O rádio em que narrei meus jogos de botão

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Graphic13454

 

Em sua última Avalanche Tricolor antes do recesso do futebol dos clubes – o que mais me agrada,diga-se de passagem – o Mílton filho me surpreendeu quando, no seu blog,a foto que ele usou me despertou o tipo de saudade que vai e que vem e, mesmo às vezes tardando, ressurge na minha mente. Ocorre que ele colocou uma foto de seus velhos botões,inclusive com o rosto do Danrlei em um deles.

 

Para quem não leu a Avalanche que me trouxe boas lembranças,explico que os “jogadores” eram azuis e o Mílton,no seu texto,escreveu que eles deveriam estar em algum lugar entre Porto Alegre e São Paulo. Disse-lhe que estavam comigo,guardados há não sei quantos anos. Valeu a pena o meu zelo não apenas com esses botões azuis,mas com todos os demais,guardados com carinhoso cuidado em uma caixa de sapatos,na companhia das goleiras,essas roídas e cansadas de tanto esperar por Danrlei.

 

O meu passado com botões é bem mais antigo do que o do Mílton. Os meus primeiros adversários em campeonatos e amistosos ocorreram no pátio da minha casa,na inesquecível Rua 16 de Julho. Não é só dos botões que lembro com saudade,mas dos meus adversários,amigos que cultivei até e mudar de residência. Deixei a casa paterna e fui morar sozinho já me considerando maduro e pronto para casar com Ruth,cujo pai,que era construtor,havia erguido um pequeno edifício. Casei e,finalmente,fiquei acompanhado pela minha jovem mulher.Jacqueline e Mílton nasceram quando ainda morávamos na Cairu,ambos no Hospital Cristo Redentor. O Christian veio à luz no Moinhos de Vento.

 

Com um ano,o Mílton fez companhia aos pais e aos irmãos.Então,havíamos nos mudado para a Saldanha Marinho. Os botões do Cruzeiro,Grêmio,Barcelona e Santos,foram chamados à luta novamente. Os amigos de minha infância ficaram na 16 de Julho. Eu já estava na Rádio Guaíba. Primeiro,jogávamos na casa de um deles. Depois,nas mesas da Associação dos Cronistas Esportivo. Os meus adversários eram os colegas da Guaíba e do Correio do Povo.

 

Sou obrigado a confessar que o episódio mais marcante deste botonista teve lugar na mesa do pátio da casa da 16 de Julho. O meu pai comprara um rádio – o Wells – importado dos Estados Unidos.Descobri, não queiram saber como, que o aparelho possuía uma entrada para toca-discos. Não sei o que deu na minha cabeça,mas resolvi plugar um par de fones de ouvido na tal entrada. Usei um dos fones como se fosse um microfone e,”milagre”,a minha voz saiu clara pelo alto-falante do Wells. Os vizinhos não devem ter ficado contentes com a narração dos nossos jogos de botão feitas por mim.

 

Não recordo se foi nos fones de ouvido que, pela primeira vez, ouvi minha voz não no “rádio”. Logo eu estava dando pitacos na “Voz Alegre da Colina”. Com certeza, foi a primeira vez que falei alto e bom som em um microfone de verdade. “A Voz Alegre da Colina” foi o primeiro movimento para que se angariasse fundos destinados a fazer da igreja situada no topo de uma colina a Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

 

Depois disso,parei de bancar o locutor:fiz um teste na Rádio Canoas,passei e nunca mais deixei o rádio tendo trabalhado apenas em duas emissoras:a Canoas e a Guaíba.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista,radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)