Em lugar de “lacração”, UNICEF propõe que candidatos se comprometam com cinco prioridades em defesa de crianças e adolescentes

Foto: Unicef

O UNICEF fez um apelo crucial aos candidatos e candidatas das eleições municipais de 2024, pedindo um compromisso com os direitos das crianças e adolescentes, enfatizando a necessidade de políticas públicas que garantam proteção, desenvolvimento e bem-estar para as novas gerações. Essa iniciativa, respaldada pelos princípios do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), aponta cinco prioridades essenciais que devem ser incorporadas nos planos de governo dos futuros gestores municipais.

Quem me alertou para a importância desta ação do Fundo das Nações Unidas pela Infância foi Cezar Miola, vice-presidente da Atricon, que reúne os tribunais de conta do país. Sempre atento às questões relacionadas à educação, Miola destacou a importância desse chamamento do Unicef ao afirmar que, “esses compromissos, se vertidos em ações materiais, serão transformadores para o país”. 

Miola ressalta que não apenas os candidatos às prefeituras devem adotar essas causas, mas também aqueles que concorrem às Câmaras Municipais. “Ali serão votadas as matérias e decididos os orçamentos capazes de garantir que as propostas se concretizem,” destacou o conselheiro do TCE-RS, apontando para a necessidade de uma gestão pública comprometida e eficaz na defesa dos direitos das crianças e adolescentes.

Apesar de a clara preocupação de candidatos, neste momento, ser a “lacração” — o exercício de encontrar um jeito de viralizar com suas opiniões e comportamentos nas redes sociais —, o cidadão pode impulsionar propostas como a do UNICEF. Minha sugestão é que o eleitor cobre dos candidatos a prefeito e a vereador que assinem esse compromisso e incluam em seus planos de governos as cinco prioridades apresentadas pelo UNICEF.

Conheça as prioridades para crianças e adolescentes

Entre as prioridades, a proteção contra a violência ocupa um lugar central, devido ao preocupante número de mais de 15 mil mortes violentas de crianças e adolescentes entre 2021 e 2023. O UNICEF pede ações concretas para prevenir, identificar e acompanhar casos de violência, garantindo um ambiente seguro para todos os meninos e meninas.

A segunda prioridade é a resiliência climática, uma resposta urgente à exposição de 40 milhões de crianças e adolescentes a riscos ambientais, como enchentes, secas e ondas de calor. O UNICEF enfatiza a necessidade de estratégias municipais para mitigar esses riscos e proteger a saúde e o desenvolvimento das novas gerações.

Educação é a terceira prioridade, essencial para que as crianças não apenas acessem a escola, mas permaneçam nela e aprendam com qualidade. Em 2023, 44% das crianças brasileiras não estavam alfabetizadas na idade esperada. O UNICEF destaca a importância de investimentos que garantam um ensino de qualidade, especialmente na Educação Infantil e no Ensino Fundamental.

A quarta prioridade é a saúde e nutrição, com foco em promover a imunização universal e combater a má nutrição desde a primeira infância. Dados de 2023 revelam que mais de 100 mil crianças no Brasil não receberam as vacinas básicas contra difteria, tétano e coqueluche, evidenciando a urgência de políticas públicas de saúde.

Por fim, o UNICEF pede que se priorize a proteção social para os mais vulneráveis, enfrentando a pobreza multidimensional que afeta 60,3% das crianças no país. Políticas públicas de proteção e assistência social, focadas nas necessidades das crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, são fundamentais para garantir seus direitos e promover uma sociedade mais justa e igualitária.

Esses compromissos devem ser assumidos já durante a campanha eleitoral, para que, uma vez eleitos, os futuros gestores possam garantir a concretização dessas prioridades em políticas públicas e investimentos. Como observou Miola, além dos prefeitos, os vereadores têm um papel crucial nesse processo, pois é no âmbito legislativo que as decisões sobre orçamentos e políticas serão feitas. 

