Conte Sua História de SP: A chácara do Seu João das Vacas

 

Por Marcos Falcon
Ouvinte-internauta da CBN

 


 
Se existir o paraíso ali foi o da minha infância.
 

 

Na época, que minha recordação consegue as primeiras lembranças, eu um garoto de apenas cinco anos e aquela chácara um mundaréu de terreno que não tinha mais fim, onde eu, se sozinho, poderia me perder com facilidade e nunca mais ser encontrado. Hoje lá existe uma pequena vila residencial de não mais que um alqueire e a grande maioria de seus moradores nem sabe que ali foi o paraíso.
 

 

Cortada de ponta a ponta por um córrego de águas cristalinas que serpenteava por entre os eucaliptos e as árvores frutíferas e que em determinados pontos ampliava-se formando singelos lagos. Nestes lagos a garotada e principalmente eu e o meu amigo Giba demos os nossos primeiros mergulhos e primeiras braçadas desengonçadas ao que dizíamos estar nadando.
 

 

Bater peneira ou na falta desta bater saco, uma forma de pesca em que dentro do riacho com a peneira ou com o saco de estopa, raspávamos o fundo do rio em direção as bordas e levantávamos nossos instrumentos até a flor d’água por debaixo das ramadas e delirávamos com os guarús, lambaris, pequenos carás e muitos girinos.
 

 

O pé de caqui chocolate, daqueles legítimos, que mesmo verdes por fora eram marrons por dentro. Ali ficava nossa torre de observação, pois do alto de seus galhos podíamos ver a chácara toda, inclusive a casa do Seu João, e ao menor sinal da saída do velho de dentro da casa nós já dávamos o alerta, pois ele andava sempre com uma espingarda velha carregada com sal e prometia atirar na garotada que roubava suas frutas.

 

Um dia ele nos pegou roubando, ou melhor, colhendo suas pêras sem autorização. Não deu tempo de fugir nem mesmo de descer da pereira. Seu João com a espingarda na mão ameaçando a mim e ao Clóvis. Ficamos tão assustados que deixamos cair todas as pêras e prometemos a ele que nunca mias iríamos apanhar suas frutas. Ele falou que contaria até cem para que nós descêssemos da árvore e sumíssemos de sua frente, pois a partir dos cem atiraria na gente. Provavelmente antes de ele contar até vinte já estávamos em casa.
 

 

Ali montei as minhas primeiras cabanas de índio armadas com varas de cana do reino e trançadas com folhas de taboa e dentro delas muita conversa de moleque e planos para grandes aventuras produzidas por nossa fértil e pura imaginação.

 

Já moleques mais velhos beirando a fase dos doze anos lá era o esconderijo onde amarrávamos os cavalos das olarias que fugiam e apareciam na redondeza e desta forma garantíamos montaria para todos podermos nos aventurar em passeios e explorações mais distantes montados a pêlo.
 

 

Construímos armadilhas para pegar lobisomem, laços para pegar pássaros, caçamos muitos preás com ajuda de nossos fiéis cachorros vira-latas. Brincamos de índio e mocinho, tiramos guerra de estilingues com mamonas até que um dia fomos interrompidos pelo ruidoso barulho de um motor gigante que mais parecia um destes monstros de filmes japoneses. Um monstro devorador de árvores, arbustos, riachos, cabanas e armadilhas.

 

A chácara foi planada, loteada e sem nosso consentimento destruíram o quintal de nossa infância. Tentamos protestar e por algum tempo durante a noite destruíamos as pequenas paredes que começavam a serem erguidas, porem no dia seguinte lá estavam elas novamente brotando do chão regadas pela energia das águas cristalinas de nosso córrego que hoje corre apenas em minhas lembranças.
 

 

A  Chácara ficava em Itaquera muito próximo onde hoje está sendo construído o Itaquerão.
 

 

Marcos Falcon é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em audio e video no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ouça outras histórias de São Paulo no meu Blog, o Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: uma partida que nos permite ter bons sonhos

 

Grêmio 3 x 1 Cruzeiro
Brasileiro – Arena Grêmio

 

Há algumas Avalanches defendi que o Grêmio de Renato não é o mesmo Grêmio de Luxemburgo, apesar da inconstância no desempenho e do equilíbrio nos resultados das duas equipes. Somente quem buscava os números frios da estatística era capaz de pensar dessa forma. O torcedor, não. Esse é passional, não usa a razão. E graças ao coração é capaz de perceber os diferentes sentimentos que permeiam o futebol, demonstrados às vezes em lances aparentemente insignificantes como a corrida de dois atacantes para marcar a saída de bola do adversário ou o esforço descomunal dos zagueiros para abortar o ataque inimigo. Há árbitros, inclusive, incapazes de identificar esses movimentos e ver pênalti onde havia apenas um gesto heróico para impedir o gol.

