Conte Sua História de São Paulo: a boneca de Natal que mamãe nos deu de presente

 


Por Edithe Martha Peukert
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Em 1927, minha mãe Melida, com 14 anos, veio com a família dela da cidade de Lodz, na Polônia, a bordo do navio Belle Isle. Desceram em Santos e vieram para capital. Meu avô tinha a carta do filho mais velho, Edmundo, que havia chegado há algum tempo. O endereço na carta era do jornal Alemão, na Liberto Badaró. Como era domingo, chegaram lá e encontraram tudo fechado. Meu avô e minha avó conversavam em alemão sem saber o que fazer quando um homem, que também falava alemão, parou, perguntou o que acontecia e disse que os ajudaria : levaria todos para uma casa, no bairro do Cambuci, e depois sairia para descobrir onde encontrar Edmundo, o filho do meu avô que trabalhava em um restaurante da cidade.

 

Incrível, mas após alguma andança pela cidade, encontraram Edmundo. Lógico que todos ficaram muito felizes. Meu tio arrumou um emprego de babá para a minha mãe, na avenida Paulista, e para minha tia, na Alameda Casa Branca, de onde só podiam sair duas vezes por semana.

 

Meu avô, minha avó e meu outro tio, Paulo, foram para Cananéia tentar a vida. Acabaram todos voltando para a capital, onde meu avô comprou um terreno na Vicente Leporace, antiga rua Santa Rita, no Campo Belo. O quartinho de tijolo assentado em barro que construíram, conta minha mãe, tinham paredes que balançavam com o vento. Meus avós rezavam e seguravam as paredes para não caírem. Naquela época o bairro pertencia a Santo Amaro que era um município independente e depois foi anexado a Capital que praticamente terminava na Vila Mariana. E o terreno do meu avó, pela distância, era considerado fim do mundo.

 

Minha mãe se casou, em 1939 com meu pai Alfred Uebele.

 

Meu pai era lustrador de móveis finos e trabalhou na Fábrica de Móveis Foltas, na Oscar Freire, que depois mudou para o bairro do Morumbi. Ao se aposentar continuou trabalhando para um vizinho que também tinha uma pequena fábrica de móveis.

 

Minha mãe trabalhou como costureira na Rua Prates, próximo a Praça da Luz, até a gravidez da minha irmã. Quando éramos pequenos trabalhou em casa como costureira, costurando 36 camisas sociais para homens, por dia, em uma máquina Singer que ela comprou em prestações quando tinha 18 anos. Depois trabalhou com grampos de cabelo, costurando blusas de lã, sempre ajudando meu pai que lhe entregava todo o dinheiro, pois ele sempre dizia que ela sabia como administrá-lo bem.

 

Hoje tenho ótimas lembranças da vida que passamos juntos.

 

Os Natais foram inesquecíveis, sempre com árvores em cipreste natural, mais ou menos dois metros e meio de altura, cheia de bolinhas de cristal coloridas, que na época eram importadas da Alemanha. Tinham velinhas acesas. Tudo muito lindo e festivo. Não havia presentes caros e todos eram recebidos com muita alegria.

 

Houve uma época que eu e minha irmã pedimos uma “noiva”, um tipo de boneca, mas eles não tinham como comprar. Então, minha mãe, pegou as nossa bonecas de pano com cabeça de bebê de “biscuit” e as escondeu. Quando perguntávamos onde estavam nossas bonecas, ela respondia que a culpa era nossa, pois não sabíamos guardar nossos brinquedos: “não sabem onde colocam suas bonecas, depois ficam aí procurando, perdidas!”.

 

Naquele Natal, para nossa surpresa, veio o Papai Noel e ganhamos as nossas bonecas noivas. Minha mãe que era uma ótima costureira fez vestidos lindos para as nossas bonecas, aquelas com cabeça de bebê que ela havia escondido.

 

Ainda éramos crianças, quando meu tio Paulo deu de presente uma só bicicleta para mim e para minha irmã. Não tinha dinheiro para duas bicicletas. Aí decidimos: uma anda de manhã, a outra de tarde. Até minha mãe pedalou naquela bicicleta.