O chamado do UNICEF é, portanto, um apelo não apenas aos candidatos, mas a toda a sociedade, para que esses direitos sejam uma realidade tangível na vida de milhões de crianças e adolescentes em todo o Brasil.

Nos 70 anos do Ibirapuera, uma lembrança do Ouvinte da CBN

(Texto publicado originalmente no dia 1 de dezembro de 2023)

Por José Carlos Vertematti

Ouvinte da CBN

Imagem de arquivo da “Aspiral”, de Oscar Niemeyer

Eram 21 de Agosto de 1954. Eu tinha apenas cinco anos de idade mas me lembro muito bem deste dia maravilhoso! Meus pais, José e Vicentina, levaram minha irmã Rosinha e eu a uma grande festa: a inauguração do Parque do Ibirapuera, em comemoração ao IV Centenário da cidade de São Paulo.

Uma área verde imensa, gramada, arborizada, com lagos, aves, chafarizes e vários prédios culturais que, para um garotinho como eu, parecia ser o mundo todo!

Passeamos muito a pé e o que mais me intrigou foi o sistema de som do parque: podia-se ouvir claramente as mensagens e as músicas, em qualquer lugar e com o mesmo volume. Eu, ainda pequenino, não entendia como isso era possível, mas hoje imagino a complexidade de se instalar um sistema de alto-falantes em árvores e prédios, ao longo de todo o parque, e garantir um som perfeito e equilibrado, naquela época!

Durante o passeio vimos um monumento lindo que tinha uns 17 metros de altura e que é difícil de descrever: algo como uma espiral com as extremidades unidas entre si por uma reta, fundeado no chão com uma inclinação de cerca de 60 graus.

Soubemos que era uma obra de arte criada pelo magnífico arquiteto Oscar Niemeyer. a “Aspiral” ou “Voluta Ascendente” era um desenho que representava o crescimento e o progresso paulista. Estava instalada próxima à entrada principal do parque. Era para ser a imagem da cidade de São Paulo, assim como o Cristo Redentor é do Rio de Janeiro.

Infelizmente, por motivos estruturais, este monumento não resistiu às forças da natureza e, em pouco tempo, veio abaixo e foi destruído! Hoje, só o vemos impresso na embalagem dos Dadinhos, aqueles chocolates com sabor de amendoim, que existem desde 1954. Aparece também na fachada de algumas casas que resistiram ao tempo. 

Outra atração marcante foi a intensa chuva de prata, feita através de triângulos de papel metalizado que refletiam a luz criando um clima mágico. Após uma longa caminhada, maravilhados com a imensidão e beleza do novo parque, descansamos e fizemos um merecido piquenique no Ibirapuera.

Conheça aqui a história da Aspiral, a estátua que desabou no parque

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

José Carlos Vertematti é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: a dura lição que o Grêmio precisa aprender

Fluminense 2 (4) x 1 (2) Grêmio

Libertadores – Maracanã, Rio de Janeiro/RJ

Foto de Lucas Uebel/GremioFBPA

O Grêmio, mais uma vez, nos deixou com aquela sensação amarga de uma oportunidade perdida. E, embora seja doloroso ver o time que amamos ser eliminado, há uma lição poderosa que podemos tirar disso: o peso da prepotência nas nossas decisões.

Em muitos momentos da vida, somos tentados a acreditar que as vitórias do passado garantem os sucessos do futuro. É fácil nos agarrarmos às conquistas anteriores, esquecendo que cada nova batalha requer o mesmo empenho, a mesma humildade e, muitas vezes, até mais dedicação do que a última. O Grêmio já nos deu tantas alegrias, tantas taças levantadas que, às vezes, podemos cair na armadilha de achar que o simples peso da camisa é suficiente para vencer qualquer desafio. Mas o futebol, como a vida, não perdoa a arrogância. Não é porque fomos grandes ontem que seremos invencíveis hoje.

