Sobre o sentimento de abandono

Por Beatriz Breves

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O sentimento de abandono, quando vivido em sua forma mais intensa, pode fazer o tempo parecer arrastado, o espaço tornar-se áspero e a dor ocupar toda a região interna do peito. É uma experiência que pode emergir da ausência de alguém, do enfraquecimento de um vínculo ou da quebra de expectativas que sustentavam a sensação de pertencimento. Em muitos casos, sentir-se abandonado equivale a perceber o chão se desfazendo sob os próprios pés.

É natural existirem diferentes intensidades desse sentimento, variando desde pequenos abandonos até vivências mais profundas. Inclusive, experimentar pequenos abandonos se faz até necessário para que a pessoa aprenda a se cuidar melhor e a se acompanhar com mais presença de si mesma.

Há também diversas defesas para evitar o sofrimento associado ao abandono. Entre elas, observa-se quem, movido pelo medo da perda, abandona antes de ser abandonado. Há ainda quem recorra a subterfúgios externos — às vezes evidenciados por excessos de ação — na tentativa de não entrar em contato com a dor, defesa que vale para qualquer forma de sofrimento.

Ainda assim, o abandono costuma vir acompanhado do desamparo, que ressoa em solidão, angústia, desespero, insegurança e tantos outros sentimentos. Acrescenta-se ser comum a sensação de um vazio interno que revela o quanto a pessoa se sente só diante da própria existência. A gravidade desses sofrimentos dependerá da intensidade com que se manifestam e do quanto paralisam a vida de quem os vivencia.

Fato é que sentir-se só pode nos afastar de nós mesmos e nos levar a perder nossas referências internas. É nesse movimento que pode emergir um abandono ainda mais sofrido: a renúncia de nós por nós mesmos.

É fácil compreender que, quando nos abandonamos, atropelamos a dor que sentimos, silenciamos necessidades legítimas e seguimos adiante sem nos escutar. Aspectos importantes de quem somos são colocados à margem, deixando-nos em desamparo e sem acolhimento, promovendo uma grande desarmonia interior. A desconexão interna então se impõe.

Entretanto, quando percebemos que nossas lágrimas não são somente pelo que perdemos, mas também pelo que deixamos de ser para nós mesmos, pelas palavras gentis que não nos oferecemos e pela atenção que deixamos de nos dedicar, compreendemos que o sentimento de abandono não diz respeito somente ao que se foi, mas também ao que nós mesmos nos negamos. É justamente aí que surge a possibilidade de resgate: ao percorrermos nossos caminhos internos pela via do autoacolhimento, temos a chance de recuperar nossa presença em nosso próprio mundo e voltarmos a nos acompanhar.

Ao nos cuidarmos com atenção e gentileza, abrimos um espaço interno onde a dor não precisa dominar, podendo ser vivida com mais lucidez e menos solidão. Nesse gesto de autoacolhimento, descobrimos uma força cuidadora que habita em cada um de nós, uma força que sustenta, reorganiza e nos permite seguir adiante, amparados pela presença mais constante que temos em nossas vidas: nós mesmos. Afinal, se nós não nos tornarmos o nosso melhor amigo, dificilmente alguém poderá ocupar esse lugar.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Cães são abandonados na Ilha do Bororé

 

Ilha do Bororé São Paulo

O abandono de animais é outra face do descaso com a Ilha do Bororé, extremo sul de São Paulo, cenário de uma série de reportagens do CBN SP e aqui no Blog. Cães, especialmente, são deixados do outro lado da margem por donos irresponsáveis e desalmados. Com isso a população animal aumenta em uma área que já tem pouco para as pessoas e muitos desses bichos acabam sofrendo e morrendo.

Esta situação foi descrita pelo veterinário Wilson Grassi que foi ao Bororé e na conversa com moradores de lá e funcionários da balsa que faz o transporte de carros e pedestres pela Represa Billings. No blog que assina conta a seguinte história:

Alguns “filhos de Deus” atravessam a balsa com o cachorro na coleira, e os soltam do outro lado da represa para que os animais não consigam retornar. Seguimos mais um pouco pela estrada de terra que corta a ilha e chegamos na segunda balsa, que vai para o outro lado, em São Bernardo. Encontramos a mesma situação, mas desta vez os relatos incluem que além do abandono ser quase diário, inúmeros cães embarcam sozinhos na balsa, e atravessam a represa várias vezes por dia.

Durante a visita, monitorada por uma moradora do Bororé, identificada apenas como Inês, protetora dos animais, encontrou um Rotweiller em estado terminal que chegou a ser levado para tratamento, mas 15 dias depois morreu, infelizmente.

Quanto à situação do abandono na região da balsa, vamos tentar levar alguns mutirões de castração para lá, pedir a instalação de câmeras e sugerir a punição dos “filhos de Deus” que forem identificados


Leia o texto completo no blog de Wilson Grassi
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Barbeirinho foi abandonado em praça pública

 

Barbeirinho aguarda adoção

Os moradores se uniram e recuperaram a praça Paulo Viriato Correia da Costa no bairro da Água Fria, zona norte de São Paulo. Imaginaram transformá-la em local de convivência. Hoje, é usada como ponto de abandono de animais. Nos últimos dias, a cena se repetiu duas vezes: o carro para ao lado da praça, a porta se abre, um cachorrinho é expulso lá de dentro e o motorista sai rapidamente sem olhar para trás.

Na primeira, nosso colega Paulo Henrique Souza anotou a placa e passou para a polícia; na segunda, só restou acolher o cachorro: é um filhote, dócil, bem de saúde e castrado, explica. Vai vaciná-lo contra a raiva, dar banho, aplicar um anti-pulga e ver se alguém pode adotá-lo. Sugestão de nome: Barbeirinho – proposta do Paulo.

Menos sorte teve um pitbull que morreu após ser arrastado por um motoqueiro até a passarela de pedestres do quilômetro 105 da rodovia Anhanguera, próximo do bairro Nova Aparecida, diz 22 de fevereiro. Chegou a ser levado para o Centro de Zoonose mas não resistiu. O Grupo de Apoio ao Animal de Rua assina petição na qual solicita a punição do criminoso (leia aqui).

Maltratar animais é crime previsto em lei e abandoná-los é caracterizado como tal, explicou o representante do site Olhar Animal, Maurício Varallo em entrevista ao CBN SP que você ouve aqui.