 

Meus pais sempre gostaram de viver no Brasil e em especial em São Paulo, sempre disseram que esta terra é abençoada. Se fizéssemos alguma crítica, eles lembravam a dificuldade que passaram durante e depois da 1ª guerra na Europa. Nunca falaram em voltar para a Polônia.

 


Edithe Martha Peukert é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte mais uma capítulo da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br.

Consumidor 2017 valoriza Qualidade e Variedade mais do que Atendimento

 

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

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mobilidade está entre as demandas atuais do consumidor

 

 

Depois de 14 anos encabeçando a lista dos atributos que as marcas precisam para serem consideradas de respeito pelos consumidores, o Atendimento cai para terceiro lugar. Essa informação é da pesquisa CIP Centro de Inteligência Padrão* realizada pela CA Ponte Estratégia com a Stella Kochen Susskind Consulting. Divulgada e apoiada pela Revista Consumidor Moderno.

 

 

A perda da liderança após 14 anos evidencia uma ruptura significativa, ampliada pelo fato de que o comparativo com o ano passado dá uma queda de 57% para 27% na avaliação da importância do Atendimento para o consumidor.

 

 

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Ao estar ranqueado atrás de “Qualidade e Variedade de produtos”, com 29% em primeiro lugar, e de “Preços atrativos, promoções, ofertas vantajosas e facilidade de pagamento”, com 28% em segundo lugar, o “Atendimento” aparece em terceiro lugar com 27% de importância. Fato que a primeira vista pode ser lido como uma tendência do brasileiro passar a ser um consumista à busca de ofertas, sem considerar a relação com as marcas que aprecia.

 

 

Para quem milita há anos com a relação consumidor/compras esta nova posição do Atendimento é um susto, que na verdade é revertido ao ouvir a Stella Susskind, executora desta e das pesquisas anteriores:

 

 

“O Atendimento no Brasil virou commoditie, a maioria das empresas atende da mesma maneira:

 

 

– Bom dia, meu nome é Anne, qual é o seu?
– Qual é o nome do seu cachorrinho?
– Muito obrigado por pisar na nossa loja!

 

 

Isto quando não vira inquérito policial, com uma infinidade de perguntas, sem, é claro, um cumprimento amável, um olhar simpático, bom humor, etc.”

 

 

Stella complementa afirmando que existe uma grande oportunidade de reverter favoravelmente o valor do Atendimento ao colocar naturalidade e criatividade neste processo. A seguir elenca as demandas atuais:

 

 

– Mobilidade: quero tudo fácil, de preferência em um lugar só ou próximo;
no caminho de casa.

 

 

– Trânsito infernal, queremos rodar menos

 

 

– Violência, queremos segurança

 

 

– Atendimento diferenciado respeitando o aspiracional de personalidade de cada consumidor

 

 

– Várias gerações consumindo: Baby Boomers, X, Milenials. Cada uma com suas demandas e hábitos

 

 

– O brasileiro viaja, algo que não acontecia com frequência no século passado
E mais…

 

 

– UNIQUENESS ! “Eu sou único, o atendimento também tem que se diferenciar”
CHEGA DO MESMO !

 

 

Estamos, portanto, diante de uma grande oportunidade de diferenciação. As marcas que assumirem uma postura de atendimento dentro das novas demandas, certamente serão identificadas como aquelas que respeitam o consumidor, oferecendo produtos e serviços numa relação de empatia, naturalidade e individualidade.

 

 

Marcas de respeito

 

 

Os entrevistados na pesquisa escolheram as categorias de produtos que tiveram experiências de compra nos últimos seis meses e avaliaram o grau de respeito que as empresas envolvidas tem com o consumidor. Numa escala de 0 a 10.

 

 

Destaques:

 

 

Quadro 1

 

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

 

 
* A Pesquisa: foram pesquisadas 1490 pessoas, de 25 de outubro a 3 de novembro pela WEB através do aplicativo Mindminers, do Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. Considerando um Universo de homens e mulheres com acesso a internet, das classes A,B,C,D no critério Brasil e maiores de 18 anos.

