No diálogo do silêncio, uma lição de vida

Por Beatriz Breves

Era uma tarde de domingo quando fui visitar algumas senhoras muito idosas no Amparo Thereza Christina, instituição filantrópica fundada em 1924 para acolher a velhice desamparada. Acontecia um baile vespertino, onde um rapaz, tocando órgão eletrônico, cantava, convidando as senhoras a dançarem.

— Tem dias que dá uma dor no peito, que não dá vontade de fazer nada! Essas palavras vieram de Rosa. Disse e, assim como falou, calou-se em um silêncio profundo.

Sem saber o que fazer, afinal, eu nunca estivera com ela antes, coloquei minha mão sobre seu ombro. E fiquei ali.

O rapaz continuava a cantar músicas que, se não me engano, eram do tempo de minha avó. Algumas senhoras dançavam, outras apenas observavam, e algumas dormiam profundamente. Arrisco dizer que a média de idade era de 85 anos.

Depois de um tempo, Rosa voltou a falar, com um tom sofrido:

— Acho muito triste a cadeira de rodas

Havia várias senhoras em cadeiras de rodas. Mas, bem à nossa frente, uma delas chamava atenção: tão magra que era possível quase ver seu esqueleto. Devia ter mais de 90 anos.

Disse a Rosa que tudo dependia do ponto de vista: se não houvesse cadeiras de rodas, muitas daquelas mulheres estariam confinadas às camas. Acrescentei:

— E você não está numa cadeira de rodas.

Ela suspirou fundo:

— Graças a Deus!

Depois das palavras de Rosa, meus olhos não podiam mais se desviar daquela senhora à nossa frente. Com seus pouquíssimos cabelos brancos, faces “chupadas”, parecia mais um cadáver vivo. Aquela cena começou a despertar o sentimento de uma profunda dor no meu peito. Como uma pessoa tão magra poderia carregar um corpo tão pesado?

Senti que ela representava, em si mesma, a convergência entre a fragilidade de uma idade muito avançada e o peso de uma longa história de vida. E com a dor aumentando em meu peito, eu pensei: “o que é que eu estou fazendo aqui?” Era um domingo de sol. Sentia vontade de sair correndo, queria fugir daquele lugar.

Foi então que eu disse a Rosa:

— É… você tem razão, cadeira de rodas é muito triste e eu entendo a dor que você está sentindo.

Ela permaneceu em silêncio por um longo tempo, até murmurar:

— Às vezes tenho vontade de ir embora desse lugar!

Eu não consegui responder. Ela sentia o mesmo que eu. A diferença é que eu tinha para onde ir. Rosa, não.

Comecei a me projetar no futuro e percebi meu pânico: o medo de um dia estar daquele jeito. O pavor de perceber que, para não estar como aquela senhora, só havia uma opção: a morte.

Uma revolta tomou conta de mim. Que grande escolha a vida me oferecia: morrer ou ficar daquele jeito, um pedaço de carne viva. Que direito a vida tinha de exercer tamanho poder sobre mim? O que ela poderia fazer com meu corpo, minha alma?

Meu consolo era que, diferentemente de Rosa, eu ainda estava longe daquela situação. Ironicamente, a morte parecia uma sorte.

Foi então que compreendi: Rosa não se entristecia com a cadeira de rodas em si, nem com o lugar — limpo, acolhedor, cheio de cuidado e afeto. Ela falava da cadeira em que todos nós estamos sentados para assistir à nossa própria decadência na roda da vida. Falava do lugar humano que ocupamos dentro de nós mesmos.

E minha angústia aumentou, porque percebi que eu também não tinha para onde ir. Ir para onde? Eu poderia passar a vida inteira mudando de endereço, mas jamais poderia me mudar de mim.

A saudade tomou conta de mim diante do poder mágico e cruel da vida de transformar anos em segundos. Quando olhei para trás, minha história inteira parecia ter acontecido num instante. Então, seria apenas uma questão de segundos até eu estar daquele jeito..

Compreendi que o que eu projetava para o futuro, caso não morresse antes, não era o futuro: era o meu presente em poucos instantes; e mais, que não estava bem à minha frente, mas dentro de mim.

Para aliviar o que sentia, perguntei a Rosa quantos anos tinha.

Com dificuldade e constrangimento, respondeu:

— Não estou escondendo minha idade de você. Eu realmente não sei quantos anos tenho. Eu perdi a minha idade.

Aquilo me desconcertou. Ela não dizia que havia esquecido, dizia que havia perdido. E o que significava perder a idade? Como aquilo tudo doía dentro de mim..

Concluí que, um dia, todos começamos a perder a nossa idade. E isso começa devagar, no instante em que a memória parte levando consigo nossa história. Ah, meu Deus, como isso dói.

Os meus sentimentos fervilhavam quando Rosa, após um longo silêncio, virou-se para mim e disse:

— Estou começando a colher o que você plantou!