Aqui entra o mito da imortalidade, uma marca tão forte do Grêmio. Esse mito, que nos enche de orgulho e nos dá esperança em momentos difíceis, precisa ser entendido na sua verdadeira essência: é uma metáfora, uma inspiração, mas não um fato concreto. A imortalidade, no futebol, não é sobre nunca cair, mas sobre sempre se levantar. E, mesmo assim, devemos reconhecer que cada nova ascensão exige esforço, trabalho e, sobretudo, humildade — e tenho a sensação de que esta nos tem feito falta.

Aceitar nossas fragilidades, admitir que nem sempre fazemos as melhores escolhas, não diminui nossos méritos — ao contrário, os enaltece. Há força em reconhecer que podemos falhar, que às vezes o adversário é melhor, que as condições nem sempre estão a nosso favor. Esse reconhecimento não é fraqueza, mas sabedoria. Afinal, quem entende suas limitações está mais preparado para superá-las.

Assim, ao olharmos para mais essa eliminação, é essencial entender que o mito da imortalidade serve para nos motivar a seguir em frente, a lutar com coragem, mas não para nos cegar diante das nossas fragilidades. Aceitar que somos falíveis, que podemos e iremos falhar, não enfraquece o Grêmio — ao contrário, o fortalece, pois nos permite aprender, evoluir e, quem sabe, nos preparar melhor para as vitórias futuras.

Que o mito continue a nos inspirar, mas que jamais nos esqueçamos de que, no futebol, como na vida, a imortalidade é uma ideia, um ideal, e não uma realidade garantida. A verdadeira grandeza está em como reagimos quando confrontados com a nossa mortalidade, quando reconhecemos que, mesmo caindo, somos capazes de nos reerguer, mais fortes e mais sábios. Mas para isso é preciso alguém disposto a aceitar a crítica e rever seus conceitos.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quando o rebranding se torna um risco iminente

Photo by Olya Kobruseva on Pexels.com

Mudar a marca de uma empresa é ação tão tentadora quanto perigosa, especialmente se feita no afogadilho, como se dizia nos tempos em que ‘rebranding’ ainda não fazia parte da língua portuguesa (contém ironia). O alerta foi feito por Jaime Troiano e Cecília Russo, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, que vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN. Verdade seja dita: os dois há muito tempo questionam a angústia de alguns gestores em querer mexer e remexer na marca da sua empresa, serviço ou produto.

Jaime Troiano destacou como algumas empresas têm se apressado em realizar o rebranding, influenciadas por uma percepção interna de envelhecimento da marca. “Muitas vezes, esse sentimento vem de dentro da própria empresa, enquanto os consumidores ainda veem valor na marca existente”, afirmou. 

Se você enfrenta a mesma tentação, não se culpe: é comum gestores sentirem a necessidade de mudar, motivados por pressões internas ou pela concorrência. Jaime, sem medo de usufruir da força de marcas ou frases do passado, lembra: “os cães ladram e a caravana passa”. Ou seja, é preciso fazer da marca um ponto de referência permanente, em vez de seguir tendências de mercado sem uma análise criteriosa e mudar apenas porque os outros estão dizendo que é preciso renovar.

Cecília Russo reforçou os riscos associados a mudanças bruscas, especialmente quando motivadas por fusões ou aquisições. “Mesmo que uma marca desapareça, lembre-se de que ela foi comprada porque algo de bom tinha”, destacou Cecília, argumentando que é fundamental manter elementos da identidade visual da marca original para garantir uma transição suave e respeitar o legado construído. 

Considerando que há casos em que o rebranding seja realmente necessário, Cecília aconselha que a mudança seja com muita cautela: “Obedeça de forma quase religiosa os guard rails da marca, aquilo que faz com que ela seja lembrada e conectada com sua história anterior.”

A marca do Sua Marca

A principal lição do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso é que os gestores sejam prudentes. Diante das incertezas ou falta de consenso na liderança, a marca deve ser mantida como está. “Em dúvida, a marca é inocente, não mude”, diz Jaime Troiano.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: A Arena vem aí, Olê! Olê! Olá! 