 

Na partida de ontem, encerrada tarde demais para que eu pudesse descrever ainda à noite, nesta Avalanche, minha satisfação pela vitória, boa parte desses sinais que conquistam o torcedor apareceram. O primeiro deles veio de um jogador de quem há algum tempo espero uma reação à altura da nossa paixão: Dida. Desde que tirou o lugar de Marcelo Grohe, a quem admiro muito, não havia confirmado a fama que construiu na carreira, e não foi por falta de oportunidade. Quantos pênaltis inconsequentes nossos jogadores, na versão anterior, fizeram, oferecendo a Dida a oportunidade de se consagrar. Mas ele teimava em ficar parado embaixo do travessão, com seus longos braços estendidos para baixo, quando eu imaginava que abertos assustariam qualquer cobrador. Ontem, Dida brilhou ao impedir o que se transformaria num desastre dadas as circunstâncias do jogo e o bom desempenho do adversário até aquele momento. A defesa de Dida mudou o Grêmio, tanto quanto Renato o fez quando chegou ao vestiário nessa nova passagem pelo tricolor.

 

Erros à parte, e alguns insistem em acontecer, fiquei admirado também com outros movimentos que demonstram mudança de postura. O esforço de Barcos para roubar a bola dos zagueiros me chamou tanto atenção quanto a tranquilidade do goleador diante do segundo gol. O olhar de aparente ingenuidade do jovem Alex Telles ressurge com incrível confiança, a ponto de se atrever a cobrar aquela falta por baixo da barreira. Lances que seriam apenas cenas grotescas do futebol começam a virar gol nos pés de Kleber. Sem contar o prazer de ver os Bitecos entrando no segundo tempo.

 

Claro que Renato e seus comandados terão de ir muito além disso, têm de acertar a marcação, precisar o passe e melhorar o desempenho fora de casa. Porém, neste campeonato de pontos corridos em que o título se decide a cada jogo, vencer o líder se transforma em super-decisão. Ontem à noite, vencemos mais uma e fomos parar no G-4. O que me fez dormir com um sorriso no rosto. Que tenhamos todos bons sonhos daqui pra frente.

O passeio de presos em Caxias do Sul

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Na quinta-feira, dia 8 de agosto, escrevi sobre dois assuntos. Abri o texto com uma frase da Presidente Dilma a propósito da sanção do Estatuto da Juventude. Finalizei-o lembrando episódio ocorrido com a octogenária caxiense Odete Hoffman que, supostamente, matou um ladrão que invadira o seu quarto. Chamou a atenção da mídia, não só o espanto causado pela reação da idosa senhora ante a presença do invasor, mas a dúvida da polícia quanto a autoria dos três tiros que vitimaram o larápio. Teria sido mesmo a que confessou o crime ou outra pessoa – um familiar de dona Odete, quem sabe – para quem seria mais difícil explicar a razão dos disparos. Foram realizadas perícias um tanto contraditórias. A história, o que também chama a atenção, arrasta-se por mais de um ano.

 

Caxias do Sul ficou conhecida nacionalmente por sediar a Festa da Uva, acontecimento que atrai à cidade, desde que me conheço por gente, visitantes de todo o país. Recordo-me que, com os meus pais (minha mãe, como eu, nasceu em Caxias), íamos assistir ao desfile inaugural da famosa Festa, realizado na Avenida Júlio de Castilhos, em posição privilegiada. Meu avô Vitaliano Ferretti e minha avó Joana residiam nessa avenida. Tenho uma saudade danada da casa onde o casal criou os seus onze filhos. Era um sobrado com inúmeros quartos, porão e sótão, além de um pátio e da garagem em que o meu avô, em cima de cavaletes, havia colocado o seu Ford Modelo A, já sem serventia, mas no qual me divertia fazendo de conta que o pilotava.