Perplexa, perguntei o que eu havia plantado. Ela apenas sorriu e não respondeu. Poucos minutos depois, levantou-se e foi dançar. Percebi então que, apesar da tristeza, ela estava viva, e por isso também podia se alegrar.

Quando voltou a sentar-se ao meu lado, minha mão começou a formigar. Contei a ela. Generosamente, começou a friccioná-la para fazer a circulação voltar.

Entendi que, assim como algumas senhoras dormiam profundamente, eu tentava adormecer meu corpo para não enfrentar a dor de estar ali. Mas Rosa me mostrou que, abrindo espaço interno para sentir, mesmo que fosse apenas um sentir sensorial, como o da senhora na cadeira de rodas, ainda era possível, apesar de tudo, sentir alegria e dançar ao som da vida.

E então percebi o quanto eu estava sendo cega ao olhar aquela senhora como um pedaço de carne viva. Eu nunca olhei para um bebê assim. A diferença é que um bebê desperta a ilusão dos meus sonhos; aquela senhora, a desilusão deles. E só por isso ela me assustava tanto.

Ela vibrava nos semitons da vida, contrariando meu desejo de que a vida tocasse apenas na escala principal. E só por isso me assustava tanto.

Aquela senhora ainda poderia me ensinar muito, se eu estivesse disposta a aprender.

Descobri que aquela conversa não acontecia a duas, mas a três: eu, Rosa e a senhora da cadeira de rodas. E que não era só eu quem havia plantado algo. Nós três plantamos e colhemos, uma na outra, um dos sentimentos mais profundos do ser humano: a solidariedade.

Aprendi que não adianta fugir da possibilidade da minha velhice avançada. Naquele dia, conheci um pouco mais de mim mesma, do respeito e do amor. E isso foi muito bom.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

Avalanche Tricolor: sucesso, Luís Castro!

Grêmio 1×3 Corinthians
Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Brasileirão - Grêmio x Santos - 23/05/2026
Luís Castro em foto de Lucas Uebel/Grêmio FPBA

Fui privilegiado ao conviver com técnicos renomados. Essa experiência foi possível porque meu pai sempre foi muito respeitado pelos treinadores, especialmente pelos que trabalharam no Grêmio. Ao lado dele, assistia aos treinos no campo suplementar ou no gramado do Olímpico. Naquela época isso ainda era possível e oferecia aos cronistas esportivos argumentos mais consistentes para suas análises. Hoje, com quase tudo escondido atrás de portões fechados, é difícil saber se a escolha por determinado jogador se dá por teimosia, convicção ou merecimento.

Ao fim dos treinamentos e depois das entrevistas concedidas ali mesmo, à beira do campo, gente da estatura de Ênio Andrade, Telê Santana, Valdir Espinosa e Cláudio Duarte permanecia na resenha com meu pai. Com Seu Ênio, a conversa frequentemente avançava para a cozinha de um dos bares instalados no Largo dos Campeões. Era lá que eles se sentavam para tomar whisky e falar da vida — geralmente da vida do Grêmio. A mim cabia um copo de refrigerante e o privilégio de observar aquela cena rara e privada.

Ouvir as inconfidências dos treinadores me ensinou cedo que muitas das histórias que movem um clube jamais chegam ao conhecimento do torcedor. Por isso, nossa visão costuma ser parcial. Talvez, se houvesse mais transparência, não idolatrássemos alguns jogadores que em público se comportam de uma forma, mas nos bastidores agem de outra. Entenderíamos por que aquele craque em quem depositamos tantas esperanças fica no banco. Ou por que o técnico prefere um jogador limitado tecnicamente para reforçar a marcação no meio-campo em vez do talentoso garoto da base.

Shakespeare escreveu, em Hamlet, que “há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”. Arrisco uma adaptação para o futebol: há mais coisas entre o vestiário e o gramado do que pode imaginar nossa vã idolatria. A torcida enxerga os noventa minutos. O jogo, muitas vezes, começa muito antes do apito inicial.

Talvez essa vivência ainda na adolescência explique o respeito que desenvolvi pelos treinadores e o cuidado que procuro ter antes de apontá-los como culpados diante dos primeiros sinais de desorganização em campo. Nem sempre os onze que entram jogando são os preferidos do técnico. Muitas vezes são apenas os onze possíveis dentro das circunstâncias que ele enfrenta. Às vezes, fica no banco justamente o jogador que todos nós julgamos capaz de mudar a partida, mas que o treinador sabe não reunir condições físicas, emocionais ou táticas para suportar aquele desafio.

Vi muitos técnicos serem vaiados e chamados de burros pelas arquibancadas para depois darem a volta por cima. Considero um desrespeito ao profissional, mas também reconheço que a paixão que move o futebol raramente convive com a serenidade. O mesmo torcedor que hoje protesta será o primeiro a aplaudir quando os resultados aparecerem e os títulos chegarem.