Grêmio 0x2 Bahia

Brasileiro – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul/RS

Torcida no Alfredo Jaconi em foto de Lucas Uebel

O fim de semana foi de tristeza, lembranças e saudade. A morte de Sílvio Santos, aos 93 anos, marcou o noticiário e tomou conta das rodas de conversa, do balcão da padaria às redes sociais. As reportagens que ocuparam os espaços jornalísticos, assim como os comentários que circularam pelo WhatsApp e afins, expressavam a relevância do apresentador de televisão e dono do SBT. 

Sílvio Santos fez parte da vida dos brasileiros. As músicas características de seus vários quadros de sucesso, seus bordões e gargalhadas foram trilha sonora dos nossos domingos, mesmo quando eu preferia outro tipo de diversão. Invariavelmente, havia uma tia, uma vizinha ou o pai de um amigo sintonizado no programa do Sílvio. Outras vezes era um colega disposto a imitá-lo ou alguém a copiar suas frases de sucesso: “Sílvio Santos vem aí! Olê! Olê! Olá!”

Hoje cedo, em um dos grupos de WhatsApp dos quais participo, havia alguém escrevendo que já sentia saudades pela ausência dele nos domingos.  Curioso, porque o apresentador estava fora do ar desde o ano passado. Ao mesmo tempo, justificável: Sílvio é daquelas figuras que de tão forte e carismática se faz onipresente. Parece que o assistimos ontem falando, gesticulando e sorrindo na tela da televisão. Tem-se a impressão de que amanhã, lá estará ele rodando o pião, forjando suspense, brincando com a plateia e rindo de si mesmo. 

O que não deixará saudade — e aqui me permito virar a página desta Avalanche, caro e cada vez mais raro leitor — é este período dramático que o Grêmio vive desde quando a enchente no Rio Grande do Sul afastou o time de seu estádio. A última partida na Arena Grêmio foi no fim de abril, oportunidade em que venceu o Cuiabá por 1 a 0. Desde então, o Grêmio foi forçado a viver como um itinerante, treinando e jogando em locais emprestados ou pagando caro para sediar as partidas que lhe eram de direito, quase sempre fora do Rio Grande do Sul.  

A derrota para o Bahia, no sábado, em Caxias do Sul, foi o último jogo desta triste jornada de andarilho, período em que fomos desclassificados da Copa do Brasil e rondamos aquela zona-que-você-sabe-qual-é, no Campeonato Brasileiro. 

Em junho, o Grêmio voltou a treinar em seu CT, em Porto Alegre, e, em 1º de setembro, retornará à Arena quando enfrentará o Atlético Mineiro, pelo Brasileiro. Por coincidência, time que fez uma das mais belas homenagens ao Rio Grande do Sul, assim que o estado foi destruído pela tragédia ambiental. Antes da volta, ainda temos duas partidas fora de casa, contra o Fluminense, na busca da vaga às quartas-de-final, da Libertadores, e o Criciúma, pela 24º rodada do Brasileiro. 

Em meio a estes dias de tristeza, lembranças e saudade, ao menos uma boa notícia: nossa vida de desalojado acabou! 

A Arena vem aí, Olê! Olê! Olá! 

Dia do Solteiro: um casado se metendo onde não é chamado

Foto: Pexels

Neste 15 de agosto em que se comemora o Dia do Solteiro, aqui no Brasil, me pego refletindo sobre um marco pessoal: com 61 anos completados recentemente, já vivi mais tempo casado do que solteiro. E isso me faz pensar: será que ainda tenho a habilidade de falar sobre a vida dos solteiros, ou perdi essa “licença poética” ao adotar de vez a camiseta dos comprometidos?

Lembro-me em parte de quando era solteiro, tempos em que a vida parecia uma mistura de liberdade e busca constante. Liberdade para sair a hora que quisesse, viajar sem planejar muito, tomar decisões sem precisar consultar ninguém. Mas a busca – e como ela podia ser exaustiva! Nos bares, nas festas, nos eventos sociais. Sempre à procura daquela conexão que fosse além da superficialidade.