 

Passaram-se muitos anos e a Caxias do Sul, que eu amei, não existe mais. É, hoje, uma cidade grande, que aparece na mídia com certa frequência e nem sempre com notícias agradáveis. A última ruim, que li no jornal Zero Hora dessa segunda-feira, dava conta de que condenados por tráfico e homicídios circulam fora de penitenciária caxiense, sem escolta e autorização judicial. Deveriam, porque são presos do regime fechado, permanecer na Penitenciária Industrial de Caxias do Sul. O jornal Pioneiro, por 10 dias, acompanhou a movimentação de apenados, condenados a penas que variam de nove a 27 anos de prisão. O administrador da PICS reconhece que detentos deixam a cadeia para comprar, no comércio, itens para manutenção. A divulgação do fato provocou o afastamento do diretor da Penitenciária. Fico imaginando o risco que a população caxiense corria com a presença de bandidos se aproveitando da liberalidade do diretor da casa prisional.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Com que roupa?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Se depender da opinião de Roberto Chadad, presidente da ABRAVEST Associação Brasileira do Vestuário, as roupas serão chinesas. Nestes dias em que a Tecelagem Renaux, pioneira em Brusque no ano de 1892, é notícia pela autofalência, o episódio vivido na FIESP há alguns anos, com a visita da Ministra Comercial da China veio à memória. Nessa ocasião, Chadad indagou como a China conseguia vender uma calça de jeans por US$ 7,50, ao que a ministra respondeu que era por causa dos impostos e, portanto, um problema para o Brasil, pois os tinha muito altos.

 

Na realidade, a verdade é mais ampla, pois em 1990 com a abertura no governo Collor foi estabelecida uma graduação de desagravo nas importações de têxteis e confecções. Não houve um entendimento ideal entre os agentes nacionais que fabricavam bens de capital, tecidos e roupas, como também não ocorreu a modernização necessária. Ao mesmo tempo os impostos subiram e os agravos de importação nos tecidos e nas roupas não inibiram a entrada no mercado brasileiro de tecidos e roupas importadas, enquanto o produto nativo brasileiro é hoje tributado de 38% a 41% na loja.

 

A partir daí começamos a entender o drama da Renaux, se incluir outras eventuais falhas de gestão, que certamente impediram de traçar estratégias de escape que funcionassem. Por exemplo, a da Hering ou da Santa Constância, com caminhos diferentes. Uma pela escala e posterior entrada no varejo, outra pela escolha de um nicho de moda.

 

Para chegar à verdade inteira é preciso considerar as condições oferecidas à mão de obra asiática comparativamente com a brasileira, bem como a tributação ao produto nacional. Vamos concluir que este é realmente um “negócio da China” como se dizia no tempo de Noel Rosa. Só que hoje o “negócio da China”, é para a China.

 

PS: Para ouvir a música de Noel Rosa cantada pelo próprio clique aqui. Para ouvir na voz de Nelson Rodrigues acesse por aqui.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

FGV calcula que R$ 0,50 na gasolina reduziriam ônibus para R$ 1,80

 

Texto escrito originalmente para o Blog Adote São Paulo

 

 

“Nossa Senhora” balbuciou o prefeito Fernando Haddad ao ouvir que de cada dez pacientes que estão em leitos hospitalares, em São Paulo, quatro são vítimas de acidentes de trânsito. A estatística fez parte da apresentação do coordenador da Rede Nossa São Paulo, Oded Grajew, que organizou, em parceria com a Frente Nacional dos Prefeitos, o evento “Alternativas para o financiamento do transporte público”, na manhã desta terça-feira, no Sesc Consolação, na capital. Coube a mim, no papel de mediador, sentar ao lado de Haddad, em uma mesa da qual participaram economistas, médicos, ambientalistas e gestores públicos. Pela posição em que estava me transformei em interlocutor do prefeito sempre que ele era surpreendido com um novo dado sobre os impactos da mobilidade urbana na qualidade de vida do cidadão.

 

Também provocou expressões de espanto por parte do prefeito, o resultado parcial de estudo desenvolvido pela Fundação Getúlio Vargas/SP que ofereceu fortes argumentos para a defesa da mudança na cobrança e distribuicão da CIDE-Combustíveis (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico incidente sobre as operações realizadas com combustíveis). De acordo com Samuel Abreu Pessoa, do Centro de Crescimento Econômico do Instituto Brasileiro de Economia, R$0,50 a mais no litro da gasolina podem representar até R$1,20 a menos na passagem de ônibus e uma redução de 0,03 ponto percentual na inflação. Ou seja, se o Governo Federal aceitar a ideia de transferir o que for recolhido pela CIDE para os municípios investirem no transporte de passageiros, a tarifa na capital paulista cairia dos atuais R$3,00 para R$1,80. “Pelo Amor de Deus”, deve ter pensado você ao ver esta conta.