Talvez por carregar esse olhar mais cauteloso sobre os treinadores, também seja do tipo de torcedor que reacende a esperança ao menor sinal de recuperação. Há duas Avalanches escrevi sobre minha confiança no processo de reconstrução que o Grêmio parecia iniciar. Bastaram duas vitórias contra adversários tão frágeis quanto nós para me conceder o direito à ilusão.

O Grêmio, porém, desperdiçou a oportunidade de terminar em primeiro lugar em seu grupo na Sul-Americana e terá de disputar duas partidas extras quando a temporada for retomada. Neste sábado, diante de mais de 40 mil torcedores na Arena, sofreu uma derrota de virada para o Corinthians e corre o risco de passar a pausa da Copa do Mundo instalado naquela zona que você sabe qual é — escrevo antes da partida do Vasco.

Dito isso, fica aqui meu desejo de que Luís Castro tenha sucesso nos seus próximos desafios. Onde quer que eles estejam.

Avalanche Tricolor: uma noite em família

Grêmio 2×2 Montevideo City Torque
Sul-Americana – Arena do Grêmio

Sul-Americana - Grêmio x Montevideo City Torque - 26/05/2026
Mec comemora o primeiro gol do Grêmio Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Hoje era aniversário da sogra. E, ao contrário do senso comum, sogra a gente respeita, sim. Especialmente quando a festa é de 89 anos. Depois de tudo que ela já enfrentou na vida, estava ali, ao lado da família, feliz e celebrando. O olhar sempre lacrimejando de emoção brilhava — sinal da luz que faz questão de manter acesa por muitos anos mais. Vê-la à mesa, cercada pelas filhas, netos e genros, traz esperança de que caminhamos para uma vida longa.

Em meio aos brindes regados a vinho, aos porpetones de entrada e à massa servida como prato principal, encontrei espaço para desviar o olhar até a televisão, onde o Grêmio seguia sua saga em busca da reconstrução. Os passes errados na defesa, a marcação frouxa pelas laterais, as lesões logo cedo e a ausência de dois de seus principais jogadores no meio-campo cobraram um preço alto no primeiro tempo.

Na volta do vestiário, já com Arthur e Gabriel Mec, o time rendeu muito mais. Ficou mais ofensivo e chegou ao empate duas vezes — insuficiente para as pretensões desta reta final antes da Copa do Mundo. A intenção era garantir a classificação em primeiro lugar e evitar os jogos de playoff na Sul-Americana. Não conseguimos. Consola o fato de seguirmos vivos na competição, assim como na Copa do Brasil.

O resultado desta noite aumentará a pressão para a partida de sábado pelo Brasileiro, quando teremos a obrigação de entrar em campo com os onze melhores que estiverem à disposição — sem direito a poupar nem economizar esforços.

Se antes um empate em casa era tratado com certa parcimônia, agora haverá cobrança pelos três pontos. Uma vitória será importante para aliviar a pressão nas arquibancadas e nas redes (antis)sociais. Também dará mais tranquilidade para os trabalhos durante a parada da Copa do Mundo e para a retomada da temporada, em julho.

Confesso que o tropeço desta noite não me afetou como em outros tempos. Talvez porque eu confie na possibilidade de um Grêmio melhor no segundo semestre. Talvez porque a maturidade ensine a relativizar derrotas e empates. Ou talvez porque, diante de uma mesa cercada de afeto, celebrando 89 anos de vida, o futebol tenha sido colocado no lugar que lhe cabe: importante, apaixonante, mas incapaz de superar a grandeza de uma noite em família.

Dez Por Cento Mais: Padre Simone Bernardi fala da reconstrução da dignidade no Arsenal da Esperança

Na pandemia, o sentido de comunidade se expressou no Arsenal

“A gente percebe que uma pobreza do nosso tempo é não ter mais comunidade.”

Mais de 1.200 pessoas dormem diariamente no Arsenal da Esperança, no Brás, em São Paulo. Ali, o acolhimento começa com uma cama limpa, comida quente e um endereço onde alguém volta a ser chamado pelo nome. O espaço, instalado na antiga Hospedaria dos Imigrantes, tornou-se um dos maiores centros de acolhida para pessoas em situação de rua da América Latina. O que se passa lá dentro e o que se percebe do mundo lá fora foram assuntos que pautaram a entrevista do Padre Simone Bernardi ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa, no YouTube.

Missionário italiano, Padre Simone dirige o Arsenal da Esperança há mais de duas décadas. Durante a conversa, ele explicou que o projeto nasceu da transformação de um antigo arsenal militar, em Turim, na Itália, em um espaço voltado à paz e ao acolhimento. A inspiração chegou ao Brasil pelas mãos de Dom Luciano Mendes de Almeida, que enxergou na antiga Hospedaria dos Imigrantes um lugar capaz de recuperar vidas invisibilizadas pela cidade.