Conte Sua História de São Paulo: a “Cinderela” da Vila Madalena

 

Por Samuel de Leonardo

 

 

Um dos primeiros empregos da minha vida foi numa loja de calçados na Rua Teodoro Sampaio dentro da Galeria Cidade de Pinheiros. Era apenas um menino, adolescente ainda. Além de eventualmente bancar o vendedor, fazia de tudo um pouco, serviços de banco, cobranças, entregas. Lembro-me de ter atendido um casal de cliente o qual deduzira ser namorado ou noivo, tal era a forma de carinhos trocados durante todo o tempo que permaneceram na loja:

 

“Querido daqui, benzinho e amor dali”.

 

Uma melação que só vendo. O apaixonado presenteou a moça com três pares de calçados, cada um mais caro que o outro. Como de praxe, solicitei os dados para cadastro de cliente que prontamente foi preenchido. O homem pagou a despesa à vista, sem pechinchar. Venda normal e corriqueira, sem maiores detalhes, não fosse o fato de que no dia seguinte a bela mulher voltou sozinha para devolver um dos pares para a troca, pois apresentava um pequeno defeito.

 

Como não tinha nem a numeração nem o modelo em estoque combinamos que ela retornasse em dois dias que a troca seria efetuada. Passaram-se semanas e não apareceu ninguém para retirar o calçado. Como manda o bom senso, busquei os dados na ficha cadastral do cliente para comunicar a substituição. Na ficha constava somente o nome e o endereço, não tinha o número do telefone. No mesmo dia segui em direção ao local mencionado para entregar a encomenda, lá pelos lados da Vila Madalena.

 

Com os calçados em mãos, sentia-me como o príncipe consorte em busca da Cinderela. Após longa caminhada encontrei a rua e o número da residência, um local agradável, casa padrão classe média, muros com pintura nova, portões automáticos.

 

Acionei o interfone:

 

– Bom dia, é aqui que mora o Senhor Paulo? Trouxe os sapatos que a mulher dele pediu para trocar.

 

Fui atendido por uma jovem senhora que abriu o portão, uma aparência meio que escangalhada que pensara ser a empregada, tava mais para Gata Borralheira do que para uma princesa.

 

– Ele é o seu patrão?

 

De forma ríspida ela responde:

 

-Patrão coisa nenhuma, sou a esposa dele.

 

Sem saber mais o que falar permaneci em silêncio por alguns instantes. Percebi o constrangimento que causara àquela mulher. Respirei fundo e tentando consertar a situação soltei:

 

– Acho que errei o endereço, peço-lhe desculpas.

 

Antes que pudesse desvencilhar-me daquela situação, ela bruscamente tomou o pacote das minhas mãos:

 

– Deixe-me ver esses calçados – abriu o embrulho, arrancou suas sandálias e tentou calçá-los, mas não lhes serviram, ficaram pequenos.

 

Ironicamente ela me diz:

 

– Olhe aqui garoto, vou ficar com eles para mostrar ao meu marido.

 

Sem ao menos pedir licença e sem cerimônias, ela fecha o portão na minha cara. Poucos dias depois ela apareceu na loja muito bem vestida e com os sapatos na sacola. Sem muita conversa pediu para trocá-los por uma numeração maior. Experimentou-os, pegou o pacote e foi embora sem nada dizer. Ainda hoje pergunto a mim mesmo, teria sido um conto de fadas ou do vigário. Seria mesmo ela a esposa do cliente ou a empregada aplicando um golpe. Seria a esposa do cliente que foi a loja pela primeira vez ou …

 

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Avalanche Tricolor: meu orgulho em vestir o azul, preto e branco nesta final do Mundial

 

 

Grêmio 0x1 Real Madrid
Mundial – Zayed Sports City/Abu Dhabi

 

Gremio

 

