Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o que a crise de imagem do All Star ensina sobre curadoria de marca

All Star Converse Anuncio
Imagem de um dos anúncios da Converse acusados de evocar imagens racistas Foto: Reprodução

Uma imagem pode carregar sentidos que a marca não percebeu e provocar uma crise mesmo sem intenção de ofender. Esse é o tema que Jaime Troiano e Cecília Russo trouxeram para o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso.

A nossa conversa foi inspirada na campanha da Converse, veiculada nos Estados Unidos em setembro. A cantora Karina, do grupo de K-pop Aespa, aparecia com uma saia branca em formato cônico e segurava um par de tênis. Para parte do público, a roupa lembrava o capuz usado pela Ku Klux Klan, grupo racista que promovia a violência contra pessoas negras. A posição dos calçados, por sua vez, foi associada às pernas de uma pessoa enforcada.

A reação levou a empresa a retirar as imagens da campanha e pedir desculpas. Jaime ressalta que não há indicação de que a peça tenha sido criada para provocar essa associação. O episódio nos lembra de uma frase clássica que diz que comunicação não é o que eu digo mas o que você entende. Mostra, também, que a intenção de quem produz uma mensagem não controla todos os sentidos que ela pode adquirir.

“Quem trabalha em branding, como esse pessoal que fez a campanha, ou em comunicação, trabalha com linguagem e elementos simbólicos que estão integrados nos significados da marca”, observa Jaime. Por isso, diz ele, repertório cultural e informação são parte do trabalho. Uma referência pode parecer inofensiva para a equipe e, ao mesmo tempo, evocar uma história de violência para quem a recebe.

A análise também depende de tempo e de diferentes olhares. Jaime sugere que as empresas façam uma curadoria interna dos projetos e considerem ferramentas de inteligência artificial para ajudar a detectar riscos. A tecnologia pode apoiar a avaliação, mas não substitui o conhecimento cultural nem o julgamento humano.

Cecília chama atenção para outro limite: marcas precisam agir dentro do território que conhecem e das promessas que fizeram aos consumidores. Usar a relação com o público para entrar em temas controversos pode parecer oportunista e aumentar o risco de interpretações negativas. “Talvez o papel supremo das marcas seja cumprir bem o seu papel de provedora de produtos, de serviços, e acima de tudo, serem capazes de sustentar aquela promessa que elas fazem para as pessoas”, afirma.

A rapidez das decisões agrava o problema. Com menos tempo para discutir e revisar uma campanha, uma associação importante pode passar despercebida. A experiência acumulada e a confiança construída ao longo dos anos podem ajudar uma empresa a atravessar uma crise, avalia Cecília. Para uma marca nova, sem esse histórico, o impacto pode ser mais difícil de superar.

A marca do Sua Marca

Uma marca precisa vigiar os sentidos que suas mensagens produzem. Repertório cultural, revisão cuidadosa e tempo para ponderar ajudam a identificar riscos antes que uma campanha chegue ao público. Como resume Jaime: “O preço da liberdade é a eterna vigilância.”

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Mercado criativo faz applemaníacos driblar burocratas em Cuba

 

 

Um All Star de cano alto era o sonho de consumo de todos meus colegas de basquete, nos anos de 1970 e 1980, no Rio Grande do Sul. Para tê-lo era preciso contar com a viagem para os Estados Unidos, raras na época, de algum parente, conhecido ou conhecido do conhecido. Havia ainda a possibilidade de encontrarmos um “canal tri-legal”. Que o legal aqui seja entendido como bacana, interessante, pois o tal canal não tinha nada de legal, era algum muambeiro que trazia os produtos para o Brasil. Antes que você me condene, explico que nunca comprei destes tênis, naquela época. E antes que você me enalteça, digo que não o fiz por falta de dinheiro. Contentava-me com o Charrua, comprado no Uruguai, mais barato, de boa qualidade e confortável.

 

Lembrei dos tênis All Star e o que eles representavam nos pés dos meus colegas – pareciam saltar mais, correr mais e jogar mais do que eu (e o faziam mesmo mas apenas porque eram melhores do que eu)- ao ler a coluna da jornalista cubana Yoani Sánchez, no Estadão de domingo, escrita sob o título Apple causa furor em Havana. A marca criada por Steve Jobs, evidentemente, não tem loja nem revenda oficial no país comunista – assim como nenhuma outro fabricante americano. É proibido vender Iphone por lá. Isto não impede que seus consumidores façam fila na porta de uma assistência técnica que anuncia no cartaz trabalhar com o produto. “Estão ali aqueles que conseguem comprá-los no mercado informal graças ao ingresso de alguns pesos conversíveis ou os que receberam os aparelhos de algum parente ou amigo radicado no exterior”, escreve a mais famosa blogueira da terra de Fidel. Ter o aparelho nas mãos é sinal de status para os cubanos, os torna especiais, descolados, assim como acontecia com o All Star calçado pelos outros.

 

O contrabando não é novidade em Cuba mas o que considero mais interessante no relato de Yoani é o fato dela ter identificado o desenvolvimento de um mercado criativo de grande sucesso com soluções inteligentes capazes de contornar todos os bloqueios impostos pela burocracia e tecnologia. Há uma versão da Wikipédia em espanhol que é instalada na memória do celular, têm mapas de Havana e de toda Cuba que podem ser ativados por um sistema de localização que não necessita de satélite e, um dos grandes sucessos, um aplicativo que funciona como identificador de chamada capaz de oferecer além do nome e do número de quem está ligando, também o endereço e o registro de identidade dele. Imagine os avanços que Cuba e seu povo teriam se esta criatividade fosse incentivada em um mercado aberto e com acesso a tecnologia no exterior.

 

Em tempo: hoje tenho uma coleção de All Star e ainda não tenho nenhum Iphone. Quem sabe compro um quando viajar para Cuba