Muito além de cama e comida

Ao descrever a rotina do Arsenal, Padre Simone deixou claro que o trabalho vai muito além da assistência básica. “Cama e comida é o começo”, afirmou. “Se você começa a oferecer algo verdadeiramente digno, começa a criar um laço também.”

Todos os dias, a instituição prepara centenas de refeições, lava toneladas de roupas e mantém uma estrutura que funciona 24 horas. Há psicólogos, assistentes sociais, educadores, nutricionistas e voluntários envolvidos em um processo que busca reconstruir vínculos e devolver identidade às pessoas acolhidas.

“Às vezes nem os documentos têm”, relatou o padre. “Então, por exemplo, a rotina do nosso trabalho é ajudar as pessoas a tirar de novo todos os documentos, que é uma maneira de voltar a existir.”

Segundo ele, o perfil das pessoas atendidas também mudou ao longo dos anos. Se antes predominavam homens mais velhos, vindos de outros estados em busca de trabalho, hoje a população acolhida é mais jovem, formada majoritariamente por moradores do próprio estado de São Paulo e marcada por problemas mais complexos, como dependência química, depressão e transtornos psicológicos.

Regra e organização como sinais de cuidado

Ao falar sobre convivência dentro do Arsenal, Padre Simone defendeu a importância das regras como instrumento de cuidado coletivo. “A regra é uma maneira de amar”, disse. “A organização também é uma maneira de querer bem as pessoas.”

A instituição mantém horários, rotinas e protocolos para garantir segurança e convivência entre os acolhidos. Um dos exemplos citados foi o cuidado com pessoas sob efeito de álcool. Em vez de exclusão, o Arsenal criou espaços específicos para acolher essas pessoas sem colocar em risco quem tenta se recuperar.

“Para nós, se a pessoa chega alcoolizada ou não, continua sendo uma pessoa”, afirmou.

Durante a pandemia de Covid-19, a organização precisou reinventar completamente sua rotina. O Arsenal transformou-se em uma grande quarentena coletiva. Dos 1.200 acolhidos, 1.026 aceitaram permanecer isolados dentro da instituição.

“Ou aqui a gente se conscientiza e se organiza ou é o fim”, relembrou Padre Simone sobre o clima daqueles dias.

A reconstrução começa pelas pequenas coisas

Um dos trechos mais marcantes da entrevista surgiu quando o padre descreveu o momento em que alguns acolhidos pedem para trocar a foto do crachá. “Depois de duas semanas, tem pessoas que vão até o serviço social e falam: ‘Posso trocar a foto do meu crachá?’ Porque já não se reconhecem mais naquele rosto.”

Para ele, a transformação acontece aos poucos, em gestos simples que ajudam a pessoa a recuperar autoestima e pertencimento. Ler um livro, cuidar do espaço coletivo, participar de um campeonato ou simplesmente voltar a tomar banho diariamente tornam-se sinais concretos de reconstrução da vida.

“Acho que o nosso primeiro trabalho é produzir memórias boas”, afirmou. “Construir histórias boas para serem lembradas.”

A falta de comunidade como pobreza contemporânea

Na reflexão final da entrevista, Padre Simone ampliou o olhar para além da situação de rua. Segundo ele, a maior pobreza atual talvez não seja apenas a ausência de moradia, mas o enfraquecimento dos vínculos humanos.

“Não ter comunidade é pior”, afirmou.

O Arsenal da Esperança passou a desenvolver ações comunitárias no entorno do bairro, como mutirões de limpeza e atividades coletivas em espaços públicos. O objetivo é criar oportunidades de encontro entre pessoas que vivem cada vez mais isoladas.

“Tivemos uma senhora que abriu o portão da vila dela e ofereceu um bolo”, contou. “Ao redor daquele bolo se criou aquilo que deveria ser normal: as pessoas conversaram.”

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Avalanche Tricolor: o pior Gre-Nal de todos os tempos (ou quase)

Inter 0x0 Grêmio
Brasileiro – Beira-Rio, Porto Alegre RS

Grenal 452
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Gre-Nal desta noite foi uma sucessão de falhas. De um lado o passe curto saía errado, do outro o passe longo era equivocado. Os dribles morriam antes de nascer, travados pela falta de habilidade; e os cruzamentos pela falta de destino. As raras tentativas de chute pouco exigiram dos goleiros — justiça seja feita, o nosso mostrou segurança quando acionado, enquanto o deles protagonizou um erro constrangedor.

Certamente, entre os 452 Gre-Nais disputados ao longo de 117 anos, houve partidas ruins. Minhas lembranças começam nos anos 1970, quando me entendi como torcedor. Ainda assim, fiquei com a sensação de ter assistido ao pior Gre-Nal de todos os tempos. Senão o pior, um dos que mais decepcionaram.