Faz pouco chegamos do estádio Zayed Sports City. Estamos no quarto do hotel fechando as malas. No domingo, logo cedo, embarcaremos de volta. Dobramos carinhosamente cada uma das camisas do Grêmio que nos acompanharam nesta jornada. Estão suadas, cheirando a corpo, um pouco amassadas, mas seguem sendo vestidas com a merecida dignidade. Durante todos esses dias essas camisas desfilaram pelos Emirados Árabes exaltando nosso orgulho de ser tricolor e conquistando adeptos, como os três torcedores “emirates” que sentaram à nossa frente. Todos estavam com a camiseta do Real – é o time da moda, não é mesmo? – mas um deles virou-se para trás e me contou que gosta muito do Grêmio por causa de um jogador em especial: Tcheco, que foi ídolo no Al-Ittihad, o time da casa. Por onde passamos deixamos admiradores.

 

Foi assim todo este ano: jogando o melhor futebol do Brasil, ganhamos a admiração do público e da crítica. Poucos se atreveram a questionar a qualidade do nosso jogo e do time montado por Renato e comissão técnica. Os resultados em campo estavam a altura dessa expectativa, levando em consideração que fizemos escolhas pontuais em relação as competições disputadas. Tínhamos uma obsessão que era voltar a dominar a América. Enquanto dobrava algumas das camisas para colocar na mala, dava para perceber ainda marcas dessas batalhas sul-americanas. Marcas que estão na camisa e na alma de cada gremista que encontrei nesses dias.

 

O time copero conquistou as Américas e nos encharcou de felicidade. Após vencer a Libertadores, ainda superou o Pachuca, do México, considerado o melhor time das Américas do Norte e Central, na primeira partida nos Emirados. Com essa vitória credenciou-se para a final do Mundial, lugar reservado apenas aos grandes, e deparou-se com um gigante, talvez o maior de todos os tempos.

 

Nada do que tenha acontecido nesta noite de Abu Dhabi é suficiente para me tirar o orgulho de ser gremista. Aliás, muitas das coisas que aconteceram nesta noite fortaleceram ainda mais este meu sentimento. Assisti às nossas camisas vestidas por cerca de 7 mil torcedores, ouvi o canto da nossa torcida ecoando pelas arquibancadas do Zayed Sports City e vi todos que estavam no estádio aplaudindo a entrada do nosso uniforme tradicional no gramado da grande final.

 

Em campo, lutamos, fizemos o que era possível. O que estava ao nosso alcance. Talvez um pouco mais de pressão aqui, um pouco mais de calma ali, quem sabe um lance de sorte a nosso favor, uma falta cobrada mais para baixo ou uma barreira mais fechada à frente da bola. Detalhes que poderiam não fazer diferença diante do adversário que enfrentávamos. Ou poderiam. Nunca se sabe o que a bola nos reserva numa noite de futebol.

 

Das camisas em campo quero fazer minha reverência a Geromel e Kannemann. Eles foram gigantes, cada um a seu estilo. Defenderam nossas cores e cidadela com bravura e talento. Venceram quase todas suas batalhas. E nas mais complicadas contaram com o apoio de Marcelo Grohe, outro que lutou até onde alcançou para nos manter vivos na disputa.

 

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A vitória não veio, mas o Grêmio me deu o direito de sonhar mais uma vez: o de disputar uma final de Mundial. Um sonho que vivi intensamente nestes últimos dias, admirando sua camisa entre as maiores do Planeta. Vestindo-a com o orgulho de sempre nas arquibancadas, nas ruas, nos locais turísticos, sagrados e consagrados destes Emirados. Um sonho que sonhei ao lado de meus dois filhos a quem fiz questão de beijar ao fim da partida, um agradecimento a esses companheiros que souberam entender a importância deste momento para o pai e ainda me surpreenderam ao levar para o jogo uma camisa com o nome do avô que, afinal, foi quem me deu a primeira camiseta azul, preta e branca que vesti na vida, despertando esta paixão em todos nós.