Hoje, a tecnologia tornou tudo isso diferente. O que antes demandava esforço e presença física, agora cabe na palma da mão. Aplicativos, redes sociais, um mundo de possibilidades ao alcance de um deslize do dedo. Será que essa facilidade compensa? Fico me perguntando se, ao reduzir as interações a cliques e likes, não estamos perdendo algo essencial. A conversa que flui, o olhar que diz mais do que palavras, o toque que reforça a conexão – será que isso tudo se preserva no mundo digital?

Os números me surpreendem. O Brasil, com seus 81 milhões de solteiros, superando os 63 milhões de casados. Um fenômeno global, dizem. E nas redes sociais, o que já foi um assunto pessoal, quase íntimo, virou tema de conversa aberta. Leio na newsletter Cartograma que a Statista detectou um aumento de 4.000% nas discussões sobre relacionamentos entre 2022 e 2023. Parece que todo mundo tem algo a dizer sobre estar ou não estar em um relacionamento. Aliás, cá estou eu a dar palpite neste assunto.

Apesar de aparentemente não ter lugar de fala no tema em questão, vamos aos fatos. E fatos científicos. Estudos mostram que o estado civil impacta diretamente na saúde física e mental. Pessoas casadas tendem a apresentar melhores indicadores de saúde física e mental comparadas aos solteiros, mas isso depende muito da qualidade do casamento. Um estudo publicado no *Journal of Marriage and Family* revelou que pessoas em casamentos saudáveis relatam menos depressão e maior satisfação com a vida. Contudo, em casamentos disfuncionais, esses benefícios desaparecem, tornando os efeitos tão negativos quanto estar solteiro.

Por outro lado, solteiros frequentemente possuem uma rede social mais ativa, o que contribui para uma maior sensação de liberdade e autonomia. Eles também tendem a buscar novas experiências e a investir mais em suas habilidades pessoais. A tecnologia, ao facilitar as conexões iniciais, pode não substituir a profundidade de um relacionamento, mas certamente redefine as regras do jogo.

Uma vantagem inegável de estar casado é não ser alvo de certos preconceitos que os solteiros enfrentam. Frases como “Você é tão bonito, por que ainda está solteiro?” ou “Não vai arrumar ninguém?” continuam a incomodar e reforçar estigmas. Essas perguntas podem gerar desconforto e sugerir que estar solteiro é uma condição transitória ou indesejável, o que nem sempre é o caso.

Sem sequer ser capaz de descobrir por que no Brasil se comemora o Dia do Solteiro em 15 de agosto — na China é 11 de novembro e já se transformou em um sucesso comercial, enquanto nos Estados Unidos é em 15 de fevereiro —, sigo minha jornada, refletindo que, no fim das contas, seja casado ou solteiro, o que realmente importa é estar em paz consigo mesmo. A verdadeira realização vem de uma conexão genuína com quem somos, sem importar o estado civil que nos define no papel. Afinal, a vida é feita de escolhas, e a mais importante delas é ser feliz do jeito que for melhor para você.

Cansados do cansaço!

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de Neslihan Ercan

“Que cansaço”; “Não aguento, estou cansado”; “O cansaço não me deixa”; “Vai você, estou cansado”; “Durmo, durmo, mas estou sempre cansado!”

Uma sociedade sem energia. Uma humanidade à caça de motivação, vontade, disposição.

Olhos caídos, ombros caídos, corpo lento… O cansaço transborda na imagem, na postura, no tom de voz – transborda no silêncio, inclusive: “Ah Estou cansado demais pra falar, pra brigar, pra conviver… Deixa pra lá.”

O cansaço, muitas vezes, transborda também na irritação à flor da pele, no pavio curto, na falta de paciência pra esperar – e, assim, traz mais problemas pra lidar e… quem diria, mais cansaço.

