Avalanche Tricolor: ser gremista era o seu destino!

 

 

Direto de Abi Dhabi

 

 

IMG_0063

 

 

Um dos meus guris – o mais velho – apareceu na televisão com cara de sofrimento em cena flagrada logo após o fim do tempo normal e o início da prorrogação, em Al Ain. Era a cara da nossa torcida naquele instante de dúvidas sobre o destino do Grêmio no Mundial. Pena não terem mostrado os olhos dele com lágrimas e o sorriso no rosto que vieram assim que Everton entortou os zagueiros mexicanos. Era a cara do nosso torcedor naquele momento, tomado pela certeza de que havíamos garantido presença na final, sábado, em Abu Dhabi.

 

 

A imagem do Gregório chegou aos amigos, foi comentada em rede social e virou tema de uma das entrevistas que concedi a colegas de rádio e televisão, desde que cheguei aos Emirados Árabes. Para mim, já registrei isso em Twitter, é a revelação de que criei, sim, um gremista, mesmo que tenha nascido distante de Porto Alegre.

 

 

GREGORIO

 

 

Ao lado dele, no estádio em Al Ain, estava o irmão mais novo, o Lorenzo. E esse não teve sua imagem registrada, talvez pelo olhar sereno que busca manter diante de todas as situações, mesmo as mais difíceis. Mas eu o assisti aplaudindo o Grêmio, sorrindo nos lances mais bonitos, lamentando as bolas desperdiçadas e comentando as nuances do jogo. Seja por força da profissão – é técnico de eSports – seja por personalidade, sempre foi mais comedido nas emoções. Contido, mesmo que no coração bata todo tipo de sentimento. E eu sei que bate forte.

 

 

Durante o próprio jogo, registrou no Twitter a sensação de assistir ao Grêmio no Mundial:

 

 

LORENZO 1

 

 

Foi, porém, uma outra mensagem dele, escrita já na madrugada pós-jogo, na conversa frequente com os amigos e seguidores, que me chamou atenção:

 

 

LORENZO 2

 

 

“Tento ser”, escreveu, sem saber que já é gremista desde que era um piá de calça curta.

 

 

Tomara que seus colegas de organização, mais adeptos as conversas dos esportes eletrônicos, jamais leiam esta Avalanche, pois vou ser inconfidente agora e revelar imagem que não se enquadra com àquele treinador que trabalha diariamente com eles.

 

 

Em 2005, na maior de todas as batalhas que já conquistamos, a dos Aflitos, meu guri estava com apenas seis anos e o futebol não fazia parte de sua vida. Estava no videogame enquanto o pai sofria diante da televisão assistindo ao jogo no Recife.

 

 

Com a atenção chamada pelo meu desespero, no instante em que o árbitro assinalava mais um pênalti contra nós e expulsava um jogador após o outro, ele e o irmão vieram correndo para o quarto onde eu estava. Tentavam entender a dimensão do drama que estávamos enfrentando. Com a voz e as palavras que me restavam contei a eles e recebi o abraço dos dois em solidariedade. Ficaram ao meu lado assistindo a cada um daqueles momentos épicos que registramos na história. E no apito final comemoraram o título e a ascensão comigo.

 

 

Depois de pular pela façanha alcançada, olho para trás e encontro meu guri menor, esse que diz que está tentando ser gremista, abraçado em um dos cachorros que temos lá em casa. Estava aos prantos, emocionado pela nossa vitória e pelo êxtase que o pai vivia.

 

 

Portanto, Lorenzo, não precisa tentar, não: seu coração já foi ferido em azul, preto e branco desde aquele tempo. Agora, não tem mais volta. Por mais que você esconda da gente, vai sofrer ao nosso lado tanto quanto deliciar-se com as emoções que o Grêmio proporciona.

 

 

Sábado estaremos os três no alto das arquibancadas do Zayed Sports City Stadium, em Abu Dhabi, seguindo o que o destino nos ofereceu: ser gremista!