Mundo Corporativo: Sílvia Freitas, do Berlitz, traz dicas para quem quer trabalhar no exterior

 

 

“Conhecer a si próprio, conhecer o outro, não importa se você está no Brasil interagindo globalmente ou você está assumindo uma posição global ou em outro país, você precisa de fato saber da cultura do país que você está interagindo”. A dica é de Sílvia Freitas, diretora de relações corporativas do Berlitz Brasil, ao se referir a forma como os profissionais devem se preparar para aproveitar oportunidades de trabalho no exterior. Em entrevista ao jornalista Mílton Jung, da rádio CBN, Freitas defende a ideia de que “a pessoa tem de entender a outra cultura e como eles se relacionam para que o negócio de certo”

 

O Mundo Corporativo é gravado às quartas-feiras, 11 horas, e pode ser assistido no site e na página da CBN no Facebook. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, ou aos domingos, às 11 da noite, em horário alternativo. Colaboraram com o Mundo Corporativo Juliana Causin, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Sua Marca: tenha coragem para fazer o balanço de 2017

 

 

“Seja muito curioso sobre sua marca. Tenha coragem, levante o tapete”. A sugestão é de Cecília Russo e Jaime Troiano para que empresários, empreendedores e prestadores de serviço façam um balanço sobre o comportamento da sua marca. Para eles, é fundamental que a avaliação seja honesta e real sobre o desempenho alcançado ao longo do ano de 2017. Um dos parâmetros que devem ser usados nesta análise é se os colaboradores terminaram o ano mais felizes do que começaram.

 

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN.

Avalanche Tricolor: com Renato, vamos acabar com o Planeta!

 

 

Direto de Abu Dhabi

 

 

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Chegou o dia … finalmente chegou o dia. Aqui já é sábado, 16 de dezembro. A ansiedade é tanta que o dia de decisão começa antes. Já é madrugada quando publico esta Avalanche. Já é dia de “acabar com o Planeta”, lema que nos embalou durante a Libertadores e nos segue no Mundial.

 

 

E não se fala em outra coisa aqui em Abu Dhabi. Depois de acabar com as Américas – afinal somos os campeões das Américas, vencemos a Libertadores e despachamos o Pachuca, do México, na semifinal do Mundial – chegou a hora de acabar com o Planeta.

 

 

E quando digo que não se fala em outra coisa é porque não tem um canto sagrado desta terra – e eu fui a alguns -, não tem um grão de areia deste deserto que não esteja tomado de azul, preto e branco. Sei lá quantos gremistas estão por aqui, mas a turma é no mínimo vistosa. Nossas camisas estão em todos os espaços e são de todos os modelos. Tem tricolor, tem azul claro, azul escuro, tem preta. Tem retrô, tem histórica, tem sem número nas costas, com nome de craques do passado, tem as mais novas e as bem velhas. Tem de todo tipo e todos com o Grêmio na altura do coração.

 

 

Tem muita camisa 7 – e Luan que me desculpe – mas com o 7 de Renato, o Gaúcho que nos levou ao céu desconsertando os alemães na final do Mundial em 1983. De Renato que infernizou a vida de técnicos, os seus e o dos adversários. Que enlouqueceu laterais, zagueiros e qualquer um que se intrometesse no seu caminho. Que aventurou-se técnico e driblou a descrença de críticos, fez embaixadinha com as palavras e brincou com a cara de que não o levou a sério.

 

 

Que me matou de ódio, a ponto de desviar-me da trajetória profissional que eu havia escolhido – e um dia conto esta história para você, caro e raro leitor desta Avalanche. Que me fez morrer (ou quase) de amor pelo Grêmio. E prometer a mim mesmo – depois daquela final de 1983, que assisti na casa de amigos em Porto Alegre – que um dia estaria ao lado do Grêmio, ao vivo, em uma final do Mundial.

 

 

Foi Renato quem me trouxe até Abu Dhabi. Seja pela promessa que fiz há 34 anos seja pelo que ele fez com o Grêmio em 2016 e 2017. Foi Renato quem me fez acreditar em novos títulos. Quem deu a toda nossa torcida a expectativa de um título. Mais do que isso: nos devolveu a Copa do Brasil, nos devolveu o orgulho de um futebol bem jogado – o mais bem jogado no Brasil, disseram os entendidos. Nos permitiu delirar a cada batalha vencida na Libertadores. Convenceu seus jogadores, todos eles – os craques, os renegados, os abnegados -, que poderiam entrar para o panteão dos Imortais. Que não teve pudor de admitir erros, mudar jogadores no primeiro tempo, substituir renomados por reservas, de incorporar-se em Everton para nos colocar na final de um Mundial, mais uma vez.