Para onde foi a energia das pessoas? Onde está a gana, a garra, a habilidade de tentar e fazer e cair e levantar?!?

Para onde foi a vida das pessoas? Porque energia é vida, energia é o que movimenta, o que gera ação, o que constrói e empurra pra frente. Qual será o destino de pessoas tão cansadas?

Os motivos, provavelmente, são diversos – depende de cada indivíduo, cada forma de pensar e sentir, cada forma de agir (ou não agir no mundo) …

Mas como podemos REagir?

Como podemos começar a sair desse lugar de tão pouco, tão escasso, tão frágil?!

Alegrias. O cérebro humano precisa de alegrias, de pílulas de cor e brilho! Não há quadro bonito com pura tela branca. Não há vida feliz com “puro” trabalho + pagamento de contas + resolução de problemas + sofá + cama.

É necessário mais. Colocar pitadas de amarelo e azul e vermelho e verde! É preciso luz do Sol enquanto descansa alguns minutos; é preciso azul do lago ou do Céu enquanto o olhar se acalma; é preciso amor do abraço ou do cafuné no cabelo; é preciso os tons de verde das árvores e plantas que enfeitam e merecem ser admiradas num silêncio passageiro…

Alegrias. Traga momentos de alegrias para sua vida, para sua rotina, para os “seus dias comuns”.

As alegrias empurram o cansaço para o lado e te preenchem de energia, de motivação, de vida.

Vamos ser uma humanidade viva!

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: o Grêmio resiste na Libertadores!

Grêmio 2×1 Fluminense

Libertadores – Couto Pereira, Curitiba PR

Reinaldo marca dois em vitoria gremista. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A vitória de virada, nesta noite gelada de Curitiba, está em sintonia com as conquistas recentes na Libertadores. Apesar do que ocorria no Campeonato Brasileiro e da desclassificação na Copa do Brasil, o Grêmio conseguiu expressar a bravura que sempre marcou sua história na competição sul-americana.

Esta foi a quarta partida que disputamos na Libertadores desde o drama causado pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Durante esse período, obrigado a treinar longe de Porto Alegre e sem o direito de jogar em seu estádio, o Grêmio goleou o The Strongest, da Bolívia, venceu o Huachipato, no Chile, e empatou com o Estudiantes. Essa sequência de jogos nos classificou para as oitavas de final, contrariando as expectativas de muitos que previam nossa eliminação da Libertadores.

No jogo em que nos despedimos do Couto Pereira, em Curitiba, mesmo saindo atrás no placar, mais uma vez o time encontrou forças para reverter o resultado e levar a vantagem para a partida de volta, no Rio de Janeiro. Apesar de algumas dificuldades técnicas, o Grêmio soube reagir com intensidade no ataque, pressionou o adversário e aproveitou as chances que surgiram.

O pênalti resultou dessa pressão, especialmente pelo lado direito, onde Soteldo encontrou espaço para seus dribles e cruzamentos. Reinaldo empatou com uma cobrança clássica e precisa: um chute forte, alto e sem chances para o goleiro. Três minutos depois, novamente pelo lado direito e com Soteldo provocando a falta, abriu-se o caminho para a virada. Reinaldo, com seu talento para bater na bola, marcou o gol da vitória.

A expulsão de Rodrigo Ely – em uma decisão injusta do árbitro, que viu apenas a agressão do zagueiro gremista e não puniu a atitude também antidesportiva de Ganso – serviu para tornar a vitória ainda mais dramática. Tivemos de jogar mais de dez minutos com um jogador a menos, mas vencemos, mesmo assim. A decisão foi adiada para a semana que vem, como era de se esperar.

O que importa é que o Grêmio, apesar de tudo, de todos e de si mesmo, resiste na Libertadores!

O desafio de preservar a escrita de qualidade diante da tentação da IA

Imagem criada por DALL-E, via OpenAI.