Avalanche Tricolor: é de perder o sono

 

Direto de Abu Dhabi

 

2924518_full-lnd

O gol de Everton em foto Getty Images/Fifa.com

 

Acostumar-se com a diferença de horário entre Brasil e Emirados Árabes é mais difícil que passar pela defesa do Al Jazira. Nessa quarta-feira, o descontrole foi total com a madrugada estendida após o jogo do Grêmio. Troquei a noite pelo dia e paguei caro. A quinta-feira está para amanhecer por aqui enquanto no Brasil muita gente ainda assiste ao jogo do Flamengo pela Sul-americana e eu já estou que não consigo mais ficar na cama.

 

Na cama, sem sono, comecei a pensar no que vi em campo até agora e no que pretendo ver sábado na decisão do Mundial, no estádio de Abu Dhabi. Lembrei da pergunta de Zé Elias, um dos participantes do programa Bom Dia Bate Bola, da ESPN, do qual fui convidado a participar para falar da experiência de assistir ao Grêmio, na primeira partida em Al Ain. Queria saber se eu já havia imaginado como seria o gol do título, se havia criado minha própria fantasia antes de a bola começar a efetivamente rolar.

 

Ainda tenho muito viva a imagem do gol de Everton que nos levou à final. Isso já é suficientemente forte para ocupar minha mente. Mas confesso que fiquei, sim, imaginando como seria ser campeão mundial, que momento sublime poderíamos viver em família, aqui nos Emirados. E sem nenhuma pretensão de adivinho, pensei o quanto mitológico seria ganharmos com um gol de Geromel, provavelmente resultado de uma cobrança de escanteio. A bola vindo pelo alto e um leve toque de cabeça desviando-a para o fundo das redes. É de arrepiar, mesmo que tudo ainda seja fruto da imaginação.

 

Sabemos da dimensão do adversário da final. Da qualidade técnica dos jogadores que formam o milionário time espanhol. Dos predicados daquele que é considerado o melhor do mundo na atualidade e da constelação que o acompanha. Dinheiro, muito dinheiro, estrutura e experiência são diferenciais que pesam quando saímos do campo dos sonhos para jogar bola no campo da realidade.

 

Renato e seus comandados também reconhecem essas diferenças e isso não nos diminui. Ao contrário, nos fortalece. Pois respeitar a força contrária é o primeiro passo para se estabelecer a melhor estratégia para enfrentá-lo. Entender seus movimentos e a potência de suas armas, permite uma articulação mais precisa, cirúrgica.O futebol não perdoa prepotência nem tem espaço para deslumbramentos. Exige cabeça no lugar, pé no chão, bola rolando na grama, marcação séria e jogo responsável. É lá dentro das quatro linhas que o jogo se resolve.

 

Nada disso nos impede de sonhar. E imagino que muitos dos nossos jogadores, que espero estejam dormindo no horário em que escrevo esse texto, têm sonhado no título desde que se capacitaram à final. Já demonstraram competência para realizá-lo. O que o Real revelou contra o Al Jazira é que a vitória sobre o espanhóis é possível. E nós já conquistamos muitas coisas impossíveis.

 

De minha parte – e já falei para você, caro e raro leitor desta Avalanche – o meu sonho já está sendo realizado. Vivenciar o Grêmio em um Mundial tem sido incrível. Sentir-se em casa dividido a arquibancada com milhares de gremistas em estádio tão distante da nossa terra foi emocionante. Ouvir os jornalistas estrangeiros fazendo referências ao meu time tem significado muito especial, motivo de muito orgulho. E no sábado, Senhor Amado, não quero nem imaginar o êxtase ao ver nossa camisa tricolor entrando no gramado do Zayed Sports City Stadium. Não quero imaginar, mas já posso sentir, a ponto de ter mais uma vez perdido o sono.

 

E isso, tenha certeza, não é culpa do fuso horário.

Avalanche Tricolor: um sonho se realiza na Terra do Mundial

 

Direto de Abu Dhabi

 

Grêmio-Hugo-de-León-1983

 

Foram dias agitados esses últimos. Com menos de duas semanas entre a final da Libertadores e o início do Mundial, os trâmites burocráticos e a montagem da estrutura mínima para viajar ocorrem no limite do tempo. A passagem fica mais cara, o hotel com menos vagas, os ingressos desaparecem a cada dia e a concessão do visto gera ansiedade: a autorização da Embaixada dos Emirados Árabes para entrar na região chegou no fim da quinta-feira, último prazo para quem pretendia embarcar no fim de semana (soube de quem a recebeu no saguão do aeroporto).