 

 

Ainda há quem questione se Renato foi melhor que Cristiano Ronaldo. Claro que foi. Só Renato foi capaz de nos fazer vibrar com um Mundial. De resgatar a Copa do Brasil e a Libertadores. Só Renato é capaz de fazer o Grêmio acabar com o Planeta!

 

Avalanche Tricolor: ser gremista era o seu destino!

 

 

Direto de Abi Dhabi

 

 

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Um dos meus guris – o mais velho – apareceu na televisão com cara de sofrimento em cena flagrada logo após o fim do tempo normal e o início da prorrogação, em Al Ain. Era a cara da nossa torcida naquele instante de dúvidas sobre o destino do Grêmio no Mundial. Pena não terem mostrado os olhos dele com lágrimas e o sorriso no rosto que vieram assim que Everton entortou os zagueiros mexicanos. Era a cara do nosso torcedor naquele momento, tomado pela certeza de que havíamos garantido presença na final, sábado, em Abu Dhabi.

 

 

A imagem do Gregório chegou aos amigos, foi comentada em rede social e virou tema de uma das entrevistas que concedi a colegas de rádio e televisão, desde que cheguei aos Emirados Árabes. Para mim, já registrei isso em Twitter, é a revelação de que criei, sim, um gremista, mesmo que tenha nascido distante de Porto Alegre.

 

 

GREGORIO

 

 

Ao lado dele, no estádio em Al Ain, estava o irmão mais novo, o Lorenzo. E esse não teve sua imagem registrada, talvez pelo olhar sereno que busca manter diante de todas as situações, mesmo as mais difíceis. Mas eu o assisti aplaudindo o Grêmio, sorrindo nos lances mais bonitos, lamentando as bolas desperdiçadas e comentando as nuances do jogo. Seja por força da profissão – é técnico de eSports – seja por personalidade, sempre foi mais comedido nas emoções. Contido, mesmo que no coração bata todo tipo de sentimento. E eu sei que bate forte.

 

 

Durante o próprio jogo, registrou no Twitter a sensação de assistir ao Grêmio no Mundial:

 

 

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Foi, porém, uma outra mensagem dele, escrita já na madrugada pós-jogo, na conversa frequente com os amigos e seguidores, que me chamou atenção:

 

 

LORENZO 2

 

 

“Tento ser”, escreveu, sem saber que já é gremista desde que era um piá de calça curta.

 

 

Tomara que seus colegas de organização, mais adeptos as conversas dos esportes eletrônicos, jamais leiam esta Avalanche, pois vou ser inconfidente agora e revelar imagem que não se enquadra com àquele treinador que trabalha diariamente com eles.

 

 

Em 2005, na maior de todas as batalhas que já conquistamos, a dos Aflitos, meu guri estava com apenas seis anos e o futebol não fazia parte de sua vida. Estava no videogame enquanto o pai sofria diante da televisão assistindo ao jogo no Recife.

 

 

Com a atenção chamada pelo meu desespero, no instante em que o árbitro assinalava mais um pênalti contra nós e expulsava um jogador após o outro, ele e o irmão vieram correndo para o quarto onde eu estava. Tentavam entender a dimensão do drama que estávamos enfrentando. Com a voz e as palavras que me restavam contei a eles e recebi o abraço dos dois em solidariedade. Ficaram ao meu lado assistindo a cada um daqueles momentos épicos que registramos na história. E no apito final comemoraram o título e a ascensão comigo.

 

 

Depois de pular pela façanha alcançada, olho para trás e encontro meu guri menor, esse que diz que está tentando ser gremista, abraçado em um dos cachorros que temos lá em casa. Estava aos prantos, emocionado pela nossa vitória e pelo êxtase que o pai vivia.