Nesta semana, enquanto revisava arquivos guardados na memória do meu computador, deparei com dois textos que, apesar de publicados em momentos bastante distintos, dialogam de maneira surpreendente com o contexto atual em que vivemos. O primeiro, um artigo de Umberto Eco, publicado no jornal *La Nación*, da Argentina, em 1991. O segundo, um texto recente de Ruy Castro, que li na “Folha de São Paulo”, de 2023. Ambos os textos me levaram a refletir sobre um tema que tem estado cada vez mais presente em nossas discussões: a importância de exercitarmos a qualidade da escrita diante da ascensão da inteligência artificial.

No artigo de Umberto Eco, o filósofo, escritor e semiólogo italiano refletia sobre o temor que os sábios da Antiguidade tinham em relação à invenção da escrita e, posteriormente, dos livros. Eles acreditavam que esse novo instrumento poderia alterar o comportamento humano, limitando a capacidade de memória e de pensamento crítico. É curioso perceber que, mesmo tantos séculos depois, esses medos ainda ressoam, agora em um novo contexto. A inteligência artificial, com sua capacidade de gerar textos e ideias de forma quase automática, nos faz questionar: será que as máquinas poderão limitar ou até substituir a criatividade humana?

Já Ruy Castro, jornalista e escritor brasileiro, em seu texto mais recente, faz uma análise crítica e bem-humorada sobre o conceito de “escrever bem”. Para ele, ninguém realmente “escreve bem” de primeira. Escrever é, na verdade, um exercício de reescrita. É no processo de revisar, cortar excessos, eliminar palavras ou frases desnecessárias e clarificar a mensagem que reside o segredo de um bom texto. Castro nos lembra que a escrita é um ato de reflexão, que exige tempo, paciência e, acima de tudo, autocrítica.

Ao comparar essas duas leituras, fico impressionado com a atualidade das preocupações de Umberto Eco e a pertinência das observações de Ruy Castro. Eco nos alerta para o risco de confiarmos demais nas tecnologias que, embora úteis, podem nos afastar do processo criativo essencial para a produção do conhecimento humano. Por outro lado, Castro nos mostra que a boa escrita não é fruto de genialidade espontânea, mas de um trabalho árduo de refinamento e aprimoramento contínuo.

Nesse cenário, a inteligência artificial surge como uma ferramenta poderosa, capaz de produzir textos com uma velocidade e precisão impressionantes. No entanto, há uma preocupação legítima de que essa facilidade possa nos levar a perder a profundidade e a qualidade que caracterizam a escrita humana. Quando deixamos as máquinas fazerem o trabalho por nós, corremos o risco de nos distanciarmos do processo criativo, que envolve não só a reflexão e a dúvida, mas também a reescrita e, muitas vezes, a frustração de não alcançar imediatamente o resultado desejado.

Eco nos lembra que os livros prolongam a vida ao preservar a memória e o conhecimento. Mas esses livros foram escritos por mãos humanas, imbuídas de sentimentos, pensamentos e experiências únicas. A inteligência artificial, por mais sofisticada que seja, ainda não consegue capturar essa dimensão humana. Ela pode imitar estilos, reproduzir padrões, mas não substitui a alma que se revela em cada frase cuidadosamente escolhida, em cada ideia que emerge do conflito entre o que queremos dizer e o que conseguimos expressar.

Portanto, ao nos depararmos com o avanço da inteligência artificial, torna-se mais importante do que nunca exercitarmos a qualidade da nossa escrita. Devemos encarar a IA não como uma substituta, mas como uma ferramenta que pode nos ajudar a alcançar novos patamares de criatividade, desde que sejamos nós, seres humanos, a guiar o processo. A escrita é uma das formas mais íntimas de expressão do ser humano, não apenas para comunicar ideias, mas também para transmitir emoções, experiências e, em última análise, nossa própria humanidade.

Exercitar a escrita frente a ascensão da inteligência artificial é reafirmar nosso compromisso com o que nos torna únicos. É garantir que, mesmo em um mundo dominado por máquinas, a essência do que significa ser humano – com toda a sua complexidade e profundidade – continue a ser preservada, celebrada e transmitida às futuras gerações.