Verade que Gre-Nal ruim costuma ser aquele que se perde. Para quem aprecia o jogo bem jogado, porém, o que vimos no Beira-Rio foi indigesto. Imagino que o torcedor adversário também não tenha saído satisfeito. Eu, como gremista, espero mais. Sempre espero mais. Insisto em não aceitar a ideia de disputar campeonato apenas para evitar o rebaixamento.

Para não dizer que escrevo movido apenas pelo mau humor de um sábado mal aproveitado, há registros positivos. Weverton foi seguro nas saídas e nas intervenções. O time se entregou. Correu, marcou, disputou cada bola como se fosse a última. Ninguém se omitiu. Ainda assim, essa disposição pareceu nascer mais das dificuldades com a bola nos pés do que de uma proposta consistente de jogo — e também das limitações do adversário.

Sob o olhar da tabela, empatar fora de casa em Gre-Nal pode ser considerado ponto ganho, sobretudo em contraste com o empate anterior na Arena. O problema é que já deixamos pontos demais pelo caminho. Com um mínimo de organização e qualidade, era possível ter vencido.

O que mais incomoda é perceber que o que se viu em campo explica o momento do futebol gaúcho. Um clássico travado, de muita disputa e nenhuma técnica, passou a ser aceito quase como padrão. E isso diz muito sobre clubes e torcedores que já se acostumaram a mirar cada vez mais baixo.

O Grêmio ainda precisa evoluir. Luis Castro terá de ajustar posições, dar clareza ao modelo de jogo e exigir mais coordenação coletiva. Aos jogadores cabe algo mais básico: rever fundamentos. Passe, domínio, decisão. Sem isso, não há estratégia que sobreviva.

Porque, no fim das contas, o maior risco não está em empatar um Gre-Nal ruim. Está em se acostumar com ele.

Sobre o sentimento do ciúmes

Por Beatriz Breves

Foto de Lucas Pezeta on Pexels.com

O ciúme é um daqueles sentimentos que todo mundo conhece, mas que raramente é compreendido em profundidade. Ele aparece como um aperto no peito, um desconforto, uma sensação de ameaça e, no fundo, nasce do desejo de manter o outro por perto e do medo de perdê-lo.

Há uma crença popular de que “quem ama, sente ciúme”. Mas amor e ciúme não são necessariamente dependentes. É possível amar e sentir ciúme, como também amar sem sentir ciúme. Ainda assim, é raro que o ciúme não apareça em algum grau. Ele funciona como sal na comida: se em excesso, estraga; se em falta, empobrece; na medida certa, deixa a comida saborosa. Uma pitada de ciúme pode até fazer bem, por revelar cuidado e presença.

Outra ilusão comum é imaginar que o ciúme envolve somente duas pessoas. Na verdade, ele sempre forma um triângulo: eu com alguém e mais alguma outra pessoa ou coisa. Sim, até coisas. Há quem sinta ciúme de um trabalho, de um automóvel, de um celular. O ponto central é sempre o mesmo: a sensação ameaçadora de perda.

O ciúme nunca vem sozinho. Ele se mistura a outros sentimentos. Quando caminha ao lado, por exemplo, do amor, da solidariedade e do companheirismo, tende a ser leve. Quando se alia ao desespero, à angústia ou ao medo intenso, pode se tornar controlador e sufocante. E, ainda, quando se junta ao desejo de dominar, ao impulso cruel ou à violência, a pessoa tende a perder o controle de si mesma. Portanto, a questão principal não é o ciúme na sua condição isolada, mas os sentimentos que se agregam a ele.

Por isso, a pergunta mais importante não seria “por que sinto ciúme?”, mas “com quais sentimentos o meu ciúme está andando?”. É essa combinação que irá diferenciar um incômodo passageiro de um sofrimento profundo.

Pode-se dizer com uma certa segurança que o ciúme vai aparecer em algum momento da vida, e ainda bem. Ele é um sentimento que mostra onde dói, onde há falta de segurança, onde existe o desejo, onde há amor. O problema surge quando não se sabe o que fazer com o que se sente.

Fato é que o ciúme é somente a ponta de um iceberg no oceano dos sentimentos. Quando alguém consegue enxergar o que está se aliando a ele — inseguranças, desejos, medos, necessidades afetivas, etc — o ciúme passa a ser compreendido como um mensageiro de fragilidades, desejos e necessidades afetivas. É justamente a partir desse reconhecimento que se torna possível construir relações mais maduras.

A dificuldade, para muitos, está em administrar os próprios sentimentos. Seja por desconhecimento, seja por receio, poucas pessoas têm a oportunidade de falar sobre o que sentem sem, de alguma forma, se censurar ou ser censuradas. E, quando não se pode expressar o que se sente, o ciúme e os sentimentos a ele agregados, como qualquer outro sentimento, tendem a se distorcer.