 

 

Portanto, Lorenzo, não precisa tentar, não: seu coração já foi ferido em azul, preto e branco desde aquele tempo. Agora, não tem mais volta. Por mais que você esconda da gente, vai sofrer ao nosso lado tanto quanto deliciar-se com as emoções que o Grêmio proporciona.

 

 

Sábado estaremos os três no alto das arquibancadas do Zayed Sports City Stadium, em Abu Dhabi, seguindo o que o destino nos ofereceu: ser gremista!

Avalanche Tricolor: é de perder o sono

 

Direto de Abu Dhabi

 

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O gol de Everton em foto Getty Images/Fifa.com

 

Acostumar-se com a diferença de horário entre Brasil e Emirados Árabes é mais difícil que passar pela defesa do Al Jazira. Nessa quarta-feira, o descontrole foi total com a madrugada estendida após o jogo do Grêmio. Troquei a noite pelo dia e paguei caro. A quinta-feira está para amanhecer por aqui enquanto no Brasil muita gente ainda assiste ao jogo do Flamengo pela Sul-americana e eu já estou que não consigo mais ficar na cama.

 

Na cama, sem sono, comecei a pensar no que vi em campo até agora e no que pretendo ver sábado na decisão do Mundial, no estádio de Abu Dhabi. Lembrei da pergunta de Zé Elias, um dos participantes do programa Bom Dia Bate Bola, da ESPN, do qual fui convidado a participar para falar da experiência de assistir ao Grêmio, na primeira partida em Al Ain. Queria saber se eu já havia imaginado como seria o gol do título, se havia criado minha própria fantasia antes de a bola começar a efetivamente rolar.

 

Ainda tenho muito viva a imagem do gol de Everton que nos levou à final. Isso já é suficientemente forte para ocupar minha mente. Mas confesso que fiquei, sim, imaginando como seria ser campeão mundial, que momento sublime poderíamos viver em família, aqui nos Emirados. E sem nenhuma pretensão de adivinho, pensei o quanto mitológico seria ganharmos com um gol de Geromel, provavelmente resultado de uma cobrança de escanteio. A bola vindo pelo alto e um leve toque de cabeça desviando-a para o fundo das redes. É de arrepiar, mesmo que tudo ainda seja fruto da imaginação.

 

Sabemos da dimensão do adversário da final. Da qualidade técnica dos jogadores que formam o milionário time espanhol. Dos predicados daquele que é considerado o melhor do mundo na atualidade e da constelação que o acompanha. Dinheiro, muito dinheiro, estrutura e experiência são diferenciais que pesam quando saímos do campo dos sonhos para jogar bola no campo da realidade.

 

Renato e seus comandados também reconhecem essas diferenças e isso não nos diminui. Ao contrário, nos fortalece. Pois respeitar a força contrária é o primeiro passo para se estabelecer a melhor estratégia para enfrentá-lo. Entender seus movimentos e a potência de suas armas, permite uma articulação mais precisa, cirúrgica.O futebol não perdoa prepotência nem tem espaço para deslumbramentos. Exige cabeça no lugar, pé no chão, bola rolando na grama, marcação séria e jogo responsável. É lá dentro das quatro linhas que o jogo se resolve.

 

Nada disso nos impede de sonhar. E imagino que muitos dos nossos jogadores, que espero estejam dormindo no horário em que escrevo esse texto, têm sonhado no título desde que se capacitaram à final. Já demonstraram competência para realizá-lo. O que o Real revelou contra o Al Jazira é que a vitória sobre o espanhóis é possível. E nós já conquistamos muitas coisas impossíveis.

 

De minha parte – e já falei para você, caro e raro leitor desta Avalanche – o meu sonho já está sendo realizado. Vivenciar o Grêmio em um Mundial tem sido incrível. Sentir-se em casa dividido a arquibancada com milhares de gremistas em estádio tão distante da nossa terra foi emocionante. Ouvir os jornalistas estrangeiros fazendo referências ao meu time tem significado muito especial, motivo de muito orgulho. E no sábado, Senhor Amado, não quero nem imaginar o êxtase ao ver nossa camisa tricolor entrando no gramado do Zayed Sports City Stadium. Não quero imaginar, mas já posso sentir, a ponto de ter mais uma vez perdido o sono.