Assim, a lição de Ruy Castro se torna ainda mais relevante: reescrever é essencial. É preciso ter a coragem de revisar o que as máquinas produzem, de refinar e humanizar, garantindo que a palavra escrita continue sendo uma extensão do pensamento e da alma humana, e não apenas um conjunto de algoritmos friamente calculados. Porque, no fim, é a nossa capacidade de criar, refletir e expressar que define a verdadeira qualidade da escrita – e isso, nenhuma máquina pode substituir. 

Entre o luto e o ouro

As emoções se entrelaçaram de forma contraditória, nestes últimos dias. Fomos levados a extremos que desafiam nossa compreensão e nossa capacidade de reação. Na sexta-feira, uma tragédia se abateu sobre Vinhedo, no interior de São Paulo, onde um avião caiu, levando consigo as vidas de 62 pessoas. Naquele mesmo instante, estávamos tomados pela euforia dos Jogos Olímpicos de Paris. Acompanhávamos em êxtase o ouro conquistado pelas atletas brasileiras do vôlei de praia, Ana Patrícia e Duda; a prata do canoísta Isaquias Queiroz; e o bronze de Alison dos Santos, no atletismo.

Essa dualidade de sentimentos, de dor e de celebração, nos coloca diante de um desafio único, tanto para o público quanto para nós, jornalistas. Eu já estava fora do ar quando o acidente aéreo foi confirmado e acompanhei à distância a tentativa dos colegas na redação em equilibrar a cobertura de uma tragédia de proporções tão devastadoras com a exaltação de conquistas esportivas que simbolizam o esforço, a superação e o orgulho de uma nação. Como transmitir a dimensão de uma perda irreparável sem deixar de reconhecer o mérito e a felicidade daqueles que, após anos de dedicação, alcançaram o topo de suas carreiras?

O escritor e filósofo Albert Camus, em sua obra “O Mito de Sísifo”, explora a ideia do absurdo da existência, uma sensação que muitos de nós experimentamos quando confrontados com situações como essas. Camus argumenta que, mesmo diante do absurdo, o ser humano deve buscar significado e continuar sua jornada. Essa visão pode nos ajudar a entender que a celebração das conquistas olímpicas não diminui a gravidade da tragédia aérea, assim como o luto pelas vidas perdidas não deve obscurecer a alegria daqueles que alcançaram o sucesso. 

Da mesma forma, o filósofo Friedrich Nietzsche, em “Assim Falou Zaratustra”, explora a profundidade da existência humana e os extremos que vivenciamos, como a dor e a alegria. Nietzsche nos desafia a abraçar a vida em sua totalidade através do conceito do “eterno retorno”, que propõe que cada momento, seja de felicidade ou de sofrimento, deve ser vivido como se estivesse destinado a se repetir infinitamente. Essa ideia nos convida a aceitar a convivência desses sentimentos contrastantes e a encontrar uma forma de viver que permita honrar tanto a memória das vítimas quanto celebrar o triunfo dos atletas, sem arrependimentos.

O papel do jornalismo, nesse contexto, é justamente o de ser o mediador entre esses extremos, oferecendo ao público uma cobertura que respeite a gravidade da tragédia e, ao mesmo tempo, celebre os feitos daqueles que superaram limites para representar o país no cenário internacional. Não podemos permitir que a existência de um fato desmereça o outro. A dor e a alegria, o luto e a celebração, fazem parte da condição humana e, como tal, devem ser abordados com a devida sensibilidade e respeito.

Ao final, cabe a cada um de nós, como indivíduos e como sociedade, aprender a lidar com essa dualidade, reconhecendo que, apesar de estarmos imersos em uma realidade que nos apresenta cenários tão distintos, somos capazes de encontrar força para seguir em frente, carregando em nossos corações tanto as lágrimas da perda quanto as da vitória.