Portanto, falar sobre os próprios sentimentos, sobre o que se está sentindo, é uma das atitudes mais saudáveis que alguém pode ter. Guardar tudo para si é como se afogar no mar dos sentimentos. Quando uma pessoa pode compartilhar a sua insegurança com alguém em que haja reciprocidade no gostar, seja parceiro(a) ou amigo(a), cria um espaço externo e interno para acolhimento, compreensão e conexão.

Leia o livro Falando de Sentimentos com Beatriz Breves

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Avalanche Tricolor: bicho no bolso, faixa no peito e taça no armário

Inter 1×1 Grêmio
Gaúcho — Beira-Rio, Porto Alegre (RS)

Final Gauchão Volta - Internacional x Grêmio - 08/03/2026
Festa do Imortal no Beira Rio Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“Bicho no bolso, faixa no peito e taça no armário. Não há o que discutir!”. A frase de um dos maiores dirigentes que tivemos, Nelson Olmedo, sacramentou a conquista gaúcha mais marcante da história gremista: o título de campeão de 1977. Havia dirigentes e torcedores adversários questionando a vitória devido à confusão no minuto final da partida, que levou à invasão de torcedores tricolores ansiosos por um troféu que estava longe do Olímpico havia oito anos.

Desde aqueles tempos em que eu era um guri de calça curta e camisa tricolor, levado pela mão do pai até as arquibancadas do Monumental, o choro de perdedor é livre. Até aquele 25 de setembro de 1977, eu já havia chorado muito. O fato é que, digam o que disserem, reclamem o que reclamarem, o resultado em campo fala mais alto. E neste 2026, quando já sou um guri de 62 anos, o Grêmio foi maior.

O Imortal teve uma vitória contundente na primeira partida na Arena (3×0) e administrou o resultado na segunda (1×1), na casa do adversário. Para ter dimensão desta conquista: é apenas a terceira vez que fizemos a festa no Beira-Rio — a última havia sido há 20 anos. Foi a primeira desde que o estádio foi reformulado. Claro que isso também tem a ver com o fato de que muitos dos títulos dos últimos anos nós decidimos em nossa casa porque tínhamos campanhas superiores.

O jogo desta noite em Porto Alegre e a postura que o Grêmio adotou estão diretamente ligados ao que aconteceu aos 31 minutos do primeiro tempo do Gre-Nal na Arena. Não pelo que o adversário alega, mas por aquilo que o Grêmio construiu. A expulsão em pouco mais de meia hora de jogo foi resultado de uma marcação precisa e de um contra-ataque veloz. Aquela escapada de Amuzu, que se repetiria no segundo gol, foi mérito do Grêmio. Assim como foram a pressão na bola, a qualidade na troca de passes, os ataques velozes e a precisão nos chutes que permitiram que o Grêmio chegasse com larga vantagem à partida final.

No jogo deste início de noite em Porto Alegre, o Grêmio teve maturidade e personalidade para encarar o desequilíbrio emocional do adversário. Amuzu foi agredido na primeira tentativa de drible. Arthur, mais uma vez, foi caçado em campo. Monsalve sofreu falta em quase toda jogada. Havia ainda a esperada pressão sobre nosso setor defensivo, com o adversário empurrado pela torcida local. Nesses momentos, Weverton foi gigante em suas defesas — especialmente aquela com o braço direito, aos 12 minutos de partida, impedindo o que seria um gol praticamente feito pelo adversário, que poderia ter mudado a história do jogo.

Além de nosso goleiro, que calou críticos e descrentes, tivemos uma defesa muito segura na marcação, seja pelo sistema armado por Luis Castro, seja pelo ímpeto de nossos jovens zagueiros. Viery (21 anos), com o perdão pelo risco que correu de ser expulso em um lance desnecessário, e Gustavo Martins (23 anos) me fizeram lembrar os tempos de Geromel e Kannemann, guardadas as devidas proporções. Espantaram os perigos que rondaram nossa goleira, deram pouquíssimo espaço para os atacantes dentro da área e ainda contaram com a sorte que acompanha os virtuosos.

Destaque maior, claro, para Gustavo Martins, que mais uma vez foi decisivo não apenas na defesa. Apareceu na frente e marcou o gol nos acréscimos do segundo tempo ao aproveitar uma bola que veio da cobrança de escanteio. Nosso zagueiro já havia sido fundamental em vitórias passadas. Quem não lembra o gol de bicicleta que ele marcou na semifinal do Gaúcho do ano passado, que nos proporcionou disputar o título? O jovem da base entra também para a história do Gre-Nal por ter marcado o 1.200º gol do clássico gaúcho.