 

Com uma viagem de cerca de nove horas até Nova Iorque e mais de 16 horas para Abu Dhabi, com direito a três fusos horários – para trás e para frente -, escala em aeroportos internacionais, despacho de malas e outros quetais, tudo que eu queria era chegar nos Emirados a tempo de ver a primeira partida.

 

Cheguei …. e não cheguei em um dia qualquer. Cheguei em um 11 de dezembro, data histórica na qual comemoramos a primeira vez que o Grêmio conquistou o Mundo ao vencer o Hamburgo da Alemanha, por 2 a 1, em Tóquio, em 1983. Quis o destino que depois de tudo certo e arranjado, eu desembarcasse na Terra do Mundial exatamente nesse dia em que lembramos um dos maiores feitos de nossa história. Pode ser um sinal, pode ser coincidência ou pode ser coisa alguma. Mas fiquei ainda mais feliz com a conspiração do calendário.

 

Lá se foram 34 anos desde que alcançamos o topo do mundo em uma competição da Fifa – sim, meu senhor, sim, minha senhora, tinha a assinatura da federação internacional, basta ver as imagens da época – que era disputada em uma só partida e sempre no Japão.

 

Eu era apenas um guri de 20 anos, universitário, jogador de basquete do Grêmio e sem um tostão no bolso para viajar até o outro lado do mundo. Estar ao lado do Grêmio era um sonho impossível de ser realizado. Assisti ao jogo em Porto Alegre mesmo. E tenho certeza que você, caro e raro leitor desta Avalanche, se gremista for, também haverá de lembrar onde estava. Eu estava ao lado do meu pai – boa parte das nossas grandes conquistas, estive na companhia dele. Estávamos junto com alguns amigos do basquete gremista no apartamento do técnico Edson Rezeznik.

 

Vibramos entre amigos cada drible e cada gol de Renato, aplaudimos a bravura (e braveza) de nossos jogadores e comemoramos a grandeza do Grêmio que fez os alemães e a Europa se renderem ao nosso futebol. Voltei para casa de carona com o pai, buzinamos no meio do caminho para cada torcedor que corria pelas ruas extravasando sua alegria na madrugada de Porto Alegre. Uma enorme festa que se estenderia até o retorno da delegação ao Brasil.

 

Tanto tempo passou e tantas coisas aconteceram na minha vida desde então. Pessoas que estavam comigo se foram, muitas outras vieram. Eu mesmo fui embora. Troquei Porto Alegre por São Paulo para construir minha própria família e carreira profissional. Cresci, chorei, amadureci, sofri, envelheci, comemorei … e sempre estive com o Grêmio onde o Grêmio estivesse.

 

IMG_3872

 

Neste 11 de dezembro, 34 anos depois de conquistamos o Mundo, desembarquei em Abu Dhabi ao lado de meus dois filhos. Por onde passamos, nos aeroportos que andamos e nos aviões que embarcamos, no Brasil e fora dele, o Grêmio esteve conosco. Torcedores enrolados em bandeiras, trapos esticados sob as mesas de bar, camisetas novas, antigas e retrôs vestidas com orgulho. Quem não se falava, trocava olhares cúmplices. De quem sabia o que carregava na mala, no que sonhava naquele momento …

 

Um sonho que é muito mais complicado hoje do que foi em 1983. As diferenças financeiras e técnicas entre o futebol da Europa e da América do Sul aumentaram desproporcionalmente. Etapas e times encardidos se meteram no meio desta disputa e entram em campo dispostos a fazer sua própria história e desconstruir a nossa.

 

Independentemente das diferenças e dificuldades impostas no nosso caminho, aconteça o que acontecer amanhã e depois, quero aqui deixar registrado: 34 anos depois de o Grêmio me dar o prazer de gritar “Campeão do Mundo”, o Grêmio volta a me dar o direito de sonhar o maior de todos os sonhos que o futebol pode proporcionar.

 

Eu estou aqui na Terra do Mundial, sonhando e orgulhoso de ser gremista!