 

Haddad, mesmo parecendo satisfeito com os números que sustentam a tese que será defendida nacionalmente, sabe e falou ao pé do ouvido: “não vai ser fácil”. Apesar dos benefícios que poderiam gerar nem todos são a favor da ideia. Hoje mesmo entrevistei o presidente da Frente Nacional de Prefeitos, José Fortunatti, que comanda a cidade de Porto Alegre, a primeira a assistir aos protestos contra o aumento no preço da passagem de ônibus, este ano. Assim que se encerrou a conversa, na qual Fortunatti defendeu o aumento e a municipalização da CIDE – atualmente, com alíquota zero -, uma sequência de mensagens chegou no meu e-mail e Twitter. Eram cidadãos incomodados com a possibilidade de ter mais tributo a pagar, além daquela quantia enorme que o Governo já saca da nossa conta todos os dias. Eram, principalmente, motoristas de carros que passariam a subsidiar o transporte público com a mudança proposta. Muitos pedindo que antes de aumentar imposto, os gestores segurassem os gastos públicos, controlassem a ineficiência do sistema e acabassem com a corrupção.

 

Para os motoristas preocupados com o peso da gasolina no bolso, prefeitos e defensores da mudança dizem que o incentivo para o transporte coletivo vai ter impactos positivos para toda economia, aumentando a circulação das pessoas, diminuindo os congestionamentos, reduzindo o custo de vida, melhorando a qualidade do ar e levando menos pessoas aos hospitais. Mas além de parcela da opinião pública terão de convencer, principalmente, o Governo Federal que, até agora, tem preferido incentivos ao transporte individual, com retenção do preço da gasolina, isenção de impostos às montadoras e incentivo para a compra de carro. A diferença de tratamento é tão absurda que análise feita por Carlos Henrique Carvalho, do IPEA, mostrou que nos últimos 12 anos, o preço da gasolina reajustou em menos de 100% enquanto o das tarifas de ônibus quase bateu a casa dos 200%. Sobre isso Haddad nada disse, pois já havia ido embora para encontro com o presidente do Tribunal de Contas do Município, na sede da prefeitura. Estava atrasado para o compromisso, como sempre estão os paulistanos.

Vamos engrossar o caldo político

 

 

O antigo mobiliário do auditório do Pateo do Colégio estava devidamente organizado e lustrado para receber o grupo de cidadãos comprometido com a ideia do Adote um Vereador. A louza branca pendurada na parede do fundo do palco não era a única a destoar naquele cenário formado por um piano de cauda, balcão enorme e cadeiras de encosto alto, ambos de madeira escura, refletindo a antiguidade. Muitos de nós, acostumados aos encontros que ocorrem todo segundo sábado do mês no bar do Pateo, regado a café, água e descontração, parecíamos constrangidos em meio a pompa e circunstância do ambiente. Além disso, o sol e a temperatura de sábado estavam mais convidativos para passear pelas ruas e praças do centro de São Paulo. Mesmo assim preferimos caminhar até lá e nos sentar para assistir à palestra do cientista social Humberto Dantas, convidado especial desse encontro.

 

Dantas é jovem e entusiasmado como a maioria de nós que participa do Adote um Vereador (ok, eu sou mais entusiasmado do que jovem), com a vantagem que estudou e estuda as coisas que movem a sociedade, enquanto nós somos espécies de autodidatas da política. Aprendemos na marra, assistindo aos políticos fazerem sua política, cobrando deles posturas que consideramos ser as mais apropriadas para o cargo que ocupam e cidade que representam. Por isso, prestamos muito atenção em cada história contada pelo professor que dominou o público com extrema habilidade, mesmo nos momentos mais tensos do debate que, algumas vezes, foi interrompido pela ansiedade da audiência em opinar.

 

Em quase duas horas, demonstrou seu descrédito com as reformas políticas propostas nestes anos todos no país e questionou a necessidade de mudanças nas leis, novamente. Lembrou que desde a redemocratização nunca disputamos uma eleição com as mesmas regras da anterior, o que não significa que tenhamos evoluído no processo. A impressão que tive é que acredita menos nos sistemas e mais no poder dos homens em mudar comportamentos. Se estiver enganado, me corrija, professor.

 

Dantas contou histórias curiosas sobre a forma de agir de vereadores. Um dos casos mais curiosos é o da câmara municipal que funciona no mesmo prédio da secretaria de assistência social da cidade. Quando o morador vai até lá para pedir ajuda à prefeitura, os funcionários pedem para eles descerem até os gabinetes e pegarem com os vereadores papeletas coloridas que são como senhas para autorizar a prestação de serviços em áreas distintas como entrega de cesta básica, gratuidade no transporte e compra de remédios. Em outra, são os vereadores que providenciam o enterro e velório dos mortos, oferecendo serviço supostamente de graça para ajudar os familiares em hora tão difícil. Detalhe: todos os serviços são, por lei, fornecidos pelo município. Ou seja, não havia necessidade da interferência do político.