Quis o destino que ainda tivéssemos o prazer de lembrar o passado recente de vitórias gremistas quando Kannemann foi sacado do banco para cobrir o buraco deixado por Wagner Leonardo, que havia substituído Viery e acabou expulso no segundo tempo. O argentino, no pouco tempo em que esteve em campo, mostrou sua bravura ao dar um peixinho no pé do adversário na entrada da área. Mesmo ferido, seguiu em campo e foi premiado com a faixa de capitão e o direito de erguer a taça de Campeão Gaúcho de 2026. Nada mais simbólico do que retomar o título estadual com Kannemann em campo.

O Grêmio de Luis Castro ainda tem muitos acertos a fazer e ninguém deve se iludir com o título neste início de ano. A temporada será longa e dura. Precisamos voltar a ser protagonistas no futebol nacional e sul-americano. Missão difícil, considerando o poder econômico dos principais adversários.

Hoje, porém, era noite de lembrar o velho Olmedo. Porque, no fim das contas, o futebol costuma ser simples: o jogo termina, o resultado está no placar e a taça encontra o seu lugar. Desta vez, novamente, no armário tricolor. Como disse o cartola em 1977: “Bicho no bolso, faixa no peito e taça no armário. Não há o que discutir!”.

O dilema do amor onipotente

Por Caio Luizetto

Foto de Szabu00f3 Viktor on Pexels.com

Um dos questionamentos mais profundos da fé é a aparente inação de Deus frente ao sofrimento humano. Se Ele é todo-poderoso e bom, por que o mal persiste? As respostas comuns esbarram em limites de poder ou de vontade. Este texto propõe um caminho diferente: o limite supremo de Deus é o Seu próprio amor.

Se Deus não amasse, a solução seria simples. Basta um ato de vontade, um reset cósmico, o apagar puro e simples do que causa o problema. O poder, sozinho, não encontraria obstáculos.

Mas o amor não permite soluções simples. Ele cria um limite que não é de poder, mas de sentido. É por causa do amor que o sofrimento se torna também um problema para Deus. Porque é justamente o amor que O impede de eliminar o mal pela raiz — e a raiz do problema está no próprio humano, objeto desse amor.

O problema, portanto, não está fora de Deus, como algo que Ele apenas observa. Está no mesmo lugar onde Seu amor repousa. Destruir o problema significaria destruir o humano — e isso o amor não autoriza.

Por isso Deus não apenas vê o mal. Ele o suporta. Não porque o aceite, mas porque não pode abandonar aquilo que ama.

O amor, então, deixa de ser apenas virtude divina e passa a ser também o Seu impedimento. Não um impedimento de agir, mas de agir contra o próprio amor.

Assim, Deus não resolve o mundo. Ele permanece nele. E permanece sofrendo, porque amar é escolher não se retirar.

Eis, então, a natureza do dilema: a onipotência encontra seu único limite naquilo que a própria onipotência escolheu ser — o amor. Por isso, a solução simples permanece para sempre no reino da hipótese vazia. A realidade é esta, mais complexa e mais profunda: Deus não sofre apesar do amor. Deus sofre porque ama. E nesse sofrimento, paradoxalmente, reside a confirmação final de Seu amor. 

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: foi muito bom reencontrar os amigos

Avenida 0x4 Grêmio
Gaúcho – Estádio dos Eucaliptos, Santa Cruz do Sul (RS)

Gremio x Avenida
Roger comemora o terceiro gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Aproveitei o primeiro fim de semana “útil” do ano para visitar amigos no interior de São Paulo. Não nos víamos havia alguns meses. No Natal, eles estavam fora do país, enquanto eu cumpria plantão. No Ano Novo, fui à minha cidade natal, justo quando retornavam ao Brasil. E durante o ano… bem, você sabe como a vida corre, atropela e afasta.

Ao longo do tempo, trocamos mensagens esporádicas. Reencontros, porém, servem para outra coisa: saber das novidades e recontar histórias antigas. Muitas já conhecidas. Mesmo assim, irresistíveis. Falamos também do que acreditamos que pode acontecer em 2026 — projetos de vida, viagens, possibilidades. E lamentamos a insanidade daqueles que insistem em atrasar nossas vidas.

Voltar é reencontrar. Não foi o poeta quem disse. Foi uma frase que me veio à cabeça quando estive em Porto Alegre. Em pastas antigas, usadas como guarda-arquivo, encontrei dezenas de papéis datilografados. Eram crônicas escritas por meu pai, Milton Ferretti Jung, lidas nos primeiros programas de rádio que apresentou, ainda na Rádio Canoas. Assinava como diretor de jornalismo — ao que sei, diretor dele mesmo. Havia poucos profissionais na emissora e menos ainda no departamento.

Entre os papéis guardados por meu irmão, dentro de um baú, descobri também uma coleção de cartas trocadas entre meu pai e o vô Romualdo, quando ele estudava em um internato, na cidade de Farroupilha. Chamou atenção a formalidade da escrita do meu avô. Mais ainda: referências ao futebol. Não me lembro de tê-lo ouvido falar de esporte com os netos, tampouco com meu pai. Ainda assim, lá estava o registro de uma partida do Grêmio a que assistiu no estádio — o que, pela época, deve ter sido no saudoso Fortim da Baixada, no Moinhos de Vento.