 

E isso, tenha certeza, não é culpa do fuso horário.

Ocimar Versolato, gênio na Moda e ingênuo no Varejo

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Quem visitou uma das sete lojas Ocimar Versolato que compuseram sua derradeira escalada nos holofotes da moda entendeu bem as láureas que recebeu. As coleções expostas em São Paulo, Rio e Brasília, transmitiam o talento de Ocimar. Em adequada e sofisticada ambientação, se encontravam inigualáveis vestidos de festa, ou requintadas camisas masculinas.

 

Uma raridade e um luxo que não comportavam a existência de sete pontos de venda. Talvez dois no máximo.

 

E Versolato já tinha 11 anos de experiência, dos quais sete na França. Onde atingiu o topo que nenhum estilista brasileiro conseguiu alçar. Foi membro do seleto grupo Chambre Syndicale de La Haute Couture, entidade máxima da moda francesa. Ocupou o cargo de Diretor de Criação da casa LANVIN, a mais antiga da alta costura, onde teve uma atuação superlativa e inovadora, ao mesmo tempo em que exibia sua marca na Place Vandôme, depois de ser assistente de Gianne Versace e ter trabalhado com Hervé Lérger.

 

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Sua competência na moda despertou a aproximação de outras personalidades em diversas áreas como Sebastião Salgado, que durante dez anos fotografou seus desfiles, e Cacá Diegues, que o contratou para os figurinos de Tieta do Agreste.
As atrizes e cantoras não ficaram alheias ao seu sucesso e por vezes seus modelos estavam presentes no Oscar ou nas paradas de sucesso. Com a diferença que não emprestava nem doava. Os modelos eram vendidos.

 

Ainda assim a concorrência que doava não perdoava. A ponto de ter um episódio novelesco com a cantora Ophelie Winter, a quem ele fora contratado para mudar a imagem dela. Da breguice, como estava sendo vista, para o chique. Winter virara atriz e teria apresentação em Cannes. O pessoal do Giorgio Armani enviou um vestido de presente. Ela recusou e informou que usaria Versolato, o que redundou em ameaça de nunca mais ser permitida a entrada dela nas lojas e eventos Armani. Ophelie cumpriu com o prometido. Armani nunca mais.

 

No Brasil, foi marca de automóvel, um modelo CITROEN Ocimar Versolato com apelo contemporâneo e fashionista. Sandra Habib aproximou Sergio, seu endinheirado marido, proprietário da holding dos automóveis Jaguar e Citroen, de Ocimar. Juntos constituíram uma empresa para produzir e comercializar moda feminina e masculina criada por Versolato. Coube ao casal a operação e finanças, cujo planejamento foi apresentado a Ocimar visando a abertura simultânea de sete lojas iniciais. De acordo com Ocimar*, a quantidade o assustou mas deixou que se executasse.

 

Inexplicável, pois o casal não era do ramo e o plano previa uma quantidade exagerada e inadequada de lojas. Ao mesmo tempo em que indicava inaugurações em sequência sem a maturação necessária e gradativa. O fechamento das lojas era inevitável e em pouco tempo, mesmo com a discordância de Ocimar, a operação foi encerrada.

 

A seguir, escreveu “Vestido em chamas” onde conta seus principais momentos, finalizando com uma premissa de vida:

“Obstáculos sempre existem, e nossa tarefa é não nos deixar abater e encontrar nos mesmos a força necessária para superá-los. Agora, se além da força, tivermos talento, tudo fica mais fácil.”

Tudo indica que a trajetória talentosa de Ocimar poderia ser mais fácil se o gênio não fosse tão genioso.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

 

*Livro
Versolato, Ocimar
Vestido em chamas/Ocimar Versolato- São Paulo
Aleph, 2005