 

Para o sociólogo, as faltas de conhecimento e de consciência da sociedade brasileira permitem que os políticos se comportem de maneira clientelista e se aproveitem do poder e dinheiro públicos. Com a experiência de visita que fez na Europa, Dantas mostra o caminho das pedras para melhorar a política no Brasil. Na Alemanha, se surpreendeu quando viu um grupo de alunos, de sete e oito anos, assistindo à aula de valores – isto mesmo, valores: ética, moral, bom comportamento, etc. Uma garotada que, a partir daquela discussão, assumiria compromissos de melhoria da sua cidade.

 

Terminou sua fala, antes de intensa sessão de perguntas e respostas, recomendando que continuemos a pressionar nossos representantes, a fiscalizar as ações no poder legislativo e a interferir na política local. E ratificou nossa luta no Adote um Vereador, iniciada em 2008, assim como de todos os demais que atuam em organizações sociais ou individualmente – alguns presentes no encontro – nos convidando a “engrossar o caldo da cultura política, no Brasil”.

 

O Adote um Vereador agradece a gentileza de Humberto Dantas de nos ajudar a pensar um pouco mais profundamente sobre a política – assim como agradecemos a disposição do Pateo do Colégio de nos abrir espaço tão nobre na casa para esta pensata. E deixa ao professor a garantia de que saímos de lá dispostos a colocar ainda mais farinha neste pirão.

"Meio passo à frente", diz Voto Consciente sobre Mesa Diretora

Por Danilo Barboza
Diretor Geral do Movimento Voto Consciente

 

Soube pelo jornalista Milton Jung, da CBN, que a reunião da Mesa Diretora da Câmara de São Paulo, realizada na última terça-feira 8 de agosto, foi aberta ao público. Pela mesma fonte, soube que não foi transmitida pela internet. Meio passo à frente, então. Soube ainda que a Web Rádio da Câmara estranhou o não comparecimento de organizações da sociedade civil àquela reunião. Fui à página da Rádio, e sob o título Vereadores se reúnem para tratar de assuntos administrativos, escrito por Jean Silva, encontrei “As reuniões da Mesa Diretora são abertas para a participação das organizações da sociedade civil, mas apesar disso nenhuma compareceu.”

 

Não conheço Jean Silva, mas ele com certeza entrou este mês para a Câmara. Se estivesse lá há mais tempo, saberia que as reuniões da Mesa eram abertas na legislatura passada, e foram fechadas por todo o primeiro semestre deste ano por decisão da Mesa Diretora empossada nesta. Saberia também que o motivo alegado para tal fechamento foi que nas reuniões se discutiam licitações públicas, e sua análise em reuniões abertas poderia prejudicar o processo licitatório. Talvez soubesse ainda das contestações que fizemos, nós do Movimento Voto Consciente, a esta decisão, inclusive mostrando-a falaciosa, pois as decisões sobre compras eram e são tomadas pela Comissão de Licitação, e meramente homologadas ou rejeitadas pela Mesa.

 

Note-se que, na matéria mencionada, foi relatado que entre os temas discutidos na reunião estavam várias aquisições e substituições de equipamento, todas elas necessariamente assunto de licitações, presentes ou futuras. Ora, ou o motivo alegado não era real – e quando do fechamento da primeira reunião do ano, a que as organizações estavam presentes, o motivo oferecido foi outro – ou os membros da Mesa mudaram seu entendimento sobre o sigilo da discussão das licitações.

 

O que Jean Silva não poderia no entanto saber é que, na reunião de instalação da CPI dos transportes, o Presidente da Casa nos prometeu verbalmente que as reuniões passariam a ser abertas no segundo semestre, e que ele avisaria a sociedade desta mudança. No Movimento Voto Consciente, não recebemos qualquer aviso.
Finalmente nós e as outras organizações da sociedade civil dependemos da agenda da Câmara para saber o que acontecerá na Casa a cada dia. Na terça-feira dia 8 não havia menção de reunião da Mesa Diretora.

 

O importante disto tudo, no entanto, é que as reuniões serão abertas doravante, e por esta mudança damos parabéns aos vereadores. Tentaremos estar presentes a cada uma, mas talvez seja necessário optar por assistir à alguma pela internet, em cujo caso esperamos que a transmissão das reuniões também seja aberta.