Caro e cada vez mais raro leitor, jamais imaginei que esta Avalanche, escrita desde janeiro de 2008, pudesse ser resultado de uma paixão e de um hábito passados de pai para filho desde os anos 1950.

Mas eu falava de reencontros. E, no sábado à noite, havia mais um marcado.

O Grêmio voltava aos gramados pouco tempo depois da despedida de dezembro. Reencontrá-lo, agora sob nova direção, foi uma surpresa agradável. Mesmo levando em conta o curto período de treinos e a fragilidade do adversário, a goleada na estreia fez bem. Aliás, placar semelhante ao da partida que encerrou o ano passado.

Assim como na conversa com os amigos, o Grêmio também apresentou novidades e reacendeu esperanças para 2026.

A presença de Roger e Tiaguinho, ambos com 17 anos, foi a principal delas. Os dois participaram de gols, mostraram personalidade forte, e Roger ainda fechou sua atuação com o terceiro gol. Mais do que o desempenho, o gesto de Luís Castro ao escalá-los como titulares alimenta uma expectativa antiga: investir, de fato, nos talentos da base. Confesso que já não suporto ver nossos protótipos de craques serem vendidos antes mesmo de estrearem no profissional.

É cedo para qualquer projeção. Uma partida não define uma temporada. Ainda assim, reencontrar o Grêmio com uma goleada e algumas boas notícias é muito melhor do que começar o ano apenas relembrando velhas glórias do passado — como aquelas que meu avô contava ao meu pai, nas cartas encardidas que pretendo ler com calma nos próximos dias.

Talvez a Avalanche nunca tenha sido só futebol. Talvez sempre tenha sido, antes de tudo, uma forma de reencontro. Com a família, com os amigos, com você, caro e cada vez mais raro leitor.

Quem você levaria para a sua velhice?

Diego Felix Miguel

Foto de Juan García

“De repente fico rindo à toa

Sem saber por quê

E vem a vontade de sonhar

De novo te encontrar”

“Cheiro de Amor” – Maria Bethânia

Prezada leitora, prezado leitor,

Quero te fazer um convite para iniciarmos essa conversa.

Feche os olhos por alguns instantes e reflita:

Quem você gostaria de levar com você na sua velhice?

Confesso que, no meu caso, a resposta não seria singular, e sim plural.

Lembrei de Spinoza, filósofo holandês que nos ensina sobre os afetos, essas transformações que ocorrem em nós, boas ou ruins, quando estamos em contato com outras pessoas e com o mundo. Afeto é justamente isso: o ato de afetar e ser afetado, registras em nós as marcas deixadas pelas experiências.

Ao pensar nisso, vários nomes vieram à mente. Memórias que relaxaram meu rosto e abriram um riso fácil, despretensioso. São vocês que nortearam meus pensamentos e que, em minha imaginação, gostaria de ter comigo daqui a 20 ou 30 anos.

Mas será que é assim que a vida funciona?

A vida nos ensina constantemente com os imprevistos e incertezas. Até lá, será que essas pessoas permanecerão ao meu lado? Continuarão sendo capazes de me fazer sorrir apenas por existirem nas minhas lembranças?

Não sei. Talvez seja pouco provável. Afinal, a vida não é linear. tudo se transforma, novas relações surgem, vivências inéditas nos atravessam.

Somos afetados o tempo todo. Descobrimos afinidades inesperadas, criamos laços que antes nem imaginávamos. Nesse curso imprevisível da longevidade, somos também ressignificados.

Com certeza essas pessoas estarão comigo de alguma maneira, seja presencialmente na minha vida ou nos afetos que se eternizaram no curso da vida, sejam eles positivos ou negativos.

Às vezes penso que os afetos são eternos, mas isso não significa que mantenham a mesma intensidade. O importante é não nos fecharmos ao novo, às experiências que, no passado, talvez não estivéssemos prontos para viver, mas que podem se tornar significativas o suficiente para permanecerem vivas até nossos últimos dias.

Os amores e os afetos que vivenciamos são diferentes, possuem intensidades distintas. Podem coexistir ao longo das décadas. Amar uma pessoa não anula a possibilidade de amar outra. Que garantia temos de permanecer com as mesmas pessoas até a velhice?

Pois é. Muitas perguntas, poucas respostas.

Como princípio básico, vale, então, considerar: mantenha sua rede afetiva nutrida de bons encontros e memórias, e esteja aberto a ressignificar as possibilidades de afeto conforme cada experiência. Não desperdice os vínculos que são verdadeiramente significativos para sua vida, eles podem, sim, ser eternos.

E você? Quem levaria para a sua velhice?

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP. Mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung