometa o que você não vai cumprir

 

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55, no Jornal da CBN

Medo da Covid-19 e comunicação malfeita agravam transtornos na pandemia

 

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Foto Pixabay

 

Era cedo ainda. Estava escuro lá fora. A segunda nem havia começado direito e duas reportagens publicadas, em O Globo, já se destacavam na tela do meu celular. Dizem que somos mais suscetíveis aos temas que tocam nosso coração (neste caso, nossa mente). E talvez isso justifique meu olhar ainda marcado pelo sono e pela noite nem sempre bem dormida. Falavam de saúde mental e como estamos impactados nesta pandemia.

 

Os links para as duas reportagens estão na sequência deste post. Como o acesso é para assinantes, dada a importância do assunto, tomo a liberdade de reproduzir alguns trechos do trabalho das repórteres Evelin Azevedo e Gabriela Oliva.

 

Uma das reportagens dava nome e sobrenome para um transtorno que se agravou com o risco de contágio pelo coronavírus: ‘Fear of Going Out’ (‘Fogo’), associado a eventos estressantes fora de casa.

 

Entenda o que é Fogo, a síndrome do medo de sair às ruas, agora agravada pela pandemia.

 

Diz Daniel Mograbi, pós-doutor em psicologia e neurociências pelo Instituto de Psiquiatria do King’s College London:

“O medo de sair de casa é uma sequela da ansiedade, que está agravada durante a pandemia. Esse medo ocorre quando a pessoa tem algum evento estressante na rua, como um ataque de pânico. Agora, com a pandemia, a rua se tornou um espaço potencialmente perigoso. Ou seja, foi acrescentado aos medos existentes o novo medo, que é a infecção pela Covid-19”.

E qual caminho seguir? Mograbi responde:

“De uma forma geral, a pandemia fez explodirem os casos de ansiedade pelo medo de contágio e também pelas limitações relacionadas ao lazer. Por isso, se a pessoa está com um pânico, a recomendação é começar devagar. Em um quadro mais leve, exercícios de respiração e práticas contemplativas ajudam. Já em cenário mais grave, recorrente na rotina, aconselho acompanhamento médico — diz o psicólogo”.

A outra reportagem, que também está na versão impressa de O Globo, mostra como a falta de uma comunicação assertiva por parte das autoridades tem impacto na saúde mental das pessoas.

 

Incerteza sobre isolamento social traz impactos para a saúde mental

 

Leia o que diz Ronaldo Pilati, professor de Psicologia Social da UnB:

“Informações conflitantes podem gerar um estado de desamparo nas pessoas, fazendo com que não confiem mais nas notícias oficiais. Isso é algo que prejudica muito a orientação da população. Se existisse um processo mais ordenado de comunicação do governo, provavelmente as pessoas teriam mais segurança ao buscar informações para orientar seus próprios comportamentos e suas medidas de proteção. Essa descoordenação pode ter impacto no aumento eventual de ansiedade, principalmente por conta da incerteza em relação ao enfrentamento da doença no retorno às atividades normais”

E como amenizar essa dor? Quem responde é Deborah Suchecki, professora do departamento de Psicobiologia da Unifesp:

“Quando recebemos um abraço, o corpo libera um hormônio chamado ocitocina, que atua reduzindo a atividade de uma estrutura no cérebro que é reativa a emoções negativas, chamada de amígdala cerebelosa. A ocitocina é liberada com o toque, então, a automassagem pode ajudar muito no controle da ansiedade”

Dito isso, eu sigo por aqui, sem sair de casa.

 

Boa segunda-feira! E aquele abraço!