Mesmo morto, imagem de Cecil resiste e se transforma em símbolo de campanha contra a caça de leões

 

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Temos de matar um leão por dia é o que dizemos com frequência em analogia a tarefa árdua que enfrentamos para sobreviver na selva urbana. A forte concorrência, a disputa pelo cliente e as negociações complexas – todas essas dificuldades no cenário corporativo que conhecemos muito bem – se somam a necessidade de mantermos relações humanas saudáveis e preservamos a qualidade de vida, nossa e dos mais próximos. Os últimos acontecimento, porém, sinalizam que talvez esteja na hora de mudarmos a expressão, também, pois, ultimamente, matar leões tem se transformado em um risco à reputação de muita gente.

 

A vítima mais recente – e me refiro a reputação – foi o dentista americano Walter Palmer que tem na caça um dos seus hobbies (consta que atacar mulheres, também, estava entre suas preferências). No Zimbábue, ele e um grupo de adeptos da modalidade seduziram um leão a abandonar a área de proteção para em seguida atingi-lo com uma flecha e deixá-lo agonizando até a morte, em ação que teria se estendido por 40 horas. Antes de decapitá-lo e esfoliá-lo, tiveram o cuidado de arrancar o GPS implantado no animal na tentativa de expor o troféu sem revelar o crime.

 

A estratégia não funcionou. O leão morto não era um leão qualquer: era Cecil, considerado símbolo no Zimbábue e reconhecido pela forma dócil com a qual dividia o santuário dos animais com turistas e fotógrafos. Em pouco tempo, a notícia se espalhou no país, ganhou o continente e chegou a todas as partes do mundo, provocando uma onda de protestos.

 

Palmer, como se não tivesse consciência do crime que realizou, já pediu desculpas em gesto que, tenho impressão, não convenceu ninguém. Se os erros cometidos por ele anteriormente – já havia sido pego em caça ilegal e denunciando por assédio sexual – não tinham sido suficientes para atingir sua imagem, desta vez a reputação dele foi fatalmente ferida e vai agonizar da mesma maneira que Cecil.

 

Com sua flechada, o dentista americano (ou seria ex-dentista?) atingiu o coração de muitas pessoas, algumas que, talvez, jamais tenham refletido sobre a forma brutal como a caça é realizada. Hoje, por exemplo, já se mobiliza autoridades nos Estados Unidos e na Europa com o objetivo de que se aprove leis que proíbam a importação desses animais que, mortos, têm suas cabeças transformadas em troféus. O alvo da medida são as centenas de caçadores americanos e europeus que viajam especialmente para países na África e pagam fortunas para se divertirem com a morte de leões e outros animais exóticos. E aqui vale ressaltar essa diferença básica: não se caça por sobrevivência como no passado nem para se alimentar populações; a caça é uma diversão para essas famílias.

 

Quero acreditar que Cecil, até então um desconhecido para a maioria de nós, tenha tido sua vida sacrificada para se eternizar no nosso imaginário como o animal que teve força e carisma capazes de transformar o olhar da humanidade em relação a caça.

 

Acesse e assine a petição que tenta proteger os leões e animais exóticos dos caçadores

Cochichos e recados nos caminhos do Morumbi 2014

 

Direto de Roma/Itália

Toda vez que o presidente Lula abre a boca pra falar de Copa, o projeto Morumbi’14 sai da gaveta novamente, onde está guardado com pastas e documentos importantes que podem decidir o destino do estádio de São Paulo.

No lançamento do estranho logo para o Mundial do Brasil, Lula passou recado ao prefeito da capital paulista Gilberto Kassab (DEM), que está na África sob a alegação de que precisa conhecer programas e soluções desenvolvidas por aquelas cidades.

Kassab foi, na verdade, fazer política, não planejar.

As constatações do prefeito de que São Paulo não deve nada ao sistema de transporte de Johannesburgo e seria impossível construir um Soccer City com dinheiro público poderiam ser feitas de dentro do gabinete dele, no Viaduto do Chá. Haja vista que ao planejarem a Copa da África, as autoridades sul-africanas foram a São Paulo, especificamente na região do ABD paulista, passaram por Curitiba e esticaram viagem a Bogotá, na Colômbia, para entender como transportar passageiros com qualidade. Devem ter ficado presos em congestionamentos na cidade de São Paulo, onde não se investe em corredores de ônibus, há bons anos.

E como Kassab foi fazer política, voltará da África com o recado do presidente lhe coçando a orelha: “Continue a brigar pelo Morumbi” – está no Blog de Cosme Rímoli, em 08/07/10.

Há pouco mais de um ano, em outro cochicho nem tão baixo assim, Lula falou ao Ministro do Esporte, Orlando Silva Júnior, durante cerimônia no estádio do Morumbi: “Diga ao Ricardo (Texeira) para parar de falar m…. . É preciso baixar a crista dele. O Morumbi é o estádio de São Paulo para a Copa” – descreveu Juca Kfouri em 24/06/09

Pode parecer uma contradição (mas só a quem mantém a visão ingênua de que tudo é uma questão de preferência clubística), o corintiano Lula tem sido o “Embaixador do Morumbi” desde o primeiro minuto de jogo e seu esforço aumentou após encontro com o presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio – o mesmo que ao assinar nota em resposta a exclusão do estádio da Copa, ameaçou: “A Justiça é filha do Tempo. O Tempo é o Senhor da Razão. O Tempo dirá. E nós também” (16/06/10). Dirá o quê ?

Há quem não consiga dissociar a frase final daquela nota com o comentário presidencial, na cerimônia africana, de que o Brasil é feito de gente que não desiste nunca. Disse isso em uma das três vezes nas quais citou nominalmente Ricardo Teixeira, durante a cerimônia. Mais do que um slogan, um alerta ?

Destacou, também, o necessário combate a corrupção na Copa 2014. Quando, aliás, não será mais presidente do Brasil: “pode contar comigo no que for necessário” – fez questão de avisar a Teixeira.

Terça-feira (07/07/2010), já em solo africano, em outra das suas frases, Lula não foi descuidado na fala: “Se a CBF adotasse o que eu adotei quando era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, a cada oito anos a gente trocava a direção da CBF. No sindicato a gente trocava”.

Quanto a Kassab, não-alheio a discussão, voltará a São Paulo talvez com a bagagem vazia de projetos urbanísticos, mas com um aparente alívio: poderá reaproximar seu discurso pró-Morumbi ao do Palácio dos Bandeirantes, de onde se ouvia dos corredores críticas pesadas contra o alcaide. E, ao mesmo tempo, costurar com investidores a construção do Plano B, ou P, o Piritubão.

Desembarcará em São Paulo, com um pé em cada estádio.

Por enquanto, vizinho do Palácio, Juvenal Juvêncio só abre a gaveta de seu escaninho, cheia de pastas e documentos, pra remexer no projeto de reforma do estádio do Morumbi.

É das conversas ao pé de orelha, bate-papo nos bastidores e recados indiretos que se constrói o caminho para São Paulo ser sede da abertura da Copa do Mundo de 2014. Ou qualquer outra coisa que tenha o mesmo valor.